Revista eletrônica de cultura e literatura do Grupo Literário A ILHA

Junho/2007

Do blog Vale do Itapocu, de ademir Pfiffer:

Feira do Livro, um espaço literário para difusão da literatura brasileira em solo jaraguaense


O escritor Luiz Carlos Amorim, natural de Corupá, radicado atualmente em Florianópolis, lança seu 22º livro, "A PRIMAVERA SEMPRE VOLTA", de crônicas, na primeira Feira do Livro de Jaraguá do Sul, neste sábado, dia 14, as 11 horas da manhã, no stande da Desing Editora.
O livro traz uma seleção de crônicas diferentes daquelas que compõe seus livros de crônicas (o autor também tem publicado livros de contos e de poemas): o tema principal de Amorim é literatura - livro, escritor, leitor, mas neste livro estão reunidas as crônicas mais pessoais, mais intimistas. O livro tem 80 páginas e saiu pelas Edições A ILHA. A apresentação é do escritor e crítico literário Celestino Sachet:
"Difícil privilegiar qualquer um dos temas das peças deste novo livro – dos vinte e tantos que Luiz Carlos Amorim já publicou, até agora - pela adequação com que a Idéia trabalha o texto e a Palavra submete a frase. Mas parece evidente que a Árvore ocupa um lugar privilegiado. Entre a Árvore e o Autor ocorre uma profunda comunhão – até no sentido teológico -, como no caso do jacatirão, do ipê e da figueira. No texto "A figueira e a praça", o fascínio do Autor pela Árvore da Praça Quinze, aqui de Florianópolis, explode em fagulhas de louvores e até de adoração, quando debaixo dos frondosos galhos, o cronista mergulha em êxtase poético ao aceitar-lhe o convite de se aproximar para sentir-lhe o contato amoroso expresso por um sorriso convidativo.E a Árvore entende que o cronista está feliz porque ela vive a mesma satisfação. Aliás, a crônica que abre o livro leva como título "Minha amiga árvore".
Essa capacidade de transformar tudo em poesia perpassa cada uma das crônicas. Ah! E tem mais. O leitor vive a experiência de ter entre as mãos um livro envolvido com temas da natureza e da cultura catarinenses."

Biografia do autor:
Luiz Carlos Amorim é natural de Corupá (SC), e formado pela
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Joinville.
O autor tem 22 livros publicados:
- Velhas Histórias Jovens - contos
- Pedaços - contos
- Canção de Amor - contos
- Vida,Vida – antologia de contos
- Minha Poesia Menina - poemas
- Uma Questão de Amor - poemas
- Canção da Esperança - poemas
- Canção da Esperança II - poemas
- A Cor do Sol - poemas
- The Poet – poemas, publicado nos Estados Unidos pela IWA
- The Color of the Sun – versão inglesa de "A Cor do Sol"
- El Color Del Sol, versão espanhola de "A Cor do Sol"
- Meu pé de Jacatirão - poemas
- Flecha Dourada - infantil
- Emoção não tem idioma - edição trilingüe de "A Cor do Sol"
- Livro, Leitores e Escritores - crônicas
- Livro: a perenidade da palavra - crônicas
- Saudades de Quintana - crônicas
- Nação poesia – antologia poética
- A Luz de Seus Olhos - contos
- Livro de Natal – contos, crônicas e poemas
- A Primavera Sempre Volta - crônicas
O 23º livro, "BORBOLETAS NO JACATIRÕES" - crônicas, está sendo publilcado pela Hemisfério Sul Editora e será lançado no dia 11 de agosto em Joinville.
Amorim participou de dezoito antologias, no Brasil e quatro em
outros países. Publica trabalhos em várias revistas e jornais no Brasil
e exterior – tem trabalhos publicados na Índia, Rússia, Grécia, Estados
Unidos, Portugal, Espanha, Cuba, Argentina, Uruguai, Inglaterra, Espanha,
Itália e outros, e obras traduzidas para o inglês, espanhol, bengalês,
grego, russo, italiano -, além de colaborar com vários portais de
informação e cultura na Internet.
Foi o pioneiro em descobrir novos espaços para a poesia, instituindo
os projetos:
- Poesia no Shopping
- Poesia na Rua
- Poesia Carimbada
- Pacote de Poesia
- Poesia na Escola
- O Som da Poesia.
É editor do portal de poesia e literatura do Grupo Literário A ILHA – PROSA, POESIA & CIA, em http://geocities.yahoo.com.b/prosapoesiaecia , do Suplemento Literário A ILHA e das Edições A ILHA, com dezenas de títulos publicados.

 

NASCEU A CONFRARIA DE QUINTANA

Por Luiz Carlos Amorim


Em meados de 2006, quando comecei a organizar uma edição especial do Suplemento Literário A ILHA exclusivamente sobre Mário Quintana, em comemoração ao centenário de nascimento do poeta, a minha amiga Fátima de Laguna, para quem eu havia pedido um texto para a revista, propôs que pensássemos na criação de uma Confraria de Quintana. A idéia era reunir os escritores que também eram leitores e admiradores do grande poeta, que na época estaria completando cem anos de vida. Disse a ela que era um projeto que tínhamos que levar adiante, que juntar escritores/leitores quintanianos para apreciar e discutir a sua obra, escrever sobre ela, divulgá-la, seria ótimo.
A revista Suplemento Literário A ILHA saiu, em julho de 2006, com vinte e oito páginas e textos de vários escritores apaixonados pelo Menino Quintana, mas a Confraria tinha ficado em suspenso, embora o grande número de pessoas que publicaram seus textos em homenagem ao poeta já deixasse ver que havia um bom número de prováveis adeptos.
As comemorações do centenário do poeta aconteceram por todo o Brasil, homenagens merecidas se sucederam e o ano de 2006 passou. Quase um ano depois, Fátima não tinha esquecido a Confraria e voltou à carga com determinação: idealizou a revista Mirandum, fez uma seleção de textos para o conteúdo da primeira edição, alguns tendo como tema o poeta. E editamos a revista - estava criada a Confraria de Quintana.
O número dois da revista Mirandum está sendo lançado e não se trata simplesmente da revista de um grupo literário. É o registro de textos de pessoas que lêem o grande poeta Quintana, que reconhecem a obra grandiosa que ele nos legou e se unem para manter vivo e cada vez mais conhecido esse legado.
Os amantes da prosa e da poesia de Quintana, o mágico artista construtor de emoções, que quiserem se juntar a nós, que escreveram sobre o poeta e sobre a sua obra, contatem conosco para fazerem parte de Confraria: fbarreto@bizz.com.br e lc.amorim@ig.com.br .

 

A BARCA

Aracely Braz


Na imensidão do mar
De azul brilhante,
No calor do sol ardente
E do meu coração solitário
A barca desliza...
O horizonte infinito me extasia!
E me leva ao encantamento
De um oásis tão sonhado.
Guiada pela emoção,
Sussurro nossa canção,
Não me sentindo mais só,
Mas no aconchego
Do nosso amor presente;
O destino eloqüente
Na barca então eu sigo.

 

TEMPO DE MUDANÇA

Por Lauro Junkes

Felizmente o ser humano traz inata a curiosidade, a instigação para procurar, pesquisar, descobrir sempre algo de novo. E como é gratificante deparar-se com o novo, o belo, aquilo que compensa nossa busca. Com o leitor acontece processo idêntico: quando o belo surge, o bom livro atrai, a arte narrativa desenrola seus atrativos, toda nossa ânsia interior resulta gratificada.

Foram tais felizes momentos que experimentei ao ler, assim como que na rotina, o livro de Eloí Elisabete Bocheco, Beatriz em Trânsito (Belo Horizonte: Dimensão, 2007). Uma catarinense, do município de Zortéa, está iluminando os caminhos de crianças e adolescentes com belíssima e consistente criação literária. Não é por menos que este e outros livros da autora têm arrebatado, com justiça, distinções e premiações nacionais e internacionais. Eis um autêntico ponto positivo para nosso Estado e para nossos pequenos leitores.

Beatriz em Trânsito é livro que pode e deve ser passado para jovens leitoras e leitores. Narrado pela Beatriz, menina que acompanhamos entre a 3ª e a 5ª séries, e que se ressente pelas constantes mudanças de casa, de lugar e de escola, a narrativa desliza com tamanha fluência e leveza que cativa o leitor a ponto de não admitir separar-se de companhia tão agradável. É que Beatriz dispõe do dom de ver a vida e os acontecimentos através de um olhar sadio, criador, um olhar que renova positivamente, que logra "fazer de conta" e transfigurar a rotina em constantes deslumbramentos.

Entretanto, nada de alienante nem de imaginário vazio faz parte da sua vida. Pelo contrário, está a narradora inserida no realismo cruel da sociedade humana. Vive na casa da vó, tias e tios, cultivando apenas lembranças "inventadas" do passado, pergunta à certa altura: "Por causa do meu pai que ela se matou?" Sabemos, então, que a mãe se matara quando ela tinha pouco mais de um ano, e a avó comenta que o pai era "violento, possessivo..." em suma, uma "planta carnívora". Não obstante essa condição pouco favorável, experimenta-se em companhia de Beatriz intenso entusiasmo, dinamismo, ânsia de viver, a ponto de nada mais ser enfadonho, porque a fluente coloquialidade da linguagem tudo transfigura em leveza e atratividade.

Além da avó, a professora Guimar exerce ação reveladora da vida junto a Beatriz, porque ela é a "grande misturadora de aula e de vida" e através dela a menina viaja com entusiasmo pelo mundo da leitura. Embora ela desgoste "de pensar nas palavras", por temer os perigos que elas possam conter, por exemplo, a palavra "redemoinho" a assusta: "será que ele vai me levar como levou minha mãe moça, vó?", ela e o amiguinho Sam(uel) mantêm descontraída conversa sobre a gratuita "passagem inventada" que os conduz ao mundo dos livros. São as leituras que a libertam dos medos, dos "sonhos de medo", dos "sonhos loucos": medo de ver todos morrerem e ela ficar sozinha; medo que, ao levarem flores para a mãe, as outras almas, sem flores, fiquem com ciúmes e "viessem me pegar no meio da noite"; medo angustiante do que aconteceu com a mãe, a ponto de querer "desmanchar a vida" da mãe até antes de acontecer a desgraça.

O realismo de indesejada crueldade que a vida contém afeta Beatriz em outras ocasiões. Em períodos diferentes, na escola, faz dois amigos muito especiais. Primeiramente é Sam(uel), paraplégico, com quem ela compartilha o prazer de ler. Quando ele é obrigado a mudar-se para fazer uma cirurgia, os dois cultivam uma "correspondência" através de e-mails, transcrevendo-se um bom número dessas mensagens, em que, apesar das dificuldades com cirurgias e fisioterapia, transparece sempre o entusiasmo esperançoso do resultado final. Duas lições de vida da maior positividade provêm de Samuel: não deveriam as pessoas ter pena dos paraplégicos: "pena de gente pesa que nem chumbo"; por outro lado, para ele há algo bem superior a ver "as águas lendárias do Nilo" ou "pisar no deserto vermelho de Marte": "o mais incrível é ficar de pé". E, apesar de o menino acabar indo em definitivo para o "jardim secreto", sua imagem permanece com Beatriz.

Outra amizade bela de Beatriz se dá com a menina Mariana. Aliás, antes de conhecê-la, Beatriz foi matriculada numa escola "da cidade", onde os meninos a "prensam" e ela não suporta os sustos e medos, exigindo mudar de colégio. E conhece Mariana, que lhe confidencia as maldades que sofre com o padrasto, aflorando o problema da pedofilia, quando as pessoas da casas de Beatriz, que "fervem por dentro", se movimentam ativamente para remediar essa situação. Não há, pois, complacência em preservar os pequenos dos perigos da vida. Estes existem e Beatriz, Samuel e Mariana se defrontam com os mesmos.

Perto da casa de Beatriz ficava uma bela lagoa "encantada" e Mariana vai conhecendo "causos" que lá aconteceram. Certa vez, as duas descobrem lá um "pote de barro" que ninguém consegue abrir, a não ser o João bisneto, que o reconhece como tendo sido do bisavô.

Entre os vários objetos contidos no pote, sobressai um belíssimo diário poético. Transcrevem-se todas as anotações dos dias do mês de outubro, em que se patenteiam, ainda, a jovialidade, o otimismo e a vivacidade do avô, com elevado senso humanitário e respeito à natureza. Atente como, em diversas partes do livro, se projeta apreciável variação estilística, em formas poéticas e prosaicas, rimas e aforismos, variações gráficas que ressaltam os atrativos da leitura.

Enfim, que pais e professores saibam descobrir a valiosa beleza deste livro e o repassem para os jovens leitores. Com Beatriz, todos enriquecerão suas vidas, num permanente encantamento, sem o menor perigo de caírem em alienações. De outra parte, o entusiasmo pela leitura os contagiará. E junto com essa leitura, virão inúmeros outros convites, porque, sem nenhuma ostentação de erudição, a autora faz perpassar todo o texto, com muita naturalidade, uma rica e elevada rede de intertextualidade, valorizando autores nacionais e internacionais que escreveram para jovens leitores. E, por último, se é tão difícil encontrar um bom final para um livro, aqui o "amanhã" abre belos horizontes para todo leitor. (DCCultura)

 

O SILENCIO

Teresinka Pereira (USA)


O sonho resiste àtoda esperanc,a.
A noite enssombrece os erros do dia.
Detenho-me no caminho,
sento-me na pedra junto ao rio
para me lavar a raiva da cara.

Uma palavra que fosse verdadeira
determinaria a vida
de cada um dos dois!

Entretanto, olha: o amor
étambem desejo, ou pode ser sede,
ou talvez não chega a ser
nem ao menos a chuva
que molha o cabelo...

O silêncio não énada.
O tormento é o impostor,
o gracioso do circo,
mas não serve nem ao menos
de perdão àtanta covardia!

 



AS "ERNESTIANAS" DE VIEGAS

Estou lendo “Sob a luz do Farol”, de Viegas Fernandes da Costa, catarinense de Blumenau. O cara é bom, o livro é daqueles que a gente começa e vai até o fim sem parar. Podia se chamar “Crônicas Ernestianas”, pois este personagem curioso, divertido e singular permeia quase todo o livro. É um tipo inteligente, maluco, imprevisível e irreverente e o autor conta muitos “causos” acontecidos com ele.

Viegas é também poeta e as crônicas onde o “amigo” Ernesto não entra - e até algumas onde ele entra, também - são prosas poéticas das mais inspiradas e gostosas de ler.

Eu já havia lido alguma coisa de Viegas no Coojornal e gostei muito do estilo dinâmico e objetivo e da maneira como ele vê os “grandes monstros sagrados” da literatura em nossa região, assim como fiquei sabendo que ele gosta de ler os verdadeiros bons autores como Quintana, Neruda, Pessoa e outros.

“Sob a luz do farol”, de Viegas, saiu pela Editora Hemisfério Sul, tem 134 páginas e o endereço para pedido do livro é hemisferiosul@san.psi.br.

 

 

ESPANTALHOS NO DESERTO

 

Viegas Fernandes da Costa

 

Espantalhos no deserto não afugentam pássaros

nada há para ciscar no calor escaldante

Espantalhos consumidos pelo tempo persistem

e ao sol assemelham-se a dois Cristos crucificados

Espantalhos, solitários, contam as horas projetadas nas sombras

dos dias carregados no árido vento

Espantalhos sem olhos relembram compungidos

do lavrador e sua enxada os gemidos

não há mais gemidos

ou enxadas para revolver a terra,

não há mais motivos

para que se estendam os braços espantalhos,

e eles desistem,

suas cabeças caem, suas vestes voam

restam apenas duas cruzes e a lembrança

de um velho doente e sua filha prostituída

sentados sob a sombra de um grande viaduto

desenganados na vida e saudosos

dos espantalhos que construíram para guardar um futuro

que nunca chegou.

 

 

O que eu gostaria de ter dito aos alunos da Escola Conselheiro Mafra, na Velha Grande

Por Urda Alice Klueger

Oi, crianças! Estive aí na sua escola, mas vocês não estavam. Fui até aí pensando que a gente conversaria, que haveria uma festa de crianças – mas havia uma festa de gente grande. Foi uma pena não tê-los conhecido, e então é por isto que agora lhes escrevo, dizendo o que gostaria de ter-lhes dito se vocês estivessem na escola no sábado. Vamos lá:

Eu queria dizer para vocês que um dia, quando eu era criança, morava num lugar muito parecido com o Vale onde moram, só que era um Vale no Bairro Garcia, também aqui em Blumenau. Sei muito bem como é morar assim entre morros, com o ribeirão serpeando lá no fundo do Vale, perto da estrada – sei a umidade que existe, a friagem que dá nos pés da gente quando o sol se põe, o tanto de tempo que leva para a roupa secar nos dias de inverno... Foi bem num lugar assim que vivi a maior parte da minha infância.

Existem duas diferenças entre os dias em que fui criança e os dias em que vocês estão sendo crianças. Uma, é que naquele tempo havia menos gente, e então havia mais espaço, e as pessoas podiam ter quintais onde plantavam aipim, hortaliças, criavam galinhas – e como as mães daquele tempo não trabalhavam fora, produziam, elas mesmas, muito do alimento nosso de cada dia, nos terrenos que então eram bem amplos.

A outra diferença é que, no Vale onde me criei, já nascíamos com emprego garantido: aos 14 anos, cada criança tinha seu lugar certo nas fábricas, e dificilmente alguém deixava de cumprir o seu destino de trabalhar em alguma das que ficavam próximas, até se aposentar. Sei que hoje a vida está mais complicada, que muitos de vocês terão dificuldades de achar emprego quando chegar a hora – e então é sobre tais coisas que queria falar com vocês.

Apesar de eu ter nascido num lugar onde cada criança crescia para trabalhar numa fábrica, nem eu nem minhas irmãs nunca fomos para nenhuma fábrica – e aqui quero deixar bem claro que nada há de desonroso trabalhar-se numa fábrica – mas também quero lhes contar que há outras formas de viver que podem ser melhores ou piores do que tal trabalho. Eu e minhas irmãs tivemos a sorte de termos conseguido viver vidas melhores, mais interessantes e gratificantes do que os nossos amiguinhos de escola que foram para a fábrica, e então eu pergunto a vocês: o que nos diferenciou deles para que nossas vidas fossem diferentes? Para mim a resposta é muito clara: a diferença está na escola, nos livros, na biblioteca da escola ou outras que a gente possa acessar, oportunidades que nem todas as crianças têm por igual.

Na minha escola havia uma boa e sortida biblioteca, que eu li avidamente antes dos 12 anos, para depois me associar à Biblioteca Pública Municipal Dr. Fritz Mueller. Era fácil, onde eu morava, ir até a Biblioteca Pública: era perto, podia-se ir de bicicleta, e o trânsito daquele tempo era muitíssimo menos perigoso. Aqui na Velha Grande está-se muito longe da Biblioteca Pública, e vocês sabem o quanto o trânsito de hoje é perigoso para se ficar andando de bicicleta por aí. Assim, não vejo como vocês poderão freqüentar uma biblioteca, neste bairro, se não houver uma na escola, e quando vocês se acostumarem a mergulhar no encanto dos grandes mistérios dos livros, encanto que dificilmente é igualado por um filme ou outra forma de expressão, vocês verão que a vida de vocês passará por mudanças que ainda não podem aquilatar, mudanças que poderão mudar todo o seu destino.

Faz cerca de uma década que a escola de vocês inaugurou uma biblioteca que, para minha surpresa e prazer, levou o meu nome. Estive na sua escola naquela ocasião, e falei para as crianças daquele tempo o que estou lhes falando agora. Era muito grande o meu prazer em saber a coisa maravilhosa que estava acontecendo, que decerto iria mudar a vida de tantas pessoas da sua comunidade. Por diversos motivos, no entanto, a vida daquela biblioteca foi efêmera – calculo que por uns oito anos ela se manteve fechada, inacessível para as crianças da Velha Grande, e tal me corta o coração – oito anos significa que muitas e muitas crianças entraram na primeira série e saíram na oitava sem terem tido o direito de freqüentar uma biblioteca, sem terem o direito de ampliarem seus conhecimentos, sem terem o direito, quem sabe, de mudarem sua vida para melhor. Eu considero uma coisa criminosa fazer tal coisa com pessoas, principalmente com crianças – os culpados por terem cortado as possibilidades de novos caminhos para tantas crianças, em algum momento das suas vidas, decerto haverão de prestar contas por tamanho crime.

O mais importante, no entanto, é que faz poucos dias que a biblioteca da sua escola foi reaberta, e o que eu queria lhes dizer é que não existe essa coisa de se ter ou não se ter hábito de leitura, como alguém me disse que as crianças da Velha Grande não tinham: quando a gente vê uma biblioteca, a gente tem que entrar, descobrir tudo o que há lá dentro, PRINCIPALMENTE o que está lá escondidinho nos livros, pois aquelas são as coisas mais preciosas, as que fazem a diferença. E depois que a gente descobre a importância do conteúdo dos livros, a gente não tem mais como passar sem eles, como ficar sem aprender mais e dar novos rumos à nossa vida. Experimentem a grande emoção que é a leitura, a grande caminhada que se pode fazer a partir de uma biblioteca – e lutem o resto das suas vidas para nunca mais ficar sem ter uma por perto. Esta biblioteca da escola pode ser o caminho para a grande biblioteca de uma universidade, para a biblioteca de uma nova vida – nunca mais deixem que a sua escola lhes corte os caminhos para um futuro que pode ser muito diferente do que agora conseguem visualizar!

Muito carinho para todos!

 

COM ELAS AO TELEFONE*

Mª de Fátima Barreto Michels


Em geral tem confete
até serpentina que nem carnaval
farra total
muito beijinho, afagos carinho
planos de festa
se falo com Bete

Se falo com Su é coisa de
dentro, pode ser séria
pode ser grave
Sempre é encontro
pode ser prece pode ser arte
As vezes questões,
de outras, convites
ou soluções

Quando é com Bizú
é onde me perco
Bizú
é paixão
Ela é quem manda
do jeito que fale
sempre derrete
este meu coração

Se falo com Lu é do mundo
no fundo tim tim por tim tim
é aquela a mulher que
que sabe rezar
e pede
por mim.


*Ofereço estes versos à minha mãe, filha e irmãs.

 

 

"BORBOLETAS NOS JACATIRÕES"

Já está no prelo o livro de crônicas de Luiz Carlos Amorim, "Borboletas nos Jacatirões". Ele sai pela Editora Hemisfério Sul e já tem um lançamento marcado: 11 de agosto, na Livraria Midas, em Joinville. Haverá lançamentos, também, em Blumenau, Florianópolis e outras cidades. Como diz Urda Alice Klueger na orelha do livro, "... resolveu-se que o livro acabaria sendo como que uma vitrine de tão vasta obra, e está ele aí, agora, dividido em capítulos, cada capítulo com um assunto diferente: duvido que você não goste! Desde as lembranças do menino Amorim até os bastidores da literatura, ao qual o público leigo dificilmente tem acesso, passando por magníficas coisas como seus textos sobre Mario Quintana, está aí a vitrine. Não deixe de espiar este primor! Nem todos os dias saem livros assim!"

No prefácio, o escritor Enéas Athanázio afirma, entre outras coisas: "Este livro, agora lançado, é uma prova, revelando na sua diversidade quanto ele colheu em suas andanças terrenas nestes últimos tempos, com sensibilidade aguçada e sentimento sincero diante de situações tantas vezes absurdas engendradas pela realidade. Aqui ele se volta para a infância, própria e alheia, revivendo momentos inesquecíveis; recorda a vida em família, no aconchego da casa e no convívio fraterno; desenha em palavras a natureza que o cerca, sempre tocado pela paisagem, o sol radiante, o céu azul, o verdor das árvores, a beleza das flores, o som das cachoeiras da terra natal; o espírito natalino, outra constante em seus escritos; a nostalgia dos grandes momentos; a esperança imorredoura em dias melhores; a admiração pelos "monstros sagrados" que todos temos; um volver de olhos para a própria trajetória de homem e escritor, o trabalho realizado, os bastidores da literatura, a crítica e a permanente preocupação com a difusão do livro e a cultura em geral, assuntos que têm sido uma quase obsessão nas suas palavras. Tudo isso e muito mais vai o leitor encontrar nestas páginas repletas de vida, idéias e sugestões."

 

Francisco José Pereira e Amilcar Neves condenados por ofensas a personagem em livro

Uma peça de teatro escrita a quatro mãos, ainda não encenada e que vendeu alguns poucos exemplares teve uma repercussão bem diferente da pretendida pelos escritores Francisco José Pereira e Amilcar Neves. Os autores foram processados pelos diálogos contidos em O Tempo de Eduardo Dias - Tragédia em 4 Tempos e condenados em primeira instância por ofensas à memória do pintor Galdino Guttmann Bicho, um personagem secundário do livro e que viveu em Florianópolis em 1919.

A ação judicial foi movida pelo neto do artista, que tem o mesmo nome e vive em Brasília. Guttmann Bicho alegou ter ficado moralmente abalado pela forma com que o avô foi tratado na peça e pediu o pagamento de indenização por danos morais, supressão dos trechos ofensivos e pedido público de desculpas. O juiz Marcelo Pizolati, da comarca de Curitibanos, julgou os pedidos procedentes (menos as desculpas) e condenou os réus (os autores e a editora Garapuvu) ao pagamento de R$ 15 mil mais os encargos processuais. Neves e Pereira já ingressaram com recurso.

O primeiro revés no projeto dos autores de recuperar a história de vida do artista catarinense Eduardo Dias aconteceu no dia do lançamento do livro, em julho de 2005. Eles autografavam a peça no Museu de Arte de Santa Catarina (Masc) quando um oficial de justiça se apresentou com uma liminar que determinava a suspensão do evento. O pedido foi feito à Justiça pela historiadora Sara Regina Poyares dos Reis, por supostas ofensas ao seu tio, o historiador Oswaldo Rodrigues Cabral, outro personagem da obra. Sara Regina ingressou também na 3º Vara Cível da Capital com uma ação judicial contra os autores, no qual exige o pagamento de indenização por danos morais, supressão dos trechos ofensivos e pedido público de desculpas. O processo ainda aguarda julgamento.

Poucos dias após, foi a vez de Galdino Guttmann Bicho ingressar com a ação, desta vez na 1ª Vara Cível, mas representado pela mesma advogada de Sara Regina, Tania Caldeira de Andrada e Silva. Devido ao projeto de mutirão de sentenças adotado este ano pelo Tribunal de Justiça, o processo movido por Guttmann Bicho acabou sendo direcionado a Curitibanos para o julgamento de Pizolati.

O juiz afirmou que leu apenas algumas partes do livro, o suficiente para interpretar que, mesmo tratando-se de ficção, os escritores realmente ofenderam os personagens que são inspirados em pessoas reais.

- O assunto é bem subjetivo. Eu entendi desta forma, talvez o Tribunal entenda o mesmo, ou não - comentou Pizolati.

Livros enviados ao Timor Leste

Inconformados com os questionamentos jurídicos em torno de uma peça de teatro que exigiu dois anos de pesquisas, Amilcar Neves e Francisco José Pereira gostariam que o livro tivesse tido a mesma repercussão entre os leitores. Apesar de não estar proibido para a venda, O Tempo de Eduardo Dias chegou às mãos de poucas pessoas.

Menos de 30 exemplares foram vendidos no dia do lançamento, até o momento da chegada do oficial de justiça, 22 foram doados a bibliotecas do Timor Leste e 200 (20% do total da edição) foram enviados a museus de arte e bibliotecas públicas municipais do Estado, conforme compromisso firmado no projeto de captação de recursos junto à Lei de Incentivo à Cultura.

- A idéia era recuperar a memória e o trabalho de Eduardo Dias, já que não existem livros sobre ele e as informações são desencontradas. Pesquisamos muito em jornais e revistas e fizemos entrevistas para termos o máximo possível de fatos reais. As lacunas da história, bem como os diálogos, foram preenchidos com ficção - explica Amilcar Neves.

Defendidos pelo advogado André Mello Filho, os autores tentam provar que o livro não ofende a memória de Guttmann Bicho. Eles destacam que dos 10 adjetivos considerados como prova pela acusação, sete não são direcionados ao artista fluminense.

Guttmann Bicho aparece rapidamente na Cena 4, ao lado de outros personagens reais como Martinho de Haro, Ildefonso Juvenal e Deodósio Ortiga, na qual os autores procuram descrever o quadro histórico e social de Florianópolis na época do drama. Mesmo tendo vivido suas histórias em anos diversos, para efeitos de dramaticidade todos os personagens são deslocados para um único dia de novembro de 1940. É numa mesa do Café Rio Branco que os personagens iniciam uma conversação sobre arte e se acusam mutuamente.

- As pessoas se acusam tanto na ficção como na vida real. Você imagina o que aconteceria se os descendentes de Antônio Conselheiro resolvessem processar o Euclides da Cunha e pedissem a supressão das ofensas em Os Sertões? O que nos preocupa nesse caso do nosso livro é o precedente que se abre para outros processos deste tipo - salienta Amilcar.

Galdino Guttmann Bicho e sua advogada foram procurados pelo DC, mas preferiram não falar sobre o processo.

(Márcio M. Alves - DC)


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