Revista Eletrônica de Cultura e Literatura do Grupo Literáro A ILHA

Junho de 2007

 

JUNHO

MÊS DOS NAMORADOS

O Grupo Literário homenageia a todos os namorados e enamorados com esta edição especial da seção Literarte com poemas românticos, além do Projeto Poesia no Shopping, também composto por estes mesmos poemas e da Sanfona Poética "Canções de Amor" e do Projeto POESIA NA RUA, com trecho de poema de Luiz C. Amorim, estampada em out-doors pelas principais cidades do estado.

 

PARA FALAR DE AMOR...

Por Luiz Carlos Amorim

O inverno está chegando. Mas não quero falar do inverno, de solidão, de saudade. Quero falar de aconchego, de carinho, de ternura. Quero falar de ti, minha musa, meu amor. De teu sorriso, dos teus olhos castanhos, da tua companhia, da nossa vida. Pois eu gosto de ti. De acordar com o teu beijo, de dizer-te "eu te amo", assim, de maneira simples, descomplicada e sincera.
Eu gosto das coisas simples: de um sorriso de criança, de um rio de águas claras, de flores, campos e praças. E gosto de ti. Gosto da tua companhia, na noite quente ou fria, na tarde de chuva ou de sol. Eu também gosto de poesia, seja com rima ou sem ela. Mas gosto mais é de ti, meu poema mais bonito...
Gosto de natureza, simplicidade, pureza, da flor do jacatirão, de terra, mar e de sol.
E gosto mesmo é de ti. Sei que já disse isso, mas gosto mesmo de ti. De segurar tua mão, de sussurrar no teu ouvido, de misturar nossos eus. Gosto do sol na pele, mas gosto mais do calor da luz dos teus olhos castanhos a aquecer minha alma.
Gosto de sonhar, viajar, a bordo do teu sorriso. Ele me embala, me enleva; ele me leva de encontro ao teu coração. Se embarco numa saudade, numa lágrima, numa dor, que falta sinto de ti: me perco pelo caminho, à procura da passagem, que é a janela do sorriso, o sorriso da chegada.
Aqueles olhos castanhos, ah, os teus olhos castanhos, brilhantes pedaços de sol, entraram pelos meus e nunca mais saíram...Aqueles teus olhos castanhos, meigos, brejeiros, castanhos, malandros, sinceros, brilhantes, castanhos, essas luzinhas acesas na janela do teu rosto... E essa luz na janela do teu rosto, convite irresistível, me atrai para o aconchego carinhoso do teu/nosso coração. E eu me sinto em casa, com todo amor que há lá dentro. Só saio pra ver de novo aquelas luzes castanhas convidando-me a entrar.
Minha musa de olhos castanhos me dá alma, faz-me sentir que estou vivo, mostra-me que o amor é presente... Faz-me até fazer poesia. E o meu poema és tu: inspiração, emoção, a rima do corpo-a-corpo, pele-a-pele, boca-a-boca, o ritmo em sincronia de corações como um só... A métrica da ternura.
E eu me refaço em ti. Sou eu, completo, por inteiro, sou você, sou nós, sou ser. És parte de mim, indivisível, és coração que pulsa no meu peito, és luz a brilhar no meu olhar, és música a tocar nossa canção, és ternura de mãos entrelaçadas, és carinho ao tocar de peles.
És tu, ah, és tu, que invade meu coração, infiltra-se no meu sangue e aguça os meus sentidos... Que me afaga, me afoga, nessa fuga desenfreada do mundo fora de nós.
Pra que traduzir em palavras o que o coração bate forte e os olhos dizem tão bem?
Não é preciso palavras quando estamos só nós dois - nós, como um só, mais ninguém.
Emoções não são palavras, sentimentos também não. Mas os olhos, ah, os olhos, podem dizer tudo, têm a linguagem perfeita. E quando a emoção e o amor comandam o coração, aflorando aos nossos olhos, não é preciso mais nada. É deixar o coração comandar nossos sentidos, deixar falar nossa pele, nossos olhos, nossos corpos. Há discurso mais bonito?


NÓS DOIS


Luiz Carlos Amorim


Vejo nós dois espelhados,
nos grandes lagos castanhos
cristalinos, os teus olhos.

Navegamos mansamente,
nas serenas águas claras
cheias de luz e poesia.

É nossa grande viagem,
percorrendo os caminhos
que nos levarão de encontro
à descoberta de nós.

 

ME PLANTA DENTRO DE TI

Rosângela Borges

Eu prometo florir

Dentro de ti

Colar meu corpo

Pertinho do teu coração

Sem posse ou farsa

Estender meus braços

Oferecer meu carinho

Sem espinhos ou chuva...

Eu prometo viver

Dentro de ti

Dançar com teus lábios

Contar meus segredos

Sem pressa ou sombras...

Eu prometo acordar

Dentro de ti

Acender tua magia

Explodir em teus olhos

Sem culpa ou castigo

E te fazer feliz.

Então, me planta

Dentro de ti

Que eu prometo florir

Em qualquer estação...

 

MEU POEMA


Luiz Carlos Amorim


Como vou fazer poema
se o seu sorriso tão meigo
é o verso mais bonito
que jamais vou escrever?

O meu poema é você,
a inspiração/emoção,
a rima do corpo-a-corpo,
pele-a-pele, boca-a-boca,
o ritmo em sincronia
de corações como um só,
a métrica da ternura.

Minha poesia é você.
Pra que então escrevê-la?
Fiz-me poeta em você,
poeta em seu amor...
Vem comigo, minha musa,
vem morar neste poema...


DIVERSAS MANEIRAS


Silvinha


Quero meu verso sem fronteiras,
sem rimas nem muros...
Em cantos, em risos,
em mares... em céus...
Quero meu verso sem limites
de linhas e folhas...
Em olhares, em vozes,
em ventos... em ti...

E seu eu te olhar,
que meus olhos tragam
os brilhos guardados
de tantos poemas,
as frases perdidas
de tantas esperas...
Que meus olhos
te falem de amor...

 


TRADUÇÃO


Luiz Carlos Amorim


Pra que traduzir em palavras
o que o coração bate forte
e os olhos dizem tão bem?
Não é preciso palavras
quando estamos nós dois,
quando estamos nós, a sós,
nós, como um só, mais ninguém.
Emoções não são palavras,
sentimentos, muito menos.
Os olhos, sim, dizem tudo,
têm a linguagem perfeita.
E quando a emoção, o amor,
comandam o coração,
aflorando aos nossos olhos,
não é preciso mais nada.
É deixar o coração
comandar nossos sentidos,
deixar falar nossa pele,
nossos olhos, nossos corpos.
Há discurso mais bonito?

 

BEM NO FUNDO

Margarete Iraí

Lá no fundo...

Bem no fundo...

No fundinho dos teus olhos

avistei um pleno mundo

sem paredes divisórias...

E no fundo...

Bem no fundo...

No fundinho destes olhos,

adentrei sem preconceitos

sem medo de palmatórias.

Foi no fundo...

Lá no fundo...

No fundinho, quase fim,

que percebi o início

de tudo dentro de mim!

 

A JANELA


Luiz Carlos Amorim


Teus olhos, mulher, são assim:
meigos, brejeiros, castanhos,
malandros, sinceros, brilhantes,
essas luzinhas acesas
na janela do teu rosto.
E essa luz na janela
na janela do teu rosto,
convite irresistível,
me atrai para dentro,
no aconchego carinhoso
do teu/nosso coração.
E eu me sinto em casa,
com todo amor que há lá dentro.
Só saio pra ver de novo,
na janela do teu rosto,
aquelas luzes castanhas
convidando-me a entrar.

 

LEMBRANÇAS

Aracely Braz

Lembranças são primaveras

Outunos, lindos verões

Espaços de chuva e sol

Céu e mar em nossa estrada

E nada de horas marcadas.

Retas e curvas, saudades

Buscando reminiscências,

Desenrolando canções.

Um joão-de-barro a cantar

E eu no tempo voltando...

Lua cheia de luar

A alma cheia de luz

Coração cheio de amor...


TEMPO

Luiz Carlos Amorim

Olho pra trás,
tempos idos,
em busca de uma saudade.
Busco sonhos,
esperanças,
sorrisos,
e sentimentos.
Não estão lá,
no passado.
Nem é preciso catar
as migalhas de outros tempos.
Estão aqui, no presente,
bem presentes,
meus anseios e procuras:
você está aqui,
é o presente
e o futuro que eu preciso.

 

MUSA INSPIRADORA

Wilson Gelbcke

Palavras soltas ao vento
buscam se encontrar...
Em prosa e verso,
toque de encantamento,
palavras se unem, se completam,
para amor declarar!
Nenhuma magia ou dosagem,
Poção milagrosa sequer...
Em prosa e verso,
toque de emoção e coragem,
palavras se unem, se completam,
o milagre é mulher!
Musa que sussurra
vocábulos de inspiração...
Em prosa e verso,
toque de amor e ternura,
palavras se unem, se completam,
fala o coração!

 

VOCÊ
Luiz Carlos Amorim


Você, ah, você,
que invade meu coração,
infiltra-se no meu sangue
e aguça os meus sentidos...
Vem, me afaga, me afoga,
nessa fuga desenfreada
do mundo fora de nós.
Vem e pisemos juntos
este caminho só nosso
para o país do amor.

 

BUSCA

Else Sant'Anna Brum

Naquele raio de sol

eu te busquei.

Naquele doce luar

te procurei.

Fui às estrelas

todas da amplidão,

não te encontrei.

Perguntei a mim mesma:

- Onde estará meu bem?

E meu amor

te encontrou então:

Tu estás

Dentro do meu coração!

 

TEU SORRISO


Luiz Carlos Amorim


Teu sorriso é minha casa,
minha luz, porto seguro,
o meu horizonte, infinito.
Teu sorriso é boa vinda,
é ternura do aconchego,
é calor que me aquece.
Teu sorriso é primavera
que se espalha por teu rosto
e sorri a tua boa
e sorri o teu olhar
e sorri teu coração
e sorri a tua alma...
Teu sorriso
é meu ponto de partida
e meu ponto de chegada...

 

SONHO

Araci Barreto da Costa

Gostaria que você estivesse aqui, agora,
que você pudesse ser, meu alento, nesta hora.
Gostaria que você fosse meu, de mais ninguém
e pudesse ser, pra sempre, meu passado... meu presente.
Que me amasse muito, muito; me quisesse sem parar,
flutuando em minha vida "como uma onda no mar".
Que matasse minha fome, que tentasse meu desejo,
que voasse, que planasse, que sumisse com meu beijo.
Gostaria que você só pudesse ver a mim, de passar
meus dedos tristes nos seus lábios de carmim.
Gostaria que você fosse todo o meu destino,
que me desse tudo e nada me matando de mansinho.
Que mudasse minha vida, que levasse tudo embora,
que trouxesse, no retorno, somente o nascer da aurora.
Gostaria de chorar quando, enfim, você partisse.
Não sofrer... só amar
se você... Existisse...

 

SIMPLICIDADE II


Luiz Carlos Amorim

Gosto de natureza,
simplicidade, pureza,
da flor do jacatirão,
de terra, mar e de sol.
Gosto de você.
Sei que já disse isso,
mas eu gosto de você.
De segurar sua mão,
de sussurrar no ouvido,
de misturar nossos eus.
Gosto do sol na pele,
mas gosto mais do calor
da luz dos olhos castanhos
a aquecer minha alma.
Gosto da chuva lá fora
a ninar nossos sonhos
e gosto da noite estrelada
cúmplice do nosso aconchego.
Gosto mesmo é de você.
O que seria de mim,
seu eu não tivesse você?

 

CORES

Maria de Fátima B.Michels

Outonais...
são deste meu sentir as cores
Prismas inúteis em tempos sem arte
sou tela vazia, emudeço,
destarte.
Beleza há !
Tanta!
Mas não sei pintar desejos inconfessos
de Van Gogh
Sinto paixões do laranja ao ocre
fugidio
trigais repletos
Em mim
há consciência em tons de outono
em terciária
cor
Em ti
vermelho, azul e amarelo
brincam em distraída primavera
no tom do amor.


COMUNHÃO


Luiz Carlos Amorim


Eu me refaço em ti.
Sou eu, completo, por inteiro,
sou você, sou nós, sou ser.
És parte de mim, indivisível,
és coração que pulsa no meu peito,
és luz a brilhar no meu olhar,
és música a tocar nossa canção,
és ternura de mãos entrelaçadas,
és carinho ao tocar de peles.
Eu me refaço em ti.

 

2ª Bienal do Livro de Santa Catarina em Lages

A 2ª Bienal do Livro de Santa Catarina, que acontece em Lages, de 20 a 24 de junho, é uma realização do Núcleo das Escolas Particulares da Associação Comercial de Lages em parceria com a Câmara Catarinense do Livro, a Prefeitura Municipal de Lages e o Governo do Estado de Santa Catarina através da Secretaria de Estado da Cultura Esporte e Turismo.

Os autores independentes e academias literárias de Florianópolis poderão participar da 2ª Bienal do Livro de Santa Catarina com lançamentos de livro, sessões de bate-papo e de autógrafos. A organização do evento reservou para Florianópolis dois horários no dia 23 de junho (sábado): às 16:00h, no Café Literário , e às 19:30h, no palco de Centro de Eventos.

Com o tema “Ciências”, o evento vai apresentar exposições, workshops e palestras que tratem do assunto, oferecendo ao público contato direto com a teoria e a prática. Mas vale lembrar que qualquer tema será bem-vindo.

Os autores interessados em participar devem entrar em contato com a Câmara Catarinense do Livro até o dia 15 de junho, pelo e-mail comunica@cclivro.org.br ou pelos telefones (48) 3224 5135 e (48) 9961 7579.

Mais informações sobre a 2ª Bienal do Livro de Santa Catarina no site www.bienaldolivrosc.com.br

 

Quarenta anos após lançar “Cem Anos de Solidão”, García Márquez vive a glória do sucesso

No dia 5 de junho de 1967, foram para as livrarias de Buenos Aires oito mil exemplares da primeira edição de “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, um livro que encantou toda uma geração, inaugurou o ciclo do realismo mágico latino-americano, indicou novos rumos à literatura da América Latina, foi traduzido para 40 idiomas, vendeu mais de 30 milhões de exemplares em todo o mundo e levou seu autor à conquista do Nobel. O ano de 2007 marca grandes efemérides para García Márquez: no dia 6 de março, ele chegou aos 80 anos de idade; em setembro, transcorrerão 60 anos da publicação de seu primeiro conto, “La Tercera Resignación”; em dezembro, vão completar-se os 25 anos da conquista do Prêmio Nobel de Literatura.
A Real Academia Espanhola da Língua acaba de lançar uma nova e rica edição de “Cem Anos de Solidão”, com uma tiragem de 1 milhão de exemplares, com um texto aperfeiçoado por García Márquez. “Pensar que 1 milhão de pessoas pudessem ler algo escrito na solidão do meu quarto, com as 28 letras do alfabeto e dois dedos como todo meu arsenal, pareceria, a qualquer mortal, uma loucura”, disse ele, visivelmente tenso, no discurso que leu no lançamento da edição, no Congresso da Língua Espanhola, em Cartagena, em presença do rei da Espanha, o ex-presidente Bill Clinton e os escritores Carlos Fuentes e Álvaro Mutis, seus grandes amigos.
“Cem Anos de Solidão” eternizou Macondo, a vila fantástica onde se desenvolve a história. Mas seus personagens, cenários e histórias são todos inspirados na terra natal de García Márquez, Aracataca, no Caribe colombiano. Lá, os sinais, cenários e personagens elucidam “Cem Anos de Solidão” – as histórias recolhidas pelo escritor convivem com outras que poderiam perfeitamente integrar um de seus livros.
O avô que o criou, Nicolás Márquez, coronel da Guerra dos Mil Dias, é a encarnação terrena do coronel Aureliano Buendía em suas aventuras militares. As borboletinhas amarelas esvoaçam em Aracataca, prenunciando chuva. Mas a banana, em torno da qual se desenrolam as tragédias de Macondo, foi substituída, na economia do norte colombiano, pelo carvão mineral e pelo etanol da palma africana.
García Márquez virou um superstar na Colômbia, onde não pode mais sair às ruas. Originalmente um homem de esquerda, amigo de Fidel Castro, na Colômbia ele não fala de política. Aos 80 anos bem vividos, recém-saído de um câncer linfático aparentemente controlado, ele continua um bom gourmand, embora já não beba as generosas doses de puro malte que bebia no passado. Mas continua dizendo aos amigos: “Escrevo para ser querido pelos amigos”.
Tudo começou em 20 de fevereiro de 1950 uma segunda-feira, quando Gabriel García Márquez acompanhou a mãe numa ida a Aracataca para vender a casa da família. Na esquina da Rua dos Turcos, doña Luisa Santiaga entrou na velha botica para falar com a botiqueira, sua velha amiga, que bordava: “Como vai, comadre?” As duas se abraçaram e choraram durante meia hora, sem dizer palavra. Aquele silêncio comovente e expressivo fez Gabo perceber a importância de relatar as ricas histórias que ouvira na infância, diria ele tempos depois.
A primeira versão do que mais tarde seria “Cem Anos de Solidão” nasceu no início da década dos 50, era intitulado “A Casa” e, prudentemente, nunca foi publicada. Com o exemplo na algibeira, já consagrado, Gabo diria a seu amigo Ruy Guerra que um romance começa a ser escrito 30 anos antes. Nos anos 80, ele contou a Ruy que guardava até aquela época muitas anotações que fizera em 1958 para um romance que ainda não tinha conseguido começar.
Quando voltou a Aracataca com a mãe, em 1950, encontrou outros sinais de luz. Próximo à cidade, passou por uma finca (sítio) chamada Macondo, por conta da árvore plantada no meio do pasto, e anotou o nome; ainda hoje o enorme macondo está lá, majestoso entre as árvores menores, uns 20 metros de altura. A palavra já lhe era familiar: macondo é também um jogo de dados praticado na região bananeira do Caribe; nele, vencia quem conseguisse jogar o dado e fazê-lo cair com a face onde estava gravada a imagem da árvore para cima.


Editor recebeu o final do romance por engano

“Cem Anos de Solidão” começou a ser escrito no começo de 1965. Gabo distribuiu tarefas: pediu ao poeta José Emílio Pacheco para estudar os segredos da pedra filosofal; a Juan Vicente Melo, que estudasse os efeitos das plantas medicinais; um estudante de História escreveu-lhe um resumo da história colombiana dos séculos 18 e 19. O amigo Álvaro Mutis contribuiria com linhas poéticas e, num outro extremo, mais pragmático, a captar dinheiro que o sustentasse por dois anos.
Na sua casamata literária, o apartamento da Calle Loma, 19, no bairro de San Angel, Cidade do México, batizada por ele como Cueva de la Mafia, Gabo trabalhou entre seis e sete horas diárias, até agosto de 1966, para gestar um livro cujo título foi retirado das duas últimas linhas dos originais – “Cem Anos de Solidão”. Nesse entremeio, ele, Mercedes e os filhos tiveram uma vida monástica, provida por uma poupança prévia, empenhos e empréstimos de amigos.
Numa sexta-feira de agosto de 1966, Gabo e Mercedes foram a uma agência de correio na Cidade do México com 53 pesos no bolso e um pacote grande nas mãos, que seria enviado à Editorial Sudamericana, em Buenos Aires, interessada em editar a novela. O funcionário pesou o pacote, contendo as 590 folhas datilografadas dos originais de Cem Anos de Solidão, e sentenciou: “São 82 pesos.” Gabo e Mercedes resolveram mandar só a metade inicial dos originais. Mas se confundiram ao refazer o pacote e, em vez do começo, mandaram ao editor a parte final da novela. Com o fim do dinheiro, Mercedes blasfemou: “Ahora solo falta que el libro sea una mierda”, contou Gabo recentemente.
Estava dada a partida para a primeira edição do livro que apenas alguns meses depois encantaria o mundo, provocaria o boom do realismo mágico latino-americano e mudaria os rumos da literatura da América Latina. O primeiro sucesso veio na forma de um cheque de US$ 500 enviado pelo editor Paco Porrua: com o adiantamento, ele e Mercedes pagaram o aluguel atrasado e a postagem do começo da história. Chegava ao fim o aperto dos 18 meses.
Uma segunda cópia dos originais foi levada a Buenos Aires pouco depois por seu amigo Álvaro Mutis. Uma terceira cópia circulou entre amigos no México (leu-a Carlos Fuentes) e depois foi enviada aos amigos colombianos do Grupo de Barranquilla – Alfonso, Álvaro e Germán. A filha de Álvaro, Patrícia, até hoje a exibe “como un tesoro”. Com o adiantamento, Gabo tirou cópias de vários capítulos e os mandou para várias publicações, em diferentes países. (Anexo)

 

 


....................................................


Edições Anteriores de LITERARTE


VOLTAR