Revista eletrônica de literatura e cultura

do Grupo Literário A ILHA.

Maio/2011

Visite o Blog CRÔNICA DO DIA, em Http://luizcarlosamorim.blogspot.com , com textos sobre arte e cultura, principalmente literatura e cotidiano em geral.

Twitter: @amorimluc

 

O DIA DELA

Por Luiz Carlos Amorim

Minha mãe teve dez filhos. Eu sou o primeiro deles e ajudei a cuidar dos outros, porque ela trabalhava. E ela teve que dar conta de “criar” os mais novos quando a caçula chegou, porque ficou sozinha. Então digo que ela é a nossa heroína, pois sempre trabalhou e ainda teve que cuidar dos filhos, pois mais da metade dos dez ainda eram menores.

O que não a impediu de dar uma boa educação a todos eles, não deixando lhes faltar nem alimentação, nem teto, nem o que vestir e calçar, nem a educação básica. Não éramos uma família rica, éramos até bem humildes, mas me orgulho de ser honesto e esta é a maior herança que minha mãe me deixará.

E tenho orgulho da mãe que Deus me deu, pois ela formou pessoas dignas, amou a todos os filhos como se fosse um único, deu a eles tudo o que foi possível e daria a própria vida, se fosse necessário.

Lembro de quando eu era menino, que antes de sair para o trabalho, de manhã, ela deixava o almoço encaminhado, deixava o café para a filharada pronto e as tarefas para os maiores. Quando chegava de volta, ao meio dia, terminava o almoço, servia todo mundo, almoçávamos e ela ainda adiantava a lida da casa antes de retornar ao trabalho. À tarde, quando voltava, lavava roupa, fazia pão, limpava a casa, fazia comida, cuidava dos filhos, ufa! Nos finais de semana ela tentava descansar um pouquinho, mas era muito pouquinho mesmo. Como não trabalhava no sábado à tarde, fazia doces – bolo, cuca, biscoitos de araruta com coco. Fazia compras, fazia limpeza geral, por dentro e por fora da casa, que naquele tempo morávamos em casa, com jardim, quintal, horta, pomar. Capinávamos, cortávamos grama, varríamos o chão. Plantávamos, colhíamos. E era ela quem nos ensinava. E olhe que naquele tempo as coisas não eram muito fáceis. A água era encanada, para a cozinha, para o banheiro, para a área de serviço, mas não era de rede. Era de poço, e como o solo mais profundo de nosso terreno era de pedra, tínhamos um poço de apenas uns três metros. E no verão faltava água. Então minha mãe tinha que se virar com o pouco de água que a gente ia buscar no rio para lavar e na vizinhança para beber e cozinhar. Mas sobrevivemos.

Fico pensando, então, cada vez que o Dia das Mães se aproxima: o que dar para uma mãe assim? Um presente caro, uma jóia fina? Posso até dar qualquer coisa assim, mas o que vale mesmo é dar a ela o mesmo carinho que sempre tive, o amor que me empurrou pra frente na vida, o abraço, o beijo. E, mais que tudo, dar a nossa presença, o nosso respeito e admiração, sempre.

Se não pudermos, por qualquer razão, comprar-lhe um presente, uma flor pejada de carinho e de ternura e o abraço apertado, não serão aceitos de bom grado? Eu tenho certeza que sim. Dou, também, meu coração de presente, que é o que tenho de mais caro. E sei que ela merece.

 

 

Mãe

Cora Coralina


Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições...
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.

 

ANTOLOGIA E LIVROS DE PROSA E POESIA EM LANÇAMENTO


Por Luiz Carlos Amorim - Http://luizcarlosamorim.blogspot.com


O dia 13 de maio deste ano, além de marcar a data histórica da Abolição da Escravatura no Brasil, abrigará um evento literário histórico na capital catarinense: será lançada, na Livraria Catarinense do Beiramar Shopping, o livro "Varal Antológico", primeira antologia do Varal do Brasil, revista literária eletrônica editada por Jacqueline Aisenman, na Suiça. O livro reúne trinta e oito escritores de diversos pontos do país, vários de Santa Catarina, inclusive dois integrantes do Grupo Literário A ILHA, eu e a Fátima de Laguna. Agradeço mais uma vez o convite da organizadora, Jacqueline, para a minha participação.
Mas não é só a antologia que será lançada. Dois livros da escritora Jacqueline Aisenman também estarão sendo lançados: "Lata de Conserva" - contos (ou crônicas?) curtos e "Poesia nos Bolsos" - poemas. Tive o privilégio de receber da autora, na hora em que ficaram prontos, os dois livros e pude lê-los em primeira mão. Uma excelente leitura, diga-se de passagem.
Como já disse, os dois livros de Jacqueline são um de prosa e outro de poemas. Atrevo-me a dizer, depois de lê-los, que os dois se confundem, em gênero e qualidade, pois o livro "Poesia nos Bolsos" é carregado de sensibilidade e lirismo de uma poetisa conectada ao mundo e às pessoas que vivem nele e acaba tendo muito em comum com o livro "Lata de Conserva", de microcontos, minicontos ou contos curtos ou, ainda, crônica do cotidiano - instantâneos da existência do ser humano - repleto de poesia. Como um livro de prosa pode ser repleto de poesia? Pois pode sim, e a prosa de Jacqueline é pura poesia. É uma prosa suave, leve, mas carregada de conteúdo, densa de significados.
A poesia da autora é a essência da emoção e do sentimento e a sua prosa, poética, mostra uma escritora que tem excelência na difícil missão de contar histórias, pedaços de vida que se transformam em arte na sua pena.
Dois livros que evidenciam o talento da escritora catarinense que não vive aqui, mas está ligada às coisas da sua terra, tanto que edita uma revista literária que publica autores brasileiros e, paralelamente ao lançamento da sua obra, publica uma antologia que dá espaço a dezenas de escritores daqui.

 

PRESENTE


Luiz Carlos Amorim


A vida se repartindo,
coração se avolumando,
amor se multiplicando...
isto é você, mãe, mulher.

Todos os dias são seus,
toda vida lhe pertence;
a natureza, perfeita,
é sua irmã gêmea.

Que presente, então, lhe dar,
a não ser nosso respeito,
todo carinho e amor
e uma pequena flor,
gigante como você?

 

 

O Pedreiro escritor


Ma. de Fatima Barreto Michels

Muito atento ao seu trabalho, ele estava sempre lá. Fazendo o piso, assentando tijolos, colocando tubulações, reboco e revestimento cerâmico. Sem elevador, subíamos seis andares diariamente, acompanhando e fotografando a obra. Achei interessante a superfície daquele banco. Sobre aquele tosco banco o Manoel recortava com a serra mármore, ou maquita como ele dizia, os pisos e azulejos nos tamanhos necessários.
A tábua que formava a parte do assento do banco estava a cada dia com mais sulcos, linhas retas que se cruzavam. Ali também ficavam pequenas porções de massa que respingavam quando o pedreiro subia para fazer o emboço na parte mais alta da parede da churrasqueira. Comecei a clicar semanalmente o banco e o fazia em horários diversos para obter tons que variassem. Com alternadas posições do sol no bairro Mar Grosso, eu ficava observando a história que, numa linguagem diferente, ia sendo escrita na madeira daquele banco.
Em outro continente, na cidade de Genebra, uma escritora também criava, digitando no computador, as suas linhas.
Antes de eu começar a observar a construção, outros homens já haviam trabalhado muito por ali, finalmente vieram o pintor, o carpinteiro, e o eletricista e todos eles continuaram a utilizar o banco.
Muitas pessoas trabalhavam e cada qual ia deixando seu autógrafo, naquele prédio. Lá da Suíça a Jacqueline convidava poetas e contistas, através da internet, para que juntos erguessem uma obra em forma de palavras. Um dia a escritora contratou a publicação dos textos de 38 brasileiros, dos quais entre ela uma dezena de lagunenses.
Eu e Isabella, estudante de design industrial, sugerimos fotos diversas para a capa do livro, mas para nossa surpresa, entre flores, céu e mar a editora escolheu justamente uma parte daquele assento de banco que reunia muitas marcas. Tais riscos, na imagem fotográfica, convergem para uma rachadura que há na tábua. A fresta forma uma linha que liga horizontalmente ou, pode-se dizer, na qual estão dependurados muitos dos sinais de uma especial semiótica da construção civil.
O livro se chama Varal Antológico, porque ele nasceu da revista virtual Varal do Brasil e trata-se de uma coletânea onde estão reunidos muitos autores. Fundamentada "numa relação de semelhança subentendida entre o sentido próprio e o figurado" poderíamos dizer que a fotografia, na capa do livro, conseguiu estender um metafórico varal. Um fio que começa com a escritora lá na Europa e vem até o pedreiro aqui no Brasil. Impossível aqui não me lembrar do filósofo e educador Paulo Freire: "Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes."
Diferentes meios e formas de expressão: na obra civil as ferramentas, na literatura as palavras. A foto da capa é o comprovante dos inúmeros operários que naquele banco nos ajudaram a estender o VARAL ANTOLÓGICO.
Quem não gosta de poesia? Quem não precisa de um varal?

 

 

MÃE

Mário Quintana


Mãe... São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras...
E nelas cabe o infinito.

Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande

Como o bem que ela nos quer...

Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

 

MÃES & MÃES

Maria de Fátima Barreto Michels


No Planeta animal, programa de TV, é muito divertido ver as mães cuidarem dos seus filhotes. O mundo dos animais é surpreendente, e aos nossos olhos, esquisito também. Os pássaros, os seres aquáticos, as macacas, as hienas, as elefantas enfim, essas mães e pais agem das mais curiosas formas para manter suas famílias. A sociedade dos bichos não inclui julgamentos, eles são amorais. Cada casal, cada bicho em sua comunidade tem seu proceder próprio. Para eles vale a lei da natureza. Os machos, se tornam pais, agem das mais diversas formas. Existem aqueles muito zelosos e outros totalmente displicentes. As mães também mostram variadas performances, indo do heroísmo ao que poderíamos identificar como desnaturadas. Bem, os valores da ética e das leis humanas que ora emprestamos ao reino animal, não fazem o menor sentido para os bichos.
Na verdade neste maio desejamos louvar a grande mãe de todos nós: a Natureza. A homenagem será feita em forma de oração. Linguagem que coloca sentimentos e emoções em contato com Deus, a oração é grandemente utilizada pelas mães. Hoje existem estudiosos comprovando os benefícios desta prática. Além daquelas que me foram ensinadas por meus pais, invento também as minhas. Para o dia de hoje escolhi uma versão ecológica do Pai Nosso, "Oração pela Vida", e para rezar por nossos filhos a "Ciranda de Amor".
"Oração pela Vida"
Pai nosso que estais no céu
Mãe nossa que estais e sois Terra
Santificados sejamos todos nós desde a pequenina pedra que viaja no riacho, até a águia de vôo mais alto. Que seja nosso o nosso reino. Que seja feita a vontade da Vida.
Vida que é expressão da Vossa Grandeza. Vida que em mim assume a humana forma, assim na terra como no céu.
O pão nosso, o das formigas, o das árvores, dos rios, dos pássaros, dos peixes, o de todos, nos dai hoje, e sempre. (Não) perdoai a quem maltrata a Vida. Não nos deixeis cair em tentação de agredir a Natureza. Livrai-nos de todo mal, Pai que também sois Mãe. Assim seja.
"Ciranda de Amor"
Que tu inspires o Bem. Que em tua presença enfraqueça toda intenção do Mal. Que despertes a Lucidez. Que seja sabedoria teu proceder. Que leves luz e clareza por onde passares. Que espalhes harmonia e a beleza de ser Gente. Que se afaste de ti toda e qualquer violência. Que despertes a auto-confiança e sejas auto-confiante. Que deixes certeza por onde andares. Que teus hábitos sejam saudáveis. Que contamines com saúde ao teu redor. Que teu passo seja seguro e tua atitude seja firme. Que teu olhar imprima dignidade e respeito. Que nada impeça tua caminhada. Que a energia e a proteção dos teus antepassados te conduzam em ciranda de luz e de amor. Que tenhas vida produtiva e longa. Que sejas promotor (a) da Vida.

* A "Oração pela vida" foi incluída na apresentação da bióloga Ma. Antonia M. de Souza em sua tese de mestrado na UFPR

 

TODAS AS MÃES


Virgínia Vendramini


Mães não são criaturas perfeitas.
São apenas mulheres
Com defeitos e qualidades,
Traumas, desgostos e desejos,
Como qualquer ser humano.

As mães não se tornam santas
Só porque geraram um filho,
Nem se modifica por isso
A essência de seu caráter.

Às vezes é difícil amá-las,
Entendê-las ou simplesmente aceitá-las.
Outras vezes é preciso perdoá-las.
Esquecê-las, porém, é impossível.

Podem ser anjos que velam,
Algozes ou carcereiras,
Podem ser cumplicidade,
Compreensão, tolerância,
Doce presença que afaga,
Que também tolhe e cerceia.

Mães não são criaturas perfeitas.
Erram, acertam, dizem tolices,
Abandonam e são abandonadas...
Não são exemplos de amores perfeitos.
Mas quando se tornam ausência,
Aquela ausência que nada preenche,
Todas elas viram saudade.

 

DEZESSETE ANOS SEM QUINTANA


Por Luiz Carlos Amorim - Escritor - Http://luizcarlosamorim.blogspot.com


Ter amigos é uma das coisas mais importantes da vida. Tenho muitos amigos escritores, tenho amigos leitores, tenho amigos que leem pouco, mas até me leem. E muitos desses amigos gostam de Quintana, o menino Quintana, como eu.

Recebi uma mensagem de uma grande amiga, Else Sant´Anna Brum, escritora e leitora, que estava em Porto Alegre, no feriadão de Páscoa, e encontrou o livro "Mario Quintana - 100 anos", comprou um exemplar para ela e lembrou de mim, perguntou-me se eu já o tenho, pois se eu não tivesse, ela compraria um para mim também. Não é para eu ficar feliz?

Ainda não tenho todos os livros do Mestre Quintana, mas através de amigos fantásticos como dona Else, vou avançando com a minha coleção.

Senão vejamos: no ano passado, ganhei uma cópia do livro "Só Meu", do poeta maior, através da professora Mariza Schiochet, conterrânea que leciona em Joinville. O livro é uma seleção de poemas e trechos de textos direcionados para crianças, resultando em uma bela obra infantil e infanto-juvenil. Foi publicado após a morte do poeta.

O livro bilíngüe "Poesie di Mario Quintana", com seleção de poemas de Quintana no original em português e traduzidos para o italiano, por Pierino Bonifazio, eu ganhei de presente de aniversário, há uns dois anos, de Maria de Fátima Barreto Michels, a Fátima de Laguna, grande admiradora do poeta passarinho. Foi ela que me convidou para que fôssemos parceiros na edição da revista Mirandum, da Confraria de Quintana, fundada por ela.

E mais para trás, em 2006, ano do centenário do nascimento de Quintana, eu ganhei o derradeiro livro do poeta, o último, publicado no ano da morte dele, no Relatório Anual do Banco do Brasil: "ÁGUA", edição trilingue (português, inglês e espanhol) de poemas sobre o tema título, localizando-os em várias partes do Brasil. Em Santa Catarina, ele focalizou a Ponte de Blumenau e as Fortalezas da Ilha de Santa Catarina.

Da amiga Mary Bastian, escritora de Porto Alegre, da Porto de Quintana, radicada atualmente em Joinville, ganhei vários suplementos com entrevistas, artigos, resenhas e poemas do nosso poeta favorito.

Então, amigos são valiosos, são grandes tesouros que a gente tem, não só pela amizade, pelo convívio, pela presença, mas também pelo amor à arte em comum, no caso a literatura.

Obrigado, amigos, por me dar de presente o talento, a sensibilidade, a alma do grande construtor de emoções que foi e continua sendo Quintana. No dia 5 de maio próximo faz dezessete anos que o poeta foi povoar o céu com mais poesia, junto com Coralina, com Drummondd, com Pessoa. Dezessete anos de saudade, mas a poesia e a prosa dele conseguem trazê-lo para perto de nós, para dentro do coração de cada um de nós e fazê-lo vivo através dessa coisa imortal que é a palavra.


 

POEMA SEM TÍTULO
(para minha mãe)


Thiago de Melo


Minha mãe, guarde esta flor:
São pétalas de palavras,
mas é uma rosa de amor,
brilhante como o orvalho
que seu carinho inventou.
O seu olhar, minha mãe,
me guia na escuridão.
Seu riso é um sol que derrama
estrelas pelo meu chão.
O que eu sei fazer de bom
seu coração me ensinou.
Por isso, feliz, lhe oferto
uma ternura de brisa
perfumada de jasmim
para festejar sua vida:
vida que é suave canção
de um amor que não tem fim.

 

 

"TODOS PELA EDUCAÇÃO"


Por Luiz Carlos Amorim - Escritor - Http://luizcarlosamorim.blogspot.com


Uma campanha de volorização dos professores foi lançada, no dia 12 de abril, pelo movimento "Todos pela Educação". De lá para cá, a mobilização nas redes sociais tem aumentado e até a imprensa está comentando o tema.
A importância da campanha é primordial, num momento em que não dá pra esconder o sucateamento da educação brasileira. Os cursos superiores de licenciamento estão se esvaziando, porque não há motivação para que as pessoas estudem para serem professores, com a perspectiva sombria de salários baixos, escolas sem manutenção e sem equipamentos, falta de valorização enfim, por parte do poder público e até da sociedade.
O slogan da campanha é "Um bom professor, um bom começo". Excelente slogan, o retrato da mais pura verdade, mas nos remete a uma pergunta mais intrigante: o professor não foi aluno dessa mesma escola ruim que estamos tentando melhorar? Para ser um bom professor, ele não deveria ter tido um bom começo?
Para se formar um bom professor, o estudante precisa ter um ótimo ensino fundamental, um bom ensino médio, um bom ensino superior. Se não tiver isso, se a qualildade do ensino obtida por ele no decorrer da sua formação não for boa, como poderá ser um bom professor? Porque o professor é fruto, é resultado da educação que o país oferece. E a educação que o Brasil oferece não é boa.
Há um desrespeito crescente para com os educadores e para com os estudantes. Não são dadas condições decentes para o desempenho da profissão de professor, nem condições condizentes para o estudante aprender, se formar.
O comando do país mudou (mudou?), o comando dos Estados também, na última virada de ano. O que estão fazendo a presidente e os governadores para melhorar a educação que fingimos não ver que está se encaminhando para a falência total?
Esperemos que eles tomem conhecimento da campanha e se unam a todos os brasileiros no sentido de resgatar o ensino de qualidade, para que tenhamos, daqui para a frente, estudantes mais aptos a se formarem bons profissionais. Não só na área da educação, onde são tão necessários, sem que tiremos a importância e o valor de tantos professores dedicados e abnegados atuando por esse Brasil afora, mas em toda e qualquer área.

 

 

CANÇÃO


Luiz Carlos Amorim


Canto uma canção antiga,
uma canção romântica,
uma canção de amor,
uma canção de vida.
Canto prá você, mãe.

Canto todas as canções
numa cantiga só...
Às vezes desafino, é verdade,
mas a canção é poesia,
acalanto, emoção,
é alma, é sentimento.
É tudo, é você, mãe.

 

 

POLÍTICA CULTURAL EM SC

Por Luiz Carlos Amorim - Escritor - http://luizcarlosamorim.blogspot.com

Gosto de ler publicações literárias e culturais, para saber o que está acontecendo e o que se está produzindo. Ainda existem aqueles jornais sisudos, como alguns suplementos e alguns jornais “oficiais” de cultura, com textos enormes e com vocabulário por demais rebuscado, mas também existem boas publicações, com textos objetivos, interessantes e claros. Um bom sinal é que alguns dos grandes jornais por este Brasil afora, estão abrindo mais espaço para a cultura e, felizmente, para a literatura,em seus cadernos de variedades. Resenhas, novos livros, lançamentos, entrevistas com escritores da atualidade.
Dia destes, li um artigo sobre política cultural e tive que concordar com alguns pontos levantados pelo autor. Por exemplo: a cada novo governo que toma posse nos estados, no nosso e na maioria deles, faz-se planos e mais planos para a cultura. Discute-se muito e chega-se à conclusão de que “desta vez vai funcionar”.
Já estamos no segundo trimestre do novo governo em nosso estado, e as coisas não foram muito diferentes: muito se falou em cultura, no início do ano, mas de concreto, nada ainda. Estamos esperando, por exemplo, que o Jornal O Catarina, da Fundação Catarinense de Cultura, tenha uma periodicidade diferente daquela que teve nos últimos dois anos, de apenas uma edição por ano. Neste 2011, o jornal ainda não saiu. O CIC – Centro Integrado de Cultura, onde funciona a FCC, o maior teatro da capital, e outras entidades culturais, está em reforma há dois anos e pouca coisa foi feita, apesar dos muitos milhões de dinheiro público gastos lá. Um teatro de quase mil lugares fechado por dois anos sem que nem sequer tenha começado a reforma prometida é demais. Estamos esperando que a coisa ande e que responsabilidades sejam apuradas.
Contamos com nova edição do Prêmio Cruz e Sousa, também, e com o segundo Edital para compra de livros de autores catarinenses para distribuição às bibliotecas municipais, prometido para o ano passado, mas que não saiu. Trata-se de uma lei que há quase vinte anos não vinha sendo cumprida e que teve, finalmente, um edital na gestão de Anita Pires. E precisamos de mais integração da capital com a cultura de todo o Estado, mais atenção da Secretaria de Cultura e da FCC a todas as manifestações culturais catarinenses, de qualquer cidade catarinense. Será que as coisas andarão melhor, neste novo governo?
Na verdade, precisamos muito de uma política cultural atuante, que não fique só nas promessas. Não basta que se estude, que se discuta, que se planeje, que se faça leis que não são cumpridas. Temos, em SC, boas iniciativas que funcionaram, como o Prêmio Cruz e Sousa de Literatura, que concede os maiores prêmios em dinheiro do país, além da publicação dos livros, de âmbito nacional.
Prêmios que poderiam ser menores, talvez, para que se pudesse viabilizar outros projetos. Uma boa política cultural não seria dividir os recursos de maneira que mais projetos culturais fossem contemplados e que um público maior fosse agraciado, beneficiado? O Conselho Estadual de Cultura foi empossado recentemente, vamos fazê-lo funcionar.

CÂNTICO 14


Cecília Meirelles


Eles te virão oferecer o ouro da terra.
E tu dirás que não.
A beleza.
E tu dirás que não.
O amor.
E tu dirás que não, para sempre.
Eles te oferecerão o ouro d'além da terra.
E tu dirás sempre o mesmo.
Porque tens o segredo de tudo.
E sabes que o único bem é o teu.

 

 

Mães que se reciclam

Para Ivani Butzke

Por Urda Alice Klueger

Se tivesse tido a oportunidade, minha mãe teria sido uma geógrafa, tal o seu gosto por saber tudo a respeito dessa ciência. Mas ela só teve acesso à escolinha rural de onde se criou, e só pode estudar até a terceira série primária.
Ela teve uma vida difícil: criou-se comendo do que seu pai produzia nas roças, e ganhando o vestido novo no Natal, o único do ano.
Eu a conheci quando ela passava dos 30 anos, e fazia tudo com suas mãos : ajudava a matar porco, mourejava numa horta e num jardim, criava, desde o choco, as galinhas dos almoços de Domingo, fazia tachos de sabão com sebo e breu, costurava as roupas das suas três meninas, bordava as nossas fronhas e engomava as nossas anáguas.
O tempo passou, o mundo mudou, e minha mãe se reciclou com a mesma velocidade do mundo. Beirando os 80 anos, ela manda recados via Internet para os netos que moram lá longe, no Continente Africano; ela tudo sabe sobre o que os políticos fazem em Brasília e sobre o que os artistas fazem nos bastidores da televisão. Continua mourejando numa horta e num jardim; produz a metade do que come, e "sem agrotóxicos", diz com orgulho. Ela nasceu para ser uma geógrafa, mas não deu. Só que não abandona a sua inclinação natural. Minha mãe, acredito, é a única mãe de quase 80 anos, do Brasil, que ganha Atlas novos, no Dia das Mães, quando a Geografia muda, e num instante interpreta o seu Atlas e descobre os novos países e as suas particularidades. Se ela tivesse tido a oportunidade da escola!
Quantas mães se reciclam com a velocidade da minha?


SER MÃE

Coelho Neto

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

 

VIDA EM FORMA DE CANÇÃO

Ana Ribas Diefenthaeler -Jornalista

O menininho louro, cabelos encaracolados, com seus seis ou sete anos, interpela a mãe, à entrada da Feira do Livro, que terminou domingo passado: “Quero comprar um livro bem legal. Ou mais de um. Mas não quero livro com muitos desenhos. Quero palavras. Eu prefiro as palavras.” Fiquei olhando aquela figurinha se perder em meio ao turbilhão de gente que chegava para visitar a 8ª edição da feira. Saltitante, ele espiava os estandes, parava, perguntava alguma coisa à mãe que, ocupada com o filho menor que viajava, literal e metaforicamente, no carrinho de bebê, não dava ao garoto a atenção que ele pedia.

Vi o menino algumas outras vezes, sorridente e ávido. Queria entender aquele pequeno pedacinho de humanidade que, pouco sabendo ler – eu imaginava! – queria se inundar de novas palavras.

No vaivém entre os estandes, procurei outros representantes da geração daquele moleque, para tentar perceber melhor o que se passou. Vi vários deles engalfinhados a livros coloridos, com recursos de imagens, DVDs e sons. Vi alguns optando por livrinhos recortáveis, outros que preferiam aqueles em que era possível inventar o fim da história. Mais à frente, uma menina enlouquecida com uma boneca de papel – que vem com cartela de roupas descartáveis...

Num cantinho próximo à porta, um menininho se sentou, cansado, e passou a abrir o que chamou de “meu tesouro”. E a tirar da sacola, um a um, os vários livrinhos que ganhou. Pelo menos um deles era sobre natureza, preservação, meio ambiente. Aliás, esses pequeninos andam bem espertos para isso: formaram o público mais participativo da campanha para a correta destinação do lixo, realizada pela coordenação da feira. Divertiam-se correndo para colocar copos, latinhas de refrigerantes e detritos em geral nos recipientes adequados. Na principal palestra desta edição da feira, Leonardo Boff passeou entre a lucidez, a esperança e até um pouco de explicável tom apocalíptico, ao falar sobre como o mundo está tratando a mãe Terra. A criançada, porém, guarda, em cada pequeno coração, a certeza da mudança de hábitos que deve orientar toda a humanidade. E não apenas para “salvar” o planeta, mas para resgatar-nos a essência.

Não revi mais meu pequeno príncipe que se encantava pelas palavras – mas reencontrei, dentro de mim, um alento. Quem sabe, uma porta que se abre para uma caminhada nova, inspirada pelo renascimento de alguma fé no que virá. Literatura é, sim, cidadania, plenitude. É, sim, pressuposto de esperança.

 

O VISITANTE


Josette Dambrowski

 


Pra aqueles que não conhecem

Uma história vou contar

Sobre as visitas do professor

A este belo lugar.



Nem um ano o museu tinha

Quando um ônibus parou

Me chamaram urgentemente

E minha pescaria terminou.



Despreparada eu tava

Pois bota de borracha calçava

Cheguei um pouco assustada

Pois uma multidão esperava.

Era o professor Nilson,

E muitos jovens que estudavam

Depois das apresentações

Passei o maior sufoco

Mandaram subir em um banco

Para ver se crescia um pouco!



E contava a história

Daquilo que eu sabia

O que não era verdade

Eu aproveitava e inventava.



Parece que eles gostaram

Pois outras vezes agendaram,

Apesar de muitas vezes

Na estrada encalharam.



No 1° a novidade

No 2° a saudade

No 3° a velocidade

No 4° a aprendizagem

E agora no 5° espero

Que demorem muito mais

Pois adoro contar causo,

E neste 13 de maio

Aproveitar a liberdade

E ficarem um pouco mais

Pra conhecer a cidade

Trocar informações e

Aprender de verdade

Fotos do meu Saci,

Que aqui foi capturado

Um brasileiro de nome

E garanto que é registrado

Quando vi o Nilson a 1ª vez

Ele era professor

Agora nos seus ofícios

O cara é doutor

Eu me exibo no jornal,

Mas fico envergonhada

Pois no meu currículo

Eu sou só graduada!

Mas agradeço a visita

Dessa gente interessada

Que continua a aprender história

Para dividir com a moçada.

Obrigado de coração

Por estas visitas renovadas

Pois garanto que é incentivo

Pra não desistir da empreitada,

E continuar contando história

Mesmo que seja inventada.

 

Dambrowski, Josette. Versos que contam histórias. Matos Costa, SC, Ed. Da Autora, 02 de julho de 2006.


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