Revista eletrônica de cultura e literatura

do Grupo Literário A ILHA

 

Outubro/2008

 

OUTUBRO, MÊS DA CRIANÇA

Outubro é o mês da criança e Literarte presta a sua homenagem a todas as crianças do mundo, com a publicação de poemas de vários autores sobre o tema. Precisamos dar mais educação e saúde para nossas crianças, para que possamos esperar um amanhã com melhores perspectivas.

TODAS AS CRIANÇAS


Luiz Carlos Amorim


Tenho pequenos sorrisos grandes,
saudáveis, perfeitos, felizes,
inspiração maior dos meus versos,
motivos do meu viver.

Tenho pequenos abraços grandes,
apertados, singelos, vivazes,
cálices transbordantes
de carinho e de alegria.

Tenho pequenos beijos grandes,
lambuzados, melados, molhados,
expressão maior do amor
que tenho prá dividir.

E os sorrisos presos nos lábios?
E os abraços não dados?
E os beijos sem endereço?
Quanto amor desperdiçado...
Tanto amor abandonado...

 

 

Um século sem Machado
Há exatos 100 anos, o Brasil perdia seu ilustre escritor



Há exatamente 100 anos morria Machado de Assis, o ilustre morador da Rua Cosme Velho. O tempo, longo necessário para confirmar sua genialidade, ainda parece insuficiente para desvendar toda a complexidade em torno da vida e da obra do homem humilde, mulato, gago e epiléptico que se transformou no principal nome da literatura brasileira.

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu pobre, e essa condição econômica, por si só, poderia ter ditado a posição que ocuparia na sociedade imperial do século 19 - como ainda pode, e faz, no século 21. Não ditou. Aos 15 anos, sem nunca ter freqüentado regularmente os bancos escolares, o fundador da Academia Brasileira de Letras publicou seu primeiro soneto no Periódico dos Pobres. Não parou mais.

Machado entrou para a Tipografia Nacional e conquistou a proteção de Manuel Antônio de Almeida, aprendeu inglês, francês, traduziu obras, foi colaborador assíduo de grandes jornais, enveredou-se pela crítica teatral, revelou-se um cronista perspicaz do cotidiano, um contista de talento singular e, ao escrever com uma narrativa original livros como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Esaú e Jacó, Helena, Quincas Borba, Memorial de Aires e Dom Casmurro - no qual criaria o principal mistério da literatura brasileira, a traição ou não de Capitu - colocaria seu nome na história cultural do país.

No ano decretado por lei em sua homenagem, Machado de Assis foi tema de debates na ABL, teve sua vida e obras relembradas em exposição no Museu da Língua Portuguesa e ocupou lugar central nas discussões da 6ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty. Em todas as ocasiões, fica evidente a indiscutível capacidade que o universo machadiano tem em despertar curiosidade, de despir novos sentidos a cada releitura e fomentar questionamentos e a conseqüente busca de respostas em torno de suas criações. E, passado um século da sua morte, essa continua sendo a principal herança deixada por Machado de Assis.

(KR - DC))

 

CRIANÇA

Aracely Braz


Se vejo você na chuva
Chutando, feliz, as poças,
Participo desse samba
Pois criança também sou.

Na ramada você é pássaro,
Me ensurdece o seu trinar.
Desperta-me para a vida
Meu chamado original.

Se a livre borboleta
Beija as flores sem cessar,
É você, criança amada,
A colorir meu viver.

Parabéns, pequeno amigo,
Dos anjos é oriundo.
Torna a existência mais leve,
Transforma todo esse nosso mundo.

 

 

PRESENTE PARA O DIA DA CRIANÇA

Por Luiz Carlos Amorim

E chegou a primavera, e veio outubro e está chegando o dia da criança. Primavera, tempo de renovação, de vida que desabrocha, de esperança de tempos melhores. Isso tudo não e sinônimo de criança? A criança é a única esperança de que o ser humano tem de ser melhor, ter uma vida sem violência, com mais saúde, educação e meio ambiente preservado, de aprendermos a cuidar melhor da natureza, para que haja um futuro. E o mundo precisa de muitos e muitos meninos para ensinarem aos homens a salvar a natureza... Se os adultos de hoje souberem cuidar de nossos meninos e meninas, proporcionando uma educação decente e uma vida digna, com bons exemplos - nada a ver com o que vemos, hoje, em nossa sociedade - as nossas crianças terão perspectiva de poder lutar por um mundo melhor amanhã. Mas temos que começar agora.
Não queria dar brinquedos de presente, apenas, para as crianças, no seu dia. Queria poder dar, para as crianças de hoje e de amanhã, rios vivos, limpos e claros, ar puro, alimento sem contaminação de agrotóxicos e produtos químicos, estações definidas, climas amenos, natureza preservada.
No entanto, não posso evitar que nossas crianças vejam desastres ecológicos por desrespeito à natureza, violência e falta de moral, falta de humanidade e de consciência, decorrentes da ganância e da miséria.
Os adultos, todos, até os donos do poder - principalmente eles, talvez - deviam ser mais crianças, para serem mais honestos, mais humanos. E quanto às crianças, se eu pudesse dar-lhes um conselho, pediria que crescessem, sim, mas que não se transformassem em "gente grande": que fossem apenas GENTE. E que nunca, jamais, deixassem morrer a criança dentro de seus corações, seja qual for a idade que tenham.
Pois é da criança que emana a vida, alento, felicidade, poesia. É isto que brota de mãos pequeninas e faísca de olhos de luz de pequeninos seres que chegam a este mundo que temos o dever de tornar melhor para que eles tenham um futuro melhor que o nosso.
Pequeno grande mundo que pode ser mais feliz, pois enquanto houver criança, teremos a certeza de que Deus ainda tem esperança no ser humano...

 

NECESSIDADE

Luiz Carlos Amorim


Cresça, criança,
cresça....
Mas não seja
"gente grande":
deixa crescer a alma,
mantendo intacta a pureza,
a singeleza, a verdade,
a paz e a serenidade
que o mundo
precisa tanto...

 

Contemporâneos, Machado de Assis e Cruz e Sousa tiveram destinos opostos

O poeta catarinense Cruz e Sousa viveu na mesma época que Machado de Assis, tinha a mesma cor e berço tão humilde quanto o fundador da Academia Brasileira de Letras e, assim como ele, precisou de muito esforço pessoal para ter a educação proporcionada a poucos. Já os destinos dos dois, a história demonstra, foram quase opostos.

Filho de escravos alforriados, Cruz e Sousa tornou-se protegido de Marechal Guilherme Xavier de Sousa, e graças ao incentivo e oportunidades proporcionadas pela família abastada, pôde estudar e descobrir suas habilidades literárias.

Em 1890, aos 29 anos, mudou-se para o Rio com o sonho de ser escritor. Influenciado pelo simbolismo francês, lançou Missal e Broquéis, únicas obras publicadas em vida. Sua poesia foi depreciada pela crítica, todas as editoras e jornais lhe fecharam as portas e o sucesso que tanto sonhava não demorou para se transformar em frustração.

- Machado de Assis foi fazendo sua vida pública de modo com que fosse aceito aos poucos pela sociedade do Império. Cruz e Sousa, desde pequeno, teve educação superior a qualquer negro, equiparada a qualquer branco. Ele atingiu o mais alto grau educacional proporcionado na época em SC mas, socialmente, teve muitos entraves - avalia o presidente da Academia Catarinense de Letras, Lauro Junkes.

Para Junkes, a dificuldade de Cruz e Sousa ascender socialmente deveu-se mais ao próprio preconceito diante dessa aspiração, ao seu "topete", do que à cor de pele. As diferentes maneiras de se relacionar com sua origem e o meio a sua volta também podem ter influenciado a trajetória dos dois escritores.

- Machado de Assis, como ficcionista, retratou muito mais os aspectos sociais da época. Já Cruz e Sousa era um poeta de uma sensibilidade afinadíssima e não dava a menor atenção para essas grosserias da vida. Por isso, também, ele não conseguiu se integrar tão bem à sociedade quanto Machado - opina.

Hoje, Cruz e Sousa é estudado na escola, é tema de dissertações e teses, e, acima de tudo, é reconhecido como o precursor do simbolismo na literatura brasileira. Como Machado, conquistou, talvez, até mais do que sonhou, com a diferença de não ter experimentado o sucesso. Aos 36 anos, morreu pobre e tuberculoso.

- A diferença é que Machado de Assis sentiu a glória, e, Cruz e Sousa, a miséria e a ingratidão. (Kariane Ruy)

 

CHAMA


Luiz C. Amorim

Um menino
cruzou o meu caminho.
Despido de tudo,
até quase de vida,
restava-lhe, apenas,
no fundo dos olhos,
uma chama pequena,
quase apagada,
de pura inocência.
Dei-lhe um sorriso,
velho e surrado,
de esmola
e fui procurar
a minha chama
perdida...

 

 

AS FEIRAS DO LIVRO E A LITERATURA INFANTIL

Por Luiz Carlos Amorim

Como já mencionei em outra crônica, este ano tive mais tempo para participar da Feira do Livro de Florianópolis e, assim, tive a oportunidade de perceber mais detalhes, mais nuances que na correria a gente não vê.
Conversando com autores de livros infantis e com pais dos consumidores de literatura infantil, os leitores em formação, confirmei uma constatação não muito promissora: nem todos os livros para crianças têm a qualidade de conteúdo que desejaríamos.
Temos verificado, feira após feira, que a grande vedete desses eventos, cada vez mais, é a literatura infantil. A cada final de uma feira do livro, seja ela onde for, o saldo evidencia a superioridade na venda de livros infantis e infanto-juvenis. E, note-se, só aqui em Santa Catarina acontecem feiras do livro em Florianópolis, Joinville, Blumenau, Balneário Camboriú, Itajaí, Brusque, Orleans, Criciúma, Itapema, São Bento do Sul, São José e Joaçaba tem início neste ano e Jaraguá do Sul, que tem sua primeira edição no início do próximo ano.
Importante atentar: Florianópolis, além de ter duas feiras anuais, nas próximas edições elas terão o horário de funcionamento dilatado, pois a carga de dez horas diárias até aqui tem se revelado insuficiente, uma vez que, neste ano, foram observadas filas na porta antes da hora de abrir para o público.
Então, comprovadamente, o que mais vende nas feiras é o livro infantil, pelo menos em quantidade. O que suscitou discussão foi a qualidade dos livros vendidos. A feira oferece livros para crianças de todas as idades, de todo tipo, desde os mais simples até os mais sofisticados, desde os mais baratos - encontramos livros por cinqüenta centavos cada - até os mais caros. Existe até standes que oferecem exclusivamente livros infantis: grandes, pequenos, muito pequenos, enormes, edições luxuosas e outras muito simples, algumas até sem cores no interior, umas com muitas páginas, outras com menos de uma dezena de páginas.
O que mais existe - nas feiras e nas livrarias, também, só que nas feiras a concentração é maior - são edições as mais diversas daquelas fábulas tradicionais, tão nossas conhecidas, como Cinderela, O Patinho Feio, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, A Bela Adormecida, Rapunzel, Pinóquio, e tantas outras, publicadas em tiragens enormes. E quanto maior a tiragem do livro, mais barato ele pode ser vendido.
Além disso, esses contos de fadas, clássicos eternos, importados há muitas gerações, não têm mais para quem pagar os direitos autorais - veja que os livros de fábulas citados acima não registram nenhuma autoria -, e assim saem mais barato ainda para o editor.
Comparando as citadas fábulas com as obras infantis de autores brasileiros, me invade uma dúvida já levantada em outras ocasiões: será que esses contos, tão tradicionais e tão clássicos, tem todos algum cunho moral, ético e educativo para que estejamos, sempre, geração após geração, empurrando goela abaixo de nossos filhos?
As personagens são fortes, ganharam mais vida com o passar do tempo, mas as histórias continuam as mesmas. Algumas delas repletas de magia e encantamento, mas outras com apologia à violência, à inveja, à desonestidade, à deslealdade, à maldade. Como a avozinha que engorda crianças para devorar, como a madrasta que manda assassinar a enteada e pede que o executor traga o coração dela, como prova, como a velhinha encarquilhada que dá uma maçã envenenada a uma pobre jovem indefesa, como o lobo espertalhão que engana uma simplória avó e a devora, tentando fazer o mesmo com a netinha, como a outra enteada que é transformada em escrava, e por aí vai.
Não estou tentando convencer ninguém de que aqueles clássicos são todos ruins, absolutamente. Há, dentre eles, belas histórias com mensagens positivas, sem dúvida.
Mas precisamos dar mais valor aos nossos escritores, também. Precisamos deixar de comprar sempre as mesmas coisas, só porque são mais baratas e porque já estão impregnadas em nossa cultura. Temos vasta produção nacional dirigida para crianças, com histórias cheias de encantamento, com boas mensagens, focalizando nossos costumes, nosso folclore, nossa fauna, nossa história e nossa geografia, com excelentes ilustrações e com bons preços, também. Temos escritores como o imortal Monteiro Lobato, Ruth Rocha, Pedro Bandeira, Zirado, Ana Maria Machado, Lygia Bojunga Nunes, Érico Veríssimo, Marina Colasanti, Silvia Orthof e tantos outros, a nível nacional, além dos catarinenses como Maria de Lurdes R. Krieger, Else Sant´Anna Brum, Yedda de Castro Goulart, Rosângela Borges, Urda A. Klueger, Ana Maria Kovács, Eloí Bocheco. São exemplos de ótimos produtores de textos para crianças, que deveríamos ver com seus tantos títulos em todas as feiras do livro e em quantidades pelo menos equivalentes aos clássicos de sempre.
Os produtores de literatura infantil e infanto-juvenil da nossa terra são ótimos contadores de histórias e merecem ser prestigiados. E as nossas crianças merecem alguma coisa mais moderna e mais criativa.

 

 

OS MENINOS


Luiz Carlos Amorim


Outra vez menino,
aprendo engatinhares,
vou vivendo novas vidas,
sorrindo novos sorrisos,
sentindo mais emoções.

Menino de novo,
divido tantos e tantos sonhos,
aprendo novos amares,
descubro luz nos caminhos
e vejo a força do amor.

Menino que sou,
olhos sem vendas, coração criança,
ainda vejo a natureza,
vejo cores, vejo luzes,
apesar do abandono
do homem à própria vida.

O mundo precisa de muitos,
muitos e muitos meninos
para ensinarem aos homens
a salvar a natureza...

 

O MENINO POETA

Por Luiz Carlos Amorim

Comprei, num dia quase distante, quando minhas filhas mal andavam, um disco de canções e poemas para crianças. Lembram dos "LPs" de vinil? Pois é. Era um bolachão de vinil, um disco sobre criança para criança. Trata-se de "O Menino Poeta", que me atraiu pelo título e pela capa, que traz um menino sentado no chão segurando os pés, desenhado com giz de cera, muito colorido, ainda que com um ar melancólico. Achei-o numa daquelas incursões por lojas de disco para comprar música para criança. E foi um achado, mesmo. Ainda hoje é um achado.
"O Menino Poeta" traz poemas para crianças, cantados e declamados, de grandes poetas como Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Mário Quintana, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e outros. As declamações são de ninguém mais, ninguém menos que Irene Ravache. Os poemas musicados são cantados por Solange Maria, Mirinha e Coral Infantil. Quem colocou música nos poemas cantados foi Antonio Madureira, que também fez os arranjos e dele também é a regência.
Achei e continuo achando fantástico esse recurso de colocar a poesia para ser cantada, para um público que, como bem diz e repete minha amiga Eloí Elisabet Bocheco, entende e ama a magia e o encantamento desse gênero literário. Isso favorece que aproximemos a literatura de nossas crianças desde muito cedo, para que esses leitores em formação tenham o gosto pela leitura.
Os poemas de Quintana, Drummond, Vinícius, Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Cassiano Ricardo, Jorge de Lima, Henriqueta Lisboa, Stela Leornardos, Mário de Andrade estão deliciosos na voz da excelente atriz Irene Ravache ou cantadas pelo coral ou pelas cantoras Mirinha e Solange, conferindo-lhes, quem sabe, mais lirismo e mais alegria, reinventando o mágico e o lúdico na cultura infantil.
Que melhor maneira de iniciar nossas crianças na poesia, na literatura, do que apresentá-las à obra de grandes mestres na mais tenra idade? Sempre defendi que a criança que gosta de ler e que sabe o que ler é a criança que conviveu com livros e com literatura desde muito pequena, em sua casa, com sua família.
Não sei se os Estúdios Eldorado, que produziram o disco, lançaram essa seleção em CD. Espero que sim, pois seria uma pena se mais crianças e mais pais não pudessem conhecer um trabalho tão bom em prol da disseminação da boa poesia.
Abaixo, dois poemas dos dezesseis que estão no disco:
CANÇÃO DA GAROA (Mário Quintana): Em cima do meu telhado,/Pirulin, lilin, lulin,
Um anjo todo molhado/Soluça no seu flautim.
O relógio vai bater:/As molas rangem sem fim,/O retrato na parede/Fica olhando para mim.
Chovem sem saber por que.../E tudo foi sempre assim"/Parece que vou sofrer:/Pirulim, lulin, lulin...
O MENINO POETA (Henriqueta Lisboa) O menino poeta/não sei onde está/procuro daqui/procuro de lá/tem olhos azuis/ou tem olhos negros?/Parece Jesus/ou índio guerreiro?
Ai! que esse menino/será, não será?/procuro daqui/procuro de lá.
O menino poeta/quero ver de perto./Quero ver de perto/para me ensinar/as bonitas coisas/do céu e do mar.

 

 

PRIMAVERA

Luiz Carlos Amorim

A primavera chegou...
O mundo vestiu-se de flores,
A vida enfeitou-se de cores,
A gente encheu-se de amores...

É primavera!
A vida sorrindo,
Música ao vento,
Poesia no ar.
É primavera!

 

"Os Lusíadas" ganha atraente versão para crianças

Depois de encantar milhares de pessoas há mais de 400 anos, o épico "Os Lusíadas", de Luís de Camões, ganha uma versão para o público infantil. Em "Os Lusíadas para Crianças - Era uma Vez um Rei que Teve um Sonho", Leonoreta Martins conta a história de maneira simples, com uma linguagem acessível aos pequenos leitores. As ilustrações de José Fragateiro ajudam a entender o texto escrito por volta de 1570.

A epopéia da literatura portuguesa ganha na versão infantil uma narrativa que explora ainda mais as aventuras em torno da descoberta do caminho marítimo para a Índia. Leonoreta Martins recria seus principais episódios e inclui citações da obra original de Camões. Deuses imortais e prodigiosos que assumem formas humanas, a descoberta de povos e mares desconhecidos e fatos históricos contados com o sabor que só um grande escritor sabe criar são ingredientes que tornam a leitura ainda mais interessante.

Uma estratégia usada pela autora para atrair a atenção dos leitores mais jovens para uma obra do século 16 é narrar a história buscando referências em situações do cotidiano das crianças. "Seu avô também chama sua atenção às vezes, não é verdade?" É um exemplo disso. O livro também faz um convite para os leitores acompanharem a obra original de Camões. Alguns personagens e episódios são citados apenas para despertar o interesse do público mirim pela totalidade da obra.

"Os Lusíadas" tem dez partes, liricamente chamadas de cantos. Na versão que está sendo lançada pela Editora Martins, há um pequeno resumo de cada capítulo. Também é apresentada a descrição de alguns instrumentos marítimos usados pelos navegadores no século 16.

Só que mais do que retratar as dificuldades que os marujos portugueses enfrentavam, Leonoreta busca incentivar o gosto das crianças pela ciência.

 

 

JOÃO DE BARRO


Else SantÁnna Brum

Levando barro no bico
Pra fazer sua casinha
O João-de-barro trabalha
Desde manhã à noitinha.

É muito amigo do homem
Pois, não raro, faz seu ninho
Nos beirais de sua casa
Para ficar bem pertinho.

Quase sempre escolhe os postes
Pra assentar sua morada.
Seu canto bem ritmado
Parece uma gargalhada.

Este pássaro alegre
Dá lições de bem viver,
Pois a sua companheira
Ele só deixa ao morrer.

 

Homens Sensíveis

Por Maria de Fátima B. Michels


Nas primeiras horas da manhã do 24 último recebi mensagens de amigos poetas e escritores perguntando e noticiando sobre o Prêmio Jabuti concedido ao escritor Cristóvão Tezza. Respondi que estava orgulhosa do nosso catarinense e lendo a obra premiada, O filho eterno. Acrescentei que lera do mesmo autor O ensaio da paixão.
Este último tenho razões especiais para, também, apreciar com prazer, porque o livro é ambientado na época em que eu morava na Ilha de Santa Catarina, e viajei com o autor pelo túnel do tempo...
O prêmio para o escritor lageano, radicado em Curitiba, deu-me o tema desta crônica: a sensibilidade dos homens. Observei o quanto estou cercada de autores especiais.
Circulando a vista pela sala deparei-me com muitos livros e textos impressos, de autoria de meninos barriga-verde. Dei-me conta do quanto se tornam interessantes os homens com sensibilidade, com capacidade de interpretação do mundo. E, se eles escrevem, não há dúvida de que enriquecem a todos nós.

Para começar, nesta semana recebi os originais de um livro de contos que terei o prazer de prefaciar. Posso garantir que fui surpreendida por um número de histórias muito boas. E o que é maior motivo de alegria: o autor é J. Machado, um conterrâneo aqui de Laguna!
Ali na mesinha de centro estava a mais recente crônica de Rubens da Cunha. Ao lado dela, o conto Samba no Céu, de Jair Francisco Hamms, e, deixado aberto na noite anterior, o livro Guatá, de Flávio José Cardozo. Iniciei minha vida no magistério ali ao lado do Guatá, em Lauro Muller, torrão natal do autor, e estou amando o livro.
Do Flávio tive a honra de receber autografado o recém-lançado 13 Cascaes, uma coletânea de 13 autores que com criatividade homenageiam o genial Franklin Cascaes neste seu centenário que festejamos em outubro. Quem não ouviu falar no bruxólogo Cascaes, homem de sensibilidade e talento imensos?

Meu passeio de olhos seguiu para a mesa de jantar e me fez deparar com outras três obras que estou a ler concomitantemente, uma delas trata-se de Borboletas nos Jacatirões, do poeta de Corupá que vive atualmente em Florianópolis, Luiz Carlos Amorim. Havia também Cadernos de Blumenau, no qual o escritor Enéas Athanázio tem uma coluna, presenteando-me com um exemplar, e Rocamaranha, de Almiro Caldeira, relançado há poucos dias e que me foi presenteado pela sobrinha do autor, a também escritora Regina Carvalho. Para não perder o rumo da vida havia Quintana, que deixo sempre no plantão vinte e quatro horas, todo o ano. Ali pela sala, Quintana sempre! No momento, do gaúcho, releio 80 anos de Poesia.

Obrigada a todos esses meninos e tantos que ainda lerei, por seus olhares diferenciados ao mundo e à vida! Olhar compartilhado, podem crer!

 

POEMA PARA DEPOIS DA CHUVA

Efraim Pinheiro

Pelo caminho molhado,
pelo vôo arisco do pássaro
nota-se a excelente tarde.

A paz apressa-se no vento –
o sol baixo entre os paus
da capoeira;
uma ponta de céu.

Bem à frente
aponta a casa simples
em cujos muros caiados nascem musgos.

 

 

FILME SOBRE O REPATRIAMENTODAS CINZAS DE CRUZ E SOUSA

"Cruz e Sousa - a Volta de um Desterrado" é um documentário irônico e iconoclasta. Irônico porque faz piada com a cerimônia oficial, e iconoclasta porque vai contra o culto da reverência. Dirigido por Cláudia Cardenas e Rafael Schlichting, o filme trata do repatriamento das cinzas do poeta simbolista João da Cruz e Sousa (1861-1898) do Cemitério São Francisco de Assis, no Rio, para Florianópolis, cidade natal dele.

O filme é sobre um personagem dramático. Filho de escravos alforriados, Cruz e Sousa recebeu educação esmerada patrocinada pelo padrinho, o marechal Guilherme. Negro, inteligente, sensível, sofreu o enxovalho de sua terra. Foi morar no Rio de Janeiro, onde publicou a maior parte sua obra. Morreu tuberculoso e pobre em Antônio Carlos, em Minas Gerais, onde foi buscar a cura para a doença.

O corpo dele foi removido de Minas para o Rio em um vagão para o transporte de cavalos. No ano passado, depois de 109 anos, os restos mortais dele retornaram para Santa Catarina. "A volta do poeta" é celebrada em um espetáculo patrocinado pelo governo Estado, que julga reparar a injustiça feita ao poeta negro, deserdado pela província em pleno final do século 19.

É sobre o retorno triunfal organizado pelo governo que Cláudia e Rafael travam a narrativa do documentário. Em vez de reverenciar os políticos e intelectuais em torno da festa, o filme privilegia o olhar do poeta. O olho da câmera é o olho de Cruz e Sousa. Desde a cena inicial, sobre o carro do corpo de Bombeiros onde é transportada a urna funerária, é a visão de Cruz e Sousa que sobressai por meio de uma câmera inquieta e intermitente, que observa a cidade nova, redesenhada pelos prédios modernos. A percepção é de um outro olhar para o ritual da volta, longe da abordagem jornalística, e de seus depoimentos oficiais.

A inversão dessa ótica é elaborada por imagens autônomas. Ninguém é entrevistado. Sobre o carro do Corpo de Bombeiros, a sirene é incessante, com a leitura em off do poema "Marche aux Flambeaux", de Cruz e Sousa, na voz do professor Fernando Scheibe: "E desfila e desfila em becos e vielas; E torna a desfilar por vielas e por becos; às risadas da turba, estultas e amarelas". É Cruz e Sousa quem está ali, com vento no rosto, ao sabor do espetáculo criado para a cerimônia de sua volta, um retorno de glória acompanhado pelo tom da leitura gentil de Scheibe.

O plano-seqüência é longo, até chegar ao Museu Histórico de Santa Catarina - Palácio Cruz e Sousa, onde os restos mortais estão sendo abrigados. A urna é aguardada por uma legião de políticos, intelectuais e pelas câmeras das emissoras de televisão. O olho de Cruz foge da solenidade por alguns momentos e percorre os compartimentos do palácio, nova morada dele. A seqüência é, agora, acompanhada por uma leitura de Scheibe do poema "O Emparedado": "Eu não pertenço à velha árvore genealógica das intelectualidades medidas, dos produtos anêmicos dos meios lutulentos, espécies exóticas de altas e curiosas girafas verdes e spleenéticas de algum maravilhoso e babilônico jardim de lendas."(Estraído de A Notícia)

 

Cristovão Tezza, catarinense que recebeu o Prêmio Jabuti

O fato mais brutal da vida de Cristovão Tezza acabou desencadeando sua maior glória literária. Há 27 anos, nascia seu filho Felipe, portador da síndrome de Down. A descoberta de que era pai de uma criança especial virou o mundo do escritor lageano do avesso. O acontecimento inspirou o aclamado livro "Meu Filho Eterno", que conquistou na semana passada o Prêmio Jabuti de melhor romance de 2008.

Apesar das tintas autobiográficas, o livro não é um confessionário. Tezza recria a história, transformando-se em um personagem. "Tive de me afastar, me distanciar do fato para só então compreendê-lo melhor e representá-lo com mais nitidez", conta o autor, que na semana passada participou de um chat em www.an.com.br.

Ainda sentindo o peso da estatueta, Tezza conversou com os internautas sobre seu livro e o reconhecimento como um dos maiores escritores da atualidade. "Fiquei impressionado com a repercussão do Jabuti. São os 15 minutos de fama do escritor. É uma tartaruguinha pequena, mas que faz um barulho grande! (risos)". Confira ao lado trechos da conversa de Tezza com "A Notícia".

A Notícia - Por que o personagem de "O Filho Eterno" reage de forma tão cruel ao nascimento do filho especial?

Cristovão Tezza - Porque é um sentimento verdadeiro. A notícia de um filho com problemas, para os pais (e principalmente para o pai, na nossa cultura) é um dos momentos mais brutais que podem acontecer a alguém. Dizer que não é mentir.

AN - Foi difícil expor um tema tão delicado em livro?

Tezza - Sim. Fui encontrando muitas "cascas de banana" para escorregar - o sentimentalismo, a emoção fácil, a falsificação do sentimento para tranqüilizar o leitor. Mas não podia passar minha vida sem arriscar a escrever sobre o fato mais impactante que me aconteceu. Não por acaso, demorei 20 anos para tocar no assunto.

AN - Quando finalizou o livro, achou que tinha em mãos uma obra que seria tão aclamada?

Tezza - Não, não tinha essa idéia. Eu, na verdade, estava com medo do livro. A sensação de exposição pública é muito forte, mesmo sendo um romance. E tinha medo da recepção, que ela fosse menos literária e mais pessoal.

Mas, no fim, deu tudo certo. De certa forma, consegui perceber o que escrevi pelos olhos dos leitores.

AN - Como sua família reagiu?

Tezza - A Betinha, minha mulher, gostou muito. E ela só leu depois de pronto. Na verdade, eu centrei todo o livro na relação do pai com o filho. E a minha filha Ana, a quem o livro é dedicado, gostou muito. De certa forma, ela conheceu mais profundamente o ,pai através do livro.

E o Felipe acha o livro uma festa, porque ele sabe que é sobre ele, embora não o compreenda com a nossa linguagem - só com a dele. Como não é alfabetizado, não alcança exatamente o significado do livro. Ele tem uma reação afetiva, como sempre, a tudo que acontece em torno dele.

AN - O senhor é um dos escritores mais conhecidos do Brasil. Poderia sobreviver apenas do trabalho literário?

Tezza - Digamos que se eu tivesse 30 anos e morasse sozinho, daria para viver de livros hoje. Mas com família é difícil. Para dar uma idéia prática: para ganhar R$ 3 mil por mês, você teria de vender mil exemplares por mês. É muita coisa. Pouquíssima gente consegue, na área de ficção. "O Filho Eterno" é meu livro de maior sucesso comercial. Em nove meses, vendeu cerca de 10 mil exemplares.

AN - Como é conciliar o trabalho de escritor ao seu dia-a-dia como professor universitário?

Tezza - O primeiro cuidado é não assumir compromissos administrativos, ou você será devorado pelo tempo. Procuro administrar bem o tempo e reservar sempre duas horas do dia para a literatura. Mas é um bom trabalho, o de professor, para quem escreve. Dá para conciliar.
(Rodrigo Schwarz - A Notícia)


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