Março/2007

 

FELIZ ANIVERSÁRIO, FLORIANÓPOLIS!

Por Luiz Carlos Amorim

Florianópolis está de aniversário: completa mais um ano de existência neste 23 de março. Independentemente das comemorações oficiais, fico pensando se há, na verdade, muito a comemorar. E chego a conclusão que há, mas também há o que lamentar, infelizmente. E as duas coisas são praticamente intrínsecas, porque justamente por ser um dos melhores lugares do mundo para se viver, está se tornando quase impraticável viver aqui.
Explico: devemos comemorar sempre e agradecer pelas belezas naturais que Florianópolis descortina diante de nossos olhos, para quase todos os lados que olhamos.
A capital catarinense tem dezenas de praias belíssimas: praias de águas mansas ou de mar agitado, de acesso fácil ou por meio de trilhas, com infra-estrutura ou semi-desertas. Tem a Lagoa da Conceição: “Num pedacinho de terra / beleza em par! / Jamais a natureza / reuniu tanta beleza / jamais alguma poeta / teve tanto pra cantar!”, como já dizia Zininho, em seu “Rancho de Amor à Ilha”, hino oficial de Florianópolis. Tem também a Ponte Hercílio Luz, ponte pêncil das maiores que existem. Apesar de não ser mais usada é o cartão postal da cidade, conhecido no mundo todo e foi tombada como patrimônio histórico e artístico.
Tem as rendeiras, tradicionais, que ainda fazem, como há tantos anos, a renda de bilros, criando peças belíssimas. Tem a velha figueira, centenária, na Praça XV, outro cartão postal. Tem os manezinhos, nativos da ilha, gente acolhedora e alegre que faz desta terra um lugar feliz.
E justamente o fato de ser um lugar bom de se viver fez com que a propaganda trouxesse para cá gente que não deveria vir, que trouxe consigo a violência e a insegurança. A propaganda nos diversos meios de comunicação de âmbito nacional tem veiculado, repetidas vezes, e não é de agora, que Florianópolis é o lugar que tem a melhor condição de vida, que é o melhor lugar para se viver, que é o lugar mais belo que há.
Em decorrência disso, muitas pessoas migram para cá. E parte dessas pessoas, mesmo que seja uma pequena parte, não vem para usufruir uma melhor condição de vida, mas sim de olho nas posses de quem vive neste paraíso. Por que eles, os indivíduos de má fé, devem achar que todos que vivem aqui nesta terra abençoada são ricos, têm muito dinheiro.
Então, é muito triste constatar a violência crescendo na nossa capital: assassinatos quase todos os dias, assaltos, seqüestros, tráfico de drogas. Não se tem mais nenhuma segurança, nem dentro de nossas próprias casas, por mais que se instale alarmes ou outros preventivos. Quando comecei a escrever esta crônica, pretendia apenas cantar as belezas da nossa Ilha da Magia, a nossa Ilha de Santa Catarina, que compõe, com parte do continente, a nossa querida Florianópolis. Mas é impossível fechar os olhos para as transformações que o nosso paraíso tem sofrido, lamentavelmente.
Parabéns, Florianópolis, por mais um aniversário. Beijo o teu chão e desejo, veementemente, que a tua beleza maculada com a violência e a ganância, com desamor e desprezo pelo ser humano deixe de ser refém de criaturas indignas e de todos aqueles que a ferem, para que, num futuro próximo, possamos comemorar com mais alegria o seu aniversário.

 

Risco

Uilma Boaventura de Andrade


amores antigos não abalam

nem fervem

meu ser.

por ti,

ponho em risco

o meu coração.

 

Eles continuam na prateleira

 

 

LANÇAMENTO NA FEIRA DO LIVRO DE JOINVILLE

O novo livro de crônicas "A Primavera Sempre Volta", de Luiz Carlos Amorim, será lançado no dia 30 de março, as 14 horas, na Feira do Livro de Joinville, realizada na Praça Nereu Ramos. Este é o vigésimo segundo livro de Amorim, e traz uma seleção de crônicas diferentes daquelas que compõe seus livros de prosa: o tema principal do autor é literatura - livro, escritor, leitor, mas neste livro estão reunidas as crônicas mais pessoais, mais intimistas. O livro tem 80 páginas e sai pelas Edições A ILHA. A apresentação é do escritor e crítico literário Celestino Sachet.

 

 

As Mulheres voadoras
Ma. de Fátima Barreto Michels

No último final de semana, realizou-se aqui em Laguna-SC uma competição de surf.
Observando um rapaz viajando longo pedaço sobre uma onda,manobrando toda a musculatura corpórea de pé sobre a prancha, avaliei o bem estar e a satisfação que o meio líquido deveria estar proporcionando àquele organismo.
Graduei-me em Educação Física e durante as aulas de natação, de ginástica olímpica, rítmica ou atletismo percebia o corpo em boa parte do tempo, precisando
estar em comunhão íntima com a mente, para que determinado movimento ocorresse com a devida precisão no instante exato. A exigência da circulação e oxigenação unirem-se harmonicamente ao ato de pensar a ação a ser efetivada, é um dos segredos para nos "recarregar as pilhas". Resida aí talvez um dos motivos da insistência que fazem os médicos, para que combatamos a depressão oriunda do stress, com exercícios corporais e esportes.
Numa conversa informal com um jovem historiador que também pratica o surf como opção para manter-se em forma e aliviar o stress, descobri que sua dissertação de mestrado (em fase de conclusão) é exatamente sobre esse esporte.
O mestrando Roberto Brasil Vieira na Linha de pesquisa: Relações de Poder e Subjetividades faz um estudo sobre o surf em Florianópolis.
Estive lendo o trabalho do mestrando que se exercita no surf e gostei muito, justamente porque ele focaliza a entrada das meninas numa prática esportiva que começou com os rapazes e assim ficou por muito tempo.
Um dia, elas resolveram sair da platéia e entrar na água para pegar uma onda.

Por telefone conversei com a lagunense Soraia Rocha, bi-campeã mundial de bodyboard. Soraia está casada e já tem dois filhos pequenos que requerem bastante sua presença. A atleta falou com entusiasmo do esporte do qual revelou, jamais se afastará, embora não esteja competindo no momento.

Tive o prazer de entrevistar ao vivo aqui na praia do Mar Grosso em Laguna, neste Dia Internacional da Mulher outra lagunense famosa como bodyboarder, esta que continua competindo, fundou em 2004 a Associação Desportiva Brasileira Feminina de Bodyboard, trata-se de Juliana Pacheco .
Através da ADBFB, com o apoio e incentivos sempre presentes da Prefeitura Municipal de Laguna, Juliana promoverá no início de abril de 2007, a Segunda Etapa do Circuito Brasileiro Feminino de Bodyboard na praia do Mar Grosso.
No ano passado a vencedora do evento foi Raquel Freire surfista profissional de Laguna também. A competição ganhou bela reportagem em SPORTS GIRLS revista de circulação nacional e encontrada á venda nos aeroportos internacionais, possuindo também boa repercussão nos leitores em Portugal, aonde Juliana vai seguidamente competir. O próximo grande desafio de Juliana Pacheco será em julho no Chile, já que na condição de promotora do circuito brasileiro, ela não pode competir.
A mulher brasileira vem mostrando sua presença vitoriosa em determinadas modalidades esportivas. Isto contribui para que os demais paises do planeta aumentem o respeito pela nossa competência como nação.

Se num oito de março há 150 anos, 129 tecelãs nova-iorquinas morreram queimadas presas numa fábrica por reivindicarem seus direitos, percebemos que meninas hoje continuam firmes ocupando lugares ao sol e buscando os direitos civis que lhes pertencem.
É óbvio que o mar nasceu para todos e navegar, sempre será preciso.
E se for possível faze-lo sobre uma prancha, aí se transforma em puro deleite.
É prática saudável por excelência o contato com o iodo, o oxigênio que as águas atlânticas do mar lagunense oferecem.
Parabéns as mulheres que fazem acrobacias com suas pranchas voadoras. São mesmo fantásticas! Parabéns a todas as nossas irmãs do planeta.

Laguna, 08 de março de 2007

 

 

NOVO LIVRO DE ROSÂNGELA BORGES

Foi lançado, pela editora mineira Franco Editora, o segundo livro infantil da escritora e poetisa joinvillense Rosângela Borges. Trata-se de "Limpeza na Gaveta", da Coleção Bambolê, para crianças que estão começando a ler. A apresentação é excelente, com fotos muito coloridas e bem produzidas: "Feche os olhos e imagine uma gaveta cheinha de luz, brincadeira e poesia. O que será que você vai encontrar na gaveta de Rosângela? Abra o livro e limpe a gaveta! Boa leitura, boa poesia recheada de alegria!"

 


Indicação de livros catarinenses para o vestibular não alavanca a venda


A indicação de um livro de literatura para o vestibular poderia ser um fato definitivo para consagrar um autor e sua obra, e também para alavancar as vendas da editora que publicou o título. Mas não é exatamente o que ocorre. Pelo menos não na proporção que se poderia imaginar. O vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por exemplo, atinge mais de 30 mil estudantes, mas a venda de cada título selecionado quase sempre não ultrapassa os três mil exemplares, o que representa somente 10%.
Normalmente, a tiragem mínima adotada pelas editoras é de mil cópias, mas com a indicação do título para a lista são feitas uma ou duas reimpressões.
Nelson Rolim, da Editora Insular, considera um número pequeno de leitores em um universo grande de vestibulandos, mas comemora a indicação para o concurso da UFSC de dezembro deste ano de “Encontros de Abismos”, de Júlio de Queiroz, um livro com três contos longos em 150 páginas. É a primeira vez que a Insular, com 12 anos de atividade, e 400 títulos publicados – a maioria voltada para a cultura catarinense – tem um livro selecionado para o vestibular.
Há pouco mais de dez anos, o poeta Alcides Buss, professor de literatura e diretor da Editora da UFSC, teve o livro de poemas “Transação”, da Mal Edições, indicado para a lista dos vestibulares de 1992 e 1994. Publicado inicialmente com mil exemplares, o livro teve mais duas reimpressões, uma de dois mil, e outra de mil, para atender a demanda dos vestibulandos. Buss considera que ao ter a obra incluída na lista, o escritor ganha mais visibilidade.
Rolim lembra, também, que um dos fatores que impede uma venda maior de títulos selecionados para o vestibular é o comércio de resumos. A pirataria se alastra progressivamente logo depois da divulgação dos títulos, que ocorre um ano antes da realização do vestibular. Além de surgirem versões resumidas grosseiras, o direito autoral é completamente ignorado. Rolim considera que este procedimento é estimulado por muitos cursinhos de pré-vestibular. É possível encontrar resumos na internet e algumas vezes em livros. Este procedimento “esvazia a venda de livros”, constata Alcides.
Vítima dos resumões, o escritor Francisco Pereira enfrentou o problema de frente. O livro de contos dele, “O Pardieiro”, editado pela Garapuvu, e relacionado no vestibular de 2004, foi pirateado. Um livreiro da cidade encomendou o resumo e estava vendendo as cópias dos textos para os vestibulandos. Chico contratou um advogado e conseguiu barrar o comércio ilegal.
O mesmo ocorreu com Salim Miguel no vestibular de 2005, quando ele teve o romance “Nur na Escuridão” incluído na lista. Ao descobrir um livro-resumo em uma livraria com a síntese dos títulos daquele ano, o escritor resolveu ligar para a autora da “publicação”. Salim disse que ela estava fazendo uma apropriação indébita e estava prejudicando editores, livreiros, escritor e os próprios estudantes, já que “não existe resumo de um livro de 200 páginas em dez, mantendo a proposta narrativa, situações e outros aspectos do texto original". Ele não processou a professora, que aceitou retirar o livro-resumo das livrarias, mas passou a vendê-lo em bancas de revista e em sebos.
O coordenador pedagógico do curso e colégio Decisão, André Rocha, diz que eles não trabalham com resumos e que a orientação para os estudantes é de que seja feita a leitura integral do texto. Quando é anunciada a lista dos livros para o vestibular, o Decisão adquire de dez a 15 títulos de cada obra para o acervo da biblioteca e empréstimo para os estudantes. Os escritores catarinenses também são convidados pelo Decisão para falar a eles. Recentemente, Silveira de Souza, autor de “Relatos Escolhidos”, conversou com alunos do colégio sobre a obra dele. (Jefferson Lima, A Notícia)

 

Ruínas

Irene Serra


Das cidades que morrem sempre resta
Um punhado de pedras desunidas.
Aqui, portais; ali, florões em festa
nas paredes já negras e fendidas.

Neste caminho, pórticos; e nesta
sucessão de belezas consumidas,
a hera suspensa dos jarrões empresta
um tom de vida às mortas avenidas.

Se eu pudesse nos versos que componho
imprimir as centelhas do meu sonho,
faria catedrais, coisas divinas!

Porém, negando ao verso o meu segredo,
somente evoco as pedras do lajedo
e o claustro frio de um convento em ruínas.

 

 

Quais são os autores ausentes

O professor Lauro Junkes, presidente da Academia Catarinense de Letras, avalia que duas grandes ausências na lista do vestibulares das universidades catarinenses são Virgílio Várzea e Othon D’Eça. Do primeiro, Junkes indica “Mares e Campos”, um livro de contos publicado originalmente em 1895 que situa a Ilha de Santa Catarina e a colonização açoriana, com histórias de pescadores e agricultores. De Othon D’Eça, Junkes considera injusta a não-inclusão do livro “Homens e Algas”, publicado pela primeira vez em 1930 e que relata, por meio de contos, a vida de pescadores no litoral catarinense.
Junkes é professor voluntário do mestrado e doutorado na pós-graduação em literatura. Entre outras disciplinas, lecionou literatura catarinense no curso de letras. Atualmente, a matéria não é mais obrigatória e é oferecida como optativa em semestres alternados. Embora defenda a obrigatoriedade da disciplina para o curso de letras, o professor diz que a matéria passou a atrair mais alunos quando foi transformada em optativa, em meados dos anos 90.
Conforme Maria Luiza Ferraro, coordenadora pedagógica da Coperve, a escolha dos títulos é feita por um grupo composto por representantes das comissões do vestibular da Udesc e da UFSC, juntamente com professores do departamento de língua e literatura vernáculas da UFSC e professores do ensino médio. São adotados alguns critérios. Periodicamente é feita uma pesquisa na escolas de ensino médio junto a professores, mas somente 20% respondem as indagações da Coperve.
A lista de obras para o concurso foi adotada em 1992. Maria Luiza lembra que, para a escolha, são também levados em consideração os títulos que podem propiciar a formação de leitores críticos entre os estudantes.
A comissão ainda observa a alternância de autores consagrados e contemporâneos, inclusão de escritores catarinenses, adequação ao público-alvo e a cobertura de diferentes gêneros. Para o próximo vestibular, foi adotada, ainda, uma peça teatral. A escolhida foi “O Santo e a Porca”, de Ariano Suassuna, que comemora 80 anos em 2007. (JL)

Segundo Edemir Costa, presidente da Comissão Permanente do Vestibular (Coperve), também é compreensível que haja problema de esgotamento de uma obra selecionada para o vestibular, porque as tiragens são pequenas e o número de vestibulandos é pelo menos dez vezes maior. Ele diz que sempre que um livro é indicado para a lista, são verificados os estoques na editora e, normalmente, é feita uma reimpressão.
A lista da UFSC é feita em parceria com a Udesc, que seleciona cinco dos oito títulos relacionados para o vestibular da Federal. A Udesc realiza dois concursos por ano, que atingem 12 mil candidatos em dezembro e oito mil em julho. A Acafe também seleciona cinco títulos da lista de oito e faz também dois vestibulares por ano. No concurso de verão, participam de 28 a 35 mil estudantes. Mas já chegou a 38 mil. O vestibular da Acafe é realizado para 16 instituições de ensino superior. Na última prova da UFSC, realizada no final do ano, participaram 33 mil estudantes, mas o concurso da Federal reuniu 41 mil candidatos em 2005.

 

 

BEIJOS

Apolônia Gastaldi


Dizem
que beijei
todas as bocas
Muitas
Todas
Mentira !
Línguas soltas
Invejosas
Mentirosas !
Poucas
Todas as bocas ?
Não ! Poucas !
Mas,
Confesso
Eu beijei a tua boca
como louca
Te deixei sem oxigênio
Esganei, arranquei
os cabelos teus
que são meus.
Beijei a tua boca
como louca !
A tua boca de gênio
Só a tua boca !
eu beijei !
Beijo de louca !
Beijei !

 

La Sebastiana

Belvedere Bruno

Enquanto percorria La Sebastiana em Valparaíso, não sabia se ria ou se chorava. Era muita emoção andar de um cômodo a outro, ou descer a tortuosa escadaria , imaginando se algum dia ele teria ali caído, se ferido, ou talvez apenas sofrido um tropeção.... Por todos os cantos, sentia aquela energia que, certamente, não podia faltar em uma das diversas casas onde viveu Pablo Neruda. Da janela de um dos cômodos, eu vislumbrava o que outrora havia sido uma grande fonte de inspiração para o poeta. Da casa, no alto do morro, avistava-se a cidade e o porto. Afastado do burburinho de Santiago, ali, Neruda conseguira a inspiração que precisava. A casa, os cômodos, a decoração, os mais íntimos pertences traziam o poeta . Sentei para assistir ao vídeo que mostrava algumas cenas de sua vida . Declamações, entrevistas... Tristeza e emoção tomavam conta de mim ao pensar que visitava um museu e, por mais que tivesse a impressão de que Neruda surgiria de repente, isso não passava de devaneio .
Continuei assistindo à filmagem. Neruda, em 1970, nomeado embaixador na França, durante o governo de Allende. Em outubro de 1971, recebendo o Prêmio Nobel de Literatura, e em 23 de setembro de 1973 , a notícia de sua morte, mesclada às tristezas causadas pela queda de Allende e o fim do sonho socialista. Já não havia Allende, já não havia Neruda, senão em nossa memória, em nossa admiração. Contendo as lágrimas, saí, dando, assim, vez a outros , para que adentrassem La Sebastiana.
À saída, um cartaz afixado em uma das portas falava sobre um evento literário na tarde seguinte, com um escritor chileno e um brasileiro. Infelizmente, eu já estaria de volta ao Brasil.
Retornando ao hotel, senti-me envolvida na mais profunda nostalgia. Todo meu ser , repleto de Neruda, parecia ouvi-lo declamar:

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

 

 

CRUZ E SOUSA - CINEPOEMA DE SYLVIO BACK

Maria de Fátima Barreto Michels

É importante que conheçamos poetas quando ainda temos 16 anos.
Foi durante o curso de normalistas que nossa professora de Literatura apresentou-nos o simbolista catarinense João da Cruz e Sousa.
Por uma década talvez, ainda guardei aquela folhas de papel almaço onde a jovem mestra escrevera o número 10 como nota e uma inesquecível observação:
" não ouso criticar seu trabalho".Exagero? Claro,mestra Lúcia Baungarten! Convenhamos, não se escreve um elogio assim ao lado de uma nota 10 num trabalho tão modesto . Mas a senhora cometeu talvez uma das coisas mais importantes para a cabeça de uma adolescente.
Eu me encontrei, me abriguei naquele desespero que vertia em gotas, por toda a sinfônica obra daquele João da Cruz e Sousa.

Era ritmado, sideral, divino, sepulcral, belo e terrível!
E na minha mocidade era bom fugir com ele para um lugar sem limites.
A verdade é que a professora Lúcia não quis se envolver na comunhão, na minha cumplicidade com aquele louco poeta que me levava junto para o seu delírio.
Com Cruz e Sousa voávamos nos altiplanos de outras galáxias e logo no instante seguinte já estávamos enfrentando seres marinhos tenebrosos.
A morte se alternando com o espírito e este, sempre a supera-la.
Uma agonia a confrontar-se todo o tempo com a resistência.

É preciso conhecer Cruz e Sousa, mesmo quem já não tem 16 anos.
Estuda-lo talvez seja interessante. Não me interessa muito, saber a que movimento ou tendência literária o poeta pertenceu. Importante sim, observar o quanto foi desprezado por ser negro. O preconceito. Sempre o preconceito. Que vergonha do passado. Que vergonha, do presente.
Importante observar a atualidade de seus versos que incomodam!
Não falam claro mas são transparentes. Tudo dizem. Incomoda como tudo o que é elegante, erudito, e gentil quando podia/devia (?) ser áspero, atrasado e violento.
Nesta segunda feira, dia 19 de março completam-se 109 anos da morte do poeta.

Foi na semana passada, que pude ver o filme de Sylvio Back :
"CRUZ E SOUSA O POETA DO DESTERRO".
Quem produziu uma obra tal qual o catarinense Cruz e Sousa, é imortal.
Entretanto, apesar de sua universalidade, o poeta não é fácil de ser traduzido. Os outros idiomas são pobres para dizer os versos do simbolista brasileiro. Quem sabe Teilhard de Chardin, Antoine de Saint- Exupéry ... o primeiro pela ânsia da transpessoalidade, o desejo de ascender em rota de convergência e o segundo pela capacidade de pilotar, embrenhar-se nas alturas e fazer com que príncipes conversassem com raposas...
Sylvio Back fez a mágica. Back fez a arte .O filme está longe de ser o tipo comercial, é sim para estar em destaque nas universidades de qualquer país ou, onde se ensine/aprenda arte.
O cineasta blumenauense foi grande tradutor reinventando na imagética forma, o que era verso. O filme sobre Cruz e Sousa é por certo O GRANDE POEMA DE SYLVIO BACK.
É preciso conhecer-se o verso aos 16, e ver várias vezes o filme, após os 18. A paixão geralmente é na adolescência.
É da experiência entretanto, que se extrai a fruição, com o coração alado.
Quem sabe em outro dia eu conte alguma das leituras que fiz da fita. Obra que Sylvio Back conseguiu tão bem cinepoetisar o que antes era arte literária. A música em apurado tratamento foi trabalhada pela maestrina Silvia Beraldo, referência respeitável. A atriz Maria Ceiça faz Gavita a esposa do poeta. O filme inclui na equipe atores como Léa Garcia, Danielle Ornelas e Guilherme Weber, dentre outros.
Garanto que o Cisne negro de algum lugar onde está, sorriu de felicidade, quando "viu" o filme, conforme sorria o ator Kadu Carneiro nas cenas finais. E, em muitos cantos do mundo os milhões de confrades do
"Pacto de Almas" disseram, dizem e dirão:


"Ah! para sempre! para sempre! Agora
não nos separaremos nem um dia...
Nunca mais, nunca mais, nesta harmonia
das nossas almas de divina aurora".
(...)
Cá nesta humana e trágica miséria,
Nesses surdos abismos assassinos
Teremos de colher de atros destinos
A flor apodrecida e deletérea

O baixo mundo que troveja e brama
Só nos mostra a caveira e só a lama,
Ah! só a lama e movimentos lassos...

Mas as almas irmãs almas perfeitas,
Hão de trocar, nas Regiões eleitas,
Largos, profundos, imortais abraços!"


(do livro ÚLTIMOS SONETOS- Cruz e Sousa)

 


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