SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

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Editorial

A ILHA: MAIS LITERATURA

E o Grupo Literário A ILHA e as Edições A ILHA chegam com mais uma edição da sua revista SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA, desta vez a de número 102. Com mais escritores em suas páginas, com mais crônicas, contos, poemas. Com mais informação.
Com mais conteúdo. Depois de aumentar suas páginas de 12 para 16 e de 16 para vinte, novas adesões ao grupo vieram acrescentar mais idéias, diferentes estilos, novas cores aos textos aqui publicados.
Nesta edição, além dos muitos assuntos abordados em diferentes textos e diferentes gêneros, temos uma homenagem à escritora Urda Alice Klueger, outra homenagem à escritora Aracely Braz, a história do nascimento da Confraria de Quintana e uma crônica e um poema em homenagem ao Dia da Criança, em outrubro: “Construtores do Futuro” e “Chama”.
Boa leitura. E contatem conosco para dar sua opinião, sua sugestão.

 

TRAVESSIA

Aracely Braz

Ao banco da praça retorno
E saudosa rememoro
Nós, poetas, reunidos,
Em nossos encontros mensais
Com os varais de poesia
No aconchego caloroso
Dos caminhantes da praça
Extravasando alegria
Em concorridos recitais.
E os transeuntes a procurar
Nossos livros e cartazes;
E o balé das palmeiras
Vizinho a assistir tudo,
Convidava e aplaudia.
O berço que me embalou
E os amigos que fiz
São marco da travessia
Que não tem volta,
Só nas lembranças que guardei

 

 

NASCEU A CONFRARIA DE QUINTANA

Por Luiz Carlos Amorim

Em meados de 2006, quando comecei a organizar uma edição especial do Suplemento Literário A ILHA exclusivamente sobre Mário Quintana, em comemoração ao centenário de nascimento do poeta, a minha amiga Fátima de Laguna, para quem eu havia pedido um texto para a revista, propôs que pensássemos na criação de uma Confraria de Quintana. A idéia era reunir os escritores que também eram leitores e admiradores do grande poeta, que na época estaria completando cem anos de vida. Disse a ela que era um projeto que tínhamos que levar adiante, que juntar escritores/leitores quintanianos para apreciar e discutir a sua obra, escrever sobre ela, divulgá-la, seria ótimo.
A revista Suplemento Literário A ILHA saiu, em julho de 2006, com vinte e oito páginas e textos de vários escritores apaixonados pelo Menino Quintana, mas a Confraria tinha ficado em suspenso, embora o grande número de pessoas que publicaram seus textos em homenagem ao poeta já deixasse ver que havia um bom número de prováveis adeptos.As comemorações do centenário do poeta aconteceram por todo o Brasil, homenagens merecidas se sucederam e o ano de 2006 passou. Quase um ano depois, Fátima não tinha esquecido a Confraria e voltou à carga com determinação: idealizou a revista Mirandum, fez uma seleção de textos para o conteúdo da primeira edição, alguns tendo como tema o poeta. E editamos a revista – estava criada a Confraria de Quintana.
O número dois da revista Mirandum está sendo lançado e não se trata simplesmente da revista de um grupo literário. É o registro de textos de pessoas que lêem o grande poeta Quintana, que reconhecem a obra grandiosa que ele nos legou e se unem para manter vivo e cada vez mais conhecido esse legado.
Os amantes da prosa e da poesia de Quintana, o mágico artista construtor de emoções, que quiserem se juntar a nós, que escreveram sobre o poeta e sobre a sua obra, contatem conosco para fazerem parte de Confraria: fbarreto@bizz.com.br e lc.amorim@ig.com.br .

 

CHAMA

Luiz Carlos Amorim


Um menino

cruzou o meu caminho.

Despido de tudo,

até quase de vida,

restava-lhe, apenas,

no fundo dos olhos,

uma chama pequena,

quase apagada,

de pura inocência.

Dei-lhe um sorriso,

velho e surrado

de esmola

e fui procurar

a minha chama

perdida...

 

PREFERÊNCIAS

Por Célia Biscaia Veiga

Um dia desses conversava com um colega de trabalho e comentávamos a chegada da frente fria da semana passada. E ele disse uma coisa que ficou martelando na minha cabeça:
– O que me preocupa com a chegada do tempo frio, são essas pessoas que não têm agasalhos, que sofrem e adoecem por não ter como se proteger. Pra gente que tem casacos para escolher, não faz diferença, mas para eles faz. Por isso prefiro o verão.
Fiquei pensando muito naquilo que ele falou, pois eu egoisticamente prefiro o tempo frio. Digo egoisticamente, porque com o calor eu me sinto mal, não consigo dormir direito, e fico literalmente dormindo em pé durante o dia (quem me conhece, sabe disso). Nasci em uma cidade de clima frio, onde estudando pela manhã ia pisando no chão coberto de geada, os campos branquinhos, aquele frio que atravessava a sola do sapato, as duas meias de lã, e congelava os dedos dos pés. O vento deixava os lábios ressecados e partidos, os nós dos dedos das mãos endureciam e a pele rachava.
Mesmo no verão, depois dos dias de sol quente, a noite sempre trazia uma brisa fresquinha, que pedia um casaquinho leve para quem fosse estudar à noite. Mas eu gostava de lá, de tomar café ao lado do fogão de lenha que aquecia toda a cozinha, da sopa quentinha à noite, com o tempero do carinho da minha mãe, aquele caldo que descia aquecendo até a alma...
Desde que cheguei a Joinville, nunca mais senti um frio como esse, por isso, prefiro o inverno daqui ao verão, pois no frio meu trabalho rende mais, eu durmo melhor e tenho mais pique para tudo.
Não que eu nunca tivesse pensado nos que passam frio, todos os anos temos campanha do agasalho para lembrar-nos e temos olhos para ver a triste realidade de muitas pessoas, mas a forma como meu colega colocou, me fez repensar a minha forma de ver a situação.
Não é uma mera questão de preferência o gostar deste ou daquele tipo de clima, de escolher qual casaco combina melhor com qual calça, mas é o alerta da consciência para a necessidade de se fazer algo mais por aqueles que não tem como ter preferências.

 

 

RECORDAÇÕES DO FUTURO

Teresinka Pereira(USA)

Enquanto re-invento minhas lembranças
o tempo elimina o passado
e urge presteza com centelhas
de sonhos, sem moderar minha ambição.

Chego à tua antropológica astrologia
e exijo minha influência
de escorpiona sobre teus inocentes
arroubos de angústia e fraqueza.

Logo florescerão os jardins
E nos olhos terei as exatas
Capacidades para sonhar.

 

 

A CHUVA É O SANGUE DA TERRA

Por Viegas Fernandes da Costa

“A chuva é o sangue da terra!”, foi esta a resposta que ouvi daquela boca enrugada e desprovida de dentes, emoldurada no rosto daquele camponês do pó e do suor, cujas mãos, afeitas à enxada, jamais seguraram um lápis. O homem parecia ter se desprendido das páginas de “Vidas Secas” - mestre Graciliano Ramos, pudeste vê-lo também? - , e encarava a câmera com aquela timidez típica de quem passa os dias curvado sob o céu limpo, de parcas e acanhadas nuvens, o lombo açoitado pelo Sol. Respondia à pergunta do repórter, acho que do “Fantástico”, que apresentava matéria sobre a seca no Nordeste. Quem me relembra o fato é o Ernesto. Reportagem antiga, de mais de dez anos, acho. Um poeta, certamente; quiçá conhecera Patativa do Assaré!”A chuva é o sangue da terra!”, este é o poema que brota dos olhos, do solo gretado, da seiva dos cactos. Poema doído. Porque... O poema, o que é? Lembro-me da resposta de Iberê Camargo quando questionaram-lhe sobre o porquê da sua pintura: “pinto porque a vida dói”. Ernesto se entusiasma e cita em tom solene: “e a minha poesia é natural e simples como a água bebida na concha da mão”, do velho Quintana que escuta e aplaude sentado sobre a cúpula do antigo Hotel Majestic, a rua da Praia (“sinto saudades!”) estende-se sob seus olhos. Ernesto agradece os aplausos e se inclina em reverência ao mestre. Quintana, branco como farinha de trigo, contribui: “lembra-te, ... talvez a poesia não passe de um gênero de crônica, apenas: uma espécie de crônica da eternidade”. Definir a poesia? É isto amigos, amigas, apesar do título, não quero falar da seca, pelo menos não daquela que grassa em nosso Nordeste ou no deserto de Ogaden, não, provoca-me a vontade de falar de poesia, ou, pelo menos tentar... titubear... ... porque procuro poemas sob as pedras, pesadas e imóveis e os encontro no céu e nos olhos que vislumbram o infinito... Neruda narra que em sua infância trajava-se de preto, como deveriam trajar-se os poetas. Acho que mais tarde percebeu que poetas não se vestem, despem-se! Despidos como o camponês que fala acima, sua pena é a enxada, seus versos são os sulcos de esperança traçados na página da terra. Telúrico poema que não assina, pois sabe, a poesia não lhe pertence. Se poema é crônica, como afirma Quintana lá do alto do Majestic, o melhor poema é o instante que se perde no tempo, mas que se preserva nas “retinas fatigadas” (as de Drummond volveram ao pó e podem ser agora uma pedra no caminho ou o vento que as apaga, sei lá...) ou nos lábios que venceram o medo e arrancaram um beijo escrevendo assim o opúsculo dos ósculos. Por isso Ernesto escora mesas com livros, grandes volumes de versos. Faz o teste: a mesa deve balançar, ficar desnivelada, torta. Se firme, despótica ante as imperfeições do piso, os versos que a escoram não são poesia, já que entende que o poema, ao escorar o mundo, deve entortá-lo ainda mais. Coisas do Ernesto que desconfia de todo aquele que se apresenta como poeta, que se veste de preto e faz noite de autógrafos em clube social. Prefere ouvir a poesia que emana das vozes da rua, dos gritos das feiras, do silente do templo. Ontem mesmo flagrei-o discutindo sonetos com um tomate. Ficou irritado, arrancou o fruto, picou-o na cozinha e comeu seu interlocutor. Aprendi que discutir poesia com o Ernesto pode ser perigoso, e por isso me calo.

 

 

TEMPESTIVAS INQUIRIÇÕES

Joel Rogério Furtado

Em nome de que Rei sem paz
terás assumido?

Para satisfazer a quem
não vieste mais
ao lugar tão querido?

Por que não vieste mais
suspirar à janela
e alimentar os pássaros?

Sob a influência de que Rei
imposto
e deposto
resolveste ir para longe
e não voltar à origem?

Em nome de que fantasma bom
tiveste um súbito acesso
de coerência
e honestidade
impostas?

Desde agora?
Desde ontem?
Desde sempre?

Já não vês que tantos outubros já se foram?
Que tantos setembros já retornaram?
Que tantos outonos já rolaram?
Mas não para nós?

 

A TELA VIVA DE ARACELY BRAZ

Por Luiz Carlos Amorim

A tela viva de Aracely Braz, essa poeta persistente e produtiva, é muito colorida e expressiva. Ela é pintada com sensibilidade e emoção, com experiência e sabedoria. Os quadros de Aracely, suas obras-primas, são os seus poemas, muitos deles já reunidos em dois livros: “Pedaços de Mim” e “Eureka”. Mas já vai um bom tempo que a poeta não tinha publicado nenhuma obra solo, embora continuasse produzindo sem parar: lá se vão mais de dez anos. Então estava mais do que na hora de termos a poesia de Aracely em livro e esse volume da Coleção Poesia Viva das Edições A ILHA vem homenagear essa pessoa humana maravilhosa, com uma seleção dos seus melhores poemas escritos na última década.
Os versos dessa poeta são a semente da poesia, que brota viçosa e se espalha, tomando conta dos canteiros. Uma poesia densa, lúcida, mas ao mesmo tempo delicada, sensível e romântica. As figuras, inspiradas, os temas, abordados com segurança e sensibilidade, fluindo por todos os poros da sua poesia e da sua alma nos dão a conhecer a poeta que é Aracely Braz, poeta com P maiúsculo. A emoção que imprime no seu discurso poético evidencia uma cosmovisão apurada, cúmplice de uma juventude perene que não a abandona. O amor resistindo a tudo com a singeleza da emoção verdadeira, o sentimento à flor da pele, a vida pulsando forte são as características mais marcantes da poesia de Aracely.
Essa jovem de mais de setenta anos merece essa homenagem, por sua participação ativa no desenvolvimento da cultura em seu meio-ambiente, na sua cidade, no seu estado. Ela é, sem dúvida, um grande exemplo para muito jovem que não tem um terço da idade dela e não faz nem metade do que ela faz.
Aracely é incansável e o seu fazer poético se renova a cada dia. Ela está sempre anotando alguma nova idéia, trabalhando algum poema que foi anotado mas não foi acabado, recitando um poema novo ou enviando para ser publicado.
Estava faltando um livro novo de Aracely, não está faltando mais: “Tela Viva” existe, e já está circulando nas mãos e no coração dos leitores.

 

 

FUTURO

Carmen Lopes Braga

Sou o jovem de hoje,
indolente, descrente.
Compulsivo ao consumismo,
às coisas fáceis e descartáveis.
Do passado não me lembro,
não o vivi, só o reconheci.

Nas histórias, porta-retratos
amarelados, desgastados
como o papo,
que outrora fora a glória!
Por que reivindicaram tantas mudanças,
desequilibradas, apressadas,
como um chip de computador?

Desfizeram tudo, tornaram nulo
o que era puro como uma flor!
Agora, cobram-me posições,
declarações, observações
que não consigo registrar
em minha memória.

Sou o jovem de hoje,
Preparado para o aqui, o agora,
sem a perseverança,
a herança de direito
de todas as crianças.
Cresci em um meio confuso, obtuso,
Silencioso para as grandes afeições.

Como posso agora,
envolto em meus próprios medos,
distribuir confiança, aliança
à toda uma sociedade
que anulou a sua obra-prima:
o amor às próximas gerações?

Sou o jovem de hoje,
presente neste mundo
onde sinto falta
da sinceridade, do amor
do calor humano entre as pessoas.
Trocado pelo prazer de só atender
ao seu modelo virtual, impessoal de ser.

 

 

A MINHA ALDEIA

Por Norma Bruno

A aldeia é, desde os primórdios, referência de descanso e abrigo. Nasceu como uma paisagem que convidava ao repouso, quer o caminhante precisasse recuperar suas forças, aguardar um clima mais favorável à caminhada ou permitir-se um tempo de reflexão para a escolha entre dois caminhos confluentes. As necessidades humanas de nutrição e conforto faziam florescer um comércio rudimentar que gerava trabalho e acabava por atrair um maior número de pessoas. Nascia, assim, uma cidade.
A aldeia continua viva em mim. Ela é qualquer lugar onde eu tenha a sensação de largar o fardo, sentar à sombra e beber um pouco de água fresca. É o lugar onde me sinto protegida e encontro as pessoas que apesar de peregrinos de seus próprios caminhos, partilham comigo o mesmo espaço e o mesmo fragmento do tempo.
Ao pensar nisso, e sem que eu perceba, me chegam lembranças de aconchego, nutrição e amparo disfarçadas de goiabeiras e caquizeiros, cheiro de mar e entardeceres preguiçosos. Lembro um lugar feito de risos e confiança, de uma casa antiga e um tempo em que o maior problema era inventar a próxima brincadeira. Sou invadida por aquela paisagem.
O que me permite dizer sou daqui, pertenço a este lugar, faço parte desta gente é um profundo senso de identificação, emoção que se constrói na aldeia. Pode ser uma casa, uma rua, uma cidade, um caquizeiro ou o peito da pessoa amada; aldeia é qualquer lugar para onde se queira voltar porque é, em essência, o lugar da saudade. É tudo aquilo que me inspira amorosidade e onde, envolvida pela emoção de pertencimento, eu sei quem sou. Fernando Pessoa traduziu assim esta emoção... “O Tejo é mais belo que o rio da minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
... poucos sabem qual é o rio da minha aldeia.
E para onde ele vai
E donde ele vem...” Eu também não sei para onde vai o mar que banha a minha aldeia, mas aonde quer que vá, ele me leva em suas águas, e de onde quer que venha, ele sempre me trará de volta. Às vezes o sonho da gente fica maior do que o lugar e então é chegada a hora de ir. É preciso ter o olhar repleto de paisagens para se conhecer a saudade, porque saudade é vontade de voltar e só aprende a voltar quem aprendeu a partir.
Eu sei de onde sou. Sou deste lugar. É apenas “um pedacinho de terra, perdido no mar”, mas é mais belo que o Tejo porque aqui fica o mar que banha a minha aldeia.
E por falar nisso, a tua aldeia... onde fica?

 

 

ANDAM DIZENDO...

Irene Serra

(Editora do RioTotal-www.riototal.com.br)


Andam dizendo por aí, senhor,
Que nós dois nos amamos... Mas, que gente!
Parece amor esta afeição nascente
Só por que aumenta sempre seu fervor?

O amor se mostra no falar tremente,
No lábio que murmura e se descora.
Eu nada sinto! E a sua voz canora
Não titubeia quando me pressente.

Deixemos, pois, que o mundo inteiro fale
Do nosso modo excêntrico, esquisito,
Porque é impossível mesmo que se cale.

Porém, neguemos quando for contado!
Não se esqueça que o sonho mais bonito
É sempre o que se nega ter sonhado...

 

SOBRE LIVROS GROSSOS

Por Urda Alice Klueger

Eu sou uma escritora que ainda tem a felicidade de ter público. Tenho leitores fiéis em muitos lugares, por todo o Estado de Santa Catarina e fora dele e, às vezes, até fora do Brasil. Meus leitores são daqueles que procuram minhas obras, que as lêem e as discutem, que até escrevem cartas para mim. Acho que isto é uma felicidade, e nunca deixei de me sentir surpresa com a receptividade que os meus livros encontram. Pro meu lado, as coisas sempre foram de vento em popa... até que publiquei um romance chamado “Cruzeiros do Sul”. Eu ocupei três anos e meio da minha vida a pesquisar e a escrever “Cruzeiros do Sul”. O livro é um grande painel sobre a formação do povo catarinense, escrito em forma de romance, e tem todos os atrativos: capa lindíssima, orelha bem feita, impressão primorosa, mas também tem uma coisa assustadora: 480 páginas. Não dá para disfarçar, é um livro grosso, e depois que ele saiu é que entendi que as pessoas têm medo de livros grossos. Contadora de histórias que sou, acho que a melhor história que já escrevi foi “Cruzeiros do Sul” – a mais bem elaborada, a mais pesquisada, a mais trabalhada. Infelizmente, as 480 páginas do livro afastam grande parte dos meus leitores, assusta-os terrivelmente. Não digo que o livro não esteja sendo lido: pessoas da maior finura intelectual tem-no feito, têm-se manifestado a respeito, tenho ouvido boas críticas a granel – mas fica bem evidente que o leitor de “Cruzeiros do Sul” é um leitor especial, um leitor com cultivo intelectual, um leitor habituado à leitura, não importa a grossura do livro. O leitor comum se afasta: ele quer coisas recreativas, que possam ser lidas rapidamente, e por nada deste mundo vai se dar ao trabalho de ler uma coisa monstruosa assim, com um total de 480 páginas. Será que o leitor brasileiro dos tempos de Stefan Zweig (segundo ele, o brasileiro daquela época, a da segunda guerra mundial, era um povo que gostava de ler. Cita o famoso alemão como o povo brasileiro andava, quase sempre, de livro, revista ou jornal na mão, a ler em praças, bondes e trens, atualizado com as noticias, a discuti-las entre si) era diferente? Será que também temia o livro pela grossura? Creio que não. Naquela época, no Brasil, era moda ler-se “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, e “O tempo e o Vento” de Érico Veríssimo, entre outros. São livros grossos, que o brasileiro lia e discutia. Quem, dentre os nossos leitores contemporâneos, não tem medo de livros do tamanho de “Os Sertões”? Poucos, muito poucos, hoje, se atrevem a livros de tal tamanho, não importa a riqueza que encerrem. Eu, pessoalmente, convivo habitualmente com todo um grupo de jovens intelectuais que têm uma atitude bastante desconfiada quanto a livros que pareçam muito grossos, mesmo que sejam clássicos. Assim, sobram para livros como o meu “Cruzeiros do Sul” apenas os leitores de grande preparo intelectual. Que se vai fazer? Os tempos mudaram, e o homem passou a ser um ser que vive com mais rapidez e já não tem tempo para livros grossos. O azar é dos escritores que não sabem escrever menos páginas.

 

 

LEMBRANÇAS

Else Sant´Anna Brum

Da varanda dos meus olhos
Procuro ver onde estás.
Será que estás numa estrela?
Será na brisa que passa?
Será na luz do luar?

Quisera eu encontrar-te
Para contar muitas coisas.
Para te dar um abraço
Para falar da saudade
Que ficou em teu lugar!

Às vezes parece sonho
Mas preciso te dizer:
Da varanda dos meus olhos
Ao reviver as lembranças
Eu consigo te encontrar!

 

 

A HUMANISTA URDA ALICE KLUEGER

Por Maria de Fátima Barreto Michels

Na BR 101 município de Paulo Lopes, há lugares para se fazer um lanche restaurador, tomando uns dois copos de café para acordar do marasmo que é ficar preso dentro do carro. Voltávamos do norte. Fôramos participar do lançamento de mais um livro de uma escritora catarinense. Após o que nos serviu de almoço na lanchonete, íamos em direção ao carro, quando avistamos dois cães que descansavam da viagem.
O macho, um beagle de um ano, aguardava a garrafa de água para beber. Sancho Pança não consegue beber em outro recipiente que não seja na boca da garrafa segurada por seu dono na inclinação certa, à altura de sua boca. Anita, de 3 meses, uma encantadora bull mastiff bebia meio deitada com a barriga na grama à sombra da árvore, na vasilha de barro onde água pura lhe fora servida.
Tenho verdadeira paixão por cães.
Tivemos o casal de boxers Fido e Charlot que nos deram muitos momentos de alegria.
Ver Charlot morta na clínica, vitimada por um tétano, foi minha exata noção do que é a vida.
Vida é presença de movimento, de som. Vida é a ludicidade de um cão. Vida é paixão.
Assim como eram apaixonantes Anita e Sancho Pança. Seus donos, um rapaz e uma moça, escolheram os nomes Anita em homenagem a Anita Garibaldi e Sancho Pança em homenagem ao amigo de D. Quixote.
O casal não era lagunense e eu, conterrânea de Anita, logo me aproximei da bebezona cadela que fazia festinha refrescando-se bem espalhada ao solo.
Fiquei olhando aquela cara meio franzida da raça de Anita. Fiquei pensando o quanto certos seres podiam deixar-me tão fascinada do modo que os cães me deixam... parece que eu queria ser cachorro para conversar com eles.
Despedimo-nos, embarcamos no carro e recomecei a analise que vinha fazendo da escritora.
Já li algumas obras dessa autora. Já li parte de sua biografia.
Enquanto pensava no quanto aquele casal amava Sancho Pança e Anita, e o quanto eu e meu marido amáramos Fido e Charlot e nos dedicáramos totalmente a eles, enquanto nossa filha ainda não nascera, enquanto isso, a escritora Urda se apaixonara pelos povos sofridos de sua cidade, de seu estado, da Sul América e até de africanos, iraquianos, de palestinos...
Voltei no tempo e fiquei analisando tudo o que ouvira e lera das opiniões de e sobre Urda.
Trata-se de uma cientista social, mas não exatamente uma teórica.
É uma escritora de romances históricos. Urda é uma cronista. Foi bancária. Possui uma editora. Batalha muito para manter-se num mercado cada vez mais competitivo que é o editorial.
Ela publica livros impressos, contos e crônicas, em jornais impressos e virtuais.
Viaja sempre que pode. Graduou-se, pós-graduou-se e continua sempre estudando.
Lá no lançamento de “Encontro com a Infância”, estive observando o quanto era diversificado o público que a prestigiava. Havia universitários, crianças, amigos, escritores, profissionais liberais, professores universitários e até a dona do restaurante (local escolhido para a noite de autógrafos) era sua grande fã e leitora. Estavam presentes membros dos Movimentos Sociais e do MST. Intelectuais e povão. Pensei muito no que vira e ouvira por lá. Fiz um retrospecto do que observei nesta mulher tão sem tempo para nada que não esteja ligado ao movimento em direção à vida e à dignidade das pessoas que se sentem injustiçadas. Tudo o que eu e os donos de Sancho Pança e Anita queríamos de melhor para nossos cães a Urda quer para os que não tem casa, nem paz, nem dignidade, nem comida, nem terra, nem identidade, nem vez. Concluí que essa mulher só faz literatura como passatempo. Só faz arqueologia como curiosidade. Só estuda e viaja para comprovar sua tese de que a vida só vale a pena quando todos a desfrutam. Em entrevista, Mercedes Sosa disse, certa vez: “ a paz é comermos todos juntos”. Que sabedoria, Mercedes, se fizéssemos todos juntos uma Misa Criolla e repartíssemos o pão... Ela, a Urda é tida como uma grande encrenqueira. Uma briguenta. Ela é de fato. Mas, tudo que de fato ela é, está como rastro, pegadas apenas, de sua vocação/caminho. Compreendi que trata-se de uma humanista. Quem não quiser ser atropelado saia da frente pois ela vai com pressa, e se pudesse, tiraria da forca muita gente. Urda Alice Klueger é, até a medula, uma HUMANISTA.

 

 

O RECOMEÇO

Silvério Ribeiro da Costa

Quando o mundo
deixar de ser mundo,
restará a escuridão
e do silêncio a benesse,
à espera que a natureza
faça a sua parte
e tudo recomece!

 

O HOMEM QUE PRONOMINAVA

Conto de Maicon Tenfen

De todas as manias de Telorêncio Catanduva de Aguiar, nenhuma se igualava à sua obsessão pelos pronomes e pela correção gramatical. Os colegas de trabalho o consideravam um chato de polainas e abotoaduras (sim, Telorêncio as usava!), pois a ele não bastava se exibir com a próclise, a mesóclise e a ênclise: sem modéstia e sem constrangimento, distribuía lições gramaticais aonde quer que fosse. Gostava de corrigir os outros em público, pegava no pé de todo mundo, inclusive dos mortos, sequer poupava Vinícius e Jobim:
— “Eu sei que eu vou te amar”, que vergonha! Espanta-me que tal composição seja apontada como um clássico da música popular brasileira.
— Mas por quê, homem de Deus?
— Ora, por quê! Concentra-te na colocação do pronome e verás. Não pode ser “eu sei que eu vou te amar”. Deve ser “eu sei que te vou amar” ou então “eu sei que vou amar-te”.
— Vou a Marte? Xi, Telorêncio, isso tá me cheirando a viagem espacial, viu?
Além dessa sua mania dos pronomes e da segunda pessoa do discurso, não perdia a oportunidade de flexionar os plurais com sua empáfia de fidalgo, nem mesmo quando se encontrava em algum boteco da periferia:
— Dá-me duas xicarazinhas de café, por obséquio.
— Cumé que é?
— E dá-me também duas colherezinhas, sim?
— Que papo é esse, meu?
— Conceder-te-ia todas as explicações, meu bom jovem, se tempo houvesse. Mas tempo não há, e é pena. Preciso alimentar-me e ir-me logo daqui.
— Olha o respeito, rapá! Tá me estranhando, pô? Acha que eu tenho cara de boiola, é?
Certa vez foi assaltado na rua. Um moleque surrupiou sua carteira e saiu à toda. Desesperado, Telorêncio também começou correr e gritar:
— Peguem-no! Detenham-no! Impeçam-no de fugir!
O vulgar “pega ladrão!” teria funcionado melhor. Os verbos bem pronunciados e ainda por cima enclíticos deixaram o guardinha que passava em dúvida sobre o que realmente estava acontecendo. Riu em vez de deter o meliante.
Um dia Telorêncio ouviu dizer que a Mirtes, uma das meninas do tele-marketing (Arght!, como ele odiava esses anglicismos desnecessários!) adorava poesia. Não perdeu tempo e se aproximou da moça para confirmar:
— É verdade, Seu Telorêncio, a poesia é tudo na minha vida. Principalmente a do Amado Batista, a do Bruno e Marrone, a do Zezé di Camargo e Luciano.
— Como?
— As letras das músicas deles, Seu Telorêncio! Não são verdadeiras poesias?
Era o fim. O mundo estava mesmo perdido. Telorêncio foi ficando cada vez mais acuado e desgostoso. Simplesmente não conseguia se adaptar à ignorância das pessoas.
Para usar uma sintaxe de colocação cara à sua personalidade, vamos dizer que as forças iam-se-lhe findando sem tréguas ou piedade. Envolto por uma profunda depressão, cometeu o erro de imaginar um paraíso cheio de anjinhos que se expressavam num português castiço e lindamente gramatical.
Se matou. Perdão: matou-se! “Matou-se a si mesmo suicidando-se a si próprio”, como fizeram questão de redundar, aliviados, seus colegas de trabalho.
Deixou um bilhete:
“Adeus, mundo cruel! Não me devo resignar diante de tua parvoíce. Deixo-te pela porta dos fundos, mas de cabeça altaneira.”
Incorrigível? Sê-lo até o fim, eis o lema de Telorêncio.

 

MUSA INSPIRADORA

Wilson Gelbcke

Palavras soltas ao vento
buscam se encontrar...
Em prosa e verso,
toque de encantamento,
palavras se unem,
se completam,
para amor declarar!
Nenhuma magia ou dosagem,
poção milagrosa sequer...
Em prosa e verso,
toque de emoção e coragem,
palavras se unem,
se completam,
o milagre é mulher!
Musa que sussurra
vocábulos de inspsiração...
Em prosa e verso,
toque de amor e ternura,
palavras se unem,
se completam,
fala o coração!

 

 

CONTRUTORES DO FUTURO

Por Luiz Carlos Amorim

Fui convidado, recentemente, para falar sobre poesia e literatura para turmas de quinta à oitava séries numa grande escola de Joinville. Não fazia isso há um bom tempo, desde que nos mudamos do norte de Santa Catarina. Lá fazíamos muitas palestras, a pedido das escolas e eram realizados muitos encontros com alunos, onde conversávamos, declamávamos, conquistávamos mais leitores em formação para a poesia e descobríamos gente boa que escrevia.
De maneira que o Projeto Poesia em Cena que os professores do ensino fundamental da Escola Técnica Tupy veio em boa hora e foi muito bom conversar com muitos pequenos leitores mais uma vez, como já fizemos tantas vezes. Digo muitos pequenos leitores porque havia um teatro lotado deles, estudantes de dez a quatorze anos, curiosos, participantes e ansiosos por fazer a sua pergunta.
Ficamos mais de uma hora conversando e não precisei dar discurso para a platéia, pois tudo o que falei foi em resposta a questionamentos feitos pelos alunos presentes, que já tinham conhecido minha obra na sala de aula e na biblioteca e também pela Internet.
Foi muito gratificante ver o interesse daqueles meninos e meninas, alguns adolescentes, outros entrando na adolescência, por leitura, por poesia, por literatura, pelo processo de criação do escritor, pela processo de publicação da obra escrita, pela divulgação da obra acabada.
Mas o que me chamou mais a atenção e foi uma grata surpresa, foi a preocupação destes jovens leitores pelo futuro da vida neste mundo conturbado de hoje e pela preservação da natureza, que implica, também, num futuro melhor.
Eles mostraram interesse pela sustentabilidade do nosso planeta e preocupação pela educação que nós, adultos, estamos dando as nossas crianças hoje, crianças que serão os governantes amanhã e, conseqüentemente, aqueles que terão a responsabilidade de responder pelo futuro.
Eles têm consciência da carga que lhes está sendo atribuída e talvez a sintam muito pesada, mas deram a entender que se forem orientados adequadamente, serão capazes de assumir.
Muitos adultos de hoje não têm essa consciência, essa capacidade de enxergar mais adiante. Muitos conseguem enxergar somente o lucro imediato em favor próprio e não se preocupam se o que estão fazendo está causando prejuízo ao meio ambiente e ao ser humano, não querem ver as conseqüências que podem e fatalmente advirão.
Crianças, adolescentes como esses mostram que há um luz no fim do túnel.
Eu me congratulo com elas. E tenho confiança nelas e nos professores que vêm fazendo um excelente trabalho com elas. Que sirvam de exemplo, pois essa é a esperança de que o mundo possa ser melhor amanhã.

 

UM POEMA SIMPLES

Belvedere Bruno

Amanhece. Debruçada
à janela ,vejo o movimento
dos pescadores.
Há contagiante energia.
A monotonia, se passa,
não encontra onde estacionar.
Por alguns minutos,
sonho pertencer
a tão vibrante universo.
Integro-me, desatando os nós
que me prendiam
à opacidade dos meus dias.

 

 

MG domina final do Prêmio Jabuti

A Câmara Brasileira do Livro anunciou , no dia 21 de agosto, os vencedores da 49a. edição do Prêmio Jabuti. O ganhador da categoria romance foi o mineiro Carlos Nascimento Silva, com o livro “Desengano” (editora Agir). O melhor livro de poesia ficou com outro mineiro, Affonso Ávila, pela obra “Cantigas do Falso Afonso, o Sábio” (Ateliê).
Na categoria contos e crônicas, o júri escolheu “Resmungos” (Imprensa Oficial de São Paulo), coletânea de textos publicados semanalmente pelo poeta Ferreira Gullar no jornal “Folha de S. Paulo”.
Os prêmios serão entregues em 31 de outubro, quando serão também anunciados os vencedores dos livros de melhor ficção e não-ficção.

 

 

PASSION

Luiz Carlos Amorim

Like my heart
spreading star drops
on paper, poetry,
my daring fingers,
go over your skin,
following just one way:
the way of passion.

(tradução de Teresinka Pereira)

 

O CLUBE DA MORTE VOLUNTÁRIA

Conto de Carlos Henrique Schroeder

Às quatro e dez as portas eram trancadas. Os senhores sentavam-se em suas cadeiras estofadas e a sessão iniciava com seu habitual discurso:
– Boa tarde. Iniciamos mais um encontro do Clube da Morte Voluntária. Hoje, tenho a honra de mostrar uma fita da penitenciária estadual do Texas com várias execuções as quais ainda não praticamos. Gostaria ainda de sugerir a compra de uma máquina de gás e uma cadeira elétrica... Poderíamos comprar secretamente no mercado negro e assim daríamos mais ênfase e qualidade a nosso propósito. Agora, assistamos ao filme.
Salva de palmas. Luzes apagadas. A fita exibia várias execuções. Alegres comentários na platéia.
Após a exibição, votaram pela aquisição da máquina de gás e deixaram a cadeira elétrica, de valor mais elevado, para o fim do ano.
Apagaram a luz novamente, acenderam as tochas que circundavam a mesa e iniciaram a discussão mais importante da reunião: a morte do dia.
Discutiram o modo de execução: uns queriam que fosse por uma injeção de ar na artéria, outros, um copo de cianureto. Sugeriram também enforcamento e estrangulamento. Hamller, o presidente do clube, sugeriu uma facada certeira no coração. Foi aplaudido.
Os executores eram sempre o Dr.Yves Droitter, médico finlandês radicado no Brasil e o Dr.Carlos Sefretinb, renomado cardiologista da cidade.
Hamller pegou uma caixa de papelão repleta de envelopes e foi passando por todos os sócios. Todos deveriam abrir juntos, quando fosse ordenado.
Os dois médicos trouxeram uma maca, cordas e uma faca cirúrgica.
– Senhores, abram os envelopes no dez. Um, dois, três, quatro.........
Este era o momento que todos adoravam, o coração quase lhes saltava garganta afora.
– Dez.
Um alvoroço e um verdadeiro festival de ufas inundou a sala. Alguns abraçaram-se, outros choraram.
Hamller levantou-se, mostrou o papel escrito que estava dentro de seu envelope: Parabéns! Você vai morrer!
Seguiu para a maca. Nenhum ruído na sala. Alguns até baixaram suas cabeças. Hamller foi amarrado. O finlandês fez um x com caneta hidrocor na camisa do condenado e o cardiologista, de uma só vez, enterrou a faca. Na saída, todos estavam sorridentes: a vida continuava.

 

 

OUSADIA

Jaime Icho Kozak
(Espanha)

Entre a carne amontoada
e a cama disposta,
navego em orações
noturnas de orfeão.

Remonto
combinações de palavras
e vivo em destinos singulares
enquanto
deambulo pelos corpos,
sem perguntar onde começam,
ou finalizam
as respostas.

Viajo sem saber

(Tradução de Teresinka Pereira)

 

 

COLHENDO IMPRESSÕES

Por Enéas Athanázio

(Prefácio para o livro "Borboletas nos Jacatirões")

Considerada gênero leve e, por muito tempo, menor, a crônica literária é, no entanto, das mais exigentes. Tanto é verdade que grandes cronistas nacionais têm sido poucos em comparação com a quantidade de poetas e ficcionistas, por exemplo. Rubem Braga, apontado por muitos como o inventor da crônica brasileira, declarou numa entrevista que seu trabalho na área o deixava algo cansado, obrigando-o a se manter antenado, dia e noite, naquilo que ocorria em seu redor, sob pena de deixar escapar ótimos temas para suas inigualáveis páginas. E de fato, creio que o distraído, o desligado, o avoado não pode ser cronista, salvo que escreva em tom etéreo ou filosófico. É que o cronista clássico se aproveita de coisas às vezes mínimas, como uma lembrança passageira, um fato sem aparente importância, um rápido diálogo captado na rua, qualquer incidente ligeiro, palavras, sons, impressões etc., de tudo extraindo seu material de construção. Como costumo dizer, as crônicas são fiapos de vida que o cronista absorve e devolve em forma de palavras. O cronista colhe impressões pelo caminho.
Nesse sentido, LUIZ CARLOS AMORIM é um cronista típico, produzindo de maneira incansável e contínua as mais variadas e curiosas páginas que suas antenas captaram ao longo destes anos. Este livro, agora lançado, é uma prova, revelando na sua diversidade quanto ele colheu em suas andanças terrenas nestes últimos tempos, com sensibilidade aguçada e sentimento sincero diante de situações tantas vezes absurdas engendradas pela realidade. Aqui ele se volta para a infância, própria e alheia, revivendo momentos inesquecíveis; recorda a vida em família, no aconchego da casa e no convívio fraterno; desenha em palavras a natureza que o cerca, sempre tocado pela paisagem, o sol radiante, o céu azul, o verdor das árvores, a beleza das flores, o som das cachoeiras da terra natal; o espírito natalino, outra constante em seus escritos; a nostalgia dos grandes momentos; a esperança imorredoura em dias melhores; a admiração pelos “monstros sagrados” que todos temos; um volver de olhos para a própria trajetória de homem e escritor, o trabalho realizado, os bastidores da literatura, a crítica e a permanente preocupação com a difusão do livro e a cultura em geral, assuntos que têm sido uma quase obsessão nas suas palavras. Tudo isso e muito mais vai o leitor encontrar nestas páginas repletas de vida, idéias e sugestões.
Por tudo isso, é com real satisfação que me coloco neste pórtico, recomendando a leitura deste punhado de crônicas variadas e esmeradas, certo de que o leitor encontrará bons momentos. E também me felicito por estar presente em uma obra que vem enriquecer a estante de nossos cronistas, tão poucos no chão catarinense.

 

 

ENTRADA NO PARAÍSO

Chrissoula Varveri-Varra
(Grécia)

Ultimamente, quando durmo
não sonho com amigos
que já se foram,
parentes que perdi,
sábios que me ensinaram,
meus seres queridos
que me deram sua luz.
Vou rodando pelo céu
respirando o oxigênio da criação.
Não perdi a minha mãe-pátria
porque os jônios ressuscitaram
minha mente divina
levando-me à eternidade.
A morte é para mim
a entrada no Paraíso.

(Tradução de Teresinka Pereira)

 

 

LÁ NO MORRO

Conto de Francisco José Pereira

A manhã de fevereiro é muito quente. Das janelas abertas pendem inertes cortinas. O ar pesado tem efeitos paralisantes. Na baía, em frente, os raios de sol sobre a quietude do mar azul parecem produzir infindas explosões de cintilantes e diminutas estrelas.
O morro é cortado por estreitas transversais. Na primeira transversal, Cidinho caminha na manhã estafante. O movimento lento de seus pés no chão batido, protegidos por leves chinelos, modifica a ensolarada paisagem e desperta um sonolento gato sob a sombra de um velho abacateiro. Cidinho é jovem, em seus dezessete anos.
Há quase dois meses, no horário das doze horas, Cidinho se submete às injeções de estreptomicina, prescritas pelo tisiologista. Dona Neuza, vizinha na segunda transversal, que tem conhecimentos de enfermagem, faz-lhe as aplicações.
Dia sim, dia não, há quase dois meses, esta cena se repete na cozinha de dona Neuza, onde o calor do fogão é mais forte. Num pequeno recipiente, a seringa é escrupulosamente fervida. De uma panela sem tampa o feijão com lingüiça e toicinho, boiando na água fervescente, inunda a cozinha de um cheiro bom. Uma toalha, com manchas de almoços anteriores, cobre a mesa, onde estão dispostos pratos e talheres limpos.
Dona Neuza, de meia-idade, deve ter sido ainda mais bonita quando jovem. No rosto claro, de sorrisos alegres, seus olhos verdes são, no entanto, tristes e sérios.
Sentada em um banco ao lado do fogão, dona Neuza conversa com mansa naturalidade, enquanto a seringa é fervida. Ela fala das coisas do cotidiano e sabe contar, com doméstica graça, os incidentes rotineiros de sua prosaica vida. Cidinho, de olheiras fundas na tez pálida e febril, escuta com um certo encanto.
Enquanto fala, ali sentada, dona Neuza — seja pelo calor ou por hábito — prende a ponta do vestido com ajuda do indicador e do polegar de ambas mãos, suspendendo-a à altura dos seus joelhos e fica, dessa forma, abanando suas pernas, que se abrem e se fecham numa sensual combinação de movimentos. Os olhos negros de Cidinho não escondem seu deslumbramento.
Já esterilizada a seringa, a água destilada é introduzida no pequeno frasco, reduzindo a estreptomicina à forma líquida. Segue-se o ato de injeção e Cidinho expõe seu ombro nu à aplicação da agulha. Dona Neuza prende com a palma da mão o cotovelo de Cidinho e, com a outra, aplica a injeção num perfeito domínio de gestos. Faz-se, então, um cúmplice silêncio. Enquanto o líquido escorre lentamente da seringa para os músculos jovens, dona Neuza pressiona com delicada angústia o cotovelo de Cidinho contra seus túmidos seios, mantendo-os assim. Uma lânguida tontura envolve todo o corpo de Cidinho, enquanto fugidias mudanças de tons verdes fazem mais tristes os olhos sérios de dona Neuza.
Noite sim, noite não, há quase dois meses, se repetem os sonhos de Cidinho em delirantes viagens pelo corpo aberto de dona Neuza.

 

 

OURO

Mahmoud Zeidan
(Israel)

Seu bronzeado brilha
Como ouro antigo
E de onda em onda
Lava meus olhos.
Abaixo do céu azul
Eu ando perdido
No seu mundo de bronze
E a tirania
De seu reinado de beleza.

(Tradução de Teresinka Pereira)

 

LANÇADO "BORBOLETAS NOS JACATIRÕES"

Foi lançado, no mês de agosto, o vigésimo terceiro livro de Luiz C. Amorim, na Feira do Livro de Palhoça, na Livraria Midas de Joinvillel e na Furb, em Blumenau. O livro é uma seleção de crônicas memorialistas, intimistas, que enfocam desde a infância até as impressões mais recentes do autor e foi publicado pela Editora Hemisfério Sul, de Blumenau. Os próximos lançamentos serão na Feira do Livro de São José, na Feira do Livro de Curitiba, na Feira do Livro de Porto Alegre e na Feira do Livro de Florianópolis, até o final do ano. O livro "Borboletas nos Jacatirões", como diz a escritora e editora Urda Alice Klueger, na orelha do mesmo, é "como que uma vitrine" da obra do autor: "desde as lembranças do menino Amorim até os bastidores da literatura, ao qual o público leigo dificilmente tem acesso, passando por magníficas coisas como seus textos sobre Mario Quintana.” Dividido por temas, o livro traz ainda capítulos sobre natureza, família, tempo de festas, saudades e esperança, Infantil (texto para criança), Trajetória (do autor e do grupo literário que ele lidera) e Informativo (sobre literatura), em cerca de cinqüenta textos.Amorim tem trabalhos traduzidos para diversas línguas, publicados nos seguintes países: India, Rússia, Grécia, Estados Unidos, Portugal, Espanha, Cuba, Argentina, Uruguai, Inglater-ra, Itália e outros.


EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição número 102 - SETEMBRO/2007 - Ano 27
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
End. para Correspondência:
lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br
A ILHA na Internet: Veja o portal PROSA, POESIA & CIA. em
Http://geocities.yahoo.com.br/prosapoesiaecia


 

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