SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

 

GRUPO A ILHA RUMO A 2008

O Grupo Literário A ILHA está encerrando um ano dos mais produtivos, quando as Edições A ILHA publicaram a edição número 100 do Suplemento Literário A ILHA e em homenagem deste marco histórico, lançou também a coleção Poesia Viva, com 12 livros de poemas de integrantes que não tinham ainda seu livro solo ou só tinham livros publicados de outros gêneros. 2007 foi o ano que, junto com outra integrante do grupo, Fátima de Laguna, criamos a Confraria de Quintana e começamos a publicar a nova revista Mirandum, caminhando para o número três. E neste ano, também, participamos de várias feiras do livro, realizando lançamentos, pela primeira vez, na Feira do Livro de Porto Alegre. E também em Joinville, em Blumenau, São José, Florianópolis. Para o próximo ano, a agenda já está lotada e começa com a participação na Feira do Livro de Joinville, quando será lançado o novo livro publicado pelas Edições A ILHA, "Escritores Catararinenses e o Grupo A ILHA".

 

NATAL 2007

Aracely Braz

E dezembro resplandece:
Floresce o jacatirão
Anunciando, ostensivo,
A vida e ressurreição.
É o Natal de Cristo
Com novo brilho de um astro
Em direção ao futuro.
O homem corre, comemora,
Com presépios e presentes,
Só encontra na sua mente
Festa, alegria e consumo.
Quem recordou o Menino
Motivo de nossos Natais?
Há que semear a paz,
Louvando com gratidão
O Natal do Menino Jesus
Que nos traz a salvação.

 

 

CIDADE DO LIVRO

Por Luiz Carlos Amorim

Finalmente fui visitar a Feira do Livro de Porto Alegre, resultado de uma parceria entre a Câmara Catarinense do Livro e a Câmara Riograndense do Livro. Os escritores de Santa Catarina têm um estande na feira de lá e os gaúchos têm um estande na Feira do Livro de Florianópolis. Participei com o lançamento de meus livros “Saudades de Quintana” e “Borboletas nos Jacatirões”, ambos de crônicas. Urda A. Klueger também esteve lá. Fiquei impressionado com o tamanho da feira. Ela é enorme, ocupa a Praça da Alfândega, as suas imediações, o cais do Porto, parece uma Cidade do Livro. Lembrei-me da Bienal do Livro do Rio e não tive como não comparar. Se juntar tudo o que há da Feira do Livro de Porto Alegre – a área Geral, a área infanto-juvenil, a área Internacional, ela é maior do que a Bienal. A feira ocupa míseros 26 mil metros quadrados - há lá um sem número de estandes, há uma variedade infinita de oferta de livros novos e há sebos, também. E não se paga entrada, pois a feira fica no meio da rua, no meio da praça, e o público prestigia, é um vaivém constante de pessoas, eu diria que há até acotovelamento, pois é um fluxo constante e intenso de visitantes, todos os dias. Não é à toa que a Feira de Porto Alegre é a precursora das feiras do livro, a mais tradicional do Brasil. Além dos livros, dos escritores que passam por lá, há uma atração imperdível, a Casa de Cultura Mário Quintana, localizada no prédio do antigo Hotel Majestic, construção belíssima e imponente, onde o poeta morou grande parte do tempo que viveu em Porto Alegre. Lá está até o quarto de Quintana, preservado, como era quando ele se foi. Muitas fotos, muita informação, muitos livros, muito sobre o poeta passarinho. Estar lá é uma emoção muito grande. Pode até parecer exagero, mas dá pra sentir a presença dele, uma energia boa tomando conta da gente. No âmbito da feira está, também, o Santander Cultural, o Centro Cultural Érico Veríssimo e o Memorial do Rio Grande do Sul, onde ocorrem atividades paralelas ligadas ao evento. Perto, está o Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Há muito o que se ver, muita cultura para se absorver. A permuta que as câmaras do livro dos dois estados irmãos fizeram não poderia ter vindo em melhor hora.

 

MANHÃ PARA NASCER

Marie-Andrée Balbastre
(França)

O céu empalideceu
mudou sua tinta negra
em guache clara.
Tudo se ilumina
Em longínquo fogo de aurora,
nuvens limpas
e planícies cheias de noite.
Um divino pincel
veste a natureza.
O dia nasce.

 

LANÇAMENTO NA FEIRA DO LIVRO DE FLORIANÓPOLIS

O Grupo Literário A ILHA estará presente, mais uma vez, à Feira do Livro de Florianópolis, que acontecerá não mais no Shopiing Beiramar e sim no Largo da Alfândega, de 6 a 16 de dezembro. Estarão sendo lançados os livros “Borboletas e Jacatirões” e “Livro de Natal”, de Luiz C. Amorim e as revistas Suplemento Literário A ILHA - edição 103, de dezembro e Mirandum, número 2, da Confraria de Quintana.
Também será exibido, desta vez, o Varal da Poesia (Projeto Poesia no Shopping), com poemas de Amorim e Luiz Delfino.
Os lançamentos do grupo A ILHA acontecerão nas tardes de 8 e 15 de novembro, a partir das 14 horas, no estande das Associações e Escritores Independentes.

 

 

 

ACHADO

Lorreine Beatrice

Foi no suspiro da noite
que pendurei meus sonhos
e debrucei meus olhos
à espera da manhã fria.
E foi assim
que revirei os sorrisos
e busquei no poço d´alma
o reinvento do mundo:
Encontrei poesia...

 

CARTÃO DE NATAL

Por Norma Bruno

Antigamente era costume as pessoas trocarem cartões de Natal e Ano Bom. Os envelopes começavam a chegar já no final do mês de novembro, o mais tardar no início de dezembro, para que as pessoas tivessem tempo de respondê-los, e o Correio de entregá-los, em tempo hábil. Alguns reproduziam quadros de pintores famosos em papel colorido e perfumado. Havia um tipo especialmente bonito e engenhoso que ao ser aberto armava uma paisagem, uma cesta de flores ou um lindo presépio, celebrando o nascimento do Menino Jesus. Assim como as famílias, também as casas de comércio enviavam cartões impressos e sugestivos calendários onde, embaixo dos tradicionais votos de “Boas Festas e Próspero Ano Novo”, figuravam o nome e o endereço do estabelecimento e se agradecia a “preferência” no ano que passou.  Hoje os tempos são outros. As pessoas alegam não ter mais tempo para enviar cartões e muito menos para respondê-los e mesmo as empresas já não presenteiam seus clientes com prosaicos calendários que ninguém lê; ao contrário, elas invadem nossas caixas de correspondência com sofisticados panfletos e se nos enviam alguma coisa é catálogo de propaganda, boleto bancário ou carta de cobrança. O veículo mudou, a linguagem é menos formal, mas os desejos humanos continuam os mesmos. Aos amigos, continuamos declarando nosso afeto e votos de saúde, paz e felicidade, ainda que, às vezes, de uma maneira um tanto quanto inusitada. Ontem pela manhã recebi um cartão virtual de Natal. Estava endereçado a uma longa lista de e-mails, como de praxe. O texto dizia: “Queridos amigos,
Encontrei com o Papai Noel e ele disse que eu poderia escolher o presente que quisesse. Então eu falei que queria ter os meus amigos sempre por perto. Por isso não se assuste se algum velho tentar lhe “empacotar”, e... vê se colabora, né?”“.
Achei a idéia divertida e respondi assim: "Querida amiga,
Devias ter me avisado. Ontem à noite, um tarado tentou me agarrar na porta de casa. Desesperada, chutei o saco dele e comecei a berrar por socorro. A polícia chegou, deu-lhe uma camaçada de pau e o jogou no camburão. De longe, observei que era velho e que a sua camisa estava manchada de vermelho. Pensei que era sangue. Deve ser por isso que a cartinha que eu escrevi para o Papai Noel com o pedido do teu presente voltou com o carimbo de “ausente do domicílio”. Sinto muito. Da próxima vez avisa antes. De qualquer modo, agradeço a amizade, o motivo para rir e aproveito para retribuir os votos de Feliz Natal e Ano Novo. 
Um forte abraço Norma "

 

NATAL MENINO

Luiz Carlos Amorim


Natal é o renascimento
da esperança e da vida;
é um abraço, um sorriso,
um sentimento maior.
É a ternura
de um menino nascendo,
é uma estrela apontando
a direção do futuro...  

 

 

JUCA PATO

Por Enéas Athanázio

No início do mês de agosto a União Brasileira de Escritores (UBE) fez a entrega do Troféu Juca Pato ao escritor Luiz Alberto Moniz Bandeira, eleito Intelectual do Ano de 2006. Esse é um dos maiores prêmios brasileiros, mantido há 42 anos pela entidade que congrega os escritores e com o patrocínio do jornal “Folha de S. Paulo.” Doutor em ciência política, professor emérito da USP e docente de universidades européias, o eleito é autor de importante obra, avultando o livro “Formação do Império Americano”, onde analisa a vocação imperial norte-americana e suas origens.
Escritores brasileiros de primeira linha têm recebido o prêmio ao longo de sua existência, entre os quais Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Luiz da Câmara Cascudo, Érico Veríssimo e muitos outros.
A UBE é a maior entidade do gênero no Brasil, contando com milhares de associados em todo o território nacional e seccionais em vários Estados. Fui fundador da UBE-SC, seu conselheiro, coordenador do jornal, vice-presidente e, por fim, presidente. Como todas as entidades anteriores aqui no Estado, a UBE-SC não vingou. Em outros Estados existem seccionais ativas, como em Goiás, Piauí e Pernambuco. A UBE-RJ é independente e tem o mesmo status da entidade paulista.
Juca Pato é um personagem criado pelo célebre caricaturista Belmonte (Benedito Bastos Barreto – 1896/1947) e que aparecia sempre nos jornais exercitando um humor cáustico a respeito dos fatos de nosso dia-a-dia. Baixote, calvo, barrigudinho, sempre de fraque e gravata borboleta, tornou-se temido pelas coisas que dizia. Como bem definiu o crítico Anatol Rosenfeld, “Juca Pato é o próprio povo que universalmente costuma pagar o pato e que, no entanto, não perde o bom humor.” É, em suma, o brasileiro, somos nós que todos os dias pagamos o pato e continuamos rindo e aparentando alegria, mesmo porque não encontramos saída. Em cada tentativa de mudança acabamos pagando um pato ainda maior.
E de fato, os mensalões devoram nossas finanças e nós pagamos o pato; os sanguessugas metem a mão e nós pagamos o pato; outros avançam nos recursos da previdência e nós pagamos o pato. E por aí vai pelo passado próximo e remoto e, ao que parece, pelo futuro, “per omnia saecula...”
Mas Juca Pato gozou de imenso prestígio e seu nome batizou célebre bar paulistano, no centro da Capital, nas proximidades da Praça da República e dos melhores cinemas da época. Ali se reuniam intelectuais, escritores, gente de teatro, políticos, jornalistas, aficionados do cinema e apreciadores de bom papo. Ali se degustava um excelente “pernil” (lanche que caiu no ostracismo em face de sua gordura), regado a goles de um “cristal” (chopinho) ou de uma límpida “loira” (cerveja). Ali tudo se discutia, ainda que a conclusão fosse a mesma: “na realidade sempre se paga o pato, em todo o mundo e em todos os tempos”, como escreveu Rosenfeld, seu assíduo freqüentador.

 

 

A HORA DO ARCO-IRIS

Virgínia Vendramini



Pela vidraça fechada o sol da tarde
Vinha banhar de luz a parede branca,
Que por minutos refletia radiosa
Um pequeno e lindo arco-íris.

Quase sempre sozinha na sala clara,
Esperava ansiosa que o dia avançasse
E finalmente chegasse a hora
De contemplar meu brinquedo mágico.

Depois, as sombras devagarinho
Se estendiam sobre a casa inteira...
As horas se espreguiçavam monótonas
Numa sequência de ocupações sem graça.

Porém, aquele momento tão breve,
Cheio de inexplicável colorido,
Alimentava meus sonhos secretos,
Me fazendo crer nas coisas impossíveis.

 

A LITERATURA REGIONAL NAS ESCOLAS

Por Luiz Carlos Amorim

Participei do Festival Lítero Cultural, promovido por um grande colégio de primeiro e segundo graus de Jaraguá do Sul, no final de outubro. A iniciativa é das melhores e o resultado teve mais pontos positivos do que negativos. Foi a primeira edição do evento, realizado na Semana do Livro, embora contemplasse outras artes, como dança e teatro, além da literatura.
Algumas livrarias, inclusive de fora do estado, estavam lá oferecendo uma gama diversificada de livros e alguns escritores, como eu, Urda A. Klueger, Lorreine Beatrice e Anair Weirich também se fizeram presentes, autografando seus livros, dando palestras para os estudantes, fazendo sessões de contação de histórias, apresentando atividades que incentivassem a leitura.
Qualquer coisa que façamos para que os leitores de pouca idade ou em formação se aproximem dos livros é bom. Mas uma coisa que me chamou a atenção, naquela quase feira do livro é que havia muitos livros de histórias e aventuras com personagens conhecidos, sempre presentes na mídia. Livros com marketing pronto, pois as crianças já conhecem as personagens de desenhos animados, de filmes, de seriados, etc., e vão direto neles. Não falo de Harry Potter e outros do gênero, não, falo de coisa mais comercial mesmo. Livros de literatura clássica brasileira e universal, vi quase nada.
Como eu já disse, é a primeira edição do festival, nas próximas oportunidades algumas coisas poderão ser corrigidas, mas o que percebi me lembrou um distribuidor de livros que me contou, outro dia, que numa determinada escola no Paraná a diretora o chamou, verificou todos os títulos e só deixou entrar na mostra os livros literários. Há livros e livros, e eu tenho que concordar com essa diretora.
Outra coisa que me impressionou veio à tona nas palestras que dei. Numa turma de quinta ou sexta série, tive uma conversa ótima, o pessoal mais jovem é curioso, interessado, gosta de perguntar. Falamos de tudo um pouco, mas quando perguntei quais eram os escritores da terra, da cidade, que eles conheciam, ninguém se manifestou. E eles existem na cidade deles, tenho amigos lá que têm romances publicados, livros de poemas, etc. Sei que os professores de Literatura não são culpados sozinhos desse estado de coisas, é o próprio ensino, a educação brasileira em geral que não dá espaço, no conteúdo programático, para que se aborde literatura regional. Uma pena.
Na outra palestra, para alunos de sétima e oitava, fiz a mesma pergunta achando que seria mais feliz, mas a resposta foi a mesma: silêncio. Muitos deles lembravam o nome da autora de Harry Potter e de outros livros de aventuras fantástico-maravilhosas, mas autores da terra ou de um clássico da poesia catarinense como Luiz Delfino, não.
Minha esperança é que o fato de já terem lido livros mais alentados os façam diversificar o leque de escolhas. É preciso.

 

 

A INTRANSFERÍVEL TAREFA DOS POETAS

Joel Rogério Furtado

Os Poetas haverão de chorar
todas as mágoas do mundo
porque compartem
a obra de Deus.
Ao perceberem o ar
em movimento
os Poetas traçarão
o Horóscopo das Almas
que andam perdidas
penando na ausência
de todos os Amores.
Será por isso
que entendem melhor o mundo?
Os Poetas vivenciam melhor os dias
suportam melhor os embates
superam mais facilmente os obstáculos
porque vêem com os olhos d´Alma.
Eis aí porque os Poetas serão capazes
De enfrentar e chorar
Todas as mágoas do Mundo
(além das suas).

 

OBRA DE MONTEIRO LOBATO É REPUBLICADA

“A Lobato deve muito o Brasil. Em primeiro lugar o exemplo magnífico e raro do intelectual que não se vende e não se aluga, não se coloca a serviço dos poderosos ou dos sabidos. Depois, foi ele um homem de ação e um descobridor. Devem-se a ele a campanha do livro e a campanha do petróleo. Foi ele o criador da nossa literatura infantil”

Oswald de Andrade


A editora Globo passa oficialmente a republicar a obra do escritor, um total de 56 livros, dos quais 31 títulos são voltados para o público infanto-juvenil. “Até o fim de 2008, pretendemos ter toda obra já disponível ao público”, comenta Lúcia Machado, diretora da unidade de negócios infantis da editora.
Inicialmente, a Bienal do Livro do Rio de Janeiro foi o único ponto-de-venda e divulgação dos cinco primeiros títulos (“Reinações de Narizinho” volumes 1 e 2, “Viagem ao Céu”, “Monteiro Lobato em Quadrinhos – Dom Quixote para Crianças” e “Urupês”). “Somente depois da feira é que foram acertadas vendas para livrarias de todo o País”, completa Lúcia, lembrando que a Globo firmou um contrato vitalício com os herdeiros de Lobato (1882-1948), com extensão para toda a América Latina.
O acordo pôs fim a um tortuoso relacionamento com a Brasiliense, há anos a principal casa editorial de Lobato. “Fazia 40 anos que a obra não era atualizada e ainda tínhamos problemas com a reedição”, explica Jorge Kornbluh, marido da bisneta do escritor, Joyce. “Tentamos, entre 1996 e 1997, fazer com que a editora reformulasse os livros; como não conseguimos, entramos na Justiça com um pedido de rescisão do contrato de edição.” Ele observa, ainda, que várias editoras disputavam os direitos, e a Globo destacou-se por apresentar o projeto que mais respeitava a obra.
Havia cinco anos que a Globo estava negociando e, mesmo com o caso ainda em andamento, a editora começou o projeto de reedição há dois. “Fizemos isso para não perder tempo”, explica Lúcia. “O processo de atualização é muito delicado, portanto, não podíamos esperar o acerto do contrato para então consumir mais dois anos de preparação até os livros começarem a ficar prontos.” Outro detalhe que apressou o processo foi a proximidade da data em que os direitos da obra vão se tornar públicos: 2018. “Queríamos deixar um trabalho consolidado quando a família perder o controle sobre a obra.”
Foram feitas mais de 30 revisões nos primeiros volumes, mas, acrescenta Lúcia, nenhuma descaracterização. “Fizemos questão de manter a linguagem original, além de optar por não incluir glossário para estimular as crianças a pesquisar o significado das palavras no dicionário.” Somente os livros com conteúdo paradidático, como “Emília no País da Gramática” e “Geografia de Dona Benta”, é que sofrerão algumas atualizações. “O desafio, porém, é manter a poesia das palavras de Lobato, que tanto auxiliam os professores no processo de ensino.”
Serão publicados todos os escritos de Lobato, inclusive correspondência, impressões de viagem e esparsos, como conferências, artigos, prefácios e entrevistas. “Sua obra traz o painel de uma época e se alinha ao lado da de Euclides da Cunha e Lima Barreto na valorização do povo”, comenta Vladimir Sacchetta, consultor do trabalho ao lado de Márcia Camargos.
Os livros têm tiragens entre 5 mil (adultos) e 20 mil (infantis) exemplares e saem a uma média de quatro lançamentos por mês.

 

 

NOVO TEMPO


Luiz Carlos Amorim


O futuro chegou.
Novo tempo, nova vida,
Esperança renovada.
Sim, eu sei,
Sou viciado
Em esperança,
Essa fé no amanhã
Que me empurra adiante.
Mas se não houver esperança,
O que será do futuro?
Precisamos, urgente,
Nós todos, seres humanos,
Juntar toda esperança
Que podemos cultivar
E fazê-la realidade:
Um mundo mais humano,
Com dignidade e justiça.
Depende de nós.
O ano novo não será feliz
Como que por encanto.
Há que se lutar por isso.
Não somos capazes disso?

 

 

Governo pretende ampliar acesso à cultura


O objetivo é ambicioso: proporcionar o acesso à cultura entre a população de baixa renda. Para isso, o governo federal lançou em novembro o Programa Mais Cultura, guarda-chuva de um elenco de projetos que deverão receber R$ 2,2 bilhões dos cofres públicos nos próximos três anos.
O pacote de incentivos ainda está em estado embrionário, mas prevê desde a concessão de crédito a artesãos até a criação do vale-cultura, a ser distribuído pelas empresas entre os trabalhadores – com dedução de gastos no pagamento de impostos. Um dos principais eixos do programa será a multiplicação dos chamados pontos de cultura – dos atuais 680 para 20 mil – até 2010. A iniciativa consiste em repasses anuais de até R$ 60 mil para centros comunitários que exerçam algum tido de atividade cultural, como escolas de capoeira ou oficinas de teatro, por exemplo. Na quinta-feira, foram assinados 26 acordos entre o ministério e instituições, a maioria incentivando a construção de espaços culturais em hospitais, territórios indígenas e na zona rural. O objetivo é disseminar bibliotecas, brinquedotecas e clubes de cinema. A sugestão do governo, que ainda será discutida com artistas e produtores culturais, prevê a obrigação de que os projetos contemplados com a lei tenham exibições públicas ou então que parte dos ingressos seja reservada à distribuição gratuita. No caso de filmes e outros projetos audiovisuais, o governo pensa em exibi-los em cineclubes, bibliotecas e também na TV pública.

 

 

POESIA MARGINAL

Viegas Fernandes da Costa

Traço versos nas margens de um marginal jornal
enquanto percorro bairros e ruas, pontes e rodovias
A cada curva que faz o coletivo, a cada buraco...
uma nova palavra, uma velha idéia se traça em tão frágil suporte
Escrevo sem saber o que, apenas uma brincadeira compulsiva
a necessidade de preencher cada canto da margem, ejaculando letras que se encontram e
[constróem um mundo
Escrevo sem atinar com meu percurso
o ônibus prossegue, e me transporta, a mim e ao mundo que carrego
O jornal, marginal, completa-se com a tinta azul da esferográfica
e preenche-se, cada espaço, repleto, e procuro desesperado um novo suporte
No encosto do banco da frente, branco, prossigo
assustado com os olhares que me denunciam, vandalizo o coletivo
Já o jornal, esquecido, voa pelo corredor, entre os passageiros
e encontra uma janela, por onde se esquiva, planando sobre o asfalto...
... voa o jornal e a poesia
esta, liberta das minhas mãos e agrilhoada ao papel,
encontra o rio...
e se afoga!

 

 

RUA DE MENINOS

Por Urda Allice Klueger

As ruas de Érico Veríssimo são ruas de meninos! Mesmo antes de aqueles campos serem os campos de Érico Veríssimo, milhares de anos antes, meninos vinham à luz por ali, em grande sintonia com toda a beleza daquela natureza, e pezinhos morenos de pequenos meninos pisavam na relva boa do verão ou na geada da relva dos invernos, mesmo naquele tempo em que ainda não havia ruas, e, quem sabe, sequer havia caminhos ou trilhas!
O tempo correu, e pés descalços e calçados de botas e patas de cavalos e de gado foram abrindo sempre mais caminhos no verdor daquela relva, e lá no começo do outro século, quando Érico Veríssimo nasceu, decerto que já as ruas estavam definidas no lugar onde estão hoje, lá naquela cidade de Cruz Alta que foi o berço daquele menino que, segundo soube lá, tinha como avô um homem que era tão amado que lhe fizeram uma estátua na praça1 [1], e um pai que ele viria a retratar nos seus livros com o nome de Capitão Rodrigo Cambará, e quem é íntimo do Capitão Rodrigo Cambará não irá estranhar as benfeitorias modernas que ele introduziu na casa antiga onde seu menino viria a nascer. E aquele menino veio à luz numa casa bonita, numa rua que ainda não tinha asfalto mas que já era aquela que agora está lá, e provavelmente foi aquela a primeira rua da qual ele guardou lembrança na vida.
Penso na minha própria vida: eu deveria ter algo como 39 ou 40 meses quando começo a me lembrar de tantas coisas, e como me lembro vividamente das coisas de então, inclusive da rua onde vivia! Penso: que idade teria aquele menino Érico Veríssimo quando, pela primeira vez, deu-se conta que vivia no cruzamento de duas ruas, pois então talvez já existisse o cruzamento? Quando, pela primeira vez, olhou por uma janela, ou pela porta, e deu-se conta de que havia uma rua lá fora, e guardou-a no seu coração para sempre? Pois eu, mesmo tendo saído há décadas da rua que foi a primeira que lembro, quando alguém me pergunta, ainda sempre digo: “Sou da rua Tal”. Será que foi assim com aquele menino que um dia vicejou ali naquela casa tão bonita, e como foi? Estaria ele no colo da mãe, do pai Capitão Rodrigo, quem sabe de um padrinho, ou do avô que era como um santo? Ou, quem sabe, num dia de chuva, ele espiou cuidadosamente o grande mistério da Natureza lá fora, e muito encolhidinho numa beirada de janela, o coração aos saltos, deu-se conta de que ali havia uma rua? Que eu saiba, ele não escreveu a respeito – talvez tenha contado para algum amigo, quando, um dia, em terras distantes ... Talvez tenha lembrado daquela rua quando escrevia textos, assim como eu faço... É provável que aquela seja uma rua importante dos seus romances... Ele partiu tão cedo, já não dá para perguntar, já não dá para saber.
O fato é que aquela foi a rua de Érico Veríssimo, e um dia, como há milhares de anos acontecia, ele andou por ali pisando de leve com pezinhos, que se não eram morenos, assim o ficaram por conta do tanto sol que ilumina aquele lugar, e andando por aquela rua ele carregou sua lousa e foi para a escola, e por ela, mais tarde, ia trabalhar na farmácia que era fronteiriça à casa da namorada Mafalda – um dia, também por aquela rua, ele partiu para ir conquistar o mundo e o meu coração. E andou em outras, por ali, e decerto, como os meninos lá do outro século, caçou de bodoque e funda, e roubou laranja em quintais alheios, pois sempre tem laranjas nos quintais dos seus romances, e não podemos esquecer que Cruz Alta é Santa Fé... Ah! Ruas de Érico Veríssimo, que são ruas de meninos! Cada menino é único, assim como Érico Veríssimo o foi, e neste momento sinto uma aguilhada de dor por pensar que os meninos de Bagdá já não são únicos, pois já não o são...
As ruas de Érico Veríssimo são ruas de meninos. E há ruas próximas, por ali, e praça próxima, onde decerto ele brincou, e onde tantos outros meninos decerto também brincaram. Depois que ele se tinha ido daquelas ruas que eram dele, depois que ele estava lá fora conquistando o mundo, um outro menino que seria como um pássaro emplumado de azul e branco também veio à luz ali numa rua daquelas, e se Érico Veríssimo tinha dentro da alma uma florada incomparável de livros que deixariam o mundo encantado, aquele outro menino tinha um coração todo cheio de estrelas!
E, já que aquela terra era cheia de ruas de meninos, também o menino das estrelas no coração pisou por ali com seus pezinhos morenos, como há tantos milênios por ali pisavam outros pezinhos, mesmo quando aqueles campos ainda não eram os campos de Érico Veríssimo!
Só que, como já fazia mais de meio século que Érico Veríssimo aprendera um dia a pisar naquelas ruas, elas tinham se tornado as ruas de Érico Veríssimo, e nunca mais isto vai poder mudar – e o menino das estrelas, que também era um menino único, pisou as ruas de Érico Veríssimo que são ruas de meninos, pois onde meninos podem pisar melhor que nas ruas que são de Érico Veríssimo?

 

 

A LUA

Else Sant´Anna Brum

Se a lua fosse uma bola
Dessas de supermercado,
À noite eu brincaria
Com ela no meu gramado.

É tão redonda e brilhante
Mas não a posso alcançar.
Talvez ela seja bola
Só para anjo brincar.

Quem sabe uma noite dessas
Num lance sensacional
Um anjinho chute a lua
Direto no meu quintal!

 

POESIA EM CENA

Por Luiz Carlos Amorim

Fui convidado a estar presente no encerramento do Projeto Poesia em Cena, da Sociesc, um espetáculo teatral apresentado por alunos daquela escola.
Quase não pude comparecer, mas quando vi o convite que me foi enviado, percebi que não poderia faltar, pois descobri a fantástica surpresa que eles estavam me reservando: o Poesia em Cena era um tributo a mim, poeta-aprendiz que nem mereço tamanha homenagem!
Foi emocionante ver os meus poemas sendo declamados para um público tão grande, e fico lisonjeado com tão grande deferência. Mas o mérito dos estudantes dedicados e dos mestres abnegados e diligentes não está só no reconhecimento do pouco que fiz, está também no fato de divulgar a poesia, de incentivar o gosto pela leitura, de fazer da leitura e da literatura não uma matéria para passar no vestibular, mas uma atividade prazerosa e criativa, divertida e produtiva.
No telão ao fundo palco do Teatro Juarez Machado, uma vinheta mostrava um mapa do Brasil com o interior coberto de grandes flores de jacatirão, com as legendas “Poesia em Cena” e “Tributo a Luiz Carlos Amorim”. Que eu sou fascinado por jacatirão, todos já sabem. E associar meu nome ao jacatirão, como Urda A. Klueger (... ele fala como se falasse jacatirões...) e Dr. Enéas Athanázio já o fizeram, me deixa muito feliz.
No palco florido com aquele Brasil de jacatirões, dezenas de estudantes declamaram e encenaram vários poemas meus e também crônicas e poemas de outros autores, como Drummond, Quintana, Millor e outros.
Impressionei-me com o trabalho fantástico de professores como Graça, Luciana, Atanael, Jaqueline, que fazem com que seus alunos, muito jovens, tenham prazer de ler, adquiram o hábito de ler, quando por aí, ainda obrigam os alunos a lerem literatura brasileira clássica, com a posterior cobrança, para conferir se o livro realmente foi lido e valendo nota.
Os professores da Sociesc não precisam cobrar, pois seus alunos aplicam sua criatividade, inventividade e imaginação e recriam o que leram, fazendo filmes, peças teatrais e adaptações dos temas e da linguagem à nossa realidade cotidiana.
Eles transformam textos antigos, com costumes, valores e vocabulário fora dos padrões atuais, em obras atraentes e interessantes. E são revelados bons declamadores (que não os há mais), atores, cantores, poetas, escritores.
Meu tributo a esses estudantes e professores maravilhosos e exemplares.

 

NATAL?

Célia Biscaia Veiga

Aproxima-se o Natal!
As ruas cheias de papais noeis...
Postes e árvores servem de suporte
Para belas armações iluminadas...
Caixas vazias embrulhadas
Com belos papéis coloridos,
E com laços dourados,
Enfeitam varandas e jardins...
Pessoas passam apressadas
Com sacolas cheias de presentes
Adequadas (ou não) ao seu padrão monetário...
E por todos os lados são vistos
Pinheiros brilhando com pisca-piscas...

E em todo esse cenário festivo
Quantas crianças esperam por um papai noel
Que não vai chegar?
Quantas pessoas tem suas vidas iluminadas
Apenas por tocos de velas,
Por não terem acesso a rede elétrica?
Quantas pessoas se sentem tão vazias
Quanto as caixas de enfeite?
Quantas pessoas gastam o orçamento
Do ano seguinte quase todo,
Para supostamente festejar um dia só?
Quantas vidas são vividas só de instantes
Como as luzes do pisca-pisca?

E em tudo isso, onde será que está o bolo
Com as velinhas para o aniversariante?
Onde o presente que ele mais deseja
Que é ver a paz e o amor no coração
De cada habitante da Humanidade?

 

 

ROGAMOS QUE VENHAM

Por Maria de Fátima Barreto Michels

Faltam cinco minutos para as sete horas quando entro no elevador e um rosto de criança surge no rosto da moça que me dá bom dia.
Estou na capital para exames médicos e dirijo-me cedo ao laboratório. A moça que foi minha aluna até a adolescência em nossa cidade, conta-me que seu local de trabalho é bem longe do centro. No térreo abro e seguro a porta, minha ex-aluna se despede e segue com passos rápidos. Observo que a garota muito ativa nas quadras de esporte continua agora o jogo da sobrevivência na cidade grande. Agora fazer gols vai além do lúdico, a competição é pra valer! A minha menina, a que eu gerei na barriga, deve estar saindo para ir às aulas, em outra cidade, naquele momento também.
As nossas crianças crescem e não brincam mais nos sábados esportivos.
Sinto uma leve tristeza.
No laboratório peço minha “vampira” preferida. Ela atende no segundo andar e acerta a minha veia. Sempre começa cantarolando bem baixinho e quando percebo já colheu meu sangue. Talvez cante um mantra.
Eu mentalizo uma ave-maria e fico quieta, para colaborar. Ufa! Foi fácil e rápido.
Retorno caminhando devagar e vejo florinhas que mereciam umas clicadas. Dentro de alguns dias voltarei a capital e não esquecerei a câmera, na luz matinal de dezembro hei de colher essas cores.
Dali a pouco saio novamente para a rua, olho os portões acionados por controle. Um cão akita no prédio ao lado me observa e dá alguns passos, aparentemente conformado. Mais adiante um buldogue inglês passeia com sua dona. Esta raça me fascina pela quantidade de dobras que tem ao redor do focinho. Não resisto, pergunto o nome e me abaixo até junto de Boris. Fico “conversando” e ele feliz da vida quer subir em meus joelhos balançando o possante e atarracado corpo, me despeço. Que coisa mais amorosa tal cachorro! Noto uma criança, que junto com a babá está num jardim-redoma. As crianças têm que ficar vigiadas porque há o trânsito, hás os dementes, há tantos perigos, que elas não mais podem correr e brincar livres nos quintais.
São lugares bonitos, limpos e seguros, mas tudo é com grades e chaves. Eu também, quando saía para o trabalho deixava meu tesouro com a babá, e o portão bem chaveado.
Entristeço-me novamente. O mundo está com muito medo. Estou com dó de todos nós.
Está na hora de raspar o tártaro, que faz a gengiva inflamar-se. O periodontista me recebe com alegria. Pronto! Deste já me livrei também. Volto por outras ruas e observo que Papai Noel já está sendo pendurado em algumas vitrines. Meu Deus! Quanta pressa em vender, vender, vender...Todos precisam vender! MERCADO. Mercado. Mercado.
Lembro das crônicas, poemas e notícias que li na noite anterior, Penso num grande caldeirão onde tudo ferve. Tudo se relaciona, na influência/confluência destes tempos.
O petróleo, os poemas do Jardim das Letras, o assassinato do taxista, o lançamento de Mudanças e Permanências. Um turbilhão de coisas vão sendo lembranças. Entrecruzam-se idéias, algumas de enlevo e contentamento, outras complicadas, traumatizantes.
Enquanto olho papai Noel posto para trabalhar antes de entrar dezembro, passo os olhos pelos morros que circundam o centro de Florianópolis. Há coisas muito complicadas nesses morros. Muita gente sofrida. Há uma dívida. Um déficit. Há um grito de dor.
Enquanto isto, há flores me esperando para serem fotografadas. Há tanta vida, mas há muito Papai Noel contrariado. O mundo está apressado. Em demasia.
Estou no ônibus agora, voltando para minha cidade, há uns tons de caramelo atrás dos montes, nas lagoas. É a beleza do poente. Penso no amor. Ele e a arte, ainda valem a pena. Sempre valerá a pena sentir o amor, fotografar florinhas e conversar com cães.
Precisamos repensar o Natal . O papai Noel deve estar aborrecido. Quanto ao menino Jesus, este então nem se fala: está ARRASADO. Ainda assim, roguemos que venham!

 

A OBRA DO AMOR

Wilson Gelbcke

O amor é como pintura
de uma tela
que nunca chega ao fim...
A cada pincelada,
a obra fica mais bela.
Há de se ter, no entanto,
como tudo na vida,
um tributo a pagar:
Não deixar a tinta acabar.
Com espátula seca
ou com seco pincel,
nada mais a retratar...
Falta o toque de amor
Para a obra continuar!

 

LANÇADA MIRANDUM 2

Já está circulando a edição número 2 da revista Mirandum, da Confraria de Quintana de Santa Catarina. Lançada na Feira do Livro de Porto Alegre, em novembro, ela traz entrevista com Mário Quintana, crônicas e poemas em homenagem ao poeta de Flávio Cadoso, Urda Alice Klueger, Luiz C. Amorim, Alberto Cohen, Neida Wobeto, Enéas Athanázio e Joel Rogério Furtado. Além de crônicas e poemas sobre outros assuntos, de Nora Bela, Regina R. Dos Santos, Márcio J. Rodrigues e Maria de Fátima Barreto Michels. Muitos escritores, de vários pontos do pais, estão aderindo à Confraria de Quintana e mais textos sobre o poeta, de novos autores estarão no número 3 da revista.

 

 

 

FOGO FÁTUO 1

Silvério Ribeiro da Costa

Sou poeta sem destino,
não tenho do mundo a glória,
minha vida é um desatino,
minha luta, minha história.

Minha forma é o desalinho,
minha fonte, os loucos bardos,
a forja é o meu cantinho
e o cadinho, os muitos cardos.

A poesia que de mim sai
é suor que escorre e vai
para o papel, de mansinho.

Pois que dure enquanto dura
este tempo de loucura
este imenso torvelinho.

 

 

VER: AMOR

Por Carlos Henrique Schroeder

Verdade é que no jogo do amor não há vencedores.Eis que estava lá e não me arrisco a usar a mais torpe e fácil das palavras: absorto.
Até que a vi, sim, era ela: caminhava sei bem para onde, acho. Meu estômago dançou – aquário indecente. Quatro passos. Agora cinco. Cuidado. Sigo Raissa, ou Joana, como me disse certa vez, anuviada. Três passos. Pego em seu braço. Mentira. Vejo-a ganhar passos e sumir – palavras torpes – no burburinho das calçadas descalças iluminadas. Resta-me – o resto é o que sou - chacoalhar a cabeça e pensar mais uma vez em Raissa ou Joana na noite azulada que mudou minha... Quando peguei em seus cabelos e senti aquele cheiro doce. Caminho sempre toda-noite por entre-ruas para esquecer o cheiro que desola e oscila. Eu não tenho medo de sob as gastas luzes dos postes recitar Dylan Thomas:

“Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a Lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços ,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.”

Eu sou mais um desses desvairados, um fragmento do discurso amoroso. Afinal, alguém tem de acreditar no amor. Ou não? As calçadas parecem não ter fim, mas em cada esquina espero te encontrar “nos palcos de marfim”. Eu não sou Rimini do livro “O Passado”, de Alan Pauls, para quem “amar em excesso não podia dar certo”. Eu estou mais para o Maurice Bendrix do “Fim de Caso”, de Graham Greene, que busca no amor uma epifania. Amor. Amor. Amor. Palavra gasta, em desuso, mal utilizada e que já escondeu as maiores mentiras e crimes. Mas “eu trabalho junto à luz que canta/Não por glória ou pão.” Uma amiga me disse que não acredita na palavra amor, mas em atitudes amorosas. Outra me disse que o amor é um luxo desnecessário. Sigo sozinho pelas calçadas, “em meu ofício ou arte taciturna”, tentando pôr ordem em meu discurso, embriagado pelo cheiro doce dos cabelos de Joana/Raissa. Nunca aprendemos a amar, tenhamos 30 ou 80 anos. O amor sempre nos tira do raso e arrasta para a arrebentação: o acorde do desespero, noite azulada. Caminho pelas calçadas. Fujo das ruas. Quero as esquinas de marfim, talvez lá a encontre. Talvez. O cheiro doce dos cabelos sedosos (Seriam mesmo sedosos? Ou já estaria eu embriagado de amor?) ao vento, o toque orvalhado de meus dedos. Que coisa mais kitsch falar de amor! “Oh! Lá! Lá! Que esplêndidos amores sonhados!”, já disse Rimbaud, outro doente de amor. Eu quero Raissa/Joana, as calçadas, os cabelos, os cheiros, o sexo, o toque, o tapa. Resta-me – o resto é o que sou – chacoalhar a cabeça e pensar mais uma vez em Raissa ou Joana na noite azulada que mudou minha...

 

POEMA NOVO

Teresinka Pereira (USA)

O silêncio me domina
e não posso contradizê-lo.
A convivência com a noite
traz finíssimas gentilezas.

Não espero reconstruir
meu passado, mas seguir
em busca de um novo sol
que escreverá meu futuro.

As diáfanas ânsias
já se transformaram
em aventureiros sonhos
e utopias.

 

 

'MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS'

Foi lançado, no final do mês de novembro, em Laguna, a antologia do Grupo Carrossel de Letras, do qual faz parte Fátima de Laguna, que integra também o Grupo A ILHA e a Confraria de Quintana. "Mudanças e Permanências" foi apresentada ao público fizemos ao som de violinos e cordas, entre arranjos de rosas vermelhas e jovens declamando, no IPHAN. Além dos integrantes do grupo Carrossel de Letras, o livro conta com a participação de Leonardo Boff, que publicou seu poema "Amor Franciscano".

 

 

PARÁBOLAS

Jean Aristeguieta
(Venezuela)

1
Cruza o cravo pelo tempo
como se fosse espelhismo,
névoa, ansiedade do poema,
o cravo rompe o segredo.

2
Os hinos do silêncio
As metafísica da nostalgia
A ilusão do amor
A poesia do insone

 

 

PELO MENOS ELES MATAM OS MONSTROS

Domenico Defelice (Itália)

Na sombra
orgias de faíscas
e luzes brilham
jorrando da base da televisão.

Ouvindo silenciosamente
as tristes histórias de fadas
nas quais os bons nunca vencem
e no final enchem
os cemitérios de cruzes.

As crianças esperam
que os adultos ronquem
para sintonizarem
em Mazzinga e Goldrake:
porque pelo menos
eles matam os monstros.


EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 103 - DEZEMBRO/2007 - Ano 27
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
End. para Correspondência:
lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br
A ILHA na Internet: Veja o portal PROSA, POESIA & CIA. em
Http://geocities.yahoo.com.br/prosapoesiaecia


 

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