SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Edição On-line da revista do Grupo Literário A ILHA - Edição 104 - Florianópolis SC

Março/2008

2008: ANO MACHADO DE ASSIS

Começa o ano literário e o Grupo Literário A ILHA aparece com a edição 104 da sua revista. Estamos em 2008 e não poderíamos deixar de prestar homenagem ao grande escritor brasileiro Machado de Assis, pelo centenário de sua morte.
E mais, muito mais temos nesta edição de A ILHA: a primeira Feira Catarinense do Livro, que acontece neste ano em Florianópolis, a quinta Feira do Livro de Joinville, muita prosa, muita poesia e muita informação literária e cultural.
Na próxima edição, estaremos completando vinte e oito anos de existência, tanto a revista como o Grupo A ILHA. É um marco para nós, pois nenhum grupo ou publicação durou tanto tempo em atividade, aqui no estado ou mesmo fora dele. Começamos a comemoração já, com a publicação do livro “Escritores Catarinenses e o Grupo Literário A ILHA”, história da literatura de um grupo que ajudou a fazer a história da Literatura Catarinense nas últimas três décadas.
E continuaremos o trabalho de divulgar a literatura catarinense e brasileira.

 

RENASCIMENTO

Luiz Carlos Amorim

Há um raio de luz
nascendo no horizonte.
Há um fio de esperança
apontando o futuro.
Há um resto de fé
se multiplicando.
É a vida ressurgindo,
É a Páscoa
do renascimento,
do encontro da paz,
da busca do amor,
a comunhão com Deus

 

SAI O LIVRO "ESCRITORES CATARINENSES E O GRUPO LITERÁRIO A ILHA"

Por Luiz Carlos Amorim

O livro “Os Escritores Catarinenses e o Grupo Literário A ILHA”, reunindo biografia, bibliografia, alguma fortuna crítica e uma pequena amostra da obra de escritores que passaram ou que estão até hoje no Grupo Literário A ILHA, foi idealizado para ser publicado em comemoração aos vinte e cinco anos de atividades dessa que é a entidade mais perene do gênero em nosso estado. Mas a coleção “Poesia Viva” já estava sendo organizada e os doze volumes foram lançados quando saiu a centésima edição da revista Suplemento Literário A ILHA, ficando o livro em fase de coleta de dados. E agora vem a lume, com lançamento marcado para a Feira do Livro de Joinville e também na Feira de Rua do Livro de Florianópolis.
Um volume reunindo quarenta e quatro escritores catarinenses que surgiram no Grupo Literário A ILHA, passaram por ele ou ainda continuam nele. Quarenta e cinco com o autor.
É certo que muitos outros escritores passaram pelo grupo, nestes vinte e oito anos de atividades ininterruptas, mais de uma centena deles, provavelmente. Há escritores de outros estados e até de outros países, mas aqueles nascidos ou radicados aqui em Santa Catarina que não constam deste documento são os que tiveram uma passagem não muito longa e não continuaram produzindo, ou saíram do grupo e preferiram recomeçar tudo, sem mencionar sua passagem pela ILHA em seu currículo, então respeitamos essa decisão.
Temos nomes expressivos no grupo, pessoas que não começaram nele mas participaram ativamente desde o seu início, como Enéas Athanázio, Urda Alice Klueger, Else Sant‘Anna Brum, e ainda Wilson Gelbcke, Iaponan Soares, Celestino Sachet e outros.
No mesmo livro, dois artigos sobre a trajetória do grupo AILHA e uma resenha sobre a divulgação de nossos escritores nas escolas, um estudo sério comprovando alguns motivos pelos quais a literatura produzido em nosso estado não é tão lida: as nossas escolas não lêem os autores da terra.
Esta quase antologia – porque além das informações sobre cada autor traz também uma “pitada” da sua obra - talvez possa ser considerada uma pequena contribuição no que diz respeito a fornecer informações sobre novos escritores que estão despontando em nosso estado e atualização dos dados daqueles que já eram conhecidos, enquanto não saem novas edições de grandes obras como “A Literatura Catarinense”, do professor Celestino Sachet e “A Literatura de Santa Catarina”, do professor Lauro Junkes.
Este é o registro da marca que a reunião de praticantes e amantes da literatura dentro do Grupo Literário A ILHA deixaram e estão deixando na história da Literatura Catarinense.

 

PROMESSA

Else Sant’Anna Brum

Eu vou buscar o sol
E tendo-o comigo,
Caminharei contigo
E a tua estrada encherei de luz.
Não tenhas medo
A noite será clara
Porque da mesma forma
Buscarei a lua
E então caminharás no brilho do luar!
Quero que sintas no calor do sol
Minha ternura imensa;
Na luz suave e doce do luar
O meu carinho;
E, a cada passo hás de encontrar estrelas
Marcando meu amor em teu caminho!

 

GRANDE MACHADO!

Por Maicon Tenfen

Machado de Assis foi o cara. Só não fez sucesso internacional em vida por causa do pouco prestígio da nossa língua junto às elites leitoras de Londres e Paris. Se tivesse escrito em inglês ou francês, por exemplo, há tempos estaria nas mãos de todos os estudantes ocidentais interessados em literatura.
Hoje os críticos ombreiam Machado com Flaubert, Zola, Eça, Tolstoi, Dostoievski e todos os grandes do século 19. Junto a especialistas brasileiros do naipe de um Alfredo Bosi ou um Rodrigo Schwarz, há muitos estrangeiros que dedicam suas carreiras a analisar e interpretar a obra de nosso romancista maior. Os ingleses John Gledson e Helen Caldwell são exemplos notórios.
Mas o que tem Machado de tão bom? Sou sincero em dizer: achei uma droga a primeira vez que o li, nos tempos de colégio. Anos mais tarde, por pura deferência, revisitei um de seus livros com mais atenção. Aí sim tive condições de perceber o estilo elegante, a astúcia narrativa, o humor sutil e corrosivo, o escárnio disfarçado em ironia.
Alguém já disse que Machado só pode ser plenamente apreciado por quem tem mais de trinta anos. Descontando o exagero, é mesmo um barco oscilante para marujos de primeira viagem. Sem leituras prévias e uma mínima experiência de vida, esqueça.
É por isso que torço o nariz com a leitura obrigatória de seus romances, com ou sem listas de vestibular. Esse tipo de coisa só incita a gurizada a odiar Machado e todo o resto da literatura. O que fazer, então? Deixar de estudá-lo na escola?
Claro que não, professores. Uma abordagem estratégica, porém, se faz necessária. Em vez de forçar um moleque de 16 anos a ler todo o Quincas Borba ou todo o Dom Casmurro, por que não começar pelos contos? Na minha modesta opinião, é o que Machado tem de melhor.

Machado de Assis morreu em 1908. Isso quer dizer que neste ano teremos uma bela agenda cultural. A imprensa já comemora o centenário, universidades se preparam para sediar simpósios, editoras lançam o que podem a respeito do tema, professores elaboram novas teorias e críticos desdizem o que antes foi dito sobre o bruxo do Cosme Velho.
Isso tudo é muito bom, sem dúvida. Só precisamos tomar cuidado para não fazer o mesmo que os argentinos fizeram com Borges uns tempos atrás. Sem querer querendo, transformaram o maior dos seus escritores em mais um subproduto da mídia, em mais uma bugiganga de feira livre, em mais um artigo barato na liquidação de bens simbólicos em que vivemos.
Discreto que sempre foi, Machado coraria com o circo que está se armando.

 

ARRUMAÇÃO

Lorreine Beatrice

Na manhã de hoje,
arrumei as salas
de minha alma.
Vi a gigante escuridão
que me prendia
esconder-se pelos cantos,
dissipar-se igual
aos encantos de outrora.
Atirei tudo pela janela
com o cuidado de conservar
violetas e minhas sentenças.
Desfiz-me
de qualquer lembrança
que pudesse
teu cheiro revelar
despi-me de sonhos
para aguardar o recomeço:
eterna limpeza de quem espera
o grande amor

 

CASTIGO DE DEUS

Por Norma Bruno

(... ) “Preste atenção: Ouça, há muitos pássaros selvagens batendo asas à volta do seu corpo...”
Essas palavras, para mim, resumem a magnífica e misteriosa experiência do viver. Creio, firmemente, na vida como uma obra de arte. Creio, firmemente, que castigo de Deus é viver sem alegria, é viver uma vidinha básica, cuja maior emoção é comprar uma roupa nova, trocar de carro ou de geladeira. E, ainda que isso seja muito bom, desconfio que não foi isso que a gente veio fazer aqui.
Até hoje não sei que diabos eu tô fazendo aqui, mas de uma coisa eu tenho certeza, nenhum de nós veio para cá com a missão de usar cartão de crédito, passear de escada rolante, detonando cheque especial no shopping, ou suar em bicas dentro de uma academia, para corresponder a um molde ou performance.
Não vim para cá com a missão de me vestir na última moda – para isso a gente já nasce pelado – e muito menos de dirigir carros, cada vez mais velozes, poluentes e potencialmente mortais. É muita potencialidade para tão pequeno resultado, é muita beleza para tão pouca responsabilidade.
A vida não é curta, a vida é breve, a vida é compromisso todo dia. Penso que nos esquecemos do compromisso assumido, da nossa missão primordial, cuidar das coisas do Pai. Essa herança não tem, necessariamente, cunho religioso, mas muito provavelmente, espiritual.
Castigo de Deus é desistir de ser feliz porque isso dá muito trabalho, é transferir essa possibilidade e essa responsabilidade para os filhos, depois para os netos, deixar para amanhã, para depois de amanhã, para quando a gente se aposentar, para quando sobrar tempo. Eu morro de medo, pois a gente só vai ter tempo de sobra na eternidade, e para que isso aconteça, primeiro é preciso morrer. Deus me livre!
Castigo de Deus é desistir de viver plenamente e morrer antes da hora – existem muitas formas de suicídio. Eu sou como o meu pai que diz que vai, mas vai esperneando. Quanto ao dia do Juízo, já perdi o medo, descobri (ou será que inventei?), que o pecado não existe. Era tudo mentira para a gente não fazer malcriação na frente das visitas.


“A morte é a curva da entrada,

Morrer é só não ser visto...
A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Ninguém jamais se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.”

(Fernando Pessoa)

(Excerto do texto
"Castigo de Deuis",
do livro "A Minha Aldeia")

 

LEITURAS

Por Célia Biscaia Veiga

Leitura é uma coisa interessante. Naturalmente, não para quem não gosta de ler e não consegue entender como alguém pode ficar horas a fio, absorto, com um livro nas mãos, muitas vezes totalmente alheado ao que acontece ao seu redor...
Quem gosta de ler e geralmente adquiriu esse hábito ainda em criança, não consegue imaginar um dia que seja da vida, sem ler absolutamente nada. O dia não está completo se um mínimo de tempo não foi usado com uma leitura.
Diante de cada livro, porém, ocorre uma situação diferente de pessoa para pessoa. Um livro que para uns é fantástico, para outros poderá ser maçante e intragável. Ainda não conheci nenhum livro que fosse unanimidade; pode agradar a um grande número de pessoas, mas sempre terá alguém que mal olha para a capa. Isso quando não se assume: “Não li e não gostei”, baseado no tema do livro ou dos comentários que se tenha ouvido a respeito dele.
Têm aqueles livros que quando a gente começa a ler só os largamos a muito custo e só pela necessidade de atender a compromissos inadiáveis, mas não vemos a hora de poder retomá-los para saber a continuação quando terminamos sentimos saudade do tempo que estávamos ainda lendo, e muitas vezes os relemos periodicamente, sempre encontrando novos fascínios nas suas linhas.
Há livros que se começarmos a ler à noite arriscamos amanhecer lendo, sem perceber a passagem das horas (não sendo recomendados durante a semana, pois no dia seguinte precisamos trabalhar e por isso precisamos dormir à noite)...
Outros, porém, basta ler algumas linhas e funcionam como sedativo natural e adormecemos com o livro inutilmente aberto diante de nossos olhos fechados...
Alguns são interessantes enquanto estamos lendo, mas ao interrompermos a leitura para atender aos compromissos, eles não nos “chamam” a continuar e não tem aquele apelo forte à nossa curiosidade de saber como termina.
Outros, mesmo que se queira saber o final, parece que a leitura não rende e não acaba nunca, dando-nos a tentação de olhar as últimas páginas para ver como vai terminar, mas é uma tentativa que não dá bons resultados, pois não se sabe como poderia ter chegado àquele final... Mas às vezes é uma forma de despertar o interesse de ler as páginas do meio com maior entusiasmo...

 

TEMPEROS

Aracely Braz

Se a vida fosse só rosas,
Onde estariam os espinhos?
Se só de espinhos fosse
Que seria de seu perfume?
É beleza sem igual,
Sem um toque de pincel,
É o caminho temperado,
Mistura benevolente,
Doce e salgado no ponto.
A rosa do meu poema
Da madrugada, da noite,
Minha gangorra florida
... a vida.

 

FELIZ ANIVERSÁRIO, FLORIANÓPOLIS!

Por Luiz Carlos Amorim

Florianópolis está de aniversário: completa 282 anos neste 23 de março. Fico pensando se há, na verdade, muito a comemorar. E chego a conclusão que há, mas também há o que lamentar, infelizmente. E as duas coisas são praticamente intrínsecas, porque justamente por ser um dos melhores lugares do mundo para se viver, está se tornando quase impraticável viver aqui.
Explico: há que se agradecer, sempre, pelas belezas naturais que Florianópolis descortina diante de nossos olhos, para quase todos os lados que olhamos.
A capital catarinense tem dezenas de praias belíssimas: praias de águas mansas ou de mar agitado, de acesso fácil ou por meio de trilhas, com infra-estrutura ou semi-desertas. Tem a Lagoa da Conceição: “Num pedacinho de terra / beleza em par! / Jamais a natureza / reuniu tanta beleza / jamais alguma poeta / teve tanto pra cantar!”, como já dizia Zininho, em seu “Rancho de Amor à Ilha”, hino oficial de Florianópolis. Tem também a Ponte Hercílio Luz, que apesar de não ser mais usada é o cartão postal da cidade, conhecido no mundo todo e foi tombada como patrimônio histórico e artístico.
Tem as rendeiras, tradicionais, que ainda fazem a renda de bilros, criando peças belíssimas. Tem a velha figueira, centenária, na Praça XV, outro cartão postal. Tem os manezinhos, nativos da ilha, gente acolhedora e alegre que faz desta terra um lugar feliz.
E justamente o fato de ser um lugar bom de se viver fez com que a propaganda trouxesse para cá gente que não deveria vir, que trouxe consigo a violência e a insegurança. A propaganda nos diversos meios de comunicação de âmbito nacional tem veiculado, repetidas vezes, e não é de agora, que Florianópolis é o lugar que tem a melhor condição de vida, que é o melhor lugar para se viver, que é o lugar mais belo que há.
Em decorrência disso, muitas pessoas migram para cá. E parte dessas pessoas, mesmo que seja uma pequena parte, não vem para usufruir uma melhor condição de vida, mas sim de olho nas posses de quem vive neste paraíso. Por que eles, os indivíduos de má fé, devem achar que todos que vivem aqui nesta terra abençoada são milionários.
Então, é muito triste constatar a violência crescendo na nossa capital: assassinatos quase todos os dias, assaltos, seqüestros, tráfico de drogas. Não se tem mais nenhuma segurança, nem dentro de nossas próprias casas, por mais que se instale alarmes ou outros preventivos. Quando comecei a escrever esta crônica, pretendia apenas cantar as belezas da nossa Ilha da Magia, a nossa Ilha de Santa Catarina, que compõe, com parte do continente, a nossa querida Florianópolis. Mas é impossível fechar os olhos para as transformações que o nosso paraíso tem sofrido, lamentavelmente.
Parabéns, Florianópolis, por mais um aniversário. Beijo o teu chão e desejo, veementemente, que a tua beleza maculada com a violência e a ganância, com desamor e desprezo pelo ser humano e pela natureza deixe de ser refém de criaturas indignas e de todos aqueles que a ferem, para que, num futuro próximo, possamos comemorar com mais alegria o seu aniversário.

 

É NOITE

Selma Franzoi


É noite quando a chuva traz
um pouco mais de saudade
e faz a dor da tua ausência
bem mais dor...

É noite quando esta tua ausência
me pune de forma cruel
deixando no silêncio da noite imensa
bem maior a minha solidão.

É noite quando te busco em minhas lembranças
te trago presente e te revivo intensamente em replay...

É noite quando minha insônia permite me transportar
para onde meu coração pedir...
Me agarro à miragem da tua imagem
e chego até teus braços...
Porque é sempre lá que eu quero estar,
viver e sonhar em replay...

É noite... e é frio...
E a chuva deixa,
na lembrança de momentos
que eu não quero esquecer
um pouco mais de desejo
e bem mais forte a minha paixão...

É noite e está muito frio agora
mas eu não posso estar contigo
para sentir o teu abraço...
para sentir todos os teus abraços
talvez em replay...

 

MEU ENCONTRO COM QUINTANA

por Luiz Carlos Amorim

Uma grande frustração que tenho é não ter conhecido pessoalmente Mario Quintana, o menino Quintana, meu poeta favorito. Sempre quis ir a Porto Alegre, conhecê-lo, visitar a Feira do Livro, mas o trabalho e outros compromissos nunca deixaram. O poeta foi completar o céu com a sua poesia e eu só fui participar, finalmente, da Feira do Livro de Porto Alegre no ano passado. Visitei a casa dele, no Hotel Majestic (agora está incorporado à feira), mas não é a mesma coisa. A gente sente ainda mais saudades do poeta.
Então fico eu cá imaginando meu encontro com o poeta. Eu chegaria ao Majestic ou o encontraria na Rua da Praia, ou ainda na Feira do Livro de Porto Alegre. Eu o cumprimentaria, beijar-lhe-ia a mão e me apresentaria. Dir-lhe-ia que sou um poeta aprendiz, nascido ao pé da Serra do Mar, na Santa e bela Catarina, que aprendeu a amar a poesia com os seus poemas. E então pediria para lhe dar um abraço. Talvez ele até pudesse pensar que eu fosse maluco, mas não somos todos, um pouco? E ele talvez já tivesse conhecido outros malucos assim. Mas acho que me convidaria a sentar e conversaríamos. Eu lhe entregaria um ou outro poema, ele acenderia um cigarro e talvez lesse um dos meus poemas.
Que diria ele? Talvez gostasse, talvez não. Deveria ser comum as pessoas levarem poemas para ele ler e opinar, talvez ele nem gostasse de fazer isso. No entanto, qualquer coisa que ele dissesse seria uma grande lição para um pequeno poeta (isso me lembra que ele disse que não existem pequenos ou grandes poetas: ou se é poeta ou não).
Será que ele reconheceria um poeta em mim? Não sei, mas acho que ele diria alguma coisa, naquela voz mansa e naquele falar quase ligeiro, e o que ele dissesse seria bem vindo.
Eu tentaria, ainda que com receio de aborrecê-lo, fazer uma entrevista, é claro. Far-lhe-ia algumas perguntas, que não direi quais porque na época elas seriam umas, mas hoje já seriam outras. E acho que ele responderia, e eu teria aprendido muito mais então. E eu dividiria as palavras do mestre Quintana, pois certamente publicaria, para que todos pudessem usufruir da sensibilidade e da sabedoria dele.
E voltaria para casa com a alma lavada, feliz por ter conhecido o grande poeta.

(Extraído do Jornal A Noticia)

 

RESPOSTA A LUIZ CARLOS AMORIM

Por Mary Bastian

Sobre tua crônica de segunda- feira, dia 11, fiquei emocionada pelo teu respeito ao Mario Quintana, tua frustração por não tê-lo conhecido pessoalmente. Então, vou te contar alguma coisa: eu o conheci e falei diversas vezes com ele. Como bibliotecária, mais de uma vez o recebi na escola para ser entrevistado pelos alunos.
Diga-se, de passagem, algumas perguntas bem fora do contexto, mas a maioria aproveitável. Lembro em especial a última vez em que o recebemos no Inácio Montanha. Sorridente, conversou um monte, e por fim de tão cansado, precisamos recolher os livros ainda por autografar. Aquilo ficou pra mais tarde, na casa dele. Depois entregaríamos aos fãs.
Soube também que ele tinha medo de não chegar aos 90 anos. E não chegou. Foi-se pra terra dos anjos aos 88, deixando a gente um pouco analfabeta.
No ano em que completaria os almejados 90, fui convidada pelo Sesc para fazer um trabalho sobre ele, pois na época me dedicava à hora do conto e a encontros com leitores,
Porto Alegre estava festejando em todos os rincões, o seu poeta, e fiquei lisonjeada e preocupada com a tarefa. Procurei nas poesias dele as que falavam de anjos, e são tantas! Selecionei umas doze, inclusive “O Anjo Malaquias”, que não é bem pra crianças, mas dei um jeito e mandei fazer um anjo-fantoche, que ainda tenho guardado.
E eu e o anjo Ariel, saímos pelo interior gaúcho por conta do Sesc, a contar pras crianças quem tinha sido aquele menino poeta, aquele velhinho simpático que gostava das ruas à noite e da praça da Alfândega. durante o dia.
Tenho até uma foto com ele e outra moça, tirada numa festa no Lage de Pedra porque ele dizia “com moça bonita tiro quantas fotos quiserem...”
Mas de todas as poesias que selecionei naquela ocasião, não sei por que, “A Canção de Garoa” ficou no meu coração:


Em cima do meu telhado
Pirulin lulin lulin
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim
O relógio vai bater:
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.
E chove sem saber por que...
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin

(Extraído do jornal A Noticia)

 

AS PARNASIANAS

Por Enéas Athanázio

Depois de anos de estudos e pesquisas, (Rafael) SÂNZIO DE AZEVEDO, professor da UFC e autor de cerca de vinte livros dá a público o volume “O Parnasianismo na Poesia Brasileira” (Co-edição UFC/UVA – Fortaleza), no qual disseca os princípios, técnicas e segredos dessa escola literária que vicejou no Brasil por influência de Leconte de Lisle, Banville e Heredia e como reação ao romantismo. Estuda o parnasianismo em França e Portugal, abordando em seguida os precursores nacionais e, por fim, o parnasianismo no Brasil, suas características formais e temáticas, começando pelos expoentes do Rio de Janeiro, onde a escola floresceu com mais força, aí incluindo o catarinense Luís Delfino. Examina a seguir os expoentes da escola em São Paulo, merecendo cada um deles minucioso estudo. Estende-se então a todo o país, analisando os representantes de cada Estado, buscando realizar um levantamento exaustivo e sem omissões.

Quanto a Santa Catarina, contempla os poetas Lacerda Coutinho, em consideração à parcela parnasiana de sua produção, Araújo Figueredo, pela mesma razão, e Arnaldo Claro de São Thiago. Segundo o autor, o “pouco peso da corrente parnasiana neste Estado é o fato de n’ “A Literatura de Santa Catarina” (1979), de Celestino Sachet, não haver um capítulo específico para ela, o mesmo ocorrendo na “Introdução à História da Literatura Catarinense” (1980), de Osvaldo Ferreira de Melo” (pág. 334), Dentre os incluídos por Lauro Junkes na “Presença da Poesia em Santa Catarina” (1979), exclui Carlos de Faria e Antero dos Reis Dutra por não serem ligados à corrente. “Repetimos que nos interessam poemas parnasianos e não necessariamente só poetas parnasianos” – escreve o ensaísta (idem).

Pelo seu caráter sério e abrangente, o livro de Sânzio de Azevedo passa a integrar o rol das obras indispensáveis das letras nacionais e merece desde já uma referência que não pode ser omitida. Foi objeto de análise positiva de mestre Wilson Martins em sua coluna de “O Globo” (8 de janeiro de 2005 - pág. 4).

 

PALAVRA É FERMENTO

Artêmio Zanon

Palavra é fermento
e mais se leveda
na ponta dos dedos
à fôrma do verso.

Quanto mais sovada
- seja qual for o uso! –
melhor se revela
no pomo da mente
que lhe infunde a alma
como um ritual
feito de segredos.

Diverge no texto
o nosso consenso;
diverge no estilo
o nosso conceito.
Na forma do ritmo
vai nosso segredo;
em nossa poesia
leveda nossa alma.

O pão e o poema
são nossos produtos,
comuns substantivos:
na espécie da fome
lhes pomos sabores
consoante os motivos.

 

AS VELHAS PÁSCOAS

Por Urda Alice Klueger

Fico entristecida quando vejo o que a sociedade de consumo fez com a Páscoa: para a maioria das pessoas, hoje, Páscoa significa ir às Lojas Americanas disputar ovos de chocolate anunciados como os mais baratos do Brasil, muitas vezes levando junto as crianças para que elas próprias escolham sua marca preferida. A magia e o encanto da Páscoa se dissiparam paulatinamente com o avanço do progresso, e eu tenho uma saudade imensa daquelas maravilhosas Páscoas da minha infância, tanta saudade que vou contar como eram.
Na verdade, a Páscoa começava muitos meses antes, quanto, em cada casa, as mães quebravam cuidadosamente só a pontinha de cada ovo usado, para guardar as casquinhas vazias. Elas eram lavadas, secas e armazenadas, e só de olhá-las já se criava uma expectativa a respeito da Páscoa.
Ainda antes da Semana Santa já se começava a preparar a Páscoa. Cada casquinha era decorada, e as formas eram muitas. Podia-se pintá-las com tinta a óleo ou outras tintas apropriadas que existiam, que lhes davam lindas cores vivas, ou podia-se decorá-las com tiras e tiras de papel de seda ou crepom picotados, que as deixavam com uma cara de gostosas! Essa eram as formas mais fáceis de decorar casquinhas – havia outras, é claro, mais sofisticadas, e resquícios delas ainda aparecem nas lojas especializadas nesta época do ano. Paralelamente à confecção das casquinhas, faziam-se as cestas, usando papelão e muito papel colorido picotado e encrespado, serviço para noites e noites à volta do rádio. Algumas crianças tinham a felicidade de possuir cestinhas de vime, que eram reaproveitadas a cada ano.
Era necessário, também, preparar o amendoim, que a gente comprava com casta, descascava, torrava, tirava as pelezinhas, para depois a mãe da gente confeitá-lo com calda de açúcar, ato que por si só já gerava uma grande magia, com a criançada toda em torno do fogão prendendo a respiração para ver se a calda “dava ponto”. Depois era hora de encher as casquinhas, e fechá-las com estrelinhas de papel coladas com cola de trigo. De noite, misteriosamente, tudo sumia: o Coelho levava as guloseimas e as cestinhas embora para sua toca.
Faziam-se, também, os ovos cozidos pascoais. Colava-se folhinhas de avenca, de rosa, etc (com clara de ovo) em ovos frescos, os quais eram amarrados dentro de trouxinhas de pano e depois cozidos em águas com plantas que lhes davam cor. Marcela, casca seca de cebola e capim melado produziam ovos de três tons de amarelo; a batata de cebolinha vermelha produzia ovos vermelhos. Depois do cozimento, tirava-se a trouxinha e as folhas, e obtinha-se belos ovos decorados para serem comidos no café da manhã de Páscoa.
Ah! A manhã de Páscoa! Na véspera, as crianças tinham feito seus ninhos, com palha ou capim, ninhos enfeitados com pétalas de flores e papel colorido picado, escondido no jardim. O despertar na manhã de Páscoa era uma loucura: corria-se para fora de casa ainda de camisola, a procurar o que o Coelho deixara. No ninho sempre havia alguma coisa, mas havia coisas também, escondidas em todos os cantos possíveis. Acontecia de a cesta da gente estar escondida dentro do galinheiro (todos tinham galinheiros nessa época), e aí havia outra surpresa: as galinhas brancas estavam azuis, ou verdes, resultado de paciente trabalho dos pais, durante a noite, que lhes pintara as penas com anilina. Nós não tínhamos vacas, mas nas casas onde as havia, as partes brancas do pêlo delas também eram coloridas com anilina, e tudo aquilo criava um encanto muito grande nas nossas mentes infantis. Era um ser maravilhoso, esse Coelho!
Nas manhãs já frias de Abril, voltávamos para casa com as cestas cheias de casquinhas e alguns espetaculares chocolates (chocolate, na época em que eu cresci, só era comido no Natal e na Páscoa), que eram contados e divididos igualmente entre todas as crianças. Ia-se à Igreja, a seguir, à missa das nove, e o ar fino e já frio de Abril estava totalmente impregnado de uma profunda magia, e a gente não via a hora de voltar para casa para começar a comer as guloseimas! Primos vinham brincar, nestas tardes de um tempo em que a Páscoa era tão maravilhosa, e a gente criava cenários fantásticos nos gramados verdes, onde os coelhinhos de chocolates e os ovos eram personagens.
Ah! Que pena que o espaço está acabando! Quanto, quanto ainda queira falar sobre as antigas Páscoas! Mas acho que já deu para dar uma idéia de que elas eram muito diferentes da Páscoa que a sociedade de consumo criou : qual é a graça de levar as crianças às Lojas Americanas para escolher seu tipo de ovo preferido? Onde ficou a magia da espera e do Coelho?

 

A ALMA DE TUDO

Maria de Fátima Barreto Michels

Deslizando na escada espiralada ia
lá fora, tentar resolver a vida, todo dia, toda hora
O molusco, um dia, conseguiu...

Na concha a gastura permite agora, vejamos sua hélice,
princípio-motor, fura vento, fura céu, fura fundo
Vai e vem que se recria
Sacrifica, multiplica, simplifica
se equilibra
A alma do tempo é o que fica de tudo
É o que move
o mundo?

 

O FANTASMA FORASTEIRO

Conto de Apolônia Gastaldi

Juro pra vocês que dormi com um fantasma. Juro. E quando ele chegou eu estava acordada. Não pensem que ele era uma fumaça leve e frouxa, não. Estava eu deitada e vigiava o sono quando apareceu sentado aos pés da minha cama. Um vulto azulado. Abri bem os olhos e lá estava ele. Inteiro. Tinha aproximadamente sessenta anos, olhos azuis, cabelos bem grisalhos, um belo sorriso. Olhou-me muito significativamente. Parecia cansado. Eu logo perguntei o que estava fazendo ali. Ao que ele respondeu que precisava descansar um pouco.
Mostrei o travesseiro ao meu lado e ele tirou a jaqueta, os sapatos e deitou-se. Suspirou. Olhou para mim e depois adormeceu por uns minutos. Ao acordar virou-se na minha direção e iniciou um diálogo interessante. Disse-me que trabalhava com metais, fazia conferências, contratos, muitos papéis e construção de grandes pontes. Eu escutava, pensava , um fantasma trabalhando? Desejei saber de onde vinha. Ele disse – de longe. Mas agora devo ficar aqui por algum tempo. Ele estava tão próximo de mim que eu podia sentir a sua respiração e o seu perfume. Cítrico. Confesso pra vocês que eu não sentia medo. Quando ele percebeu que eu estava calma, chegou mais próximo e esticou seu braço por cima de mim. Abraçou-me. Era quente. Eu precisava saber como entrara em minha casa. – Não preciso de chaves. Nem venho fazer o mal. Respondeu calmamente. Depois falou que gostaria de voltar, pois sentia-se muito bem em minha casa e estava só. Eu sorri. Ele sorriu e encostou-se ainda mais. Fantasma safado. Era um homem perfeito. Estava vibrando e olhava-me com muito carinho. Eu já estava desconfiada daquilo. – Você pode voltar – disse eu, - mas não me assuste. – Não assustarei. E virei sempre às terças-feiras, nove horas em ponto. Você deixa? – Venha – disse eu. Ele apertou-me contra seu corpo e deu-me um beijo de fantasma, de leve e vendo minha reação, estreitou mais e mais e lascou-me um grande beijo na boca. Um longo e gostoso beijo com sabor de cravo e canela. Beleza, aquele beijo do fantasma. Eu que fazia tanto tempo que não sabia o que era um beijo cinematográfico, fiquei a ver nuvens. Nunca imaginei que estaria sonhando. Não. Ele estava ali inteiro, era um baita homem. Nada era falso nele. Que beleza pensei eu bem quietinha: agora tenho um namorado! Um belo namorado! Não poderia querer mais. Nem ganhar na loteria valia tanto. Um namorado! Não fazia mal que fosse um fantasma. Ele só deixou a minha cama quando o relógio bateu meia noite. Ficou o perfume, mais nada. Agora aguardem, que na próxima tem mais. Ele voltou e como!!! Feroz, ardente e sem medidas.

 

PÁGINAS DE AMOR

Wilson Gelbcke

Nas páginas escritas com amor
não há lugar para a inverdade,
nem deve haver lugar para a dor.
Na balança da vida,
cabe dosar em cada prato
o que vai no coração...
Rosas de um lado,
espinhos do outro...
e cuidados para não se machucar.
Para cada rosa tão leve,
soma-se um espinho tão pesado...
E todas as rosas do presente,
pesam menos do que os espinhos do passado...

 

PALAVRAS, PALAVRAS

Cissa de Oliveira

Como pesam sobre os ombros as coisas que o vento não atravessa! Inventadas preocupações? Claro que não! Digo de um peso que se assemelha à poesia quando falta ou da sobra do espaço em que ela não pousou.
    Pousarão? Palavras, palavras, palavras... De tantas, se parecem a sardinhas numa lata. Trânsito engarrafado. Vias cruzadas. Tensão que dói nos ombros. Cruz. “Sou poeta, sinto falta de silêncio, fenda que me deixe cara a cara com o pulsar do coração”. São palavras de um poema. Escrevi-o num dia desses, de alguma teimosia misturada com subtração de poesia. Por que subtração, perguntaria o leitor atento. É que poesia, quando escrita, vira um tanto de palavras. Palavras poética mas... Palavras.
    Poesia é água. Palavra é água coada: sempre se perde um bocado. Quando sinto os olhos do meu amado, bebo da poesia que ele nem sabe guardada. Mas se eu digo dessa poesia, ela se desgasta e vai, como a água do riacho lavando as margens por onde a água passa.
    Faca de muitos gumes. Que arma é essa que, ironia, se quiséssemos, calava-se? Palavras, penso, são ótimas se não ultrapassam o necessário. Até a pedra, como disse Cândido Rolim, o poeta, mostra apenas um esboço da própria consistência. Não venha a palavra, como diria a minha avó, dizer miolo d’água.
  Palavras, ao teu gume a alma não pequena de um poema escrito – água coada! De ti recolho o que se salva: um pouco da oculta voz, a percepção azulada quanto à tinta da esferográfica ou o contorno da tecla que te desenha a alma, só.
    Ah, como pesam sobre os ombros, as coisas que o vento não atravessa! Quiçá fossem as palavras como o perfume das rosas despetaladas.

 

RELEMBREMOS, POIS

Joel Rogério Furtado

Para que seguir insistindo
se a gente só se arrepende
daquilo que não fez?
Relembrar é um ato profundo
de inconteste eternidade.
O trazer o ontem para o agora
é de novo sentir
esse gostoso hálito de saudade
que tudo faz presente novamente.
Rebuscar o passado no amanhã
será reviver essas ânsias
que alimentaram sempre
essa história tão cara
ainda que finda
de forma inexorável.
Deveremos seguir
mesmo que intranqüilos –
mesmo que a saudade
venha machucar a gente.
Que haveremos de fazer
se tudo foi escrito
em nossas vidas dessa forma?
Relembremos
pois tudo poderá ser como antes
se quisermos.

A ILHA NA FEIRA DO LIVRO DE JOINVILLE

De 4 a 13 de abril é a vez de Joinville se transformar na capital do livro e da leitura, com a sua Quinta Feira do Livro, que acontecerá, mais uma vez, na Praça Nereu Ramos, no centro da Cidade das Flores, da Dança e da Poesia.
Na edição deste ano, a Feira do Livro de Joinville trará escritores consagrados como Moacir Sclyar e Lia Luft e homenageará o grande Machado de Assis, pela passagem do centenário de sua morte.
Estaremos presentes também neste grande acontecimento literário, com o lançamento do livro “Escritores Catarinenses e o Grupo Literário A ILHA” e de “Borboletas nos Jacatirões”.
Será exibido, também, o Varal da Poesia do Grupo A ILHA, com mais de uma dezena de poemas em banners que serão distribuídos pela feira.
E a literatura volta à Praça Nereu Ramos.

(O livro “Borboletas nos Jacatirões” está à venda nas seguintes livrarias: Saraiva (inclusive virtual), Curitiba e Catarinense, Central Livros e Rio Centro (Rio do Sul), Convivência, Fapeu, Livros e Livros, Catarainense, Saraiva (Florianópolis), Aladim e Casa Aberta (tajaí), Acadêmica, Alemã, Papelaria Danúbio, Blulivros (Blumenau), Diocesana (Lages), LDV (Indaial), Papelaria Mosimann (Brusque), Cultural (São Leopoldo-RS), Bauhaus (Balneário Camboriu), Midas e Catarinense (Joinville), Nova Objetiva (S. Miguel do Oeste), Origem (Timbó), Grafipel (Jaraguá do Sul), Recanto do Livro (Videira), Refopa Joli (Pomerode), Fátima Art. Esp. (Criciúma), Ponto do Livro (Cruz Alta-RS). Pedidos também para o e-mail hemisferiosul@san.psi.br )

 

 

CÂNTARO DAS MINHAS NÁUSEAS

Viegas Fernandes da Costa

carrego calçados furados, meias furadas
e um monte de pedras nos bolsos

aos olhos, tantas estradas
e os rastros do passado

carrego a desventura do sonho
como meu bem mais precioso

às mãos, apenas a atrofia
e as infinitas possibilidades do vazio

carrego meus ossos, meus órgãos, meus medos
no cântaro das minhas náuseas

- mas já não tenho certezas

fecharam-se as portas das minhas igrejas
meus santos, descobri-os de gesso

e suspiro órfão às margens do Vale!

pudera cantar minhas certezas
profanar meu sudário e imprimir-lhe a marca que desejasse
parir glórias, pintar vitórias

pudera escalar pedras, fossas abissais
caminhar descalço nos caminhos que sempre sonhei
marcar a fogo as leis da humanidade

mas vazaram-se os olhos da terra
entortaram-se os pés
recolheram-se os dedos das mãos

e assim, fetal, recolho-me ao princípio
onde ainda se é possível
o desejo e a história.

 

1ª FEIRA CATARINENSE DO LIVRO EM FPOLIS

A 1ª Feira Catarinense do Livro acontece de 30 de abril a 10 de maio, ao mesmo tempo que VII Feira de Rua do Livro de Florianópolis, no Largo da Alfândega, centro histórico da capital, ao lado do Mercado Público.
Estaremos participando, como sempre, com o lançamento do livro “Escritores Catarinenses e o Grupo Literário A ILHA”, história da literatura de um grupo que ajudou a fazer a história da Literatura Catarinense nas últimas três décadas. O livro é uma quase antologia, pois além da biobibliografia e alguma fortuna crítica, traz amostra da obra de cada escritor.
Além do lançamento, o Grupo Literário A ILHA levará o seu Varal da Poesia, mais de uma dezena de banners que serão exibidos pelos corredores da feira.

 

DE QUEM É O PODER?

Silvério da Costa

A vida pede passagem
à morte, sua inimiga,
mas logo perde a coragem...
fingindo ser sua amiga.

A morte, de sacanagem,
ri e deixa que ela siga,
já que é só uma visagem
e não motivo de briga.

Morte e vida, quem diria,
são como a noite e o dia:
só querem aparecer!

Uma diz ser a mais forte.
A outra, nem pensa em morte.
De quem será o poder?

 

CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA

O Conselho Estadual de Cultura de Santa Catarina tem um novo presidente. Assumiu o cargo o escritor Péricles Prade. Disposto a defender o diálogo entre classe artística e governo, ele tem planos de abrir o CEC à participação popular.
Como presidente do conselho, Péricles Prade pretende, inicialmente, obter uma análise detalhada da política cultural do Estado. Ao levantar problemas, ele acredita ser mais fácil definir rumos e corrigir distorções. Além disso, Prade pretende servir de “ponte” entre os conselheiros e o governador, ouvindo segmentos artísticos e encaminhando as sugestões pertinentes. “Temos de privilegiar a qualidade do produto cultural, com o mínimo possível de interferência política”, comentou, ao responder sobre as críticas dos artistas em relação à Lei de Incentivo à Cultura.
Prade também pretende abrir os encontros do conselho para a participação de interessados que queiram acompanhar as discussões e fazer questionamentos ao conselho no final das reuniões. Quanto à postura de muitos artistas catarinenses, que há poucos meses assinaram um abaixo-assinado criticando duramente a política cultural do Estado e pedindo mudanças na Lei de Incentivo, em contraposição à propaganda do governo no sentido contrário, o novo presidente do conselho procura ser mediador. “Não pode haver maniqueísmo de nenhum lado. Boa parte das críticas é pertinente, mas precisamos de diálogo. Eu vou lutar pelo diálogo”, disse.

 

VEM AÍ A TERCEIRA EDIÇÃO DE MIRANDUM

A terceira edição da Revista Mirandum, da Confraria de Quintana de Santa Catarina está em fase de edição e deverá ser lançada, também, na Feira Catarinense do Livro. Desta vez, a revista será composta apenas de prosa e poesia sobre o poeta maior, Mário Quintana. Novos adeptos da Confraria, escritores de Santa Catarina e de outros estados estarão sendo publicados.

 

POESIA INTERNACIONAL

 

ESTAÇÃO DE PÁSCOA

Teresinka Pereira (USA)

É a estação de Páscoa
para os judeus e cristãos
mas os islamitas não tem
nada a ver com isso
e os soldados da guerra
nem se ressuscitam
nem param de matar.

É a estação de revivência
Mas os 100.000 iraquis mortos
Não viverão jamais.

Em USA a minoria passeia
Pelas ruas com cartazes
E grita pedindo paz,
Mas os senhores administradores da guerra
querem vender mais material de destruição
para depois vender
mais mão de obra e material
para a reconstrução
dos edifícios, pontes e ruas.

Mas quem poderá reconstruir
os lares, os mortos, as famílias?
E onde está a voz da maioria
que deseja parar esta fúnebre
produção de mortes,
de tragédias e de luto?

Quem tem consciência
sabe ver que a razão
pela qual se expulsam
os hispanos, é para fazer espaço
para os refugiados do Iraque
quando a guerra parar.

 

DESPERTA O FOGO

Jozo T. Boskovski Jon (Macedônia)

Encontro o fogo
Nas pedras brancas
O fogo está adormecido
Nos quartos brancos
Entre brancos lençóis
E o branco mostra
A sua clareza.
Mas o fogo dorme como o ouro
E jamais se enferruja
Nem perde seu brilho.
Quando se misturam
O fogo e o aço
Há conflitos no universo...
O fogo queima
Até mesmo o m ar.
Meu fogo se extende
Por toda a humanidade!

(Tradução: Teresinka Pereira)


SEMPRE ESPERANDO

Féridé Paplèka (Albânia)

Estou sempre esperando.
Faço predição do sol dourado
Sobre minha cabeça:
O sol com uma inalterável forma de deus,
E anuncio longas viagens,
Por rios que já desapareceram.
E nós sentimos falta
Dos amores perdidos
E que nos deixaram saudades.
Nas montanhas que se afundaram
No mar, por encantamentos
De mortes mitológicas
E de grinaldas de árvores
Cor de prata, tudo a nos lembrar
Dos caminhos esquecidos
E sua volta dos velhos
Mapas dos sonhos...

(Tradução: Teresinka Pereira)


EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 104 - Março/2008 - Ano 27
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
End. para Correspondência:
lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br


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