SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

 

Edição On-line da revista do Grupo Literário A ILHA - Edição 105 - Florianópolis SC

Junho/2008

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Capa Suplemento Literário A ILHA 105

Páginas internas Suplemento Literário A ILHA 105

 

EDITORIAL

GRUPO A ILHA - 28 ANOS DE LITERATURA

É junho de 2008 e o Grupo Literário A ILHA completa 28 anos de atividades. Para comemorar, aqui está mais uma edição da sua revista Suplemento Literário A ILHA, a de número 105, e estaremos lançando, na Feira do Livro de Jaraguá, em julho, o livro “Escritores Catarinenses e o Grupo Literário A ILHA”, trajetória de um grupo que ajudou a fazer a história de Literatura Catarinense nas últimas três décadas.
Também como parte das comemorações, a professora Eliane Debus convidou este editor, coordenador d´A ILHA para falar da atuação, das propostas e das realizações do grupo nestes vinte e oito anos de existência. A palestra, para o curso de Letras da Unisul, aconteceu em maio.
Um trabalho realizado em Jaraguá do Sul, pelas quintas e sextas series do primeiro grau do Colégio Bom Jesus, também colaboraram para festejar o aniversário do Grupo. Os estudantes, divididos em vários grupos, estudaram cronistas brasileiros, como Luiz Fernando Veríssimo, Lya Luft, Mário Prata e outros. E este cronista foi estudado por duas equipes, dando oportunidade às turmas de conhecerem também as atividades do grupo, já que os dois estão interligados.
Vida longa e produtiva para o grupo mais perene do gênero em Santa Catarina!

 

 

AS FEIRAS DO LIVRO DE FLORIANÓPOLIS

Por Luiz Carlos Amorim

Participei da Feira de Rua do Livro de Florianópolis, ocorrida no início de maio no Largo da Alfândega, lançando meu novo livro “Escritores Catarinenses e o Grupo Literário A ILHA”. Estive lá nos dois finais de semana e no meio da semana também. O público foi muito bom, tanto nos finais como nos dias de semana, com exceção dos dias em que choveu muito, no inicio da feira.
O que me chamou a atenção na programação, foi que em toda a feira houve pouco mais de trinta horários agendados para autógrafos (lançamento de livros), e o resto era uma boa variedade de apresentações no Espaço Cultural, como dança, teatro, contação de histórias, folclore, coral, música, declamação. No Auditório, um espaço menor, havia cinema (curtas) todos os dias, por iniciativa do Senac e duas palestras, sobre qualidade de vida e educação para o trânsito. Em comparação com feiras anteriores, faltou um escritor convidado, de renome, faltaram mesas redondas, debates, oficinas, seminários, etc.
Estive na Feira do Livro de Joinville, há um mês, e não pude deixar de comparar. Lá compareceram Lya Luft, Moacyr Scliar, Deonísio da Silva, além de outros escritores catarinenses que participaram de debates e seminários. Acho até que aqui vendeu-se mais livros, mas lá aconteceram mais atividades culturais, as opções de escolha para o público eram mais amplas, mesmo para aqueles que não podiam comprar livros.
No último dia da feira, aqui em Florianópolis, conversávamos com o presidente da Câmara Catarinense do Livro, que promove o evento, e ele dizia que está repensando as feiras do livro aqui na capital. Dizia que só vai fazer feira quando tiver recursos suficientes, isto é: talvez seja melhor fazer uma feira só por ano, bem feita, ao invés de duas. Ele pode ter razão.
As feiras vêm sofrendo mudanças nos últimos tempos: a de final de ano, que era realizada no 6º. andar do Beiramar Schopping, passou a ser realizada também no Largo da Alfândega, como a Feira de Rua do Livro, que acontece no início do ano, esta que acabou de acontecer. Há oito anos, havia apenas uma feira do livro. Desde o ano passado, a Câmara Catarinense do Livro realiza, também, a Feira do Livro de São José. Um feira por ano em Florianópolis deve dar possibilidade de se realizar melhor o evento.

 

À DERIVA

Mary Bastian

Vou cortar as amarras
E deixar meu barco
Seguir à deriva
pela correnteza
Que siga sozinho
Sem um timoneiro
Sem rumo
Sem velas
Sem rumo
Ou destino

Navegue levado
Ao sabor do acaso
Não fazendo caso
De tudo ao redor
Não importam ramos
Dos chorões nas margens
Não importam ventos
Sacudindo o casco
Pouco importa o leito
Coberto de seixos
Deste rio bravio
Onde está meu barco
Sempre ameaçado
Quase a naufragar

Cortar as amarras
- gritarei pra ele
Seguir à deriva
- gritarei bem alto
Seguiremos juntos,
navegando
soltos
Nada de bagagens
Só meus pensamentos

 

ACORDO ORTOGRÁFICO VIGORA EM 2009

Em decisão histórica, Portugal se une a Brasil e África a favor da
unificação da ortografia

0 Parlamento português aprovou, em 16.05.08, o segundo protocolo modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, o
que encerra décadas de discussão sobre a questão. Assim, Portugal se une a Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe que em 2007 ratificaram
o protocolo. 0 acordo passa a valer no Brasil no dia 1° de janeiro de 2009 e o país terá três anos para se adaptar à nova maneira de se
escrever, entanto Portugal terá seis, uma vez que as mudanças no país lusitano são bem maiores do que aqui. 0 dicionário português terá de
trocar 1,42% das palavras, enquanto no nosso, apenas 0,43% delas sofrerão alterações. 0 protocolo também abre caminho para a adesão do Timor Leste, que, no ano de 1990, em que foi assinado o primeiro protocolo, não era ainda um Estado soberano.
A discussão sobre o Acordo dividiu a sociedade portuguesa: para muitos intelectuais, a adesão significa ceder a interesses do Brasil, onde estão a maioria dos falantes de língua portuguesa no mundo. Outros consideram uma decisão estratégica em tempos de globalização. Segundo
especialistas, as mudanças não são profundas.
Com o Acordo, o alfabeto passará a ter 26 letras, com a volta de “k”, ”w”, “y”. Na gramática brasileira, as principais mudanças são a
eliminação do trema, do acento nos ditongos abertos “ei” e “oi” de palavras paroxítonas (como idéia a heróico), no hiato “oo” (de enjôo ou
vôo) e nas formas verbais crêem, lêem, dêem. Em Portugal, serão suprimidas as consoantes mudas (de acção ou director) e o “h” inicial
de palavras como “húmido”.
No Brasil, o presidente da Academia Brasileira de Letras saudou com entusiasmo a notícia: - A Academia, cujos trabalhos de elaboração do Acordo datam do início dos anos 70, prosseguidos na década de 80 por iniciativa do acadêmico e filólogo Antonio Houaiss, encara essa aprovação como um marco histórico. Inscreve-se, finalmente, a língua portuguesa no rol daquelas que conseguiram beneficiar-se há mais tempo da unificação de seu
sistema de grafar, numa demonstração de consciência da política do idioma e de maturidade na defesa, difusão e ilustração da língua da
lusofonia.
O filólogo e acadêmico Evanildo Bechara também elogiou a aprovação do Acordo como demonstração do “alto grau de maturidade política alcançado
pelos países da Comunidade de Países da Língua Portuguesa (CPLP)”.
Questionado sobre o acordo, o escritor Jose Saramago, prêmio Nobel de literatura, optou por não entrar em polêmica: “Vou continuar escrevendo do mesmo jeito. Isso agora vai ser com os revisores”, disse.
No Brasil, nem todo mundo ficou feliz com as mudanças: todos os livros didáticos terão que ser reimpressos e a imensa quantidade de livros existentes terão que ser inutilizados. Isso onera o Estado e, conseqüentemente o bolso do cidadão brasileiro, que paga os altos impostos que geram os recursos para cobrir os custos das modificações.


Vitória brasileira?

Houve grande polêmica em Portugal. A iniciativa contrária à reforma com maior impacto no país foi uma petição na internet, que tentava
convencer parlamentares a votar contra o acordo. O documento, que criticava a proposta por entender que esta significava que Portugal cedia aos interesses brasileiros, teve mais de 35 mil assinaturas desde o início do mês, grande parte delas de intelectuais.
”A língua portuguesa é o major patrimônio que Portugal tem no mundo”, afirmou o deputado Mota Soares, do partido CDS.
Para os portugueses, caem as letras não pronunciadas, como o “c” em acto, direcção e selecção, e o “p” em excepto. A nova norma acaba com
o acento no “a” que diferencia o pretérito perfeito do presente (em Portugal, escreve-se passámos, no passado, e passamos, no presente).
Algumas diferenças vão continuar. Em Portugal, polémica e génesis manterão o acento agudo - o Brasil continuará escrevendo com o
circunflexo. Os portugueses manterão o “c” em facto - fato em Portugal é roupa - e vão tirar o “p” que no país não é pronunciado na palavra
recepção.
No dia 8 de maio, o Ministério da Educação do Brasil (MEC) determinou que as obras inscritas no Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) estejam em conformidade com as novas normas a partir de 2010. Desta forma, todos os livros didáticos que serão comprados para as escolas públicas deverão estar de acordo com as novas normas ortográficas da Língua Portuguesa. Além disso, o Ministério já autorizou as editoras a fazerem essa adaptação a partir de 2009, apesar de ainda não ser obrigatória.

 

JÁ BASTA

Teresinka Pereira
(USA)

Já basta de falar
sempre com a morte
nos lábios
A vida, essa sim
é a histórica
infidelidade
recíproca.

A vida é a versão
Desesperada do sonho.

Mas não convém
ser o diabo de nós mesmos
nem o humano cúmplice
do engano.

 

 

BEIJA-FLOR

Por Urda Alice Klueger

O meu amor é como um beija-flor. Dentro dele mora um pequenino Ser de cristal flexível que é pura poesia e luz – e é desse pequenino Ser de tamanha intensidade que irradia aquela energia toda, que faz o meu beija-flor ter tamanha leveza e velocidade nas suas tênues asas quase translúcidas de tanta ansiedade por tudo conhecer! Às vezes penso no meu amor como beija-flor; às vezes, penso como borboleta. O fato é que ele vai, e adeja, e investiga, e com seu fino bico de beija-flor suga o néctar do Conhecimento de dentro de diversificados livros, de diversificadas culturas, de diversificadas pessoas. Também adeja ele por sobre a extrema sensibilidades de coisas como a Poesia mais refinada, e fica até um pouco atrapalhado quando é pego de surpresa, com seu jeito de homem sério, e todo mergulhado na alta sensibilidade dos melhores textos que falam à alma! Ah! Esse meu amor que é tão querido, e que enrubesce como menino de primeira comunhão quando recebe um elogio de quem gosta, como vi um dia como enrubescia ao lado de um seu professor lá dos tempos da juventude, um professor que soubera lê-lo e entendê-lo tão bem, e que sabia com muita certeza o beija-flor que havia dentro dele! E o meu amor é lindo, mais lindo que aqueles beija-flores verdes e vermelhos que aparecem misteriosamente nas manhãs de Primavera, alimentando-se da doçura escondida lá no mais profundo dos misteriosos hibiscos coloridos que são como milagres de cor nas cercas-vivas, e o meu amor tem aquela leveza que os beija-flores têm quando pairam no ar como se flutuassem, enquanto se alimentam do néctar mais puro! Também o meu amor me faz pensar em borboletas, na sua fragilidade tão emocionante, pois ele é capaz de sentir e sofrer como só os mais refinados artistas e os maiores amantes da Humanidade o podem. Ele é um pouco acanhado, como um menino de dedo na boca se escondendo atrás da cadeira da mãe, mas não tem pejo de chorar em público quando seu coração dói pela Justiça, pelos outros, pelos povos, não importa a distância em que estão esses outros que precisam de Justiça. Ah! Esse meu-amor-beija-flor-borboleta – o que a gente faz com um amor tão lindo assim? Só resta amá-lo – o que mais se há de fazer?

 

 

ROTINA DE INSÔNIA

Por Célia Biscaia Veiga

Madrugada. De olhos fechados, ele levanta do sofá. Sabe que se abrir os olhos e acender a luz o sono vai embora. Tateando e meio por intuição, dirige-se ao quarto, deita na cama e acorda horas mais tarde, quando a mulher o chama para tomar café.
Se ele abrir os olhos, mesmo no escuro, os olhos começam a buscar imagens para enviar ao cérebro e ao decodificarem trazem junto as preocupações do dia. Se enxergar a mesinha e vislumbrar a pilha de papéis que está sobre ela, pensará nos projetos que precisa concluir o quanto antes para não perder os prazos de entrega, até trouxe para casa para continuá-los, e nunca conseguia ir até o fim. Se vê o contorno da geladeira, lembra que ainda faltam cinco prestações salgadas para terminar de pagá-la. E ao chegar no quarto, já basta ouvir o tic-tac do despertador, não precisava ver as luzinhas dos ponteiros.
Todos os dias a cena se repete. Tenta dormir na cama, mas acaba virando para um lado e para outro, sem achar a melhor posição. Se deita virado para a porta, vê a luz por baixo da porta do quarto da filha, que dorme com o abajur aceso, com medo do escuro. Se vira para o outro lado, é o lado que a mulher já está dormindo, e lá está o famigerado despertador luminoso. Se deita de bruços, sente o peito comprimido e fica com falta de ar. Se deita de costas, em pouco tempo elas estão doendo. Aí não tem jeito, tem de levantar, ir até a sala, ligar a TV e deixar programada para desligar em 45 minutos, pois normalmente em meia hora o sono chega e nunca percebe quando a TV desligou. Acorda mais ou menos umas duas horas depois e vai de olhos fechados terminar a noite na cama. É aquele momento que o subconsciente sussurra: - Acorda, camarada, está na hora de dormir.

 

TEMPEROS

Aracely Braz

Se a vida fosse só rosas
Onde estariam os espinhos?
Se só de espinhos fosse
Que seria de seu perfume?
É beleza sem igual.
Sem um toque de pincel,
É o caminho temperado,
Mistura benevolente,
Doce e salgado no ponto.
A rosa do meu poema
Da madrugada, da noite,
Minha gangorra florida
... a vida.

 

 

 

CELEBRANDO MACHADO DE ASSIS

Filho de um operário mestiço e uma portuguesa, o escritor Machado de Assis tinha tudo para não vingar na vida. De saúde frágil, era epiléptico e, embora um ás das palavras, gago. Cedo perdeu os pais e a irmã caçula. Foi criado pela madrasta, Maria Inês. Vendedor de doces na infância, não freqüentou a escola regular, mergulhando no universo do saber quase como autodidata. Mesmo com todos esses perrengues, o menino Joaquim Maria Machado de Assis galgou, degrau a degrau, os caminhos das letras, tornando-se um dos maiores escritores da língua portuguesa, o maior do Brasil, com admiradores por todo o mundo, do escritor Salman Rushdie ao cineasta Woody Allen. Autor de obras singulares, como Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, o Bruxo do Cosme Velho, como era conhecido, ganha este ano uma série de homenagens devido ao centenário de sua morte (29 de setembro de 1908). Antecipando as celebrações, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Cultura, Gilberto Gil, instituíram 2008 como o Ano Nacional Machado de Assis. Mas é na Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual foi fundador e primeiro presidente, entre 1897 e 1908, que o escritor ganhará as maiores reverências, a começar por lançamentos de livros, seminários, palestras, exposições e shows. “Trata-se de nosso maior escritor”. Ocupante da cadeira nº 37 desde 2000, o acadêmico Ivan Junqueira ressalta a coincidência de datas entre dois grandes nomes de peso da literatura brasileira. “É uma pena que o centenário de sua morte seja celebrado no mesmo ano dos 100 de nascimento de Guimarães Rosa. No ano em que morria o nosso escritor mais antigo, nascia o nosso escritor mais moderno. A vida apronta”, observa. As comemorações, que começaram em abril, ocupam todo o ano. “A academia sempre teve público assíduo. Com as homenagens ao centenário de Machado de Assis, o fluxo de pessoas deve aumentar”. Junqueira coordenará uma série de palestras, seminários e conferências, divididas em três grandes ciclos, em torno do universo machadiano. Entre os participantes, estão os acadêmicos Alfredo Bosi, Domício Proença Filho, Eduardo Portella, Antonio Carlos Secchin, o crítico de teatro Sábato Magaldi, além dos músicos Luiz Paulo Horta e José Miguel Wisnik. Um convidado especial, o escritor português de origem africana Helder Macedo, também marcará presença.
Música e cinema
A idéia foi criar um ciclo de debates com temas relacionados à obra e ao universo de Machado de Assis. Serão análises, discussões acerca de seus romances, crônicas, contos, poesias, sua paixão pelo teatro e pela música, a questão da mulher na sua literatura. Aspectos como a paisagem urbana carioca, a crítica e a tradução, atividades que o autor de Esaú e Jacó desenvolvia com freqüência, também estão sendo abordados. No âmbito musical as homenagens se intensificam, com uma conferência sobre temas que o autor dominava e admirava: música popular e clássica. A tarefa ficou a cargo de Luiz Carlos Horta e José Miguel Wisnik. O primeiro se debruça sobre as influências da música clássica nas tramas do autor; o segundo aborda aspectos da música popular. “Quem lê as histórias de Machado percebe que a música está presente o tempo todo. Ele foi amante da ópera”, comenta Junqueira, animado por reativar o Club Beethoven - espaço criado dentro da instituição por Machado e colegas, que reunia intelectuais em torno de eventos culturais. “Vamos cumprir alguns programas da época a partir de arquivos recuperados”, promete. Shows com nomes da música contemporânea estão agendados. “Seria precipitado adiantar os nomes, mas a boa notícia é que 95% dos convidados já estão confirmados”. Ocupante da cadeira número nº 7, o cineasta Nelson Pereira dos Santos é outro que não ficará de fora das homenagens ao Bruxo do Cosme Velho. Diretor do curta-metragem O Rio de Machado de Assis, de 1965, o acadêmico, que no momento está na Europa, coordenará mostra cinematográfica em dezembro, com filmes baseados na obra do escritor. Ele exibirá inclusive o dele, recentemente restaurado pela Funarte, em parceria com a ABL. Outro evento que promete agitar os salões da casa é uma monumental exposição tendo como tema o universo machadiano. A mostra pretende ser a maior já feita na instituição. Terá tudo o que se imaginar ligado à literatura machadiana em telas.
Na tevê e nas estantes
Serão inúmeras as edições e reedições dedicadas à obra de Machado de Assis este ano. Até uma minissérie está nos planos da TV Globo. Depois de se aventurar, ao lado de Daniel Filho, na transposição do universo do dramaturgo Nelson Rodrigues, no festejado A vida como ela é…, o novelista Euclydes Marinho trabalha num novo empreendimento envolvendo literatura e tevê. Trata-se da microssérie Capitu, adaptação do célebre romance Dom Casmurro, talvez a obra mais popular de Machado de Assis. A empreitada, prevista para ir ao ar em julho, pela TV Globo, terá direção de Luiz Fernando Carvalho. Será no campo editorial, porém, que as homenagens ao escritor ganharão fôlego. A cereja do bolo será a publicação de uma coletânea, em dois volumes, da correspondência do escritor organizada pelo acadêmico Sérgio Paulo Rouanet. A Editora Record deu o pontapé inicial nas celebrações, com a publicação da coletânea Toda poesia de Machado de Assis. A obra traz à tona o lado lírico do escritor, com a reunião de centenas de poemas publicados em jornais, revistas e livros. Em março, o destaque foi o lançamento de Almanaque Machado de Assis - Vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias. Organizado pelo escritor e mestre em literatura Luiz Antônio Aguiar, o livro traz como atrativos dados biográficos, guia de leitura, galeria de personagens e outras informações para orientar os admiradores da escrita machadiana. Um trabalho de caráter popular, que consumiu mais de 20 anos de pesquisa de Aguiar. “A idéia é incentivar e apresentar a literatura do escritor, conquistar leitores para a sua obra, botá-lo na boca do povo. Machado de Assis tem fama de ser difícil, e este livro chega para desmitificar essa idéia”, garante Aguiar, que também planeja, com o ilustrador César Lobo, a reedição da versão em quadrinhos de O alienista, pela Editora Ática. “Esse projeto é uma ousadia, com abordagem de cunho autoral da obra. O texto está lá, mas a partir de uma leitura própria”, observa Aguiar, que pretende verter outros textos de Machado para a linguagem dos quadrinhos.
Releituras
Em abril, 12 autores, entre eles Heloísa Seixas e Cristóvão Tezza, deram colorido moderno a contos como Uns braços, O caso da vara e Um homem célebre, no projeto Recontando Machado. Também coordenado por Luiz Antônio Aguiar, o livro inclui os contos originais lado a lado com releituras. O projeto prova que a obra de Machado continua mais pulsante e fértil que nunca. Há resultados interessantes. O destaque de maio na editora foi a reedição da biografia Vida e obra de Machado de Assis. Tida por muitos como o registro biográfico definitivo do autor de Quincas Borba, o livro, escrito pelo pesquisador e escritor R. Magalhães Júnior, se divide em quatro volumes: Aprendizado, Ascensão, Maturidade e Apogeu. De julho a novembro, seis volumes de contos divididos por temas como música, filosofia, adultério e mentira ganharão as livrarias. Contos de Machado de Assis - Volumes 1 a 6 tem organização de João Cézar de Castro Rocha. Conhecida por reeditar as obras completas de autores como Oscar Wilde, Dostoiévski e Mário Quintana, a Nova Aguilar, homenageará Machado de Assis lançando, no segundo semestre, em três volumes, a obra completa do autor. Dois projetos editoriais serão destaques da Academia Brasileira de Letras (ABL). Para facilitar o acesso à obra do autor, uma parceria firmada entre o Ministério da Cultura e a ABL pretende lançar todos os livros do autor a preços populares, entre R$ 3 e R$ 5. No fim do ano, a casa lança ainda, sob direção de Ubiratan Machado, um dicionário sobre a obra machadiana. A sexta edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que ocorre em julho, homenageia o centenário de morte do escritor, dedicando a ele uma série de atividades. “Machado não é apenas o grande clássico nacional. É também um escritor que polariza as principais vertentes da crítica literária no país. A homenagem da Flip pretende dar espaço às divergências de interpretação de que sua obra tem sido alvo nas últimas décadas. Em abril, foi lançado o site www.machadodeassis.net, com biografia, bibliografia, artigos e busca de citações nos contos e romances do grande escritor brasileiro. E ainda: Exposição na ABL com obras que dialogam com o universo de Machado de Assis. Parceria entre ABL e MinC lança toda a obra do escritor a preços populares. Lançamento, pela ABL, de dicionário sobre a obra de Machado. Lançamento, pela Edusp/ Nankin, de Serenidade e fúria - Pulsões românticas na obra madura de Machado de Assis, de Ravel Paz.

(Correio Brasiliense)

 

LUZ DA VIDA

Hiamir Polli

Luz que ilumina a vida
serenidade de águas num reluzir de fantasia
compenetradas no que a noite pode transcrever.
O mar a refletir a imagem,
aos olhos dando um ar de sedução.
E seduzidos pelo poder da noite enluarada,
A indução.
Pecado, poder, traição?
Ou seria... pureza, transparência, sutileza
dando margem à imaginação?
A noite vai e a paisagem se define
num radiante sol que invade
o nascer de um dia qualquer,
mais um dia sem definição.

 

CRIADOR E CRIATURA

Por Enéas Athanázio

Os leitores de Georges Simenon (1903/1989), já cansados de passar e repassar os livros publicados em português, podem agora saborear mais uma de suas obras, em tradução de Paulo Neves. Trata-se de “Memórias de Maigret” (Nova Fronteira/L&PM Pocket – 2006), uma das mais originais e instigantes produções do criador do célebre Comissário Jules Maigret, da Polícia Judiciária Francesa, e personagem central de nada menos que 75 romances e 28 contos e que compõe, com Sherlock Holmes e Hercule Poirot, o maior e mais célebre trio de investigadores policiais do mundo e cujo autor André Gide considerava “um grande romancista, o maior e o mais verdadeiro da literatura francesa contemporânea.” Segundo julgamento unânime, Maigret é o mais humano e compreensivo dos detetives de ficção, não se limitando apenas a desvendar o crime e apontar seu autor à Justiça, mas tentando compreender os tortuosos motivos que levaram um ser humano àquele ato. É verdade que muitas vezes fica a impressão de que ele adivinha, tão diminutos são os elementos com que conta na investigação. Mas essa é outra história.
Neste romance tudo é surpreendente. Embora intitulado como memórias, na verdade é pura ficção, uma vez que nele a única figura real é o autor. Depois de longos anos de atividade policial que lhe valeram fama universal, Maigret – o personagem fictício – decide escrever suas memórias, relembrando os grandes casos em que atuou e sua vida de policial, desde o início, incluindo-se aí seu contato com Simenon – o autor – e a profunda amizade que entre eles se firmou. Na história, portanto, o autor se transforma em personagem de sua própria criatura e, o que é mais interessante, Simenon é descrito como sendo mais jovem que Maigret, o que implicaria em imaginar que a criatura nasceu antes do criador. Para completar, o texto vai fazendo menção a fatos verídicos da vida de Simenon, coincidentes mais ou menos com as datas reais, o que provoca surpresas muito curiosas. Como exemplo, basta lembrar que Louise, a mulher de Maigret, pede que ele comunique a Simenon que ela está tricotando sapatinhos para Jean, primeiro filho de Simenon e Denyse Ouimet, nascido em 1949.
Outro aspecto curioso é a análise retrospectiva que Maigret faz de sua própria vida conforme ela é narrada nas obras de Simenon. É um personagem de ficção analisando a obra de ficção na qual ele é o personagem. Nesses relances sobre o passado, ele relembra como o destino o levou à carreira policial, mais ou menos por obra do acaso e graças a um vizinho que o ajudou nos primeiros passos. E conclui que estava no lugar certo, no seu lugar, sem ambicionar um destino além de sua capacidade. A pessoa fora de seu lugar, conclui ele, vai se debatendo pela vida a fora porque na vida real é raro encontrar um consertador de destinos, como ocorre na ficção. Por isso, na sua vida modesta, ao lado da discreta Louise, Jules Maigret sente-se feliz e realizado.

 

 

A CHUVA SE PERTENCE

Maria de Fátima Barreto Michels

Dona de si própria é a chuva.
Na poesia, a chuva se pertence.
Na ciência tem causas e efeitos.
Eu não chovo.
Chove. Ela chove só pra ela.
Quando acontece de eu olhá-la,
a chuva não se importa comigo.

Tento chover com ela parece que
seria tão bom poder chover-me
escorrer-me para o rio e marear-me
Fico pertinho na vidraça fechada me encostando

Quando chove, vejo que todos somem da rua
é nesta hora de solidão comungada que você
poderá chegar e então,
do vazio far-se-á o pleno de nós

por muito tempo contemplaremos
a chuva que,
transparente e tão sem roupa,
irá deixando bem leve a gente

Não nos importaremos com ela
ao lembrar que nos pertencemos
Ela chove só pra si. Nós chovemos só pra nós.

Ficamos pertinho nos encostando, nos mareando
Transparentes, tão sem roupa, deixando a chuva bem leve
A chuva se pertence. Ela pára quando quiser.
Pertenço-te.
Só paras quando quiseres.

 

 

BREVE DISCURSO SOBRE PALAVRAS E SILÊNCIOS

Por Norma Bruno

Há algum tempo venho ouvindo falar sobre o silêncio. Da importância de ouvi-lo, buscar nele as respostas e utilizá-lo como exercício para a evolução pessoal. Confesso publicamente a minha dificuldade em fazê-lo, porque tenho com as palavras uma relação de amorosa cumplicidade, de segredos compartilhados e mútuos consentimentos. Eu penso, elas dizem. Eu sinto, elas revelam. Palavras pensadas, palavras sentidas, palavras ditas e não-ditas. Só não me entendo bem com as meias-palavras. Elas me fascinam porque têm espírito. Podem ser fonte de amorosidade ou ferir e impingir a dor. Podem edificar, agregar, desagregar, degredar e degradar o outro, pois as palavras são feiticeiras, têm poderes mágicos, e pelo som, produzem maldição ou encantamento. Podem transfigurar sapos e borralheiras, revelando–lhes a virtuosidade, ou embruxar, matar por inanição, desnutrindo emocionalmente uma pessoa. Elas são a ponte para o intangível, o transcendente, o invisível.  Ao proferi–las, eu revelo ao outro o que lhe é desconhecido em mim e o convido a atravessar o portal da minha identidade. As palavras tornam-se, nesse momento, uma oferenda de mistérios revelados. A palavra escrita tem um poder ainda maior, pois se diferencia da palavra dita, vulnerável ao vento, pelo seu caráter impermanente. Quem escreve deixa rastros, pistas, vestígios incriminatórios. A escrita repete o que foi dito toda vez que é lida. O seu conteúdo pode ser de novo saboreado, degustado, e as emoções revividas. Adquire um caráter documental, torna–se confissão de próprio punho, declaração de mea-culpa. Pode-se negar o que foi dito, mas não o que foi escrito, pois a palavra escrita carrega consigo a identidade do seu autor. O papel fica inexoravelmente impregnado pela caligrafia e pelas impressões digitais, tornando fácil a comprovação da autoria.  Por certo, deve-se a isso o fascínio que as cartas de amor exercem sobre os amantes. É que, além de emoções e segredos, elas revelam a identidade do ser amado, elas trazem consigo um pedaço do outro eu. À semelhança da fotografia, a escrita é o registro de uma realidade que é verdadeira num determinado fragmento do Tempo, mas, não necessariamente num outro. Isso expõe o leitor ao risco de dar validade ao que já passou, ao que, exposto a interferências e ruídos, pode ter mudado. Escrever aprisiona o significado e um momento no Tempo, mas não impede o fluir do Tempo, nem a mudança do significado. Talvez seja essa a razão de tantos silêncios. Calamos porque conhecemos o poder mágico e a consistência evanescente das palavras. Tememos dizer demais, revelar demais, cativar o outro e correr o risco da responsabilização. Tememos com igual intensidade, a palavra que vem do outro. Tememos interpretá-la outro. Tememos interpretá-la erroneamente e ouvir o que queremos ou o que não queremos. Então, preocupados com a manipulação e o poder do outro sobre nós, des-confiamos do que ouvimos. Com a mesma intensidade, desejamos e tememos o encantamento. Assim, escrevemos tratados, fazemos discursos, usando milhares de palavras e conceitos com a intenção de disfarçar, de justificar o que sentimos, pensamos e sonhamos, diminuindo-lhe o impacto. Mas, ao contrário do que supõem os desavisados, a missão da palavra não é explicar, a missão da palavra é revelar, desvendar mistérios. Disso bem sabem os poetas de cujas palavras transbordam, despudoradamente, as emoções. Silenciar é uma atitude prudente, pois evita o risco e a responsabilidade. Confesso que me sinto confusa diante do silêncio. Não do meu, que esse está repleto de poesia e música. Refiro-me ao silêncio do outro, pois ao calar, ele me autoriza a preenchê-lo com os sons dos meus medos ou dos meus sonhos e desejos. Sim, sei que há momentos em que o sentimento é maior que o verbo e o silêncio mais eloqüente. É quando a identificação e a sintonia produzem o fenômeno do “fluir junto”, a Dança dos Espíritos, onde as palavras tornam-se dispensáveis porque insuficientes.  Neste caso, para dizer, basta o olhar. Mas, para chegar até esse ponto, eu não conheço nada melhor do que as palavras.

 

EXISTÊNCIA

Lorreine Beatrice

Só quando estou dentro de mim
é que me mostro
litertária e cheia de flores
pura, quase como na aurora.
Só quando fujo
é que me reconheço,
sedenta de amores
encantada com idéias
distantes e invisíveis.
É toda faísca minh´alma
e nascem estrelas após o fogo.

Só quando estou dentro de mim
é que me mostro.
No outro tempo,
escondo-me atrás das cortinas.
Desatino em folhas
e meu corpo é seco, incansável.
Só quando morro
é que livremente existo.

 

BORBOLETAS NA ILHA

Por Cissa de Oliveira

Eu estive lendo – e creio que sempre estarei – Borboletas nos Jacatirões de Luiz Carlos Amorim (Ed. Hemisfério Sul, Blumenau, 2007).  O próprio autor nos expõe numa das crônicas, “a poesia não está confinada no poema”. Ocorre que era isso exatamente o que eu sentia, embora de maneira indefinida, enquanto redescobria em mim, através das letras dele, como é mesmo que se faz para desnudar a alma. E se cada um haverá de ter um jeito, por certo todos haverão de ter, fundamentalmente, algo em comum: a naturalidade, característica mais do que evidente no referido livro. Essa naturalidade em Luiz Carlos Amorim fez com que eu sorrisse, chorasse, me surpreendesse, enfim, que eu me emocionasse.
Uma das minhas primeiras impressões foi a de que a proposta do livro seria a de mostrar um apanhado tanto da vida quanto da literatura do autor, seja devido à organização do mesmo em capítulos cujos títulos demonstram um arranjo cronológico, seja pelas temáticas que esses capítulos encerram. Agora eu faço uma pausa para dizer que independente de qualquer divisão ou estilo de apresentação – uma belíssima apresentação aliás -, tudo no livro remete a uma das mais belas declarações de amor à terra e às coisas da terra – destacando-se o grande lírico Mário Quintana. Que bom Luiz Carlos Amorim, que bom, que em meio aos jacatirões, aí no Sul, você reverenciou e imortalizou ainda mais o nosso – se me permite – menino Quintana.
A minha segunda impressão veio com ares de confirmação, e muito antes de encerrar a primeira leitura de Borboletas nos Jacatirões. Ela é a seguinte: a trajetória de vida e a de literatura em Luiz Carlos Amorim sempre estiveram misturadas, confundidas mesmo; portanto, impossíveis de se dissociarem algum dia. O que faz um menino que escolhe, entre tantas opções próprias da infância, ouvir fábulas no rádio? Por mais que ele não pressinta, é poesia o que ele faz. O que faz o adulto que devolve às árvores dos jacatirões, em forma de borboletas, toda a beleza que as flores despertaram nele? Poesia! Por isso, seja enquanto conta da infância, da família, da natureza, dos outros poetas ou da trajetória literária, na verdade o autor nos fala o tempo todo da magia - inclusive quando nos desvenda os bastidores da literatura - e porque não dizer, da poesia viva que é a literatura.
Por certo, algum crítico, coisa que nunca serei, falará com mais propriedade sobre o Borboletas nos Jacatirões. Ainda assim, eu não me furtaria em falar das flores que eu vi por lá e de como, com as borboletas, alada ficou toda a “ilha”. Reitero a afirmação da escritora Urda Alice Klueger: “... nem todos os dias saem livros assim...”.
Sim, eu continuarei lendo o Borboletas nos Jacatirões. Nem sempre aos domingos, mas será como se fosse.

 

 

NOSSO AMANHÃ...

Joel Rogério Furtado

Não te inquietes (tanto) com o amanhã
porque ele será exatamente
como está escrito.
Deves confiar mais
em ti mesma e em mim
até porque nossos destinos
já estão entrelaçados
- interligados
desde muito –
desde quando
nem tínhamos consciência
de grande amor
que estava sendo preparado
para nascer, crescer e viver –
não só para fazer-nos felizes
mas para servir de exemplo
para nosso mundo tão carente
tão frágil – com tanta pequenês
em relação à verdadeira entrega.
Nosso amor estava
desde muito escrito
para ser vivido
porque traçado além de nós mesmos
para nossas almas que se buscaram tanto
perdidas e sem rumo
no Espaço Cósmico.

 

BIBLIOTECA PÚBLICA ESTADUAL: TRISTE ANIVERSÁRIO

Por Luiz Carlos Amorim

A Biblioteca Pública Estadual quase foi rifada no início do ano passado. A proposta, que fazia parte do pacote de “reforma administrativa” do governo estadual, era de municipalizar a Biblioteca, o TAC e a Casa dos Açores. Quer dizer: o estado queria se livrar da responsabilidade de manter essas entidades, entregando-as ao município de Florianópolis, que já tem dificuldade em manter o que tem.
Felizmente, escritores, bibliotecários e usuários da biblioteca fizeram manifestações de repúdio à iniciativa do governo, que voltou atrás.
Mas a novela não acabou, o desmanche continua. A Biblioteca Pública Estadual não foi transferida para o município, mas o estado está abandonando a casa, esvaziando os seus funcionários. O caos é iminente, o perigo de fechar as portas não está descartado, pois a casa tem necessidade de oitenta funcionários e apenas trinta estão trabalhando. Existem apenas seis bibliotecárias, atualmente, e quatro estão prestes a se aposentar. Como funcionará a Biblioteca Estadual com apenas duas bibliotecárias, se com seis já é difícil atender os freqüentadores?
No dia 31 de maio de 2008 a Biblioteca Pública Estadual completa 154 anos de existência. E a comemoração vai ser assim, sem gente para trabalhar, com ameaça de fechar as portas.
Para uma instituição da envergadura e da importância de quem abriga 116 mil volumes no seu acervo, entre as quais estão raridades publicadas no séculos 17, 18 e 19, e jornais antigos de diversas cidades catarinenses, para uma biblioteca que serve o estado todo, é um triste presente de aniversário. Até existe uma programação cultural para comemorar mais de século e meio de serviços prestados à população catarinense, mas o que se precisa mesmo é que o governo abra um concurso urgentemente para admitir gente qualificada para trabalhar na Biblioteca e, assim, dar-lhe sobrevida.
Porque não se pode abandonar um patrimônio construído ao longo de tanto tempo, patrimônio dos cidadãos catarinenses.

 

GUARDADOS

Else Sant´Anna Brum

Há muita coisa no mundo
Que nos deixa bem feliz.
Guardamos como segredo
E nem sempre a gente diz.

Por exemplo: a beleza
Da flor do maracujá.
Cheiro de terra molhada,
O canto do sabiá.

Marulho do mar na praia,
A cor de um girassol.
Luar prateando a estrada,
Magia de um por-de-sol.

A mãe embalando o filho
Banho de rio, no verão.
Lembranças da nossa infância,
Lindas bolhas de sabão.

Belas cantigas de roda,
Pipas subindo ao vento.
Sinos tocando na igreja
Em dia de casamento.

Cachoeira barulhenta
E laranjeiras em flor.
Criança alegre, sorrindo,
Ternura, carinho, amor!

 

 

 

 

CLONAGEM

Por Apolônia Gastaldi

Além do mais ela não era conhecida. Não se sabia de onde viera. Sua idade também era algo que não se podia definir claramente. Tinha uma maneira de falar que não era comum. Seu universo de palavras era extraordinário, largo. Parecia conhecer todos os assuntos. Era alegre e convincente. Não era feia nem comum. Certa feita notou-se que ela tinha algo mais e isto não parecia ser coisa boa. Era o costume de sumir por algum tempo e depois voltar modificada, diferente. O próprio físico mudava um pouco, os cabelos tinham outra tonalidade e a voz mudava de timbre. Tinha facilidade em conseguir emprego ao voltar daquelas ausências que duravam dois ou três meses. Geralmente trabalhava como tradutora em empresas que exportavam, ou era recepcionista no meio industrial alto. Mesmo com tantas qualidades, não se podia dizer que tivesse muitos amigos. Andava sempre só embora se relacionasse com todos, de certa forma.
Um dia, não sei como, alguém viu seu passaporte e descobriu-se que praticamente, conhecia o mundo todo. Mas a foto no documento não se parecia muito bem com ela. Claro, era ela, mas alguma coisa naquela foto parecia estranha. A coisa ia assim quando alguém me disse que havia visto a pessoa no bar do Gogó, as 16 horas da terça-feira. Não podia ser, havia algo errado, pois naquela mesma hora ela estava recebendo os franceses na produtora de malha onde no momento, trabalhava. Outro fato parecido ocorreu no domingo quando foi vista em dois lugares ao mesmo tempo. Tudo muito estranho. E várias pessoas já estavam curiosas, tentando descobrir o que realmente era aquilo. Até o dia em que o carteiro tinha uma correspondência exigindo a assinatura dela. Foi até seu apartamento e qual não foi a surpresa pois quando a porta abriu-se lá estavam duas pessoas exatamente iguais, sem mais nem menos. Ocorre que nesta mesma hora, ela estava na empresa onde trabalhava. Seria uma? Ou será que seriam três? Clonagem?

FEIRA DO LIVRO DE JARAGUÁ DO SUL

A 2ª Feira do Livro de Jaraguá do Sul, promovida pela Fundação Cultural da cidade e pelo Instituto Feira do Livro acontece de 8 a 17 de julho, na Praça Ângelo Piazera. Além de editores e livreiros convidados, que oferecerão uma gama infinita de opções de leitura, muitas sessões de autógrafos e atividades culturais, como debates, palestras, cinema, contação de histórias, teatro e declamação.
O Grupo Literário A ILHA marcará presença mais uma vez, com o lançamento do livro “Escritores Catarinenses e o Grupo A ILHA”, o lançamento desta edição do Suplemento Literário, no dia 12, as 15 horas, e a exibição do Varal da Poesia Especial.

 

MIRANDUM 3

Sai a edição 3 da Revista Mirandum, da Confraria de Quintana, toda ela só com textos de e para o poeta passarinho. Contatos: fbarreto@bizz.com.br e lc.amorim@ig.com.br. A revista contém textos exclusivamente de Quintana e sobre Quintana. São poemas, crônicas, ensaios e muita informação sobre o poeta. Esta terceira edição marca, também, o primeiro aniversário da Confraria de Quintana e da revista. O lançamento será na Feira do Livro de Jaraguá do Sul.

 

 

NOVO LIVRO DE ENÉAS: “MEU AMIGO, O PIAUÍ”

No mês de janeiro, a Academia Piauiense de Letras comemorou seu 90º aniversário. Diversos eventos marcaram o acontecimento, entre eles a concessão da Medalha do Mérito Cultural Lucídio Freitas, o Fundador, a mais alta láurea da instituição, ao escritor catarinense Enéas Athanázio, como reconhecimento pela divulgação que ele vem fazendo do Piauí, sua gente e sua literatura. Falando na ocasião, o prof. M. Paulo Nunes, pres. Do Cons. Estadual de Cultura, enalteceu a figura e a obra do escritor catarinense, revelando seu antigo desejo de conhecer os Campos Gerais catarinenses, instigado pelos contos e novelas do homenageado. Foi lançando, ainda, o livro “Meu Amigo, o Piauí”, reunindo artigos de Enéas Athanázio sobre aquele Estado e seus escritores, editado pela Universidade Federal do Piauí.

 

FRANKLIN CASCAES: LIVRO PARA COMEMORAR O SEU CENTENÁRIO

O ano de 2008 marca o centenário de nascimento (16 de outrubro) de Franklin Cascaes. Uma série de eventos, entre eles o lançamento do livro de Adalice Araújo, lembra o grande artista. O talento de Franklin Cascaes ainda não era reconhecido no final da década de 1970, mas um estudo científico viria a mudar essa situação. A pesquisadora paranaense Adalice Maria de Araujo deu a sua tese o título de Mito e Magia na Arte Catarinense, que apresentava num dos capítulos uma análise do processo criativo do artista.
Com o título de Franklin Cascaes, O Mito Vivo da Ilha (Mito e Magia na Arte Catarinense), é publicado pela Editora da UFSC o livro que traz apenas o capítulo da tese que concerne a Franklin Cascaes.
Adalice estudava a arte catarinense como um todo, mas decidiu restringir-se à Ilha quando viu pela primeira vez os desenhos e esculturas de Franklin Cascaes mostrados por Peninha, hoje diretor do Museu Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina.
Além de a tese revelar a grandeza da obra do artista, o título originou a denominação de Ilha da Magia para identificar a Ilha de Santa Catarina.
Em Franklin Cascaes, O Mito Vivo da Ilha, Adalice Maria de Araujo apresenta uma visão global da obra (temática, processo criativo, técnica e crítica) e analisa diversos aspectos presentes no artista, como o mundo mítico ilhéu (bruxas, lobisomens, assombrações), a nova mitologia catarinense, os aspectos lúdicos, as festas e as tradições que o influenciaram. O livro também traz transcrições de entrevistas feitas pela pesquisadora com o mestre, em 1977.
Com o objetivo de atingir o público escolar, a pesquisa foi revisada e atualizada.

 


EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 105 - JUNHO/2008 - Ano 28
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
End. para Correspondência:
lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br


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