SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Dezembro de 2009

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Edição Eletrônica da revista do Grupo Literário A ILHA - Edição 111 - Florianópolis SC

 

A ILHA COMPLETARÁ 30 ANOS

Estamos encerrando 2009 e entrando em 2010, o ano em que o Grupo Literário A ILHA e a revista Suplemento Literário A ILHA completarão 30 (trinta!) anos de atividades literárias e culturais. Para comemorar, estaremos lançando os três primeiros volumes de uma coleção de livros de crônicas e a nova edição ampliada do livro "A Nova Literatura Catarinense - Escritores Catarinenses e o Grupo Literário A ILHA".
E por falar em novos livros, neste mês de dezembro temos a 24ª Feira do Livro de Florianópolis, no Largo da Alfândega, de 9 a 20 de dezembro. Nós, do Grupo Literário A ILHA estaremos participando, como sempre, com o lançamento desta edição do Suplemento Literário A ILHA, da nova edição do LIVRO DE NATAL, deste editor, revisada e ampliada e do novo livro de crônicas APHRODITE E AS CEREJEIRAS JAPONESAS.
Ainda sobre livros, o escritor Harry Wiese, integrante do Grupo Literário A ILHA, foi premiado pela Academia Catarinense de Letras, na categoria romance, pelo seu livro "A Sétima Caverna". Parabéns, Harry, pelo reconhecimento.
A Academia Catarinense de Letras premia, todos os finais de ano, os destaques culturais nas categorias conto, poesia, romance, crônica, ensaio e história e dá o Prêmio Othon Gama D´Eça a uma pessoa ou entidade.

 

NATAL

Aracely Braz

Cristo,
Que teu novo aniversário
Traga paz e solidariedade
Confirmando à humanidade
O poder da força da tua força.
Muita fé, verde esperança
Como os ramos dos pinheiros
Com bolas coloridas de amor
No brilho da noite santa.
Que a flor do jacatirão
Esparrame pureza e luz
No esplendor da estrela-guia.
Sejamos a manjedoura
Com ternura e devoção,
Nos corações, o presépio,
Buscando a renovação.

 

 

PENA DE MORTE PARA O LIVRO

por Celestino Sachet

De uns tempos a essa data o processo da criação literária está submetido a uma análise que vai muito além da velha e desgastada afirmativa: "literatura é a arte da palavra" ou, mais moderna: "literatura é a palavra posta em arte".
Esta nova Teoria da Literatura coloca sob o microscópio as três entidades que integram a logística da produção e do consumo do livro - ou do texto literário agrupado em qualquer fonte: o autor, a obra, o leitor.
Através dos tempos sempre existiu uma teimosa hierarquia de uma entidade sobre as duas outras.
Até começos do século XX, o Autor ocupou o centro porque ele recebia o estandarte das ideias correntes dentro das quais o texto vinha sendo produzido. Então, nessa posição, dentro de centenas de outros, os nomes de Homero, Virgílio, Platão, Aristóteles, Dante e, mais perto de nossa portuguesa língua, Fernando Pessoa e Machado de Assis. São os autores "clássicos" porque utilizados nas salas de aula. O texto e a magia dessa turma confundem-se com a Verdade, com a Vida, com a Arte.
Com as correntes modernistas das duas primeiras décadas do século passado, o Autor cedeu o trono para a Obra. Drummond chegou a pontificar o célebre conselho para produzir a Obra Perfeita: "Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. (...) Chega mais perto e contempla as palavras, / cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra / (Poema "Procura da Poesia"). Esse conceito de Obra Perfeita passou a concorrer com a força e a devoção da Bíblia.
No decorrer desta nossa última geração, com a respectiva filharada cibernética, o Leitor sentou no trono, ou no topo da pirâmide, garantido pela lógica do sistema capitalista da produção: é o consumidor quem determina o processo e os modos de produção. E não o proprietário da empresa.
Esse leitor mudou até de nome: ele é o fruidor; ele exige mastigar prazer, no ato de comungar o texto que tem entre as mãos ou debaixo dos olhos, na tela do computador... ou do celular, carregado na bolsa ou no bolso no decorrer da caminhada pelas ruas tortas da modernidade.
E ele, leitor-fruidor, classifica o texto de "relevante", quando lhe corresponde às expectativas de prazer ou de "insignificante". Não legível, portanto, Lixo com ele!
E não lhe venham com novas teorias ou autoritárias obrigações! Importa o "prazer", e não o "conhecer"; importa o "amar", e não o praguejar contra o texto ou contra quem lhe impôs o miserável tormento.
Essa burraldice de impor leitura de livros de ficção ou de poemas para abrir corredores da universidade é a ostensiva pena de morte para a obra, para o autor e para a Literatura Catarinense!

 

 

PARADO NO AR

Mary Bastian

Largo solto no ar
Tal como ventania
Meu brado de protesto
Meu grito de agonia
Por ver passar o tempo
Como calmaria
E a vida se acabar
Como um fim de dia

O brado corta o tempo
À procura do eco
Pra todos ouvirem
O grande protesto
Da vida vazia
Como balão da festa
Que finda afinal
Sem nem ter começado

Mas o eco é surdo
Não ouve o protesto
Não escuta o grito
E o brado emudece
O grito agoniza
A vida se acaba
Como um fim de dia
Como um fim de festa
Como calmaria

No ar só o vento
Num grito de agonia
No fim do meu dia

 

 

O OLVIDO COLORIDO DO NATAL

Por Urda Alice Klueger

Sei que foi no ano passado, primeiro semestre - não dá para me enganar porque foi quando meu cachorrinho ainda era um filhote, eu tinha que viajar e deixei-o, horas antes, num hotelzinho de cachorros, que o perdeu antes que eu tomasse o rumo da estrada. Foi uma coisa horrível: o coração me disse na hora que algo estava ocorrendo, e o hotelzinho deixou até de atender o meu telefone, e sequer se preocupou com o sumiço do meu bichinho. Fui eu quem descobriu a falta dele, e quem o procurou ruas afora, gritando seu nome enquanto chorava inconsolavelmente, e se o descobri de novo, foi graças a uns pequenos seres maravilhosos chamados crianças, que me orientaram na procura daquele cachorrinho preto que todas elas tinham visto passar pelas ruas onde moravam.
Eu teria que viajar de manhã bem cedo e estava desesperada, sem saber o que fazer com meu cachorrinho, até que meu primo Germano Gieland me disse ao telefone:
- Eu cuido dele. Pode trazê-lo para cá.
Foi o fim da estada de Atahualpa em hoteizinhos, e o começo de uma nova família para ele, família da qual ele gosta tanto que penso que às vezes gosta até mais do que gosta de mim, tanto se afeiçoou ao Mário Henrique, à Hana, à Bruna, à Rosiani, ao cachorro Capitão...
Mas não era isto o que eu ia contar. Queria falar era daquela viagem que começara tão conturbada. Eu ia até o sul do Estado, a uma cidade chamada Forquilhinha, onde havia um delicioso colégio de freiras chamado Colégio Sagrada Família, onde até dormi, e onde cheguei a conhecer uma freira que, indubitavelmente, passara pela graça de um milagre. Só que fui para a estrada longa muito triste, tão abalada ficara com a quase perda do meu bichinho, e já andara, creio, uns 300 km quando parei para almoçar num lugar que vendia muitas coisas lindas. Fiquei pensando que talvez faria bem ao meu coração comprar algumas coisas daquelas, e pensei que haveria o primeiro Natal com o meu cachorro, e comprei algumas coisas muito coloridas, que agora estão empilhadas aqui do meu lado: três jogos de toalhas de banho que até parecem voar na lindeza das suas cores, e um edredom vermelho e amarelo, com frisos e listrinhas, todo macio e fofo - coisas para esperar para usar na época de Natal.
E então veio novembro de 2008 e a Tragédia das Águas, que tirou tudo dos eixos na minha vida e na de tantos, sem contar os tantos que perderam a própria vida, e fugi de casa como já contei em tantos outros textos, e ainda vivo a amargura que o poder público faz a tantos que ficaram sem eira, sem beira, depois que suas casas e terrenos sumiram em segundos, e ainda me pergunto, como tantos se perguntam, onde ficou o dinheiro das tantas doações e o que veio do governo federal para resolver os problemas desta minha cidade quase devastada, onde se maquia violentamente a área central, para que o turista não veja, não saiba da verdade...
Faz um ano, agora, que aconteceu a grande Tragédia. Estamos de novo em novembro, e faz pouco mais de três meses que vim morar nesta casinha livre de barrancos e de ribeirões, onde meu cachorro tem até direito a um jardinzinho. Foi na mudança... sim, foi na mudança que encontrei aqueles jogos de toalhas e o edredom colorido, coisas das quais esquecera completamente diante das amarguras que viraram nosso mundo de cabeça para baixo no ano passado, um ano onde sequer as cigarras cantaram, um ano onde só houve o Natal falsificado que se fez para o turista ver.
Coincide com este final de semana que estou vivendo o aniversário daquela Tragédia que mudou tanto as nossas vidas, e então fui buscar no armário as coisas coloridas que comprei para o Natal passado, e estou aqui a olhá-las. Eram coisas para o Natal, e se alguém que gosta do Natal como eu esqueceu inteiramente da existência delas, então é porque estava muito mais ferida e angustiada do que pensava.
Faz uma semana, fui visitar um dos "abrigos provisórios" onde os trabalhadores desta cidade estão alojados em condições inumanas, e então, no outro dia, chorei muito, muito, de dores engolidas, sufocadas, pois era necessário fazer a vida continuar, e há um ano atrás viver era tão difícil que até as belas coisas compradas para o Natal eu olvidei totalmente, apaguei da minha mente.
Há que se ser muito insensível para se esquecer do que aconteceu faz um ano.

 

 

O ROMANCE DAS ESTAÇÕES

Cissa de Oliveira

na pele sem que ninguém ensine
escreve-se o romance das estações
é para inquietar no tempo
o vôo

e sua penugem guardada
entre o colorido da memória
das asas

a boca do tempo é sábia
na sua risada boa
pascal

mudam as estações
explosão que incendeia
sem levantar fogo

do teu sorriso saem flores
a mão não sabe
mas a alma alcança

 

 

SANTA CATARINA NA FEIRA DO LIVRO GAÚCHA

Por Luiz Carlos Amorim

A organização da Feira do Livro de Porto Alegre, em correspondência dirigida ao governo catarinense, no início deste ano, convidou Santa Catarina para ser o Estado homenageado na sua edição de 2009. Se não fosse uma crônica de publicada no Diário Catarinense do dia 20 de maio deste ano, denunciando o descaso da falta de resposta, o convite não teria sido aceito.
Foram dezesseis escritores escolhidos. Um deles é o cronista que denunciou a falta de resposta do Estado ao convite, Amilcar Neves. Ele mereceu. E há outros nomes importantes, como Eliane Debus e Silveira de Souza, por exemplo. No entanto, o critério usado para a escolha dos nomes que o Estado levou à feira gaúcha foi um tanto quanto nebuloso. Muitos nomes representativos, autores consagrados que levam a literatura catarinense além fronteiras, não foram convidados.
Os jornais publicaram, também, a nominata da equipe de intelectuais que definiu os escritores que comporiam a comitiva que foi ao Rio Grande do Sul. Interessante que quase todos os nomes que integraram a comissão que escolheu os escritores também faz parte da comitiva que viajou, com exceção de Jayro Schmidt e Lauro Junkes. Os outros integrantes da comissão de “selecionadores”, Fábio Brugemann, Dennis Radunz, Marco Vasquez, Péricles Prade e Tânia Piacentini também são nomes da comitiva, selecionados por eles mesmos para irem à Feira do Livro de Porto Alegre. Não é interessante?
Pegou muito mal a Fundação Catarinense de Cultura formar uma comissão para a escolha de quem ia participar da Feira em Porto Alegre e deixar que eles escolhessem a si próprios. Esse era um dos critérios para seleção? Legislar em causa própria? Puxar a brasa para a própria sardinha? Isso depõe, inclusive, contra a escolha dos outros nomes, pois a comissão selecionadora coloca, assim, dúvidas quanto à imparcialidade e lisura que deveria ter.
Muito "original" o critério usado para a escolha, que deveria ser imparcial e claro, por uma questão de transparência, porque afinal de contas, nisso está envolvido também o dinheiro público.
Há muita gente descontente com a maneira como foi feita a seleção. Como disse o Olsen, e eu assino embaixo, "A impressão que tenho é que isso estava "engasgado" em todo o mundo..."
A atual diretora da FCC, Anita Pires, revitalizou projetos que estavam abandonados, como a reedição do Concurso Cruz e Sousa, o cumprimento da Lei Grando, embora a escolha desses livros também tenha deixado a desejar. Além de editais de incentivo à cultura, também com o dedinho do mesmo grupo que aparece nos outros projetos.
Talvez ela deva repensar esse "grupo" que trabalha com ela. Porque a "cultura oficial" está mal, está faltando transparência, responsabilidade, lisura.

 

 

ESTA TRISTEZA

Teresinka Pereira (USA)


Hoje não estou
para nada
nem para ninguém.
Me rebelo
contra mim mesma.
Blasfemo
contra todos os deuses.
E o saldo
é esta tristeza
com o risco
de morrer
a longo prazo.

 

 

PRESENTE DE NATAL PARA ARINOR

Conto de Carlos Adauto Vieira

Arinor vibrou, quando viu aquele brinquedo na revista.
Era uma fábula. Exatamente o que tinha planejado dar ao filho no Natal. Todo de armar de ferro, com parafusos, porcas, roldanas, grampos, hastes. Para compor uma serie de estruturas, - pontes, edifícios, hangares, guindastes, "Desperte a vocação do seu filho" dizia o anúncio.
Era isto. O presente ideal. Arinor, que não pudera freqüentar a faculdade de engenharia, cheio de esperança, queria realizar no filho o seu sonho. Gostaria que o filho fosse engenheiro. Ou técnico em alguma ciência matemática.
Daí estar sempre procurando influenciar a vocação da criança, para o que lhe daria aquele brinquedo. Era apropriado. A calhar.
Já no dia seguinte percorreu as principais lojas para ver se o encontrava. Não logrou êxito. Informaram - lhe, que, talvez em Curitiba, onde o comércio era maior.
Aproveitou um sábado, e foi de manhã e voltou à tardinha.
Vasculhou todas as lojas do ramo. Nem as especializadas nem as comuns tinham sequer algo parecido. Talvez em São Paulo disseram - lhe. Mas pareceu demais ir tão longe. Voltou resignado. Sem o presente, tão almejado para o filho.
No serviço contou o caso para o Nerval e este lhe disse:
- Porque não pedes pra Amauri trazer? Ele viaja pra lá, todas as semanas a serviço da firma. Numa Kombi. Fala com ele e tenho certeza de que não deixará de procurar. Ainda mais que você tem o modelo. É uma barbada. Faz isto!
Arinor acatou a sugestão. E a noite procurou Amauri em sua casa, expondo-lhe o problema.
- Ora, isto é para já. Amanhã de tarde me largo pra São Paulo. Daí daqui a dois dias se Deus quiser - estou de volta. Se achar, trago o brinquedo. Não tem erro. Quero só levar a revista. Pra não me enganar.
Arinor deu-lhe a revista e uma importância em dinheiro.
- Se for mais, depois nos acertamos. Muito obrigado. Boa viagem.
Despediram-se e o Arinor dormiu tranqüilamente naquela noite. Tinha certeza de que conseguira o brinquedo.
De fato, Amauri, depois de muita procura, tendo sido multdo por estacionar mal, numa loja da China, comprou o tal jogo de armar. Era uma caixa enorme, pesadona. Trouxe-a e logo que chegou, foi a casa do Arinor entregá-la. Apresentou a nota de compra, pela qual demonstrava haver gasto mais do que recebera. Mas, na mesma hora, acertavam as contas, enquanto saboreavam uma cerveja geladinha. Arinor agradeceu muito, quis pagar-lhe o trabalho, mas Amauri, recusou.
- Meu guri vai adorar. Puxa ,eu estava chateado de não ter conseguido. Agora, não.
- É um brinquedo e tanto. Lindo, mesmo - disse Amauri. Levantando da cadeira para ir embora. - Péra aí, vamos tomar outra!
- Não, não. Obrigado. Minha frau esta esperando.
Despediram-se.
Na Noite de Natal, sigilosamente, levou para debaixo do pinheirinho, armado na sala, o embrulho enorme e o depositou junto às outras lembranças.
Aceso o pinheirinho, cantada a Noite Feliz, começou a distribuição de presentes.
Primeiro para a esposa. Depois, dela para ele. Depois dos pais, para os filhos. E, finalmente dele para o menino.
O guri, mal contendo a curiosidade, foi desatando o cartão e rasgando o papel para ver o que continha àquela caixa tão pesada com qual mal podia na força de seus cinco anos.
Aberta, maravilhou-se com aquelas peças. E as despejou no tapete da sala, sobre o olhar satisfeito do pai. Espalhou-as, olhou uma, examinou outra. Em seguida, com a chave de fenda, fez um rombo na caixa de papelão, passou o barbante por ele, deu um nó desajeitado, jogou as peças dentro e saiu puxando-a pela sala:
- Pai, olha,olha só a minha caçamba.....

 

 

ADORMECIDA

Erna Pidner

Desperta em mim a mulher
Sem forças para sair de si mesma
Romper as correntes
Ressurgir plenamente!
Faz-me ver que ainda existo
Há muita vida lá fora;
Um mundo de encantamento
E eu cá dentro...

 

 

UM PRESENTE PARA JOÃO

Conto de Luiz Carlos Amorim

Cláudio não podia se queixar dos Natais da sua infância, pois sempre tivera ceia farta e presentes que toda criança espera: brinquedos e guloseimas. Sua família não era rica, mas também não era tão pobre que não fosse possível ter um Natal feliz.
Então, quando cresceu, ao conseguir o primeiro trabalho, prometeu a si mesmo separar uns trocados, todo mês, para comprar balas e doces a fim de distribuir entre crianças carentes na véspera do Natal.
E mesmo com um salário modesto, em meados de dezembro José comprou bombons, balas e até algum chocolate, fez vários pacotes, tantos quanto foi possível e os levou, na tarde do último sábado antes do Natal, a uma comunidade muito pobre nos arredores da cidade onde vivia.
Emprestara o fusca de seu pai e foi realizar o desejo de dividir o pouco que tinha com aqueles que tinham bem menos do que ele. Parou o fusca no meio da comunidade, tirou de dentro uma caixa grande de papelão com os pequenos pacotes, colocando-a em cima do capô.
As crianças já começavam a surgir e se aproximavam de todo lado. Em pouquíssimos minutos, Cláudio estava cercado de crianças, um bando delas, crianças de todas as idades e tamanhos, meninas e meninos. Curiosas, queriam saber o que eu estava fazendo ali.
- O que tem na caixa? - perguntavam.
Ele não teve tempo de responder, apenas começou a entregar para cada uma delas os pequenos pacotes. Receou que não haveria o suficiente, mas felizmente cada criança recebeu o seu.
Cláudio nunca se sentira daquele jeito antes. Estava feliz por poder fazer a diferença no Natal daquelas crianças, pois sabia que elas não teriam nada mais além daquilo. Sorria, observando cada uma delas abrindo com sofreguidão o seu pacote, quando sentiu alguém puxar-lhe uma das pernas da calça. Olhou para baixo e viu uma menininha de uns quatro anos olhando para ele com um ar um tanto aflito.
- Tio, o João não ganhou um presente.
- Não ganhou? E quem é o João? - perguntou.
- João é meu irmão. Ele é pequeno e está doente, por isso ficou lá em casa.
- Ele está doente? Vamos dar um jeito de arranjar um presente para ele. Será que eu posso ver o João?
- Acho que sim - respondeu, encolhendo os ombros. Pegou Cláudio pela mão e levou-o em direção a algumas casas muito pobres, na verdade casebres de pau-a-pique. Entraram em uma delas, onde estava a mãe de João com ele no colo.
- Com licença, senhora, sua filha disse que João está doente...
- Ele está com muita febre - disse ela. E baixou os olhos para ele, que parecia estar dormindo e respirava com alguma dificuldade. A iluminação não era muita, mas o menino parecia estar com o rosto muito vermelho. Foi providencial ter um carro naquela hora. Cláudio ofereceu-se para levar João a um posto de saúde e, apesar de um pouco desconfiada, a mãe do menino acabou concordando. Saíram em direção ao bairro mais próximo onde havia um posto de saúde. Felizmente não havia muita gente e João foi atendido logo. O que João tinha era uma virose e ele foi medicado, mas o médico deu uma receita para que fossem comprados alguns remédios que ele teria que continuar tomando por alguns dias. Levou-os de volta para casa, não sem antes parar na farmácia para aviar a receita e num supermercado para comprar o "presente" do menino. Aproveitou para fazer uma pergunta à mãe das crianças, para confirmar ou dirimir uma dúvida que o vinha incomodando. - A senhora não precisa de mais nada, não lha falta algo em casa? Talvez eu possa ajudar... - Não, não é preciso se incomodar.. No entanto, Maria, a menina, segurando o vestido da mãe, reclamou: - Mãe, quero pão... Então compraram alguma comida. O pouco dinheiro que ele tinha no bolso foi-se todo, mas ficou feliz de ter algum para poder ajudar. Voltou outras vezes para ver João. Ele sarou e o rapaz transformou-se no padrinho dele e um meio tio daquelas crianças que lhe ensinaram muito mais sobre o significado do Natal.

 

 

CÂNTICO AO RIO

Harry Wiese



Vejo o rio que rola a água sobre as pedras
e nem se dá conta
(extrema fatalidade)
que divide a cidade.

Sou o poeta da cidade dividida
e não consigo edificar a ponte requerida.

Vejo o rio que rola como ondas de (a)mar
e não há receptores bastantes que possam
entender meus poemas.

Vejo o rio que rola a água sobre as pedras
e nem se dá conta
(extrema desgraça)
que divide os homens.

Vejo os homens que veem o rio
e só veem o rio.

O rio divide a cidade, os homens
e os poemas.

 

 

FIGURAS NAS NUVENS

Por Célia Biscaia Veiga

Eu estava lendo uma revistinha do Maurício de Souza em que o Chico Bento e a Rosinha estavam brincando de procurar figuras de animais nas nuvens.
Isso me fez lembrar de quando eu também fazia isso. Quando criança, gostava de procurar nas nuvens formas que lembrassem o meu cachorrinho, os gatos da minha tia, o coelhinho que a vizinha da esquina dizia que botava os ovos na Páscoa, o leitão que estava sendo criado na casa ao lado para ser sacrificado no Natal (coitadinho do bicho), o galo garnisé do meu tio-avô, as vaquinhas que eram criadas pela família que morava no final da rua, o papagaio que tinha no açougue e dizia "bom dia" para os fregueses, o chimpanzé que batia palmas que eu vira no circo, e outros pequenos animais que via e que me assustavam, como ratos e sapos.
Quando meus filhos eram pequenos, também brinquei disso com eles, mas eles já não tinham as mesmas referências de animais que eu tinha, pois não conviviam com eles. Os animais que conheciam eram pela televisão e alguns animais de circo, mas que tinham sido vistos por pouco tempo e não tinham interessado tanto. Preferiam ver nas nuvens figuras de objetos que conheciam e algumas vezes, viam letras, números.
Não sei se as crianças de agora ainda acham interessante essa brincadeira ou se lhes sugerissem não arriscariam vê-los torcer o nariz, revirar os olhos e dizer - "Que podre!" ou "Que várzea!", ou ainda "Que nada a ver", ou qualquer outra expressão no gênero.
E isso é uma pena, pois quando se perde a imaginação, perde-se uma parte importante da vida. É a capacidade de imaginar que permite se formem os grandes profissionais de todas as áreas. É essa capacidade que instila no cientista, no administrador, no médico, no vendedor, no professor, no policial, no operário, na costureira, no designer, e em todos os outros profissionais aquele estalo de pensar "e se eu fizesse isso dessa outra forma" e imaginar os resultados. É desses estalos que surge o progresso, os novos produtos, as novas formas de solucionar os velhos problemas.
Até hoje, gosto de olhar as nuvens e imaginar cavalos correndo, chumaços de algodão desfiados, coelhos de orelhas que vão crescendo até se desfazerem...
Imaginar é preciso.

 

O MESMO DIA!

Rosângela Borges


Cortar o cabelo
(Tão comprido assim)
Roupas no varal
(Hoje não tem sol)
Calçar os sapatos
(Pretos, brilhantes)
Vai chover
Do lado de lá da ponte!

Encontrar a noite
(Tem festa na esquina)
Entrar na fila
(o fim e o meio)
Esperar o doce
(A casca e o recheio)
Acordar na rede
Não há mais estrela naquela parede!

Dançar no tapete
(A música de ontem)
Acender a luz
(Há janelas tão fechadas!)
Escrever uma carta
(Sem lápis e sem papel)
É nova aquela flor
Repleta de abelhas e mel!

O mundo é tão normal
E de novo,
A vida avisa
Não saiu mais nada no jornal!

 

 

A FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE

Por Clotilde Zingali

De 30 de outubro a 15 de novembro, ocorreu a 55ª feira do livro de Porto Alegre. Algo que não pode e não deve passar sem comentários. Porque é um exemplo. Porque é de dar água na boca. Aos que escrevem, aos que leem. A todos.
A geografia da cidade atravessada por uma Feira do Livro. Uma praça, ladeada por edifícios cheios de história; onde um dia comerciantes e quitandeiros se juntaram e onde também acontece hoje comércio de artesanatos diversos. Um lugar onde tanto se falou e se fala.
Histórias da alfândega, dos comerciantes, dos mendigos, dos que sentam para ler livros, dos que a atravessam. Do espanto dos poetas. Um lugar estampado de palavras, de falas-palavras. Em cada caco do chão. E, pela 55a vez, a edição de uma feira de livros. Por toda parte. Inclusive num hospital, onde a feira foi "improvisada" para as crianças que não podem sair terem acesso ao espírito da leitura, da festa. Terem acesso ao ritmo. Vida que pulsa na palavra. Em cada sacola. Na boca. É isso que acontecia nas barraquinhas personalizadas embaixo das imensas paineiras, dos ipês e jacarandás; o chão coalhado de cores e a praça invadida, circulada, vivificada; diante da conversa paralela entre Drummond e Quintana e milhares de fotos.
A democracia da palavra. Falada, encadernada, escutada, televisada, sussurada. Os escritores de muitos livros, os de um livro só, e também os de nenhum; os consagrados, os pela primeira vez nessa trilha e os que estarão lá nas próximas edições. As outras mídias envolvidas. Rádio, TV. Jornais.
Uma comunhão, uma vitrine, um oásis. A área dos expositores, dos autógrafos. A conexão com o outro lado da via. Com o rio, com a Bienal do Mercosul. Milhares de pessoas cruzando todas as fronteiras nesse passear em torno de 26 mil m2. Vozes por todos os lados, inclusive a do poste, que por meio de um sistema de alto-falantes divulga a programação do evento pontualmente. Shows, palestras, mesas de discussão, autógrafos. Informações, segurança.
Um mundo envolvido com a circulação da leitura, da escrita, da palavra. Isso sem contar as casas de cultura, exposições, cinemas. Gentes de todos os lugares. Lugares para todas as gentes. A maior feira a céu aberto da América Latina. Literalmente.
Para Santa Catarina, o Estado homenageado nessa 55° Feira do Livro de Porto Alegre, além da imensa honra, possibilidades de troca cultural, de novas ideias, de verificações, constatações; de encontro, de trânsito com as diversas dinâmicas envolvidas e de mudanças.
Aos que lá estiveram e também aos que não, a possibilidade de representatividade, de exposição, de "dar a ver". Contato. Peles descascadas e o encontro do que há dentro, daquilo que funda, da palavra que nos configura, nos remete, nos assina. A palavra que descortina o homem em sua complexidade. Instaura esse mesmo homem num outro lugar.
Estamos todos aqui. Estivemos todos lá. Somos um. Porque nos fundamos na palavra. A que diz, a que silencia. A que se expõe e a que balbucia. A que se arremete nos palcos e a que descansa. Para além do que foi o evento, existem as possibilidades. Que nem o Guaíba. Aquele mar doce. Que em sua origem indígena significa o lugar onde o rio se alarga. Que nem as possibilidades quando a gente silencia e admira o inesperado.

 

 

A CANÇÃO DO RIO

Else Sant´Anna Brum

Vens cantando um canto antigo
Oh! Rio amigo,
Que aprendeste nos sertão...
Vens cantando o mesmo canto
Que com suave e doce encanto,
Cantam também teus irmãos!
Essa música divina
Que se evola em surdina
Do teu nobre coração,
Espalha-se com clareza
Invadindo a natureza,
Numa singela canção.
Nós te amamos, rio amigo,
E cantaremos contigo
Os teus hinos, teus cantares...
Amamos tuas águas claras,
Teus serpenteios de fadas,
Em requebros singulares.
Vens cantando de alegria
Nesta longa romaria,
Envolvido em teus cismares...
Corre, não fiques parado
E vai lançar-te cansado,
No doce seio dos mares!

 

 

PRÊMIOS CIDADE DE MANAUS SEM RESULTADO

Por Luiz Carlos Amorim

A quarta edição (2009) dos Prêmios Cidade de Manaus, um dos mais importantes concursos literários do Brasil, foi lançada em dezembro de 2008. Os prêmios seriam atribuídos, como nas edições anteriores, nas seguintes categorias: romance ou novela; contos; poesia; crônicas; teatro para adultos; teatro infantil; jornalismo literário; Literatura Infantil e outras sete delas.
Os prêmios, no valor de R$ 5.000,00 seriam conferidos a cada uma das categorias, além da publicação do livro, pelo programa editorial do Conselho Municipal de Cultura.
Conforme o regulamento, o resultado seria publicado no dia 1º de outubro de 2009 no Diário Oficial de Manaus. Já estamos em meados de outubro e nada foi publicado. Telefonei, no dia 2, para a Prefeitura de Manaus e tentei falar com a Secretaria de Cultura, mas ninguém soube me dar qualquer informação.
Telefonei nos dias 3 e 4 para falar com a Diretora da Fundação, que em janeiro publicou um comunicado à imprensa e aos vencedores dos Prêmios Cidade de Manaus garantindo "a continuidade da premiação e a devida publicação das obras vencedoras serão honradas pela atual diretora da Fundação Cultural." E confirmou que as inscrições para a quarta versão dos Prêmios Literários Cidade de Manaus estavam abertas desde o dia 03 de dezembro, através de edital publicado no Diário Oficial do Município, com prazo até o dia 30 de abril de 2009."
Não consegui falar com ela, pois estava sempre ocupada ou não estava na casa e quem atendeu o telefone apenas informou que o Concurso Prêmios Cidade de Manaus está sendo reestruturado. Mas não consegui saber até quando ele vai ficar sendo reestruturado - está sendo reestruturado desde a mudança de governo da cidade? Isso faz quase um ano - ou quando a Prefeitura de Manaus dará uma solução, dizendo quando, finalmente, sairá o resultado. Quem atendeu no 32153474 ficou de passar meu telefone para a secretária da diretora para que ela me ligasse para dar informações, mas até hoje ninguém deu retorno. Já liguei de novo, mas a telefonista apenas diz que passou o recado.
A diretora da Fundação de Cultura, Lívia Regina Prado de Negreiro Mendes, colocou a sua palavra em jogo, em nome da Prefeitura que lançou o concurso, garantindo a continuidade do certame, mas a verdade é que ninguém diz nada a respeito.
O prefeito, Amazonino Mendes, sabe deste descaso para com a cultura, que até o ano passado era levada tão a sério pela Prefeitura de Manaus? Ele concorda com essa irresponsabilidade de abandonar um concurso que foi organizado e lançado pela prefeitura, oficialmente, não interessa quem tenha sido o prefeito na época? Ele sabe que os Prêmios Cidade de Manaus tornou-se um dos principais concursos literários do país, revelador de talentos nas artes e na literatura?
Não quero crer que ele esteja compactuando com este absurdo. Creio que ele sabe o valor de um evento cultural de representatividade nacional como os Prêmios Cidade de Manaus e que a realização de um certame como este agrega valor tanto ao nome dele quanto ao nome da cidade.
Espero, veementemente, que este desrespeito para com os escritores que participaram dessa quarta edição dos Prêmios Cidade de Manaus ainda possa ser revertido, pois o compromisso de honra assumido pela prefeitura, ao lançar o concurso, publicando-o no Diário Oficial da cidade, ainda pode ser honrado. Antes tarde do que nunca.
Espero que, mesmo atrasado, haja um resultado para esta última edição. É uma questão de honra amazonense.

 

 

ESPERA

Apolônia Gastaldi (Portugal)

Nem eco
Há que me conforte.
Nada disfarça
A inutilidade da espera
As cores luminosas
Somem
E a dor consome
A alma, sem dó
Nem pena
As águas do meu rio
Sabem
Marulham baixinho
Na pura delicadeza
Do compartilhar.
Na espera,
O meu canto é só lamento,
Vive escondido do meu peito.
Ninguém deve achar.
Fingindo, incremento
E tento inutilmente
Outra forma de cantar.
Entretanto,
Tudo está feito.
Na solidão,
O meu sonhar
Desfeito.

 

 

PARNASIANOS

Por Enéas Athanázio

Depois de anos de estudos e pesquisas, (Rafael) SÂNZIO DE AZEVEDO, professor da UFC e autor de cerca de vinte livros dá a público o volume “O Parnasianismo na Poesia Brasileira” (Co-edição UFC/UVA – Fortaleza), no qual disseca os princípios, técnicas e segredos dessa escola literária que vicejou no Brasil por influência de Leconte de Lisle, Banville e Heredia e como reação ao romantismo. Estuda o parnasianismo em França e Portugal, abordando em seguida os precursores nacionais e, por fim, o parnasianismo no Brasil, suas características formais e temáticas, começando pelos expoentes do Rio de Janeiro, onde a escola floresceu com mais força, aí incluindo o catarinense Luís Delfino. Examina a seguir os expoentes da escola em São Paulo, merecendo cada um deles minucioso estudo. Estende-se então a todo o país, analisando os representantes de cada Estado, buscando realizar um levantamento exaustivo e sem omissões.
Quanto a Santa Catarina, contempla os poetas Lacerda Coutinho, em consideração à parcela parnasiana de sua produção, Araújo Figueredo, pela mesma razão, e Arnaldo Claro de São Thiago. Segundo o autor, o “pouco peso da corrente parnasiana neste Estado é o fato de n’ “A Literatura de Santa Catarina” (1979), de Celestino Sachet, não haver um capítulo específico para ela, o mesmo ocorrendo na “Introdução à História da Literatura Catarinense” (1980), de Osvaldo Ferreira de Melo” (pág. 334), Dentre os incluídos por Lauro Junkes na “Presença da Poesia em Santa Catarina” (1979), exclui Carlos de Faria e Antero dos Reis Dutra por não serem ligados à corrente. “Repetimos que nos interessam poemas parnasianos e não necessariamente só poetas parnasianos” – escreve o ensaísta (idem).
Pelo seu caráter sério e abrangente, o livro de Sânzio de Azevedo passa a integrar o rol das obras indispensáveis das letras nacionais e merece desde já uma referência que não pode ser omitida. Foi objeto de análise positiva de mestre Wilson Martins em sua coluna de “O Globo” (8 de janeiro de 2005 - pág. 4).

 

 

NOSSO AMOR ACIMA DE TUDO

Joel Rogério Furtado

Nosso amor não tem limites
justamente por ser único
absolutamente verdadeiro.
Chegamos a tocar as fronteiras
do impossível -
bebemos a alegria do Paraíso
sobrevoamos outros Mundos
transitamos por outras Galáxias
mas isso não pode (e não deve)
assustar a gente.
Nossa história não se contém
nos parâmetros comuns
do quotidiano
até porque nosso amor
tem raízes em outras Eras
tem fundamentos em outras Vidas
pelas quais já passamos felizes
amando-nos também tanto
quanto agora.
Quanto mais nos amamos
mais nos queremos -
nosso mergulho
é cada vez mais fundo.
Que isso não atemorize a gente
porque nosso amor (na verdade)
é muito mais transcendental
do que nosso entendimento
humano.

 

 

"SOPÉ"

Foi lançado, em outubro, o livro "Sopé", com texto de Flávio José Cardozo e desenhos de Tércio da Gama.
O vento, aqui na capital, estava terrível no dia do lançamento, mas parece que à medida que a noite ia avançando, ele ia aumentando. Mas os leitores e amigos do Flávio e de Tércio não se intimidaram com isso e a sessão de autógrafos foi um sucesso. A Livraria Livros & Livros, até bem ampla, ficou pequena para tanta gente. A fila para conseguir um autógrafo do escritor e do ilustrador ficou enorme. Eu esperei quase meia hora, mas como num evento como esse a gente encontra muitas pessoas do meio, é muito legal rever um e outro que a gente não via há muito tempo.
O Tércio eu não conhecia e percebi que é muito popular e a sua obra bastante apreciada, mas o Flávio é um escritor consagrado e todos já sabemos da qualidade da sua obra. Crônica ou conto dele é garantia de boa leitura. E o livro "Sopé", publicado pela Editora Unisul está lindão. A apresentação é impecável, o conteúdo delicioso. Parabéns a Unisul pela qualidade editorial e o autor e ilustrador pelo recheio.
As ilustrações são preto e branco, mas a gente consegue ver as cores que o desenhista insinua em cada cena. Valeu a pena sair de casa num dia como aquele, para usufruir da companhia e obra de gente tão talentosa.

 

 

FORA DA PROCISSÃO

Maria de Fátima Barreto Michels

Tudo estava muito sem graça
porque não havia bichinhos pequenos pulando nos galhos
Nem rolando no capim, nem saltando na lagoa
Não havia o som de patas disparando pelo chão.
Patas cheias de vida!
Era uma savana de um silêncio aborrecido
Não havia bichinhos pequenos voando no céu

No marasmo uma multidão de bichos empalhados,
cabisbaixos em procissão no tempo, isto (há)via

Algo se mexe, fora da procissão !
Era uma leoa? Parecia. E estava viva!
VIVA! Ela se mexia. E urrava, magra e feia
Ela está viva, pensaram meus olhos aborrecidos
Urra e se mexe. Não segue junto na procissão aborrecida

Não havia bichinhos pequenos pulando
Tudo estava muito sem graça
Mas eu vi, com estes olhos aborrecidos que a terra
há de comer!
Ela era talvez a única coisa que se mexia
do ponto de vista onde eu me encontrava
naquela época

Fui me arrastando pelo capim disfarçada
no meio da procissão e quando cheguei perto,
coloquei minha mão esquerda dentro de uma juba crespa que
lhe contorna a cabeça.
Ela não me mordeu, mas me azul olhou com olhar de gente.

Disparei dali!

Ela continua urrando, ouço-a daqui. Está viva
A procissão continua, aborrecida, porque igual.

Ela não é igual, e devido a isto, de vez em quando a perscruto.
Com meu olhar aborrecido.

 

TRINADOS DE AMOR

Saiu "Trinados Para o meu Passarinho", de Urda Alice Klueger, em setembro, bem na chegada da primavera. São vinte e uma crônicas de puro amor. Sabe aquele amor firme e forte, incondicional, que a gente pensa até que não existe mais? Pois ele está contido todinho neste grande livro, da primeira à ultima palavra, lindíssimo.
Como já disse, ele é um hino de amor, uma coletânea de poemas em prosa, daqueles mais inspirados. Esse livro lembra a toda gente que o amor ainda existe, que é preciso procurá-lo dentro de nós, dentro dos olhos, dentro do peito, dentro da alma. Que é preciso adentrar os olhos e o coração do próximo que esse sentimento maior e inconfundível está lá, dentro de nós e dentro de alguém que precisamos encontrar.
Algumas crônicas eu já havia lido, e continuam belíssimas, outras eu não conhecia e fico aqui babando, como ao ler Pseudo-primavera, A garça e o segredo das Dunas, Patos Gansos e Cisnes e todas as outras.
Este é um livro feito de alma e coração, para dar de presentes às pessoas mais queridas da gente, no aniversário, no Natal, no dia dos namorados, para dizer-lhes "Eu te amo".
Porque "Trinados Para o meu Passarinho" é isso: amor de verdade, no mais alto grau que o sentimento pode chegar, que um coração pode suportar.
Amar é isso.

 

 

"APHRODITE E AS CEREJEIRAS JAPONESAS"

Será lançado, na Feira do Livro de Florianópolis, no dia 19 de dezembro, as 16 horas, o novo livro de crônicas de Luiz C. Amorim,“Aphrodite e as Cerejeiras Japonesas”. Nele, o autor aborda literatura, música, cinema, dança, política cultural, a vida na cidade e a vida no interior, o tempo, as estações, mudanças climáticas, jornalismo, viagens, corrupção, impunidade, educação, saúde, segurança, natureza, animais de estimação, reforma ortográfica, ecologia, Quintana, doações destruídas, fala até de pedágio.
As crônicas desse livro são um registro do que tem acontecido, no nosso Estado, no Brasil e no mundo, nestes últimos tempos.

 

LIVRO DE NATAL

A nova edição do Livro de Natal - contos, crônicas e poemas, de Luiz Carlos Amorim, já está à venda na loja virtual da Editora Clube de Autores, em www.clubedeautores.com.br e será lançada na Feira do Livro de Florianópolis, no dia 19 de dezembro, as 16 horas.
No prefácio, Cissa de Oliveira diz:”A temática, específica, torna este um livro ainda mais especial. Se algum livro pudesse dizer “Hou, hou, hou”, outro não seria senão este.”

 


EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 111 - Dez/2009 - Ano 29
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
Contoatos: lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br
A ILHA na Internet: Veja o portal PROSA, POESIA & CIA. em
Http://www.prosapoesiaecia.xpg.com.br


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