SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Revista do Grupo Literário A ILHA

Edição 119 - Dezembro/2011

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RECONHECIMENTO

Este é um final de ano muito importante para o Grupo Literário A ILHA. Muita coisa está acontecendo em reconhecimento ao trabalho realizado durante esses trinta e um anos de atividades.
A Noite Poética Josefense será realizada no dia 10 de dezembro, sábado, às 19h30min, no Teatro Adolfo Mello, no Centro Histórico de São José e, na ocasião, o Grupo A Ilha será homenageado pelo trabalho cultural que desenvolve ao longo de todos esses anos, contribuindo para o crescimento da literatura catarinense.
O fundador e coordenador do Grupo A ILHA tomou posse da cadeira 19, patrono Mario Quintana, da Academia Sul Brasileira de Letras, no dia 18 de novembro. Júlio de Queiroz, grande poeta e prosador, foi o apresentador do novo acadêmico.
O livro de crônicas "O Rio da minha Cidade", de Amorim, levou Menção Honrosa nos Prêmios Cidade de Manaus - Crônica - 2011. O livro está em fase de edição.
No dia 2, Amorim recebe o Prêmio Paschoal Pitsica, da Academia Catarinense de Letras, que o elegeu Personalidade Literária do ano de 2011. Será no Tribunal de Contas do Estado.
De maneira que é um fecho de ouro para este ano de 2011.

 

 

É NATAL

Else Sant´Anna Brum
(Joinville)

Vem,
Vem olhar a criança
Na tosca manjedoura
Rodeada pela mansidão das ovelhas
E pela fé dos simples pastores
Que ainda hoje permanecem.
Vem ver a inocência e a pureza
A ressurgir em todos os Natais
Pelo poder da força-Cristo.
Vem, despe tua velha roupagem
De peregrino errante.
É tempo de alegria!
É tempo de amor e esperança!
É Natal!.

 

 

CRUZ E SOUSA: 150 ANOS

Por Luiz Carlos Amorim

No dia 24 de novembro de 2011, o maior poeta catarinense de todos os tempos, Cruz e Sousa, completaria 150 anos de nascimento. Para comemorar, a terra onde ele nasceu, Florianópolis (antiga Desterro), preparou vários eventos. O Simpósio Cruz e Sousa debateu, com grandes nomes da literatura catarinense e brasileira, a vida e a obra do Cisne Negro, em quatro dias. Um selo em homenagem ao poeta foi lançado no dia do aniversário do poeta, pelo Correio. No mesmo dia, as 18 horas, trinta e um atores declamaram poemas de Cruz e Sousa nos terminais de ônibus de Joinvile, Florianópolis, Criciúma, Itajaí, Araranguá, Blumenau, Curitibanos, Chapecó, Caçador e Lages. Após a apresentação dos poemas, foram distribuídos livros com a obra do poeta aos espectadores.
Dois filmes sobre o poeta foram exibidos na Fundação Cultural Badesc. E um CD com cinquenta poemas de Cruz e Sousa, declamados por cinquenta escritores catarinenses foi elaborado pela Fundação Catarinense de Cultura.
E mais eventos já foram ou serão levados a efeito, o reconhecimento que o grande poeta não teve em vida. Mas nada será o bastante para apagar o abandono em que o poeta morreu.
Pena que as homenagens, nenhuma delas das muitas que foram feitas, teve lugar no Memorial que leva o nome do poeta, ao lado do Palácio Cruz e Sousa, onde estão depositados os restos mortais dele. O local é muito pequeno e, apesar de ter sido feito para abrigar eventos culturais, não é apropriado para receber público.
Nosso respeito e nossa admiração por você, grande poeta. Feliz aniversário. De presente, meu poema em sua homenagem:

SAUDADE

(Luiz Carlos Amorim)

A poesia Catarina
tem um nome:
Cruz e Sousa.
A nossa poesia tem cor:
tem a cor da sua pele,
a cor alva dos seus dentes,
tem a cor do seu olhar,
tem a cor da sua alma,
a cor do seu coração;
tem todas as cores.
A poesia tem idade,
a idade da saudade:
mais de cem anos
de saudade do poeta.

 

 

OBRA COMPLETA DE CRUZ E SOUSA

Por Enéas Athanázio (Baln. Camboriú)

Em primorosa edição, em dois alentados volumes, a Obra Completa de Cruz e Sousa (João da - 1861/1898) bem merece um comentário (a propósito do sesquicentenário do grande escritor catarinense-nota do editor). Não é necessário repetir que foi o maior poeta catarinense de todos os tempos e um dos maiores simbolistas da literatura universal. Organizada com esmero pelo saudoso Lauro Junkes, professor da UFSC e então presidente da Academia Catarinense, também autor de excelente ensaio introdutório, é trabalho de grande conhecedor do assunto e dedicado admirador do poeta, envolvendo a imensa responsabilidade de coletar, examinar, cotejar e incluir no livro os textos com a maior fidelidade possível, tarefa deveras árdua quando se trata de produção volumosa, esparsa em volumes e periódicos de diferentes épocas e lugares. Trabalho solitário, exercido no silêncio dos gabinetes, muitas vezes sem que ninguém tome conhecimento. Foi mais uma contribuição importante do incansável escritor à cultura catarinense que lhe é devedora de muito reconhecimento.
O primeiro volume, com nada menos que 612 páginas, reúne toda a poesia do Cisne Negro, precedida do estudo do organizador (pp. 25 a 62). Seguem-se "O livro derradeiro - Primeiros escritos", "Broquéis", "Faróis" e "Últimos sonetos." É uma quantidade impressionante de poemas, todos mantendo o mais elevado nível poético e de conteúdo. É admirável que, tendo vivido apenas 36 anos, tenha produzido tanto. Invadia, com certeza, as madrugadas, entregue ao trabalho, quando o corpo pedia repouso - segundo um de seus biógrafos. O volume se fecha com minuciosa bibliografia das obras do poeta e sobre ele, revelando esta última a intensa repercussão de seus escritos na manifestação da melhor crítica.
O segundo volume, com 657 páginas, contém a obra em prosa de Cruz a Sousa. Ele manejava tão bem o verso como a prosa; foi poeta em prosa e verso. Aparecem nesta ordem: "Tropos e fantasias", "Dispersos", "Histórias simples", "Outras evocações", "Formas e coloridos", "Últimas evocações", "Missal", "Evocações" e "Correspondência."
No estudo introdutório, Junkes traça uma breve biografia de Cruz e Sousa, desde seu nascimento no Desterro até a morte em Sítio (MG), para onde fora em busca da cura para os males do peito. Relata o gosto do poeta pela elegância e a vida social, sua luta contra o preconceito, aqui e no Rio de Janeiro, e o impacto de sua poesia simbolista num meio dominado pelos poderosos parnasianos. Registra a cronologia da publicação de suas obras e o crescente interesse por elas depois do Modernismo. Analisa as similitudes e diferenças de seu simbolismo com o francês e o preconceito de que foi vítima no Brasil, sufocando-o como escola que nunca conseguiu dominar. Faz um longo passeio pela fortuna crítica do poeta, acentuando as mais expressivas e oportunas interpretações, concluindo que Cruz e Sousa foi autêntico inovador, inaugurando uma nova escola, ainda que não tivesse tal pretensão, com características e personalidade inconfundíveis. Conclui o ensaio examinando o estilo de Cruz e Sousa, sua negritude e a arte poética, discutindo algumas opiniões a respeito. Ressalta a vida trágica do poeta, vítima do preconceito agressivo de sua época, da miséria e da incompreensão. E relata as condições terríveis de seus últimos dias, inclusive a forma lamentável com que seu corpo foi transladado. Trata-se, portanto, de um trabalho sério e abrangente que prepara o leitor para o ingresso na arte do Cisne Negro. O organizador contou com a colaboração da Profa. Terezinha Kuhn Junkes (revisão lingüístico-ortográfica), Profa. Zahidé L. Muzart (bibliografia), Iaponan Soares e Zilma Gesser Nunes (resgate de "Últimas Evocações").

 

 

ESPLENDOR EM JOSÉ MENDES

Júlio de Queiroz(Fpolis)

(Para Carlos A.Vieira)

O simples início do levantar o braço
desancorou os olhos.
A Ilha das Vinhas, multiverde, deixou de ser vegetal,
O Cambirela abandonou o rochoso de fundo-de-quadro;
Fez-se fulgor esplendoroso.
Tempo, libertado das algemas
de passado, presente, futuro,
transbordou-se sem limitações:
ondas estonteantes de luz.
Eu-ilha verde; eu-Cambirela; eu-Baía Sul.
Eu-universos sem nomes, infindos.
Eu-tudo, eu-sempre, fora do limitado:
Na indescritível alegria do sempre.

Depois - havia agora um depois -
O braço continuou a caminhada
Levando à boca a xícara com café e leite.

Debati-me, por dentro, contra a porta do alçapão.

("José Mendes" é um bairro em Florianópolis.)

 

 

NATAL, ETERNO NATAL

Por Erna Pidner (Ipatinga,MG)

Florianópolis, dezembro, 1996. vinte e cinco anos passados desde que uma turma de jovens recebia o seu diploma de Assistente Social. Formaram-se, exerceram suas atividades profissionais e parte delas aposentou-se, após uma fase de sua vida dedicada ao Serviço Social.
Reencontrarem-se, refletindo sobre as experiências vivenciadas, concluir que muito ainda há para ser feito, sentirem que valeu a pena a caminhada, eis aí presente o espírito do Natal!
Bela vivenda de amigos, onde fiquei hospedada, com vistas para o mar, aos fundos um lago, onde nadam tranquilamente patos, marrecos e gansos, compondo a paisagem, quadro vivo da exuberância da natureza; ali sentimos também a presença inquestionável do Natal!
Um grupo de amigos (mais ou menos quarenta), que se encontram semanalmente para jogar futebol e lazer, lá se reuniu, com as esposas, numa noite, para confraternização de final de ano, num clima de festa e companheirismo; quanto de Natal!
Um passeio de barco na baía sul, com suas ilhas e fortificações, edificações históricas preservadas, bando de golfinhos fazendo gracinhas no mar; para que mais Natal que isso?
Ruas, casas, avenidas, árvores e centro da cidade festivamente enfeitados com luzes em profusão, em desenhos com motivos natalinos; puro Natal!
Mas, afinal de contas, que é o Natal?
As pessoas, os povos, as nações, se empenham cada vez mais em reverenciá-lo externamente, mas, e cá dentro?
O sentido das festas natalinas, oriundas da celebração do nascimento de Jesus Cristo, é de reflexão sobre seus ensinamentos e mensagem que nos deixou, renascimento, renovação interior, paz, amor e fraternidade entre os habitantes desse planeta.
Fiz parte da turma formada em 1971. Vinte e cinco Natais se passaram desde então!
Antigamente não havia tantas luzes e enfeites nas ruas; eles foram surgindo junto com a evolução tecnológica. Muitas conquistas teve a humanidade nesse período, muito aprendi e realizei, no entanto, o Natal de hoje, em sua essência, continua sendo o mesmo de minha infância, juventude, maturidade e não mudará até o fim de meus dias.
NATAL, ETERNO NATAL!

 

 

AMBIÇÃO DE POEMA

Jacqueline Aisenman (Suiça)


O poema
Se escreve sozinho
Deitando preguiçoso
Nas palavras sobre a linha.
Ambiciona crescer
E se tornar
Linhas inteiras
Parágrafos de uma prosa.
Mas enquanto
se espreguiça
nas letras
na tinta
na tela
o poema se deixa
ficar ali.
E de sua ambição
sobrou a falta de rima.

 

 

O CONGRESSO BRASILEIRO DE ESCRITORES

Por Luiz Carlos Amorim

Estive, de 13 a 15 de novembro, em Ribeirão Preto-SP, onde fui participar do Congresso Brasileiro de Escritores, promovido pela UBE - União Brasileira de Escritores de São Paulo. Escritores de todo o Brasil compareceram para debater, palestrar, fazer oficinas literárias, apresentar mesas redondas, dar conferências. E muitos outros foram para assistir a tudo isso e encontrar seus pares. Aliás, é muito importante a discussão de assuntos referentes à produção, publicação, distribuição da literatura e a função dela na sociedade, mas também é relevante o congraçamento de escritores que nem se conheciam e que continuam o debate depois que o congresso acaba.
Encontrei, na primeira tarde, a Jacqueline Aisenman, escritora catarinense de Laguna que vive em Genebra. Encontrei, ainda o Menalton Braff, da diretoria da UBE, contista dos bons, que já frequentou as páginas do Suplemento A ILHA, mas não consegui assistir a palestra dele, sobre a composição do conto, que aconteceu no primeiro dia de congresso, quando eu ainda não havia chegado. E conheci muitos outros escritores de várias partes do país, como Fábio Lucas, Deonisio da Silva, Fernando Moraes, Cláudio Willer, Pedro Bandeira, Ruth Guimarães, Laura Bacelar, por exemplo.
No penúltimo dia de congresso, fui à palestra de Affonso Romano de Santana, "Ler o Mundo: um desafio", como não poderia deixar de ser. Havia outras duas no mesmo horário, que deveriam ser interessantes, mas não deixaria passar a oportunidade de ouvir Affonso. E valeu a pena. Ele é agradável de se ouvir, um homem culto e inteligente, uma pessoa simpática e afável. E sua palestra me fez ver que leitura não é só ler um livro, ler alguma coisa escrita ou impressa, simplesmente. É, como diz o título da palestra que também é titulo de seu mais recente livro, ler tudo o que está ao nosso redor, até o que está em nós: ler o nosso corpo, ler a família, ler a sociedade, ler os amigos, ler o kosmo. E não é que ele tem razão?
Ele falou, também, em ampliação da palavra leitura e também da palavra livro. E nisso também ele tem toda razão, pois o sentido dessas palavras está se perdendo no nosso dia a dia. Poderíamos ficar ouvindo Affonso a tarde inteira, a noite inteira. Ele citou máximas como "Se você acha que a cultura é cara, imagine a ignorância", "O livro faz bem à saúde","eu leio a leitura dele", essa última dita por um doente de um hospital que oferecia livros aos pacientes e, tendo alta, pediu para ficar mais um pouco, para terminar de ler um livro. Acontece que o médico ficou sabendo que ele não sabia ler. E então ele explicou que o colega paciente ao seu lado lia para ele e ele "lia a leitura dele". Não é fantástico? Affonso, depois de terminar a palestra, respondeu a tudo que lhe foi perguntado com a maior simpatia, conversou com todos que ficaram para que ele autografasse seus livros e tirou fotos com todos. Só eu esqueci que estava com a máquina fotográfica no bolso e não tirei uma foto com ele. Falha minha, falha feia. Foi a palestra mais concorrida do congresso. A melhor palestra, dita com simplicidade e espontaneidade, com uma verdade lúcida e transparente. No último dia do Congresso foi feita a entrega do troféu Juca Pato ao geógrafo e professor Aziz Ab´Saber.Os escritores reunidos em Ribeirão Preto escreveram a Carta de Princípios do Escritor Brasileiro em 2011, princípios que precisam ser levados a efeito tantos por nós, escritores, como pela sociedade brasileira.

 

 

BOAS FESTAS

Hiamir Polli (São José)

Desejo, neste Natal,
que as luzes do senhor
desçam sobre você.
Que seus passos sempre
sejam guiados segundo
a vontade do Pai.

Que seus caminhos
encontrem um sentido
a mais para viver.
Que a esperança renasça
e os sonhos se concretizem
em cada amanhecer.

Que a vida floresça,
o amor vença
e a amizade permaneça.
Abrindo portas para
a eterna felicidade,
que o Ano Novo
seja repleto
de alegrias e prosperidade.

 

 

UM NATAL NA ÁFRICA

Por Urda Alice Klueger (Blumenau)

(...) Todos saíram mais cedo para viajar (de Joanesburgo para Moçambique) - minmha irmão previa que se chegassem às duas da madrugada afila da fronteira, até as duas da tarde já a teriam atravessado. O que ninguém sabia era que a quantidade de moçambicanos que viajaria seria muito maior que o esperado - centenas e centenas de ônibus levando gente para passar o Natal na pátria haviam tomado conta das estradas da África do Sul, todos convergindo para aquele único ponto da fronteira. Desde as duas da madrugada na fila para entrar no outro país, minha irmã e meu sobrinho Mteka viram o dia escoar-se sem chegar a sua vez de prosseguir. Era 24 de dezembro e a noite de Natal baixou com todos os seus encantos e mistérios, sem que a fronteira desse vazão a tanta gente que ansiava por chegar à família e à pátria. Às dez da noite, o posto da fronteira fechou - faltavam apenas alguns metros para que o ônibus onde viajava a minha irmão fosse admitido em Moçambique. Que fazer? Eles sabiam que, a poucas horas dali, Rosa Maria os esperava com um pernil e um Natal brasileiro, mas era impossível chegar. Teriam de pssar a noite de Natal naquela fila, em algum lugar perdido no interior da África onde, de um lado, havia um barranco e do outro, um charco onde viviam crocodilos (imagino que as fronteiras sempre sejam lugares estratégicos). Então, as pessoas se organizaram. Acenderam-se fogueiras para espantar animais e distribuiu-se a comida que havia: biscoitos, refrigerantes - cuja maior parte ficou com as crianças que estavam paradas naquela aparentemente interminável fila de veículos. Era noite de Natal, noite de milagres, e alguém sugeriu que rezassem. Os estranhos de durante o dia, de repente, estavam todos rezando juntos e depois cantaram cantigas de Natal, as velhas cantigas de Natal que trazem de volta as nossas almas as crianças que um dia fomos. Aquela era a única forma de comemorar a noite mágica naquele posto de fronteira - Papai Noel e as famílias ficariam para o dia seguinte. Qual não foi a surpresa de todos, então, quando pela meia-noite ele, Papai Noel, surgiu por ali? Era um homem de barba num velho carro e que saiu pela fila imensa distribuindo chocolates e guloseimas para as crianças que não estavam tendo o seu Natal. Tenho certeza de que os olhos daquelas crianças cansadas depois de vinte e quatro horas na fila se iluminaram de magia - como podia o Papai Noel encontrá-las ali, naquele lugar distante de tudo? Pai Natal, dizem lá os moçambicanos para o Papai Noel. Pois o Pai Natal foi aparecer justamente no dia e na hora em que deveria aparecer, veio trazer àquelas crianças de um outro continente e mesma magia e o mesmo encanto que traz às nossas crianças daqui de Santa Catarina. Os adultos passaram a cantar com mais fervor - o cansaço da espera foi esquecido, aquela virou uma noite verdadeiramente de Natal. Quem era o Pai Natal que tinha aparecido? Os adultos se informaram - tratava-se de um comerciante português que vivia nas proximidades e que decidira fazer a festa das crianças. Decerto que estava pondo abaixo todo o estoque de guloseimas do seu armazém, mas decerto isto não estava tendo importância para ele. Era um homem de barba branca que trazia presentes na noite mais maravilhosa do ano. Se eu estivesse lá, nem teria querido saber os detalhes a respeito dele: aquele era Papai Noel e pronto. Viera do Pólo Norte com as suas renas - jamais esqueceria de nenhuma criança, muito menos das que estavam paradas numa fronteira entre a África do Sul e Moçambique, mortas de cansaço e sem esperança naquela noite de mistérios.

 

 

A PAZ NAO É FACIL

Teresinka Pereira(USA)



Apesar de tudo
há que celebrar a paz
para que os poderes mundiais
não se apoderem da guerra.

Nos corredores dos palácios
e principalmente dos capitólios
vamos remover o egoísmo, a ambição
e a usura
e deixar que os cadáveres
façam a demonstração
necessária
para salvar o mundo
dos que ainda estão
vivos.

 

 

LIVROS EM RIBEIRÃO PRETO

(Escritores catarinenses na Feira do Livro de Ribeirão)

Por Amilcar Neves (Fpolis)

Confesso, antes mesmo de ser torturado: fui semana passada ao interior paulista em viagem inteiramente bancada pelo contribuinte. Quer dizer, quase inteiramente bancada, porque tive que pagar a média com leite e um salgado que foi meu café da manhã no aeroporto de Viracopos, em Campinas (pois precisei sair de casa, na Ilha, por volta das seis e meia da matina), e desembolsar o custo das 37 horas em que meu carro repousou no estacionamento do aeroporto Hercílio Luz. E sim, claro, não gozei de diárias ou compensações outras.
Não se computa, nessa conta, o investimento feito durante a 11ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto: não há desgraça nem prazer maior para um escritor do que ver-se enfiado no meio de uma feira de livros: ele jamais sairá dali sem uma sacola repleta de livros.
Pois bem: o povo catarinense pagou para que eu fosse a Ribeirão, a mim e a mais oito ou nove escritores da terra, porque Santa Catarina foi o estado homenageado desta edição da Feira (como já havia acontecido em 2009 na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, a maior do País - esta é a segunda). A comunicação da homenagem ocorreu em fevereiro, quando a prefeita ribeirão-pretana reuniu-se aqui com o governador barriga-verde. Na oportunidade, Raimundo Colombo assegurou sua presença na abertura solene do evento.
Correm lendas por aí segundo as quais o nosso governador não consegue dormir em voo. Assim, cada viagem sua ao exterior renderia dois dias de prejuízo ao contribuinte por causa das recuperações governamentais na ida e na volta. Como ele teria chegado em São Paulo de viagem à Europa na manhã da abertura, seu deslocamento a Ribeirão ficaria inviabilizado. O fato é que ele não foi à inauguração da Feira, conforme prometera e agendara, quando daria uma palestra e uma demonstração eloquente de que, finalmente, tínhamos um governador que se interessa por livros e literatura. Não sucedeu assim, e supõe-se que haja justificativas para tal.
Se o governador não foi, decerto iria o vice, substituto legal em seus impedimentos. Mas o vice também não foi. Não indo o vice, terá ido ao menos o secretário de Turismo, Cultura e Esporte. Mas o secretário, solidário ao chefe, igualmente faltou. Sobrou o diretor geral da Secretaria. Este foi, mostrando a que nível está relegada a Cultura em Santa Catarina, mas quem defendeu as cores do Estado, numa palestra brilhante e didática, foi o jornalista Moacir Pereira, autor de diversos livros. Mas isso não é nada. O estande especial do Estado foi montado pela Santur, do Turismo, que tem vasta experiência em feiras, e o fez muito bem. A FCC, da Cultura, omitiu-se ou foi omitida do evento e o seu presidente apareceu na abertura da Feira, e só. Sequer os livros premiados e publicados pelo Estado no bissexto Concurso Cruz e Sousa estavam disponíveis. Pior: numa feira de livros, nenhuma obra de autor catarinense pôde ser vendida porque não havia estrutura para isso num estande forrado de belas imagens das atrações turísticas do Estado. Livros, lá, fizeram parte da decoração, como elementos coadjuvantes de uma estante, com suas lombadas viradas para o distinto público. Com mais de 600 atrações, de palestras literárias e encontros com escritores até apresentações musicais - sem uma única dupla pseudossertaneja que fosse -, não foi programada a participação de catarinense algum nos debates. É assim que se desperdiçam oportunidades raras, valiosíssimas, e se joga fora o rico dinheirinho do contribuinte.

 

POETA

Apolônia Gastaldi
(Ibirama)

O poeta que escolhi
Perene vaga-lume
Boêmio
Vela o lume
O sonho, alegria,
Drama, fantasia
Cria, ama, recria,
Recria
A mesma alegoria
Extasia,
Vigia,
Na vigília da palavra
lavra
lavra o sentir
O poeta, sacerdote da emoção.

 

 

TEMPO DE NATAL

Por Célia Biscaia Veiga (Joinville)

Todos os anos, quando chega dezembro, instala-se um frenesi generalizado. É hora de montar o pinheirinho, arrumar a casa com os enfeites natalinos, fazer listas de presentes para quem não começou mais cedo, ver os amigos secretos do trabalho, da escola, da igreja, do grupo comunitário, etc... E a correria para as lojas tentando ver os presentes e os cartões que vão ser distribuídos, alguns por real afetividade, outros por pseudo-necessidade de agradar...
E o trânsito torna-se ainda mais congestionado... Não apenas o trânsito de carros como o de pessoas. Nas ruas comerciais é quase impossível caminhar sem levar ou distribuir (sem querer) cotoveladas e empurrões...
As ofertas (só ...,99) espalham-se em todas as lojas... A compulsão de "aproveitar" as ofertas faz com que se leve para casa objetos que jamais serão utilizados (é que estava tão baratinho...), e muitas vezes a soma das "ofertas aproveitadas" acaba sendo maior do que o que se necessitaria realmente comprar, e acaba não se conseguindo, pois o dinheiro disponível já foi gasto...
Não que o Natal não deva ser comemorado, justamente ao contrário... se gostamos de comemorar o nosso aniversário porque deixaríamos de comemorar o dia que se convencionou de que seria o aniversário daquele que foi o maior exemplo para a Humanidade?
A única dúvida é se, realmente, a gente comemora esse aniversário. Já é um clichê falar disso, mas entra ano e sai ano e as coisas não se modificam: as festas natalinas tornam-se oportunidades de abuso de álcool e de alimentação exagerada para uns enquanto outros continuam passando fome. Os acidentes causados pelo uso abusivo do álcool nas comemorações aumentam nas estradas e vários tipos de violências causadas pela incompreensão e pela falta de tolerância mútua dentro das famílias, nos leva a pensar se esse é o tipo de comemoração de aniversário que agradaria a qualquer aniversariante...
Mas, o Natal está aí e mais uma vez há a oportunidade de nascer a esperança de um mundo melhor para todos, lembrando que todos e cada um é responsável por essa construção.

 

 

ERA INESCAPÁVEL

Melanie Peter
(Corupá)

Era uma secreta composição
de sequências ininteligíveis.
Era o esconderijo das palavras
órfãs de representativos.
Era um instrumento musical
sigiloso, mas...

Agora...
Suas entranhas abertas.
Suas entonações aparentes.
Suas dobras e fendas expostas
são o reflexo de uma profundidade rasa
da qual uma nota esparsa sempre
escapa...

Para revelar a dissimulação vazia dos silêncios,
a miopia dos signos cristalizados na incerteza
de si mesmo
e a opacidade de uma dor final...

Inacabável...

 

 

POESIA NA REDE SOCIAL

Por Norma Bruno (Fpolis)

Daí que ela se rendeu e também entrou no Twitter. De cara começou com seis seguidores: as duas irmãs, uma prima e três amigas do peito. Em uma semana conquistou dez seguidores, mas encalacrou na marca até que descobriu a #meseguequeeutesigodevolta. Foi quando aconteceu o milagre: quinze, vinte, trinta, sessenta, cento e vinte, trezentos, quinhentos seguidores. Finalmente, ela se tornara popular! Aquilo fez um bem enorme para ela, pode-se dizer que foi até terapêutico porque se tem gente que tem autoestima baixa, esse não era propriamente o seu caso. O que ela tinha era uma baixoestima altíssima. O caso era grave! Animada com a repentina popularidade ela não fazia nada sem anunciar na rede e, quando por ventura, precisava sair de casa para resolver alguma coisa, ao chegar, corria esbaforida para o computador com a sensação de que havia perdido algo deveras importante e irrecuperável. Um certo dia ela caiu na besteira de tecer um comentário depreciativo sobre um certo ídolozinho da rede e deu início ao seu calvário: o número de seguidores passou a cair dia a dia, sem parar, aos borbotões! Sentindo o golpe, ela ainda tentou se justificar, mas a "emenda saiu pior do que o soneto". Tentou se fazer de engraçada, também não adiantou. Puxou o saco dos mais influentes, os tais "formadores de opinião". E nada. Aí partiu pra ignorância e resolveu tirar satisfação. Mandou DM para os ex-seguidores querendo saber o que houve. Silêncio sepulcral. Então desandou a bater boca sozinha, lançando impropérios a esmo, tipo "duela a quien duela". Nossasenhoradaparecida! Sobraram o "tosador de poodles", a "candidata à síndica", o "corretor de imóveis" a quem ela nem conhecia, meia dúzia de nulidades públicas tipo "sigo todo mundo pra ver se alguém me segue", além das duas irmãs, da prima e de duas amigas do peito, pois a terceira rompeu relações em definitivo. Foi quando ela percebeu que não havia o que fazer. Estava irremediavelmente só. A solução seria ignorá-los e retornar para a terapia. Mas, antes de sair, ela decidiu "dar um tapa com luva de pelica", como se diz. Em seus derradeiros 140 caracteres, ela resolveu reproduzir uma poesia muito linda que tinha lido alí mesmo, no Twitter: "Esses que atravancam meu caminho…" (como é que continuava mesmo a p#%*&# daquela "poesia"? Quem é que escreveu esse negócio, o Dalai Lama, a Cecília Meireles ou o Luiz Fernando Veríssimo? Ela pensava de si para si). O jeito foi improvisar:
"Esses que atravancam meu caminho" Ó! Ceis vão tudo catá coquinho!
Fui!

 

 

É NATAL

Aracely Braz(São Francisco do Sul)

 

É Natal
Quando a verde mata
Se transforma
Em tapete colorido
Com a flor do jacatirão,
Nosso presente
A cada véspera de Natal.

É Natal
Quando em cada lar
Renasce Jesus num presépio
De humilde manjedoura.

É Natal
Quando os sinos dobram,
As cigarras trombeteiam
Trazendo à tona
A lembrança feliz e triste
Do Cristo amado e traído,
Por assumir nosso culpa.
Natal,
A festa maior
De esperança e paz
De perdão e de amor.

 

 

FIM DE ANO

Por Mary Bastian (Joinville

Começou a corrida para as festas de fim de ano. O pessoal só pensa em limpar as casas, lavar cortinas, usar as malvadas maquininhas pra lavar calçadas, aquelas de ar comprimido que atordoam a gente, abrir caixas de enfeites natalinos, comprar mais alguns e deixar tudo prontinho para o Natal.
Tem gente que já comprou ou já fez seus presentes. Minha irmã que mora em Miami, desde julho já comprou tudo e agora se ocupa em fazer os pacotes e manda-los pra cá antes de dezembro. Diz que não entra em loja cheia.
Na cerâmica, todas fizemos peças destinadas a presentear os amigos. As crianças estão preocupadas em fazer listas do que desejam, as mães e avós, preocupadas com as listas. As lojas estão quase todas enfeitadas e as janelas, cheias de Papais Noeis empoleirados em escadinhas.
É uma época de excitação muito legal: arrumação, listas, compras, ceias, presentes escondidos e a curiosidade da criançada.
Até minhas netas Luíza e Júlia, foram à cerâmica comigo (uma de cada vez!) e fizeram uns trabalhinhos muito bonitos que já estão enfeitando a casa.
Este ano só enfeitei uma mesa pequena com mini-árvores de Natal e joguei um ou outro enfeite pelas portas e estantes. Coisa pouca, pra agradar as meninas. Minha responsabilidade é a ceia: assar o bicho e fazer gelatina fantasia, que não pode faltar há anos, servida dentro de uma casca de melancia.
O resto, é aproveitar a noite, trocar abraços e presentes e depois juntar os papéis coloridos espalhados pelo chão.
No fim do ano, repete-se a ceia, os abraços, se faz propósitos para o ano que chega, que nem sempre nos esforçamos para realizar, pensamos nos Anjos para agradecer o ano que passou e pedir que o próximo seja melhor, cantamos o "Adeus Ano Velho" e "Feliz Ano Novo", e vamos dormir bem mais tarde que de costume, com o coração cheio de boa vontade.

 

 

RITUAL DO DESAPEGO

Adriana Niétzkar e Vanucck Bernard Deucher

(Jaraguá do Sul)

 

Doo palavras que foram mágicas
pelo que eram, nãos as profano.
O papel, cordeiro, aceita tudo que lhe é escrito
eterniza o que não mais existe:
a promessa do eterno dissipou-se,
a oferta de sabedoria esvaiu-se.

Há palavras que precisam ser apagadas
pelo que foram, doo ao universo
já desgarradas de seus símbolos.

Há palavras que precisam ser transcritas
pelo que serão, não permito que se dissipem.

Reinicio a busca para construir in verso.

(Do livro "Uma Palavra Muda", escrito a quatro mãos)

 

 

PAPAI NOEL DE MENTIRA

Conto de Luiz Carlos Amorim

Anoitecia. Era noite de 24 de dezembro, finalmente, e tudo estava pronto para a mágica véspera de Natal. A casa toda iluminada, a criançada toda vestindo roupa nova, as delícias da ceia natalina preparadas ou chiando no forno.
Agora era só esperar a chegada dos convidados, parentes e amigos que vinham partilhar o encantamento de mais uma noite de Natal. Especialmente para as crianças, um Papai Noel havia sido contratado com bastante antecedência, um homem que já passara da meia idade, com barba comprida e branca, de verdade, e uma barriga protuberante que ficaria muito bem de vermelho. Não poderia deixar faltar esse pedacinho encantado no Natal de nossas crianças.
Lá pelas oito, Fernando e Clara chegaram com seus pequenos Júnior e Larissa. Logo em seguida, chegaram Miguel e Ana, com o pequerrucho Daniel.
- E então, Dani, trouxe o meu presente? - disse-lhe eu, pegando-o no colo.
- Vim ver Papai Noel! - respondeu ele, desconversando, com os olhos brilhando.
Minhas meninas, Cristina e Alice, ainda muito pequenas, brincavam com os amiguinhos que chegavam, mas não esqueciam que estávamos a espera do Velhinho do Natal.
O tempo corria e a hora combinada para o aparecimento do motivo da ansiedade das crianças se aproximava. Os pequenos brincaram com todos os brinquedos velhos e agora queriam os brinquedos novos que Papai Noel estava trazendo para eles. Chegara a hora acordada e nós, adultos, que sabíamos quando ele deveria aparecer, ficamos mais ansiosos do que as crianças.
Passou a hora e o Papai Noel não chegou. Apesar de irritado com o descumprimento do acordo, consegui ocupá-los com brincadeiras e cantorias e as crianças ficaram ainda mais excitadas. Uma canção de Natal falava de Papai Noel. - Essa música é de Papai Noel, ele está chegando? - perguntou Larissa. Estávamos na varanda, à frente da casa, e pedi que ela olhasse para o céu. - Fique de olho, que ele pode passar no seu trenó e deixar cair o seu presente, pois talvez não possa parar. Existem muitas crianças pelo mundo todo e ele precisa entregar todos os presentes nesta noite. Ela até prestou um pouco de atenção, mas logo foi se juntar às outras crianças. Júnior já estava com sono e Daniel dizia estar com fome. Então foi servida a ceia. Já era quase meia-noite e o abençoado Papai Noel não chegara. Eu estava indignado com o descaso da pessoa contratada para ser o Papai Noel das nossas crianças. Liguei para o telefone dele, mas ninguém atendeu. Depois do jantar, voltamos para a varanda, antes que as crianças dormissem. Pretendíamos entregar os presentes delas sem a presença do "bom" Velhinho, mas percebemos que Larissa não estava conosco. Íamos entrar para procurá-la, quando ela apareceu na porta com um pacote de presente. - Mamãe - chamou ela - acho que Papai Noel já passou e nós não vimos. Achei um monte de presentes! Olhei para os outros adultos, meio assustado, mas aproveitei a deixa. - Então, vamos ver de quem são os outros presentes que Papai Noel deixou. Ele deve ter chegado quando estávamos jantando e, como estava com pressa, guardou tudo para pegarmos depois. Abrir os presentes foi um bom motivo para esquecer a ausência do esperado Papai Noel. No próximo ano, quem sabe, eu deixo a barba crescer, pinto de branco, engordo um pouquinho e visto uma roupa vermelha...

 

 

O MUNDO FOI INJUSTO

Joel Rogério Furtado
(Araranguá)

Será preciso pedir ao tempo
(muitas vezes)
que não volte
porque não se reconstrói
(com precisão)
o que passou.
Nesse estado d´alma
é muito aconselhável
pedir perdão às ruas
desertas e iluminadas
pela palidez da lua.
No fundo, não queríamos
estragar tudo,
apenas deixamos
que o coração falasse
(evidentemente).
Mas prossegue bem nítido
o longo eco das conchas
na moldura desse quadro
que registra nosso ontem
tão saudoso.
Depois de tudo
possível concluir que o mundo
foi muito injusto conosco
(está mais que claro).

 

 

ROGUEMOS AO MENINO JESUS

Por Maria de Fátima Barreto Michels (Laguna)

Está na hora de raspar o tártaro, que faz a gengiva inflamar-se. O periodontista me recebe com alegria. Pronto! Deste já me livrei também.
Volto por outras ruas e observo que papai Noel já está sendo pendurado em algumas vitrines. Meu Deus! Quanta pressa em vender, vender, vender...Todos precisam vender! MERCADO. Mercado. Mercado. Lembro das crônicas, poemas e notícias que li na noite anterior.
Penso num grande caldeirão onde tudo ferve.
Tudo se relaciona, na influência/confluência destes tempos.
(...) Um turbilhão de coisas vão sendo lembradas. Entrecruzam-se idéias, algumas de enlevo e contentamento, outras complicadas, traumatizantes. Sinto tudo ao mesmo tempo, em plena rua.
Enquanto olho papai Noel colocado para trabalhar antes de entrar dezembro, passo os olhos pelos morros que circundam o centro de Florianópolis. Há coisas muito complicadas nesses morros. Muita gente sofrida. Há uma dívida. Um déficit. Há um grito de dor.
Enquanto isto, há flores me esperando para serem fotografadas. Há tanta vida, mas há muito papai Noel contrariado. O mundo está apressado. Em demasia.
Estou no ônibus, voltando para minha cidade, há uns tons de caramelo atrás dos montes, nas lagoas. É a beleza do poente. Penso no amor. Ele e a arte, ainda valem a pena. Sempre valerá a pena sentir o amor, fotografar florinhas e conversar com cães. Precisamos repensar o natal. O papai Noel deve estar aborrecido. Quanto ao menino Jesus, este então nem se fala: está ARRASADO.
Ainda assim, roguemos que venham!

 

 

POEMA RESPOSTA

Karine Alves Ribeiro (Gaspar)

 

Onde está o seu amor?
Será que abrindo a janela de manhã no outro lado do planeta,
onde adentra um sol místico, amarelo claro?
Será que despe-se para um banho de cachoeira,
anda sobre trilhos contando as pedras,
ou brinca com cometas?

Será que perfura poços de água fresca,
dança a primavera
de Mozart,
ou simplesmente molha a rosa
para que ela cresça?

Feiticeira,
colombina,
deusa,
sereia,
princesa
sempre guerreira,
onde estiver,
[independente do que estiver a fazer,
guarda-o sem saber por quê.
Embalada pelo vento morno,
sonha o mesmo sonho que você.

 

 

"NAÇÃO POESIA"

Por Celestino Sachet (Fpolis)

Meu poeta-menino, irmão gêmeo do menino-poeta. Na manhã de um domingo friorento e chuvoso, percorri teu livro com ganas de curtir poesia. E me dei bem!
Teu "Nação Poesia", a partir da capa, é um primor. Na sequência em que fui namorando teus versos, descobri que você é um poeta com todas as letras da linguística e com todas as artes de teoria da literatura. Já me explico.
O teu poema é uma síntese moderna do Olavo Bilac, no "Profissão de Fé", quando sugere "Torça, aprimora, alteia, lima / A frase; e, enfim, / No verso de ouro engasta a rima, / Como um rubim."
A grande maioria de teus poemas tem este final de ouro. Tomo como modelo o poema "Poeta". Dentro dos últimos cinco versos, veja a força que explode em "que me divido / em mais eus".
Mas você é também Drummond, quando desafia - "Penetra surdamente no reino das palavras". Só que você corrige Drummond e penetra "meninamente" na magia das palavras. Toda a sua (tua) poemática é de menino - Natal - passarinho - árvore - jacatirão.
Ah, seu bandido! Essas histórias de menino fazem saltar lágrimas no leitor. Um abraço de admiração do menino que continuo sendo."

 

 

NATAL

Luiz Carlos Amorim

 

Natal é o renascimento
da esperança e da vida;
é um abraço, um sorriso,
um sentimento maior.
É a ternura
de um menino nascendo,
é uma estrela apontando
a direção do futuro...

 

 

UM NATAL DE ANTIGAMENTE

Por Harry Wiese (Ibirama)

A noite estava calma e silenciosa como o luar. Nenhum ruído, nenhum grito de animal silvestre, nenhuma voz humana. Nem o vento conseguia balançar as folhas das grandes árvores. As nuvens que circundavam o astro maior da noite formaram figuras fantásticas e brilhantes e devido à inércia natural teimavam em perpetuar-se. Maravilhoso!
No pequeno lago, no meio da floresta, o luar prateado refletia sua magnificência e esplendor. Se um andarilho caminhasse ali e se tivesse o privilégio de apreciar as profundezas das águas, com certeza, veria a imagem santa do Salvador refletida e perceberia a presença da mão divina palpar o mundo tal qual o afago da mão de uma criança no rosto de sua mãe.
Havia uma pequena estrada que passava rente ao lago e nela quase ninguém se locomovia. À direita, havia a mata virgem que seguia até o olhar se perder. No outro lado, apontava a Serra Mirador, paredão verde-azulado de dia e, escuro e amedrontador à noite.
Neste lugar fantástico, já chegaram os homens com seus sonhos. As casas ficavam longe uma da outra. O local no seu todo consistia de mata virgem em abundância e, aqui e ali, o início de uma jornada: a casa rústica, a rancharia, alguns animais, algumas plantações, muitos sonhos, pouco conforto, nenhum lazer e muito trabalho. Também, havia a fé e a saudade. A fé em Deus mantinha-os unidos e a saudade era um sentimento triste e bonito ao mesmo tempo. Nunca lamentaram sua sina. O trabalho fê-los homens e mulheres de mãos calejadas, músculos fortes e rostos e corpos queimados pelo sol.
Numa clareira, Heinrich construíra seu lar: uma choupana de resistência fraca, mas de estilo esmerado e de beleza bem feita. Era uma casa rústica, de planta improvisada de engenheiro sem papel.
Naquela noite calma e silenciosa como o luar, eis que daquela cabana, um afinadíssimo coro quebrou o silêncio. De início baixinho como a brisa que bate no rosto dos transeuntes solitários no caminho da beira-mata, depois mais forte até se tornarem mais nítidas todas as notas das canções até a maior distância da região. "Ein feste Burg ist unser Gott", "Ihr Kinderlein kommet", Es ist ein Ros'entsprungen" eram as canções entoadas por Heinrich, sua esposa Marichen e seus três filhos: Wilhelm, Karin e Erwin.
À medida que as melodias ficaram nítidas e abrangentes, a natureza, antes calma e silenciosa como o luar, participou ativamente do espetáculo. Os galos cantaram, o gado mugiu, o vento soprou entre as árvores, os macacos pulavam de galho em galho, os sapos fizeram algazarra no lago e o latido dos cães, sempre tão temidos, não provocaram desespero nos animais silvestres. Em pouco tempo, toda a região estava tomada pela simbiose natalina, firme e convicta, poética e santa. A fé cristã conseguira penetrar no coração de um novo mundo. Depois das canções, Heinrich iniciou o ritual da distribuição dos presentes. Presenteou Marichen com um lenço de seda e ela retribuiu com um chapéu de feltro, comprados em Hammonia, colônia alemã recém fundada. As crianças entreolharam-se. A aflição aumentara. A árvore, uma araucária, maravilhosamente enfeitada, de acordo com a tradição, era o centro do lar, o centro do mundo. A luz das velas de cera de abelhas silvestres, fabricada por eles mesmos, era igual à dos natais na Alemanha. As faces das crianças pareciam pálidas em função do reflexo da luz. Quem as observasse, ali, tão compenetradas com o pensamento no menino Jesus, poderia concluir que se tratasse de anjos em plena selva de Hammonia. ? Erwin ? disse o pai ? este presente o Weihnachstmann trouxe para ti. Erwin era o caçula e tinha três anos apenas. O presente era muito mais belo que esperava. Uma junta de bois, espetacularmente esculpida em madeira e presa em quatro rodas para que a pudesse puxar pela casa e pelo pequeno jardim, que em novembro já começara a florir, estava em suas mãos. Heinrich, o pai, emocionou-se por causa da alegria do menino e por causa de sua pequena obra de arte, esculpida, à noite, à luz de lamparinas de querosene, depois que as crianças foram dormir. ? Karin ? disse a mãe ? abre o pacote! É teu! Karin era uma menina de olhos azuis e cabelos cumpridos. Em outubro havia completado sete anos de idade. O presente era lindo como a menina. Uma boneca de pano, caprichosamente feita, estava em seus braços. Marichen a fez nas horas de folga, domingos à tarde, quando se trancava no quarto, depois das árduas tarefas da semana. ? Vem cá Wilhelm ? voltou a pedir Heinrich, referindo-se ao filho mais velho ? ainda és um menino, mas já pensas como gente grande. Pega o teu presente! O rosto do menino ficou radiante. Não imagina que aquele presente viesse tão cedo. Antes de abrir o embrulho, abraçou o pai, a mãe, o irmão e a irmã. Que desejo pode ter um menino de dez anos em plena mata virgem? O que pôde provocar tanta alegria? Mas o que é o Natal senão alegria, fé, amor e união? E, realmente, tudo era alegria, na casa, fora dela, na mata, no lago e no céu com a Lua amando o mundo. Mais tarde, quando Marichen e as crianças já estavam dormindo, pai e filho, como dois adultos, sentados na pequena varanda conversavam animadamente sobre o futuro. Sim, como dois adultos, porque Wilhelm acabara de adquirir sua maioridade já aos dez anos, de acordo com a lei da selva. Agora era um homem com sonhos e ferramentas. ? Papai, depois das festas vou derrubar o mato rente ao pasto dos animais e plantar a minha roça! Acariciou o machado longamente e na condição de menino-homem, pensou que o Natal é a melhor coisa do mundo!

 

 

LANÇAMENTO NA FEIRA DO LIVRO DE FLORIANÓPOLIS

A Segunda edição da antologia poética Nação Poesia, de Luiz Carlos Amorim será lançada na Feira do Livro de Florianópolis, de 8 a 23 de dezembro, no Largo da Alfândega, no estande Escritores Catarinenses.
O livro está com nova roupagem nessa nova edição, com apresentação de Urda Alice Klueger e comentários de Enéas Athanázio.
Nesta edição do Suplemento Literário A ILHA, veja apreciação da obra de Celestino Sachet.

 

ENTREGA DE PRÊMIOS ACLA

A Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLA) convida para a entrega dos Prêmios: “Paschoal Apóstolo Pítisica” à Personalidade Literária do Ano para o escritor corupaense Luiz Carlos Amorim, “Victor Meirelles” para o artista plástico Rodrigo de Haro e “Edino Krieger” para o pianista Luiz Gustavo Zago. O prêmio pelo Conjunto da Obra foi concedido, in memoriam, ao escritor Lauro Junkes, falecido em 2010.
A solenidade ocorrerá na próxima sexta-feira, dia 2, às 20h00, no auditório do Tribunal de Contas do Estado.

 

GRUPO A ILHA EM NOITE DE POESIA

A Fundação Municipal de Cultura convida para a 2ª. Noite Poética Josefense, a ser realizado no dia 10 de dezembro, sábado, às 19h30min, no Teatro Adolfo Mello, no Centro Histórico de São José. Na ocasião, o Grupo A Ilha será homenageado pelo trabalho cultural que desenvolve ao longo de todos esses anos em nosso município, contribuindo para o crescimento da literatura catarinense. Membros de diversas Entidades Culturais e das Academias de Letras da Grande Florianópolis estarão presentes nesta noite especial.


EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 119 - Dez/2011 - Ano 31
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
Contoatos: lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br


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