SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Revista do Grupo Literário A ILHA

Edição 125 - Junho de 2013

GRUPO LITERÁRIO A ILHA: 33 ANOS DE LITERATURA

O Grupo Literário A ILHA completa, neste mês de junho de2013, trinta e três anos de atividades em prol da divulgação da literatura catarinense e brasileira e da manutenção de espaços para novos escritores. E também comemoramos trinta e três anos de circulação desta revista, o Suplemento Literário A ILHA.
E estamos comemorando em grande estilo todo esse tempo nesta caminhada que tem cumprido o seu objetivo, qual seja o de levar até o leitor a literatura de nossos escritores. O Grupo Literário A ILHA esteve presente no Salão Internacional do Livro de Genebra, na Suiça, um dos eventos literários mais importantes da Europa. Através do fundador e coordenador do grupo A ILHA, este que vos escreve, a literatura catarinense e os escritores que publicam na nossa revista foram divulgados lá fora, já que na Suiça há uma comunidade muito grande de praticantes da língua portuguesa: brasileiros, portugueses, moçambicanos, cabo-verdianos, etc. Duas edições desta nossa revista foram levadas e distribuídas no Salão.
Esta edição comemorativa do Suplemento Literário A ILHA registra essa incursão do grupo num evento internacional tão importante como o Salão Internacional do Livro de Genebra, o início das comemorações de aniversário do grupo. Exatamente neste mês de aniversário do grupo, estaremos participando, também, da Feira do Livro de Jaraguá, no dia 11, com o lançamento do livro “O Rio da Minha Cidade” e esta edição da nossa revista.
Continuamos na caminhada, pois somos o grupo literário mais perene que se conhece.

 

MAR DE JOSÉ MENDES

Júlio de Queiroz

 

1.
Nem credos nem pipetas solveram o enigma de meus horizontes.
Foste tu, mar de grandeza rebaixada à lixeira,
Que me falaste da dignidade de, sem memórias, vir e ir
Despreocupado de deixar pegadas.

2.
Um vizinho clandestino escarra em tuas águas
O sujo que não comeu e o que produziu.
Desgrenho-me em choro desesperançado.
Um peixe sem raça pula entre a água e o céu
anunciando em ti pureza inconsútil .
Apaziguado, sorrio.

3.
Ausente das cidades trilhadas choravas em mim,
Silenciado por moradias sempre criadoras de sugidades
Com as quais te queriam afogar.
E tu, mar, com teus bramidos, acalantos,
Descarna-me de tudo que pensei ser.
Faz-me inteiro para encarar o Tudo
Depois do pouco que ainda me falta percorrer.

4.
Um anjo estouvado derramou no mar de Florianópolis
O azul que era só para o céu.
No paraíso até bobagem vira beleza.

5.
Não me é preciso avançar nas tuas águas.
Meus olhos limpam-me com tua grandeza humilde.


(José Mendes é um bairro de Florianópolis)

 

 

O POETA DO AMOR

Por Enéas Athanázio

Tive um amigo que implicava com celebrações de datas, em especial com centenários e outras do gênero, de nossos autores. Dizia ele, com justa razão, que essas figuras permaneciam esquecidas por décadas até que fosse lembrada uma data significativa em sua vida e todo mundo passava a escrever a respeito, mesmo sem nada conhecer dele e de sua obra. Puro oportunismo. Por outro lado, se isso acontece, também é verdade que é melhor assim do que o silêncio permanente. Algumas celebrações de centenários e outras semelhantes foram positivas, tornando mais conhecidos do público autores como Cruz e Sousa e Lima Barreto, por exemplo, antes pouco comentados fora dos meios literários.
Por tudo isso, não será demais registrar o centenário de nascimento de Vinicius de Moraes (1913/1980), nascido a 19 de outubro. No correr deste ano muitos eventos marcarão o acontecimento e importante revista de cunho cultural já se adiantou, publicando interessante reportagem sobre esse que foi considerado o poeta do amor, invejado e imitado por numerosas pessoas . Até Drummond chegou mesmo a afirmar: “Eu queria ter sido Vinicius de Moraes, o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão, ou seja, da poesia em estado natural.” Como raros outros, viveu a vida do poeta.
Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes, depois abreviado para Vinicius de Moraes, nasceu no Rio de Janeiro, filho de pai poeta e mãe pianista, em ambiente propício ao desenvolvimento de seus dotes artísticos. Recordava que aos nove anos escreveu os primeiros versos, versos de amor, como continuaria fazendo pela vida a fora, e dedicados à primeira namorada, Cacy, colega de escola. Segundo a revista, ele só voltaria a encontrar Cacy 56 anos depois, durante um show. Casado nada menos que nove vezes, afirmava que cada um desses amores haveria de ser infinito, - infinito enquanto dure, - conforme conhecidos versos que escreveu. Durante o curso colegial viveu uma fase de profundo misticismo e devoção católica que o acompanhou por vários anos. Ao ingressar na Faculdade de Direito se ligou a pensadores católicos, entre os quais Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima), que o levou a publicar o primeiro poema numa revista católica, aos 19 anos. Mais tarde se declararia ateu, ainda que pedisse a Deus por nossa gente.
Nesse período, alheio ao movimento político-ideológico do meio religioso, preferiu se dedicar ao cinema e à literatura. Trabalhando no Ministério da Educação, aproximou-se de Drummond, funcionário dessa pasta, e aprofundou os conhecimentos sobre cinema. Depois obteve uma bolsa de estudos na Inglaterra, viveu cerca de um ano em São Paulo, em contato permanente com Mário de Andrade, e ingressou na carreira diplomática, sendo nomeado vice-cônsul em Los Angeles. Não poderia haver nada melhor para um apaixonado pelo cinema e ele travou muitas relações em Hollywood e outras cidades. Andou pelo México, onde conheceu Neruda e David Siqueiros, além de encontrar-se com Di Cavalcanti, e depois retornou ao Brasil, desenvolvendo com entusiasmo sua obra de poeta, letrista e, pouco depois, de cantor de música popular. Nessa fase produziu sambas, críticas de cinema para a imprensa e sua primeira peça teatral, “Orfeu da Conceição”, que “transporta para os morros cariocas a mitológica história de amor de Orfeu e Eurídice.” O sucesso foi instantâneo. Nomeado para a embaixada de Paris, continuou produzindo e colecionando sucessos. Teve diversos parceiros importantes, dentre eles Tom Jobim, João Gilberto e Toquinho. O samba “Garota de Ipanema”, interpretado em sua estreia como cantor, obteve sucesso incomum, caiu na boca do povo e ganhou o mundo. Cassado pela ditadura, tornou-se cantor profissional e percorreu o país. “Viajando tantas vezes no fusquinha do Fred pela solidão do asfalto, - relatou ele, - comendo em restaurantes de caminhoneiros, tomando caldo de cana em beira de estrada, cantando para plateias muito jovens em clubes, ginásio e teatros.” E assim conquistou a alma do povo que o alcunhou de poetinha, termo intimista e carinhoso.
Foi em 9 de julho de 1980 que partiu em silêncio, sem alarde. Nesse fatídico dia amanheceu morto na banheira de sua casa, no bairro da Gávea. “A banheira foi sempre seu lugar preferido para escrever e descansar” – informam seus biógrafos. Na última entrevista que concedeu, perguntaram-lhe se estava com medo da morte. “Não, meu filho, - respondeu, - eu não estou com medo da morte. Estou é com saudades da vida!”

 

 

PARADO NO AR

Mary Bastian

Largo solto no ar
Tal como ventania
Meu brado de protesto
Meu grito de agonia
Por ver passar o tempo
Como calmaria
E a vida se acabar
Como um fim de dia

O brado corta o tempo
À procura do eco
Pra todos ouvirem
O grande protesto
Da vida vazia
Como balão da festa
Que finda afinal
Sem nem ter começado

Mas o eco é surdo
Não ouve o protesto
Não escuta o grito
E o brado emudece
O grito agoniza
A vida se acaba
Como um fim de dia
Como um fim de festa
Como calmaria

No ar só o vento
Num grito de agonia
No fim do meu dia

 

 

LITERATURA BRASILEIRA NO SALÃO INTERNACIONAL DO LIVRO DE GENEBRA

Por Luiz Carlos Amorim - Escritor - Http://luizcarlosamorim.blogspot.com

 

Genebra, como já disse em outras ocasiões, é uma cidade belíssima. E o Salão Internacional do Livro de Genebra é uma festa para todos os sentidos
Digo que é uma festa para todos os sentidos, pois além do colorido das gentes e dos livros enchendo os olhos da gente, do barulho das pessoas falando e vivendo livros e literatura, do cheiro de livro novo e dos cheiros que recriamos lendo as obras apresentadas no Salão, existe o contato com os escritores do Brasil e de Portugal, o abraço amigo que nos acolhe. E poder abraçar toda essa gente, conhecê-los, não tem preço. Como querer mais do que isso?
Então me senti em casa, com a acolhida da Jacqueline e do Paulo e de todos os escritores brasileiros e portugueses que participaram do Salão Internacional do Livro de Genebra. Já sinto saudades e espero poder estar em Genebra para o Salão Interrnacional do Livro de 2014.
O Salão Internacional do Livro de Genebra encerrou-se no dia 5 de maio, um dos maiores eventos literários da Europa. O sucesso da mega festa do livro foi enorme e superou expectativas. E o sucesso do estande do Varal do Brasil, que levou escritores brasileiros para integrá-los ao cenário mundial da literatura é inegável. O Varal do Brasil reúne autores de todo os cantos do Brasil e divulga a literatura brasileira dentro e fora do Brasil. E vários desses autores, como já mencionei, estiveram presentes ao Salão, participando do lançamento da antologia Varal do Brasil 3 e realizando lançamento de suas próprias obras, integrando a nossa literatura com a literatura de outros tantos países. O Salão tem proporções enormes, o número de países que participa dele é muito grande e este ano contou com mais de cento e vinte mil visitantes. Daí a importância de haver, num evento da magnitude do Salão, um estande com a literatura brasileira, que se destacou e se fez notar, atraindo o interesse e a atenção do embaixador do Brasil na Suiça e contando com a visita do escritor Paulo Coelho, que mora em Genebra.
Na próxima edição, a organização do Salão dará mais espaço aos escritores brasileiros, pois o Varal do Brasil chamou a atenção pela movimentação e animação que foram uma constante naquele reduto brasileiro. O reconhecimento do sucesso do estande dos escritores tupiniquins foi pleno, evidenciando que a iniciativa de apresentar a literatura dos brasileiros num evento de âmbito mundial como o Salão foi acertada.
Foi uma honra, para mim, participar do Salão e representar a literatura catarinense num evento literário tão importante fora do Brasil. Além da edição especial do Suplemento Literário A ILHA, levei a edição normal, divulgando, assim, os escritores catarinenses e brasileiros que estão sempre conosco. Fiquei muito feliz de receber a visita de brasileiros que moram na Suiça, que foram a minha sessão de autógrafos para conhecer a minha obra, pois eram pessoas que nem me conheciam, apenas tinham ouvido falar de mim ou tinham lido alguma coisa em algum jornal ou revista. É gratificante esse reconhecimento e carinho, quando se está tão longe de casa, tão longe do Brasil. Meus livros "O Rio da Minha Cidade" - crônicas, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade de Manaus; "Nação Poesia" - antologia poética dos meus 30 anos de poesia e "Borboletas nos Jacatirões" - crônicas, contos e poemas, tiveram boa aceitação por parte dos leitores oriundos de países de língua portuguesa.
Em próximas edições do Salão, o Grupo Literário A ILHA poderá fazer-se ainda mais presente, com mais representantes da literatura catarinense.

 

 

POETA

Apolônia Gastaldi
(Ibirama-SC)

O poeta que escolhi
Perene vagalume
Boêmio
Vela o lume
O sonho
Alegria
Drama
Fantasia
Cria,
Ama
Recria
A mesma alegria
Extasia,
Vigia
Na vigília
Da palavra
Lavra
Lavra o sentir
O poeta,
Sacerdote da emoção.

 

 

POUCO MAIS DO QUE NADA

Por Dulce Rodrigues(Bélgica)

 

“Diz-me, quanto é que pesa um floco de neve?” perguntou o chapim-carvoeiro à pomba que com ele falava.
“Pouco mais do que um nada”, respondeu-lhe a pomba.
“Então vou contar-te uma estória”, disse o chapim-carvoeiro.
“Eu estava um dia poisado na haste de um pinheiro quando começou a nevar. Não era nenhum nevão, não senhor, mas sim flocos de neve leves como uma brisa. Como não tinha mais nada que fazer, comecei a contar os flocos de neve que caíam sobre o ramo e aí ficavam. Cheguei assim aos três milhões setecentos e quarenta mil novecentos e cinquenta e dois, quando caiu mais um floco de neve – pouco mais do que um nada, como dizes – e o ramo quebrou-se.”
E dito isto, o chapim-carvoeiro voou e foi-se embora.
Especialista nesta matéria desde a época de Noé, a pomba pôs-se a pensar e disse para consigo: “Talvez a voz de só mais uma pessoa bastasse para trazer Paz ao mundo.”
Pensei neste conto quando vi a pomba da Paz na página de entrada.

 

 

CHOVENDO

Célia Biscaia Veiga

O vento bate
A nuvem segue
Lua aparece
Depois se esconde
Onde está a Lua?
Lua está onde?
Nuvem vermelha
Raios de sol
Mais uma noite
Que terminou
O céu lavado
O sol brilhando
Mais que o relâmpago
Que assustou
Cadê o trovão?
Tão barulhento
Mas ainda é menos
Que as buzinas
E as freadas
As derrapadas
E as batidas
Tão escabrosas
Que causam dor
Não só nos corpos
Que se machucam
Também nos bolsos
E nos corações
Mas passa o dia
A chuva volta
Às quinze horas
Já está escuro
Surgem sombrinhas
Bem coloridas
E pés pequenos
Que se divertem
Nas enxurradas
Pra desespero
Das cuidadosas
Progenitoras
Que temem ratos
E resfriados
E que esquecem
Que um dia seus pés
Foram pequenos
E também riam
Das enxurradas...

 

 

AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ

Por Jacqueline Aisenman

 

As voltas que o mundo dá eu fico sentada esperando pra ver. Não perco mais meu tempo sofrendo por antecipação para ver no que vai dar e nem construindo planos do que seria preciso fazer.
O universo se encarrega de tudo. Sempre foi assim. E sempre será. Não preciso andar com minha casa nas costas e nem carregar todas as chagas nos braços e pernas para compreender melhor todas as experiências que me são dadas a conhecer.
Passa o tempo, as voltas são dadas e quanto mais passa o tempo mais eu sinto que entro em sintonia com o universo.
O mundo dá voltas. Frase simplista? Lugar comum? Nem tanto assim. Não importa o momento em que a frase nos vem à cabeça, o principal é não esquecer que é uma afirmação e não uma pergunta.
Hoje você está num ponto do círculo do mundo, da vida, como quiser chamar, e um nó apareceu. Se você prestar atenção, se lembrar, não importa quanto tempo levar, o nó vai voltar. Como uma bolinha jogada para o alto e que volta. Aquela coisa do bateu-levou. Nós bons e ruins.
Eu tenho a minha cadeira na calçada. No inverno algumas vezes fico na janela. Mas confesso que uma das minhas grandes paixões na vida é observar as voltas que o mundo dá. Acho que no fundo não faço parte das ovelhas. Que bom.

 

 

DIA DE SANTO ANTONIO

Clarice Villac

 

Então, Viva Santo Antonio,
mas que viva por inteiro!
Livre, solto em sua memória
de ser o casamenteiro!
Chega de antigos castigos,
tantos gestos inimigos...
Viva o santo festeiro!

Que "simpatias" são essas?
São chantagens, arapuca...
água fria, geladeira,
pés pra cima, abaixo a cuca,
nós, laços, fios de cabelos,
nomes, velas, e apelos...
Tanta crendice maluca!

Deixe a imagem sempre em pé,
como um bom companheiro.
Qual amor terá valor
se for tão interesseiro?
Namorado não se prende,
veja se me compreende!
Não crie seu cativeiro!

 

VEREDA TROPICAL

Por Urda Alice Klueger

 

É um grande terreno baldio bem no centro de Blumenau, coisa espantosa nestes tempos de especulação imobiliária. Eu passo muito ali, mas só comecei a prestar atenção num dia do último verão, no auge do calor, tempo em que parecia que todas as plantas do mundo, grávidas de sementes, preparavam-se para a reprodução.
Naquele dia em que olhei primeiro, o terreno todo estava coberto por generoso capinzal de folhas finas, coisa assim de quase um metro de altura, explodindo de tanto verde, sendo que cada pé de capim tinha um longo fiapo carregado de espigas pejadas de sementes maduras. Tudo era fino, leve e bonito, naquele capinzal; parecia-se com um quadro holandês do século XVII. E lá, pousado nos finos fiapos que sustentavam as espigas, um imenso bando de passarinhos se deliciava comendo as sementes maduras. Era uma barbaridade de passarinhos, penso que centenas e centenas, pequenos e finos passarinhos que deveriam ser muito leves, pois conseguiam pousar sem problemas naqueles fiapos de capim. Eu fiquei a olhá-los, e de repente eles devem ter se assustado com alguma coisa, pois saíram numa revoada, fizeram uma curva no ar – e, sossegados, voltaram ao seu banquete, os pequeninos pés pousados naqueles finos fiapos de capim cheios de espigas maduras. Olhei-os por bastante tempo, e por diversas vezes se assustaram e revoaram – mas sempre voltavam àquela seara generosa feita de sementes de capim. No outro dia eles estavam lá de novo, e no outro também.
Um dia, os passarinhos sumiram – as sementes tinham-se acabado. Mas eu tinha ficado encantada com aquele capinzal que parecia até translúcido de tão verde, bem assim no meio da cidade, e não deixei mais de prestar atenção nele. E o verão acabou, e veio o outono, e o capim continuava lá, já um pouco menos viçoso, agora que passara sua época de reprodução. Imagino que os passarinhos não tenham comido todas as sementes, que muitas delas tenham caído ali no chão, prontas para hibernarem por alguns meses e nascerem na próxima primavera.
E o outono foi fazendo seu trabalho de destruição. A cada dia o capinzal perdia um pouco do seu viço; a cada dia o seu verde ia ficando mais próximo do marrom. Dia a dia, acompanhei o que acontecia naquele terreno baldio.
Um dia, o capim começou a cair, a morrer. E agora já não há mais capim, mas apenas uma palha escura e morta, agora que o inverno chegou mesmo. E então voltou aos nossos olhos o que houvera o tempo todo ali naquele terreno baldio: pedaços de plástico, de vidro, coisas de borracha, sobras de concreto – o lixo que as cidades produzem. Na minha mente, inclusive, ressurgiu o que houvera ali antes: um bar mal-afamado, chamado Vereda Tropical, que criava um certo escândalo na cidade, pois seus freqüentadores amanheciam o dia bebendo e às vezes punham-se a brigar já em plena luz do sol, quando esta é uma cidade que leva muito a sério a coisa da ordem e do trabalho, e se escandaliza quando há quem não vá para as fábricas antes das cinco horas da manhã, e acha que desempregado é alguém cheio de preguiça. Tanto escândalo causou aquele bar que a sociedade constituída não descansou enquanto não lhe passou um trator por cima.
E então, a natureza, benéfica, foi lá e criou aquele emocionante capinzal cheio de passarinhos, para mostrar às pessoas que aquela esquina podia ser LINDA! Pena que o inverno chegou, e eu descobri que debaixo daquele capinzal há o que sobrou do tempo das raivas e dos preconceitos, que nas raízes das coisas belas às vezes pode haver as sobras das coisas ruins. Pode funcionar como uma lição para as nossas vidas. Sempre poderemos criar capinzais cheios de passarinhos nos nossos corações.

 

 

A JANELA

Luiz Carlos Amorim (Fpolis)

Teus olhos, mulher, são assim:
meigos, brejeiros, castanhos,
malandros, sinceros, brilhantes,
essas luzinhas acesas
na janela do teu rosto.
E essa luz na janela
na janela do teu rosto,
convite irresistível,
me atrai para dentro,
no aconchego carinhoso
do teu/nosso coração.
E eu me sinto em casa,
com todo amor que há lá dentro.
Só saio pra ver de novo,
na janela do teu rosto,
aquelas luzes castanhas
convidando-me a entrar.

 

 

OCUPAY RIBEIRÃO

Por Norma Bruno

 

Acordei às seis. Saí às oito. Peguei três ônibus. Cheguei às dez. Uma verdadeira maratona para chegar ao Ribeirão da Ilha, local escolhido para o bordejo da semana.
A desculpa era prestigiar o Festival da Ostra, bela iniciativa para evitar o prejuízo dos maricultores e salvar uma tradição da Ilha de Santa Catarina. Antes, um passeio na Freguesia do Ribeirão da Ilha para bordejar, encher os olhos de beleza e de cultura. Depois cair de boca nas ostras.
Sou completamente apaixonada por aquela Freguesia. O casario tão singelo, sua praiazinha de águas calmas, aquele ritmo de vida tranquilo e, especialmente, a simpatia dos seus moradores. Aqui pra nós, aquela gente tem um costume muito estranho. Eles dizem: - Bom dia! Boa tarde! -, aos estranhos, na maior sem cerimônia! E o “pior”: olhando nos olhos! (Como diz o povo: - Tem que ver isso aí!). No Ribeirão, tudo me remete a uma Florianópolis conhecida por poucos. Nesses tempos conectados, moraria naquelas bandas com muita alegria. Um dia, quem sabe?
A intenção era chegar cedo, caminhar pela ruazinha ainda deserta e observar os moradores abrindo as janelas das casas, saindo para comprar pão, vivendo em seu ritmo próprio, costumeiro, antes que o alvoroço se instalasse com a abertura dos restaurantes. A realidade: além das diversas baldeações nos Terminais de Integração – TITRI/TILAG/TIRIO -, aos sábados os horários dos ônibus são reduzidos. Sorte que a paisagem compensa.
Saltei do ônibus em frente ao largo da Igreja de Nossa Senhora da Lapa na intenção de visitá-la, esquecendo que ela está em restauração. Que pena! Saí contando os passos, ouvindo o ressoar do meu salto pelas calçadas estreitas, tal o silêncio. Só então me dei conta do nível de poluição sonora a que somos submetidos, nos submetemos, normalmente. Usufruir o silêncio. Coisa rara.
Um cachorro pachorrento veio em minha direção e, apesar de não parecer hostil, fiquei atenta. Tenho o maior “respeito” por cachorros. Ele me cheirou, assim, meio de longe, e saiu, desinteressado. Já que ninguém estava vendo, aproveitei para observar as casas, espiar dentro dos muros, os jardins.
Na pracinha existente à beira do mar, um grupo de homens proseava. Cumprimentaram-me com um sonoro e ensaiado - Bom dia, senhora!, todos juntos. Segui em busca do café. O nome é TENS TEMPO, uma expressão muito própria dos nativos. Pois dei de cara na porta. A placa avisa que o horário de funcionamento é de meio-dia às… Nem terminei de ler. Sacanagem!
Sem alternativa, dei início à Operação Livros Perdidos e Achados, “perdendo” um exemplar dentro do pilão que integra o conjunto de esculturas em frente ao Café. Feito o registro, caminhei novamente em direção à pracinha e, certificando-me de que não era observada, “perdi” mais um exemplar sobre um banco de madeira à beira do mar, sob a sombra de uma árvore. Um delicioso convite à leitura.

 

 

QUERO-SONHO

Karine Alves Ribeiro(Blumenau)

O que eu quero
é assim, tão pequeno
que cabe na ponta de um lápis bem afiado.

Grande é somente o que eu sonho.
Alcançá-lo?
Somente com as asas de uma águia...

O meu sonho é o próprio ar!
Alto em todas as direções,
simples, como duas moléculas de oxigênio.
Não tem cor, não tem cheiro.
É a essência de todas as coisas,
é o que há nas gotas de orvalho
é o que o vento tocou.

Na confusão do corpo
O meu espírito quer mais do que tudo
o que há de mais puro
no sonhar de uma rosa: o botão!
O Sonho que não é ato,
nem escolha, nem pensamento,
é a fração atômica do tempo
transformada em cisão.

 

 

A MÃE

Por Maura Soares

Sete horas da manhã e Maria,religiosamente, levantou-se para preparar o café pro marido que, mesmo sendo domingo, iria trabalhar. Era vigia em uma obra, numa das múltiplas construções da cidade.
Não tinha ouvido José Luiz chegar em casa como costumeiramente fazia, de madrugada. Já não ligava mais, pois o rapaz, cheio de razão, achava-se um homem e sequer ouvia seus conselhos e o do pai.
Preparou o café, o marido comeu. Maria entregou-lhe a marmita com o almoço,pois no domingo ele trabalharia até às 18 horas, quando seria rendido por outro.
Tomou seu café após a saída do marido e lembrou-se que havia deixado roupa de molho (gostava que as camisas que o marido usava ficassem bem branquinhas) e apressou-se em dar enxaguada e colocar no varal para secar, aproveitando o belo dia de maio, ensolarado e com temperatura agradável.
Nem cogitou em ver se o filho estava dormindo ou não, pois o quarto era do outro lado da casa, sem comunicação com a sala e o quarto dela.
Fez as tarefas que tinha que fazer, pois Maria estava acostumada ao trabalho e ficava ansiosa se não estivesse mexendo em algo: ora a lavação de roupa, ora a arrumação da casa, ora a costura, ora a renda de bilro. Novela? Não ligava, gostava mais de ler aqueles romances açucarados que o marido trazia pra ela da biblioteca do município.
Ali, naquelas páginas, vivia aquela vida glamurosa que tanto sonhara, mas o Destino pensara diferente, dando-lhe mais dor que amor.
Não que se queixasse do marido, pelo contrário. Amava-o a seu modo. Era um homem correto, trabalhador, sem vícios. Gostava da cerveja no dia de folga, um futebol pela TV, um joguinho de dominó. E só. Conversas com Maria,bem pouca. Ela então, quando podia, chegava ao muro para conversar com Carlota, a vizinha viúva que sabia do que se passava no bairro.Ultimamente, porém, nem isso a interessava mais.
A sua preocupação maior era o  Zé. Já havia perdido o filho mais velho e a mágoa ainda estava gravada em seu coração. Não suportaria outra perda.
Maria foi tratar do almoço, pois para ela e o filho fazia comida na hora e como gostava de macarrão com galinha caipira, naquele domingo resolveu fazer.

 

 

DOMINGO DE SOL EM TERRA DISTANTE

Wilson Gelbcke


A brisa suave vinda do lago,
fazia brincar as folhas do maple
nas ruas quietas da pequena cidade,
quase deserta em domingo de Sol.
Por elas eu andava,
como estranho
que tenta estranho não ser.
Falava baixinho
pra ninguém escutar,
na língua daqui e na língua de lá,
contando, gesticulando,
sonhando contigo,
contigo ao meu lado.
Não importa a distância...
É possível sentir o calor
e o corpo presente,
quando se ama!

 

 

O VALOR DA LITERATURA

Por Marcos Meira

 

Quando lancei Gurita, romance ambientado em Barreiros, São José/SC, algumas pessoas me perguntaram se era lucrativo escrever. Eu já havia publicado outro livro, na área da educação, e chegara a ganhar alguns trocados, a título de direitos autorais. Mas daí a dizer que escrever é um negócio lucrativo havia uma grande distância. Para não deixar de responder aos meus interlocutores, falava a eles que não dependo da literatura para viver; que escrevo de maneira amadora e, como tal, tenho uma relação de amor e ódio com as palavras.
Para além da vaidade pessoal, publicar Gurita, assim como Desenho a Giz, meu mais recente trabalho, significava divulgar e registrar um pouco da cultura de São José da Terra Firme, ricamente influenciada pelos açorianos que aqui desembarcaram, em 1750. Daí o meu cuidado em mostrar nos diálogos das personagens o falar característico da gente daqui; em detalhar a leveza da arte de tarrafear; em citar os mais variados artigos de pesca (puçás, jererés, feiticeiras etc.); em lembrar os engenhos de farinha e os carros de boi; em destacar, na pele de dona Idalina, o poder das rezas e da medicina não alopática das pessoas simples da região. E, embora não seja bairrista, eu não enxergava outro ambiente para o romance que não fosse o distrito de Barreiros.
Qualquer leitor mediano seguramente está mais familiarizado com os aspectos históricos do Rio de Janeiro evocados por Machado de Assis do que, por exemplo, com a formação social e econômica da Ilha de Santa Catarina. Pessoas que nasceram e se criaram em Barreiros - aliás, após a leitura de Gurita, vieram me dizer que cresceram de costas para o mar - não sabiam a localização dessa imponente pedra. Cantando, então, a minha aldeia, como queria Tolstoi, minhas personagens, que nunca ouviram falar de Rua do Ouvidor ou de Mata-cavalos, caminharam pelas ruas da minha infância: a Leoberto Leal, a Santo Antonio, a José Victor da Rosa, a Antônio Schroeder...
Deixando de lado esses aspectos puramente sentimentais, acredito que Gurita, além de resgatar parte da História de São José, também deu voz àqueles que julgam não tê-la. E, assim, deparamo-nos com o valor de qualquer arte literária: fazer o leitor tomar consciência de si mesmo, despertando-o para o mundo que o cerca e, num movimento estritamente dialético, transformando-o.
A partir, portanto, de um microcosmo, demonstrei o quão difícil é viverem sociedade. Pois como escrevi no prólogo de Gurita, a existência humana continua sendo idealizada; paira no inconsciente coletivo que as verdadeiras e mais belas biografias só podem ser escritas acerca daqueles que descendem de uma estirpe nobre. Consequentemente, as histórias construídas no dia a dia por personagens desconhecidas acabam sendo ridicularizadas e desprezadas. Soa estranho que tais anônimos ainda não tenham percebido que carregam consigo uma história de vida e que esta é parte integrante da humanidade. É, contudo, um comportamento perfeitamente compreensível. Lembrando Goethe, poeta alemão, qual é a coisa mais difícil que existe? A que parece mais fácil aos seus olhos ver: aquilo que está diante de seu nariz.

 

PIPOCA

Maria de Fátima Barreto Michel
(Laguna)

A vida me escapou
por entre os dedos.
Quando terminei de ler
o poema do Quintana
já eram onze horas e
eu já completara 60.
Quase sessenta e um!
Peguei a farinha de trigo
e despejei na bacia.
Joguei um pouco sobre
a ampulheta também.
O pão crescendo ali
e eu envelhecendo
nos bastidores.
Calor é tudo o que o
pão e eu precisamos.
Em mim o fermento já
não ferve em bolhinhas.
Meu sonho agora
é estar junto com a platéia.
Quero uma peça bonita
para rir e chorar.
Quero teu olhar.
Quero vossos olhares.
Só gente é capaz de me
fazer bolhinhas na alma.
O pão ficou lindo. Teatro lotado!
Já posso casar! Quero pipoca!

 

 

JUNHO: ANIVERSÁRIO DO GRUPO A ILHA

 

O Grupo Literário está comemorando o seu trigésimo terceiro aniversário. Começamos na Suiça, com a participação no Salão Internacional do Livro de Genebra, em maio. Levamos, além de livros, duas edições da nossa revista, o Suplemento Literário A ILHA,
Neste mês de junho, o Grupo A ILHA estará na Feira do Livro de Jaraguá do Sul, para o lançamento desta edição e do livro “O Rio da Minha Cidade” – crônicas de Luiz Carlos Amorim.
Em agosto, os integrantes do Grupo estarão presentes no lançamento da terceira antologia do Varal do Brasil, já lançado anteriormente em Genebra. E em novembro, estaremos na Feira do Livro de Florianópolis, com o lançamento de um novo livro de contos e a edição de final de ano da nossa revista.
Um novo livro da coleção “Letra Viva”, de crônicas também fará parte das comemorações de trinta e três anos do grupo literário mais perene da história das letras catarinenses.

 

 

SAUDADE

Erna Pidner
(Ipatinga-MG)

Saudade bateu no peito
saudade me machucou;

saudades de quem partiu,
saudades de quem ficou.
Saudade deixa doente
mexe fundo com a gente...
Saudade, dorzinha triste
que dói sem dizer aonde.
Se quero matar a saudade
sorrateira, de mim se esconde.
Em meio a tanta saudade,
saudades fico a sentir
das saudades que terei
se a saudade partir...

 

 

EDIÇÃO ESPECIAL DO SUPLEMENTO A ILHA

O Grupo Literário A ILHA publicou, em maio, uma edição especial da sua revista Suplemento Literário A ILHA, com o objetivo de participar mais ativamente do Salão Internacional do Livro de Genebra. Abrimos espaço para os autores brasileiros que estariam no Salão e alguns que participavam da antologia Varal Antológico.
A edição especial, feita especialmente para ser distribuída no Salão Internacional do Livro, em Genebra, fez grande sucesso, esgotando até o último dia do evento, assim como a edição normal de março. Muitos autores catarinenses e brasileiros chegaram até leitores daquela região da Europa graças a sua publicação no Suplemento Literário A ILHA.

 

TOQUE DE MELANCOLIA

Harry Wiese

 

O murmúrio incessante das guitarras,
som de melancolia semibucólica,
envolto em plumas invisíveis,
nas tardes de verão,
na sala de vasta deflagração de delitos sentimentais,
me amarra o espírito
a quase cruel sina da existência.
E me animo a cantarolar canções de amor
e da janela, vejo o balé da construção de arranha-céus.
É surpreendente o equilíbrio natural do mundo.
Meu rádio toca “Feelings” de “Morris Albert”
e eu cubro meu rosto com o vazio de quem está só.
A vida é mesmo um pedaço de absurdo absoluto.

 

 

SÚPLICA

Aracely Braz
(S.Fco.do Sul)


Senhor,
é pra você que canto,
pelo sol que aquece o mundo,
mares, rios, a lua prateada,
o céu, a relva, o girassol.

É pra você que oro
por sonhos, mágoas remoídas,
desilusões, injustiças,
violência, poluição.

É pra você que rogo,
pelo coração humano,
verdade, crença, justiça,
honestidade, razão.

Sensivelmente agradeço
traços, carinhos colhidos
nos degraus do caminhar;
pai, que nos ouve e perdoa,
veste-nos com sua humildade,
seu nobre gesto de amar.

 

EXPEDIENTE


Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 125 - Junho2013 - Ano 33
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
Contatos: lc.amorim@ig.com.br


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