SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Revista do Grupo Literário A ILHA - nº 101 - Junho de 2007

 

GRUPO A ILHA/SUPLEMENTO LITERÁRIO: 27 ANOS

E o Grupo Literário A ILHA, assim como a sua revista Suplemento Literário A ILHA, completam, neste mês de junho, 27 anos de atividades ininterruptas em prol da poesia e da literatura.
Para comemorar este vigésimo aniversário e ainda a edição número 100 da revista, o Grupo lançou a coleção Poesia Viva, com doze volume de poesia de poetas do Grupo, a maioria que não tinha ainda livro solo publicado, outros que tinham livro publicado mas de prosa ou de poesia infantil e há até uma poetisa que já tinha livros publicados, mas tinha mais de dez anos sem nenuma obra nova. Veja matéria nesta edição.
Nesta edição, também, matéria sobre os vinte anos da morte de Carlos Drummond de Andrade, muita prosa, muita poesia e muita informação literária e cultural.

 

Para ler a revista, clique nos linkes abaixo (é preciso ter instalado o programa Acrobat Reader):

- Capa da revista Suplemento Literário A ILHA número 101, de junho de 2007

- Páginas internas da revista Suplemento Literário A ILHA número 101, de junho de 2007.

 

20 ANOS SEM DRUMMOND

Vinte anos após sua morte e cá estamos diante de um Drummond cada vez mais presente, não apenas nos livros que publicou, sucessivamente reeditados, nos crescentes estudos sobre sua obra, mas por meio, principalmente, do exemplo único que foi o seu, de assumir a poesia como problema a ser desvendado diante de um pouco admirável do mundo ou diante da máquina do mundo que, como sugere Haroldo de Campos, deve ser repensada.
Sem dúvida, rastros drummondianos são facilmente perceptíveis em poetas como Affonso Romano de Sant´Anna, Adélia Prado e outros que, por mais antípoda que possam parecer, cada qual a sua maneira e em sua medida absorveu e deu continuidade à lição de Drummond.
A obra de Drummond é imensamente maior que as circunstâncias que alimentam alternadamente o sistema literário como um todo. Assim, não deixou de estar em dia com este tempo de ruídos e assombros que ele soube cantar como outro nenhum, por conta do amplíssimo espectro temático e da carga dramática que imprimiu em cada poema publicado. Apesar disso ou talvez por isso, entre todos os mais celebrados – Gonçalves Dias, Castro Alves, Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Manoel Bandeira, Cecília Meirelles, Vinícius de Morais, João Cabral de Melo Neto – Drummond talvez não esteja entre os de maior apelo popular, embora tenha se transformado na figura paradigmática de poeta que repensou a poesia na altura em que a deixaram Camões e Fernando Pessoa.
Entre seus contemporâneos, talvez só encontra rival à altura em Manuel Bandeira. É natural que ele seja, ainda, salvo engano, o poeta moderno que mais influência exerceu sobre a poesia brasileira contemporânea. Sem esquecer a presença catalisadora do construtivismo de João Cabral de Melo Neto, que logo conquistou seu lugar entre os maiores. Um dos depoimentos mais belos de Drummond a respeito da magia da literatura a se propagar pelos séculos está na contracapa de “Tempo Vida Poesia: Confissões no Rádio” – 1986: “O que há de mais importante na literatura é a aproximação, a comunhão que ela estabelece entre seres humanos, mesmo à distância, mesmo entre mortos e vivos. O tempo não conta para isso. Somos contemporâneos de Shakespeare e de Virgílio. Somos amigos pessoais deles”. Já disse outro grande poeta – Eliot, aqui precariamente traduzido – que os poetas imaturos costumam imitar; os poetas maduros costumam roubar; os maus poetas costumam desfigurar o que roubam dos outros poetas; e os bons poetas costumam tornar diferente ou até melhor tudo que roubam.
No poema “A um bruxo com amor”, Drummond presta homenagem a seu irmão de alma, seu amigo pessoal Machado de Assis, “bruxo alusivo zombeteiro, que resolves em mim tantos enigmas”. Compreende-se por que, para alguns leitores e críticos, ele ocupa em nossa poesia lugar semelhante ao de Machado de Assis em nossa ficção. São eles, de dato, habitantes de um outro planeta literário, oposto ao de Jorge de Lima e Guimarães Rosa – para ficar apenas um outros dois nomes fundamentais, afeitos a uma visão meta-regionalista ou órfica de extração simbolista, campo magnético não menos poderoso na contemporaneidade.
À parte pequenas coincidências biográficas e aspectos gerais que apontam certa consangüinidade, a verdade é que Machado e Drummond permanecem na literatura viva do país não apenas como grandes estilistas, mas como exemplo maior de quem viu na arte bem mais que uma pirotecnia verbal: uma questão moral a ser explorada até o fim em busca do sentido da existência.
(Excerto de André Sefrin, EntreLivros)

 

RUÍNAS

Irene Serra

Das cidades que morrem sempre resta
Um punhado de pedras desunidas.
Aqui, portais; ali, florões em festa
nas paredes já negras e fendidas.

Neste caminho, pórticos; e nesta
sucessão de belezas consumidas,
a hera suspensa dos jarrões empresta
um tom de vida às mortas avenidas.

Se eu pudesse nos versos que componho
imprimir as centelhas do meu sonho,
faria catedrais, coisas divinas!

Porém, negando ao verso o meu segredo,
somente evoco as pedras do lajedo
e o claustro frio de um convento em ruínas.

 

 

ENCONTRO LITERÁRIO

O professor Lauro Junkes, presidente da Academia Catarinense de Letras (ACL), abriu com uma conferência o 2º Seminário de Literatura Infantil e Juvenil de Santa Catarina e o 1º Encontro sobre Leitura, Literatura e Ensino, evento que fez parte da programação da Feira de Rua do Livro de Florianópolis.
Organizado pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), o seminário foi realizado no formato de mesa-redonda, mini-cursos e apresentações de trabalhos (científicos e relatos de experiências). Já o encontro foi direcionado à discussão sobre leitura, literatura e ensino de forma mais abrangente.
Além da conferência de Junkes, que falou sobre A literatura para crianças e jovens em Santa Catarina, o seminário teve também a participação da escritora Urda Alice Klueger. Houve, também, uma mesa-redonda com o tema Literatura e ensino. A programação se encerrou com a presença de escritores catarinenses, que discutiram sobre A voz e a vez dos escritores de literatura para crianças e jovens em Santa Catarina.

 

NOSSO MAR

Aracely Braz

Eu vejo um mar
Um céu azul
Nos olhos teus
Do meu sonhar
Desato ao mar
Sol e infinito
Vibrantes rimas
Do meu cantar
Descrevo a cor
Do acontecer
No teu olhar
Desse meu mar
Doce viver
Sem fantasia
Busco meu mar
Pra te sentir
No meu olhar
Sem energia
Do nosso mar
Perderei a luz
Do teu olhar

 

HORTALIÇAS, FRUTAS... E LIVROS

Norma Bruno

“Onde é que já se viu, livros misturados com tomates e cebolas!”, resmungou, ensimesmada, a mulher que caminhava ao meu lado. Ouvi a frase ontem pela manhã  enquanto me dirigia à Feira de Rua do Livro que acontece por estes dias no Largo da Alfândega. Para chegar às tendas da Feira é preciso mesmo caminhar entre barracas de hortaliças, legumes e frutas, queijos de “colono”, cilindros de mortadela, pés e costelas de porco, potes de mel e doces caseiros, broas de milho e de coco, roscas de polvilho. Seguindo por esse caminho, chega-se às barracas de flores e, de repente, estamos diante dos livros. Milhares deles, de todas as cores e tamanhos, versando sobre todos os temas, para todas as idades e gostos, mas principalmente, o que, aliás, é o propósito dessas feiras, livros a preços baixos, alguns a “preço de banana”. Vi, com alegria, duas meninas, somando, junto com a mãe, suas moedas e trocados para levarem dois livrinhos infantis. Eram pessoas bastante simples, do tipo que, talvez, não freqüentem livrarias. A princípio, pode mesmo parecer inadequado vender em feiras-livres, esse objeto quase sagrado, inacessível para a maioria nesse país de iletrados; mas eu penso que não há melhor lugar para vender livros do que em meio a legumes e hortaliças, frutas e flores. Inúmeras seriam as justificativas, mas, basta pensar, parodiando o Milton Nascimento, que o livro “tem de ir aonde o povo está”, e o povo está nas feiras, comprando tomates, batatas e pés de alface. Feiras de livros são um deleite para os amantes da leitura, mas, quando acontecem em ambientes fechados, atingem, previsivelmente, uma clientela já cativa de “consumidores” de livros. Estas adquirem, ainda que a intenção seja outra, uma aura de “clube” que intimida os não iniciados, para quem adentrar um ambiente desses pode ser tão constrangedor quanto para a maioria de nós, seria entrar numa joalheria de luxo, “só pra dar uma olhadinha”. As feiras de rua, pela sua simplicidade e localização, ao contrário, não intimidam os passantes e as pessoas não habituadas a comprar livros, exatamente porque os disponibiliza entre as coisas baratas e corriqueiras como réstias de alho, maços de salsinha e pastéis de carne. É preciso desmitificar o livro como coisa de intelectuais, aqueles “homens cheios da gramática”, qualificação que recentemente ouvi de um pescador da Lagoa da Conceição. Livro não pode ser privilégio. E, enquanto não se tornar um direito, continuaremos a ser um país de iletrados. É preciso, mais que incentivar, promover a leitura, por isso vejo com satisfação livros expostos em gôndolas de supermercados, bancas de jornal e feiras. Livro precisa ser barato e estar ao alcance das mãos, para que sejamos tentados a “pegar e levar para casa”. Mais que isso, cada bairro precisa ter a sua biblioteca, ainda que seja pequena, ainda que esteja instalada nos fundos de uma garagem ou de uma barbearia, como se viu dia desses no jornal . Súbito me ocorre que os livros deveriam ter cheiro. Cheiro de café recém coado, cheiro de melado, de pão saído do forno, cheiro de abacaxi ou de manga madura, cheiro de bolo de milho ou de chocolate. Ou, quem sabe, cheiro de flor, de rosas e cravos, para aguçar nossos sentidos – visão, tato e olfato - e por impulso, nos fazer mudar de rumo até chegarmos a uma barraca repleta de livros dos mais diversos “sabores”, perguntando: “Estes, quanto custam? Pode embrulhar, vou levar os dois”. Haverá o dia em que vender livros em meio a abóboras, tomates e cebolas deixará de causar estranheza; mas isso só acontecerá quando tivermos chegado à conclusão de que livros, como hortaliças e frutas, são “gênero de primeiríssima necessidade”.

 

 

MEU MAR AZUL

Selma F. Ayala

Vejo este meu mar
Azul dos olhos de meu pai.

Vejo meu mar
De azul
Dos olhos teus
De meus sonhar...

Vejo a cor
Da força e luz
Deste olhar
Que é meu mar
Deste azul
Radiante luz
De meu viver.

Vejo este meu mar
Azul
Que nunca mais será tão azul
Tão mar
Sem teu olhar...
Pai, foi você que me ensinou a rimar
Amar com mar...

 

TUDO JUNTO

Por Enéas Athanázio

A ILHA 100

Fundado em 1981, portanto há vinte e sete anos, o Grupo Literário A ILHA publicou no mês de março o número 100 de seu Suplemento Literário. É a mais antiga publicação do gênero em nosso Estado e figura entre as poucas do país que circulam sem interrupção há tanto tempo. Mantido pelo próprio editor e pelos esforços dos integrantes do Grupo, o Suplemento não publica anúncios.
Criado e dirigido até hoje pelo incansável Luiz Carlos Amorim, escritor e poeta, na cidade de São Francisco do Sul, nela atuou por vários anos, depois se transferiu para Joinville e hoje tem sua sede em Florianópolis. Nasceu numa ilha e com o tempo acabou se aninhando em outra. Ao longo de sua existência, o Grupo promoveu a edição de inúmeros livros, organizou encontros e certames culturais, palestras e lançamentos de obras, participou de feiras e exposições, lutou pela popularização da poesia através de cartazes e outdoors, manteve permanente intercâmbio com autores e leitores de todos os cantos.
Sempre preocupado com o livro e seu futuro, o Grupo nunca regateou seu apoio às iniciativas nesse sentido. Manteve também uma versão eletrônica da revista Suplemento Literário A ILHA (portal PROSA, POESIA & CIA. – Http://br.geocities.com/prosapoesiaecia, com variadas seções e enorme conteúdo).
Em seu número 100 publicou matérias sobre a cultura em Santa Catarina, poesia na praça, feira de rua do livro, o futuro da Biblioteca Pública do Estado de SC (que foi ameaçada de ser vendida...), crônicas, poemas e numerosas notas culturais.

BIBLIOTECA NACIONAL

Num país onde as bibliotecas públicas quase sempre funcionam mal, vítimas do descaso do poder público, a Fundação Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, é um modelo de organização. Nos meus esporádicos contatos com ela, constatei sempre o empenho e a dedicação do corpo de funcionários na preservação do Acervo da Memória Nacional e seu permanente esforço para ampliá-lo, insistindo junto a autores e editoras para que façam o depósito legal das publicações, permitindo que ela disponha do maior número possível de obras e periódicos editados no país.
Tanto a Divisão de Depósito Legal como a Divisão de Periódicos, aquela sob a competente direção de Virgínia Ferreira da Costa, contando com a colaboração de Simone Franco e Liliane Araújo, estão sempre dispostas a prestar informações, ainda que a quantidade de publicações que chegam todos os dias deva ser enorme.
Ao contrário de tantas bibliotecas que nem sequer acusam o que recebem, quanto mais agradecer, a Fundação Biblioteca Nacional é um modelo a ser imitado. É dirigida por pessoas conscientes da importância das funções que exercem, batalhando sem cansaço pela preservação de um acervo que constitui a própria identidade cultural do Brasil. É um dever de consciência registrar aqui um aplauso a quem merece.

 

MAR

(excerto)

Apolônia Gastaldi

Quando o mar
sacode as crinas
em branca onda a bailar,
lembra um corcel
de sonhos soltos
trotando no marear.
Lembra os ventos de inverno
querendo agora chegar.
Lembra o mar
espuma solta,
meu berço
infância
meu lar.

Os sonhos de criança
na lembrança voltam.
Avolumam
muitos sinais
na bonança
de colos
embalos
natais.

 

PRA FALAR DE AMOR

Por Luiz Carlos Amorim

 

O inverno está chegando. Mas não quero falar do inverno, de solidão, de saudade. Quero falar de aconchego, de carinho, de ternura. Quero falar de ti, minha musa, meu amor. De teu sorriso, dos teus olhos castanhos, da tua companhia, da nossa vida. Pois eu gosto de ti. De acordar com o teu beijo, de dizer-te “eu te amo”, assim, de maneira simples, descomplicada e sincera.
Eu gosto das coisas simples: de um sorriso de criança, de um rio de águas claras, de flores, campos e praças. E gosto de ti. Gosto da tua companhia, na noite quente ou fria, na tarde de chuva ou de sol. Eu também gosto de poesia, seja com rima ou sem ela. Mas gosto mais é de ti, meu poema mais bonito...
Gosto de natureza, simplicidade, pureza, da flor do jacatirão, de terra, mar e de sol.
E gosto mesmo é de ti. Sei que já disse isso, mas gosto mesmo de ti. De segurar tua mão, de sussurrar no teu ouvido, de misturar nossos eus. Gosto do sol na pele, mas gosto mais do calor da luz dos teus olhos castanhos a aquecer minha alma.
Gosto de sonhar, viajar, a bordo do teu sorriso. Ele me embala, me enleva; ele me leva de encontro ao teu coração. Se embarco numa saudade, numa lágrima, numa dor, que falta sinto de ti: me perco pelo caminho, à procura da passagem, que é a janela do sorriso, o sorriso da chegada.
Aqueles olhos castanhos, ah, os teus olhos castanhos,  brilhantes pedaços de sol, entraram pelos meus e nunca mais saíram...Aqueles teus olhos castanhos, meigos, brejeiros, castanhos, malandros, sinceros, brilhantes, castanhos, essas luzinhas acesas na janela do teu rosto... E essa luz na janela do teu rosto, convite irresistível, me atrai para o aconchego carinhoso do teu/nosso coração. E eu me sinto em casa, com todo amor que há lá dentro. Só saio pra ver de novo aquelas luzes castanhas convidando-me a entrar a entrar.
Minha musa de olhos castanhos me dá alma, faz-me sentir que estou vivo, mostra-me que o amor é presente... Faz-me até fazer poesia. E o meu poema és tu: inspiração, emoção, a rima do corpo-a-corpo, pele-a-pele, boca-a-boca, o ritmo em sincronia de corações como um só... A métrica da ternura.
E eu me refaço em ti. Sou eu, completo, por inteiro, sou você, sou nós, sou ser. És parte de mim, indivisível, és coração que pulsa no meu peito, és luz a brilhar no meu olhar, és música a tocar nossa canção, és ternura de mãos entrelaçadas, és carinho ao tocar de peles.
És tu, ah, és tu, que invade meu coração, infiltra-se no meu sangue e aguça os meus sentidos... Que me afaga, me afoga, nessa fuga desenfreada do mundo fora de nós.
Contiuemos pisando juntos este caminho só nosso para o país do amor.
Pra que traduzir em palavras o que o coração bate forte e os olhos dizem tão bem?
Não é preciso palavras quando estamos só nós dois - nós, como um só, mais ninguém.
Emoções não são palavras, sentimentos também não. Mas os olhos, sim, podem dizer tudo, têm a linguagem perfeita. E quando a emoção e o amor comandam o coração, aflorando aos nossos olhos, não é preciso mais nada. É deixar o coração comandar nossos sentidos, deixar falar nossa pele, nossos olhos, nossos corpos. Há discurso mais bonito?

 

 

PAIXÃO

Luiz Carlos Amorim



Feito meu coração
a espargir gotas de estrelas
sobre o papel, poesia,
os meus dedos, atrevidos,
percorrem a tua pele,
seguindo um só caminho,
o caminho da paixão...

 

 

FLAUTISTA DE HAMELIN! SOCORRO!

Por Maria de Fátima Barreto Michels (Fátima de Laguna)

Garanto que vocês conhecem a clássica história infantil, “O flautista de Hamelin” dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm. Pois em Hamelin apareceu um flautista prometendo acabar com uma invasão de ratos que havia na cidade. Acertado o preço o tocador de flauta conseguiu, tocando lindamente seu instrumento, fazer com que todos os ratos da cidade o seguissem para muito longe dali. Dessa forma, os cidadãos hamelinenses viram-se livres da praga.
Aqui em Santa Catarina, numa escola, foram jogados numa fogueira, inúmeros livros. A população protestou de várias formas e recebeu a explicação que os livros estavam em local, onde ultimamente, havia muitos ratos transitando, o que poderia gerar casos de leptospirose nas crianças, que em busca de leitura manuseassem aquelas obras.
O fato fez-me lembrar de duas coleções de revistas sobre cães. Eu assinara uma e comprava mensalmente na banca, a outra, aliás pedia à minha cunhada para comprar, na capital. Enquanto não engravidei tinha tempo e prazer em saber das melhores maneiras de cuidar de nossos cães. Aquelas revistas eram muito interessantes. Um dia notei que elas consumiam-se na fogueira que meu marido fizera. Guardara minhas pilhas de revistas cujo tema eram cachorros, em prateleiras na área de serviço onde justamente várias mamães camundongos, acharam o lugar ideal para gerar suas proles...
Na dúvida, meu marido preferiu eliminar os riscos das doenças que os ratos transmitem e queimou minha “biblioteca canina”. Senti falta das revistas e passamos a colocar mais uma porta (esta só com telas), em todas as portas e janelas da área de serviço, e a moda pegou na casa inteira.
Naquela época morávamos com o muro fazendo limite a uma escola onde diariamente os roedores encontravam alguma coisa para se alimentar. Em colégios se faz merenda e sempre há resíduos que ficam, ou lixeiras que aguardam o recolhimento programado. Sempre que iniciavam as férias, os ratos passavam a invadir os quintais vizinhos o que nos levou a usar ratoeiras e raticidas em locais onde nossos cães não alcançassem.
Quando um povo é culto e possui meios financeiros, sempre procura dotar as escolas de boas bibliotecas. Quando o poder público é atento aos que possuem o conhecimento e dá ouvidos aos que escrevem livros, aos que estudam, procura através de verbas e profissionais como engenheiros, bibliotecários, professores, médicos, administradores enfim gente com condições de conhecimentos e meios materiais para projetar e realizar o melhor para os leitores de uma biblioteca escolar.
Os livros de papel, apesar dos avanços da informática, ainda são a melhor maneira de tornar nossos filhos seres independentes. Uma boa biblioteca, cuidada por pessoa que tenha carinho e valorize o patrimônio, é um dos bons indicadores do nível de cultura de uma instituição escolar.
Já na pré-escola é necessário que talentosas educadoras ensinem a uma pequenina criança que a primeira coisa a fazer antes de pegar um, aparentemente insignificante livro infantil, é lavar bem suas mãozinhas com água e sabão. Lá em Hamelin, segundo a lenda, o flautista não recebeu o pagamento pelo seu trabalho e vingou-se tocando mais lindo ainda e, desta vez foram todas as crianças que o seguiram. A cidade livrou-se da praga dos ratos e tornou-se o lugar mais triste do mundo porque não havia crianças.
Queimar nossos livros por estarem à mercê dos ratos dá uma idéia de retrocesso, de atraso de vida. Estamos por certo, precisando de um remédio com o poder do flautista de Hamelin em muitos lugares deste país. Há ratos. E ratos. De todo tipo.
Se não tivermos muitos livros para encantarmos nossas crianças elas seguirão para longe de nós. É que pelas ruas existem muitos falsos flautistas que estão levando jovens e crianças para falsos paraísos, onde o que os espera é o vício, a violência e o crime.

 

 

A GAIVOTA SOLITÁRIA

Wilson Gelbcke

Praia deserta, brisa de outono,
pegadas deixadas por dois que se amam.
Não se via vivalma.
Somente ao longe,
solitária na areia, a gaivota caminhava.
Mantinha distância dos passos estranhos,
em trôpegos pulos, de perna quebrada.
Pobre gaivota arredia, a cada passo fugia.

Subitamente, asas agitando,
deixou a areia em vôo rasante,
envergadura tão bela,
seguindo mar adentro.
Majestosa, altiva,
despediu-se alegre, parecendo dizer:
-“Não é preciso ter pernas,
quando se sabe voar”!

 

NESTE ANO OS IPÊS SÃO APENAS AMARELOS

Por Urda Alice Klueger

É quase metade de agosto, e contrariamente a tantos outros anos, eu não estava sequer a lembrar que já era tempo de esperar pela florescência dos ipês. Em outros anos, este tempo de agora, tempo de agosto, era o Tempo da Esperança, e a chegada das flores dos ipês era como uma alegoria, como algo altamente suntuoso que pusesse em movimento o mais fascinante dos maestros que, em traje de gala, passava a reger a mais suntuosa das orquestras, cheia de loucuras de corais e solistas, e esse maestro e essa orquestra de sonho traziam até meus ouvidos e meu coração o movimento final da Nona Sinfonia de Beethoven, que gosto tanto porque é a mais bonita de todas mesmo, pelo menos para mim, e a Esperança me envolvia com seus acordes e trazia no seu bojo os ipês florescidos de ouro, e então eu ficava a esperar um vôo de Passarinho que já não demoraria a voltar ao meu Hemisfério! Ah! Como é doce, boa e gratificante a Felicidade! Quando era o Tempo da Esperança, a Felicidade vinha e me envolvia como um manto de arminho pode envolver em dia de neve, e a vida ficava perfeita, e cada fibra do meu corpo e da minha alma vibravam em uníssimo, e me permitiam sentir cada nuance dos rosas e azuis dos céus das tardes, e as finas fatias de lua nos anoiteceres, e a fragrância das primeiras flores de laranjeira que prenunciavam a Primavera... e a loucura do ouro com que os ipês passavam a se vestir! Ver o primeiro ipê florido era receber de roldão, de uma vez só, o somatório de todas essas coisas boas, e então ficava a indagar os sonhos das noites e o céu das tardes, contando os dias, as horas e os minutos para saber quando seria a infinita alegria do pouso do meu Passarinho! Naqueles tempos de ipês de ouro, meu Passarinho não precisava fazer nada além de me acenar de leve com uma asa para que a Felicidade se tornasse uma coisa perfeita! Eu nada esperava desse rasante vôo de chegada além do aceno leve da sua asa de pássaro, e ficava a espiá-lo de longe inteiramente vibrante, bem como a Sinfonia de Beethoven que havia dentro da minha alma! Agora se foi o Tempo da Alegria Infinita, o Tempo da Felicidade, o tempo das Sinfonias e dos azuis e rosas das tardes, e das fatias de lua e do aroma das primeiras flores de laranjeira sob o sol, e o tempo de esperar a chegada das flores de ipê e o vôo de retorno do meu Passarinho! Meu Passarinho, agora, depenou as asas, prefere usar uma máscara de Bicho-Papão e brincar de verdade de Marcha-Soldado, ao invés da leveza de seus vôos que traziam no seu bojo a magia da Felicidade e da Primavera. E hoje à tarde, caminhando na desolação da minha desesperança, de repente vi-me frente à frente com um primeiro ipê florido. Por um momento, como que se acendeu dentro de mim um calor do Passado, e uma fugidia ilusão quis me fazer crer que a Felicidade estava de volta. Como disse, era ilusão. Neste ano, as árvores já não terão flores de ouro, e na primeira olhada já me dei conta que os ipês deste ano são apenas amarelos. Neste ano, não haverá Primavera.

 

 

MANHÃ DE NEBLINA

Célia Biscaia Veiga

É bonito olhar a rua
Numa manhã de neblina...
O contorno das casas e árvores
Apenas se delineia
E permite a liberdade
De imaginar outras formas ...
Os automóveis que passam
Transformam-se apenas
Em movimento sem forma...

E a imaginação
Pode correr, solta,
Até o momento mágico
Que o sol,
Tímido a princípio
Vai diluindo a neblina
E depois, audacioso,
Ilumina toda a rua

 

 

REFORMA ORTOGRÁFICA

(Como vamos escrever)

A unificação da escrita entre os países de língua portuguesa nunca esteve tão próxima. Para que sejam incluídas as letras k, w e y no alfabeto, suprimidos os acentos no primeiro “o” de palavras como “voo” e “enjoo”, extinto o trema, entre outras dezenas de transformações, basta que Portugal ratifique um protocolo. A mudança, sem data para entrar em vigor, influenciaria a vida dos 188 milhões de brasileiros. Para que se compreendam as alterações é preciso voltar 17 anos. Em 1990, os oito países que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa firmaram o Acordo da Ortografia da Língua Portuguesa. Um documento final teria de ser ratificado por pelo menos cinco nações para que entrasse em vigor. Mas só três o referendaram: Brasil, Portugal e Cabo Verde. A comunidade decidiu, portanto, criar um Protocolo Modificativo, que reduziu para três o número de signatários necessários. Dos três que já tinham assinado, Brasil e Cabo Verde repetiram o gesto. Em novembro passado, São Tomé e Príncipe ratificou o protocolo. Na prática, a mudança já poderia ter ocorrido nos três países. Mas como levar adiante o assunto desta natureza sem a presença de Portugal? Não se pode tocar para frente a unificação da língua portuguesa sem que Portugal esteja envolvido. Em dezembro, em visita ao Rio de Janeiro, a representante do Ministério da Educação de Portugal, Maria Angélica Ribeiro, revelou que faltava apenas uma “questão política” para a assinatura. Segundo a assessoria de imprensa do Itamaraty, que representa o Brasil nas discussões, o governo quer a uniformização porque, entre outras coisas, “representa uma economia a médio e longo prazo”. Mas há quem veja a possibilidade de mudança com preocupação. As cerca de 900 escolas estaduais com Ensino Fundamental têm pelo menos mil livros nas bibliotecas. Parte deste acervo teria de ser atualizada, o que representaria um gasto milionário aos cofres públicos. Algumas das alterações definidas pelo Acordo da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa:
- Não leva acento agudo diferencial as palavras homógrafas tônicas para distingui-las das átonas. Alguns exemplos:
- para (verbo) - para (preposição)
- pela(s) (substantivo) - pela(s) (verbo) - pela(s) (per + la(s))
- pelo(s) (substantivo) - pelo (verbo) - pelo(s) (per + lo(s))
Facultativo:
- fôrma (substantivo) - forma (substantivo - verbo)
- Supressão do circunflexo nas formas verbais “creem”, “leem”, “veem” e seus derivados
- Criação de alguns casos de dupla grafia para fazer diferenciação. Por exemplo, uso do acento agudo na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação, tais como “louvámos” (passado) em oposição a louvamos (presente) e “amámos” (passado) em detrimento de amamos (presente)
- Incorporação definitiva ao alfabeto das letras k, w, y, passando-o de 23 para 26 letras
Extinção do trema
- Eliminação do acento agudo nos ditongos abertos ei e oi de palavras paroxítonas, caso de “assembleia”, “ideia”, “heroica”, “jiboia”, hoje grafadas com acento
Não levam acento agudo as vogais tônicas “i” e “u” das palavras paroxítonas quando precedidas de ditongo, como: “baiuca”, “baiuno”, “cauila”.

 

 

DESESPERANÇA

Adolf P. Shvedchikov
(Rússia)

Me dê conselho e conte
Como eu posso escapar
Daquela concha-do-mar apertada,
Da capa escura, fantasmagórica
Dos sonhos murchos, amargos,
Esperança irrealizada.
Eu sei, às vezes parece
que aquele infinito é o abismo.
Como parar o outono
Em um abismo terrível?
Eu não sei nada,
Este mundo está perdido.

(Tradução:Luiz C. Amorim)

 

POESIA EM DÚZIA

Foi lançada, na Feira de Rua do Livro de Florianópolis, em maio, a coleção Poesia Viva, que o Grupo Literário A ILHA idealizou e editou, em comemoração à centésima edição da revista Suplemento Literário A ILHA e aos vinte e sete anos de atividades do grupo.
São doze volumes, doze livros de poesia de poetas que ajudaram a fazer a história do Grupo Literário A ILHA durante toda a sua trajetória. Inicialmente a coleção era composta de dez volumes: nove poetas que não tinham, ainda, publicação solo, isto é, não tinham o seu próprio livro, apesar de terem participação de várias antologias, como “Um Toque de Poesia”, “Poetas da Praça”, “Fim de Noite”, “A Nova Poesia Catarinense”, “Poesia do Mar” e outras e veiculado seus textos em jornais, revistas e sites: Margarete Iraí, Darcy Nogueira, Silvinha Schmidt, Sólon Schil, Salete Holske, Célia Biscaia Veiga, Maria de Fátima Joaquim, Selma Franzoi de Ayala e Maria de Fátima Barreto Michels, a Fátima de Laguna. Uma poetisa, apenas, dentre os primeiros dez, já tinha livros publicados, a veterana Aracely Braz. Mas como há mais de dez anos não publicava novo livro e tinha uma grande produção, parte inédita e parte que havia sido levada ao leitor apenas através de revistas e internet, já estava na hora de sair mais um volume da sua obra.
Fechados os dez participantes da coleção, verificamos que havia outros integrantes do Grupo A ILHA que já tinham livros publicados, mas não de poesia ou de poesia dirigida para criança. Era o caso de Else Sant’Ana Brum e Rosângela Borges. A primeira já tem vários livros infantis publicados, mas nenhum que reunisse a sua poesia. Rosângela tem dois livros de poesia para crianças publicados, mas nenhum que contemple a sua grande produção de poesia romântica. Então elas entraram para a coleção, enriquecendo ainda mais o elenco.
Então a Coleção Poesia Viva é composta de doze volumes, de doze poetas com estilos próprios, uns mais românticos, outros mais dramáticos, outros mais centrados no social, ou no cotidiano, preocupados com a situação do ser humano neste nosso mundo atual. É um leque amplo de opções de leitura, de apreciação de boa poesia, pejada de sensibilidade, de lirismo, de emoção e conscientização.
Aracely Braz, a poetisa jovem e dinâmica de mais de oitenta anos, autora de “Tela Viva”, é uma cronista da vida, em versos maduros cheios de inspiração, como em “Eu vejo um mar / um céu azul / nos olhos teus...” ou em “Relógio é coração / narrando páginas idas / de frases quase esquecidas. / Sonhos, poemas, canções, / detalhes de gerações, / batidas marcando a vida.”
Fátima de Laguna, que vem a lume com “Tecidas Manhãs”, é uma observadora arguta da arte de viver: “... e estar humano é tão ligeiro! / É nossa sina / É tão depressa que a gente brilha / É num repente / que a gente finda.”
Salete Holske, com esta primeira reunião de seus poemas em “Percurso”, é poetisa intimista e preocupada com o ser humano e com a natureza: “Que eu ame e ria / e veja as luzes mais suaveds / as cores mais singelas / e isso me emocione. / Tolices? / Pois que sejam. / Contanto que eu consiga / permanecer criança / e perceber, ainda, / e sempre / os vitrais da primavera.”
Darcy Nogueira é dona de uma poesia impregnada de romantismo, de sensualidade e de sentimento. O tema favorito da autora de “Caminhos” é o amor: “Amor, palavra pequena / força estranha, sedução. / É maior que o universo, / é mais forte que o vento / em noite de tempestade.”
Margarete Iraí nos apresenta “Fera Azul”, seleção de sua profícua produção de uma poesia que fala de amor, ao mesmo tempo de maneira romântica e dramática, e fala de natureza, de gente e de vida: “Será que o mundo te esqueceu, / foi o mundo que te feriu / Ou tu mesmo esqueceste / e feriste o mundo em que vivias?”
O fazer poético de Célia Biscaia Veiga, que compõe a coleção Poesia Viva com “Palavras e Exemplos”, está centrado na certeza de que está em nós a capacidade de mudar o mundo em que vivemos para torná-lo melhor. Uma alma sensível atenta à vida: “Tanto olhar que se perde no horizonte / em busca de esperança, de alegria... / Tanto olhar que cruza o nosso caminho...”
Rosângela Borges escreveu “Canção Nua”, uma seleção da sua poesia escrita desda mais tenra juventude. Ela tem um estilo único, que canta o amor através das mais originais figuras de linguagem. Isso é claramente perceptível em “Trago em mim / amores em forma de canções / sonhos em forma de sorrisos / o meu encanto em forma de vida...” E também em “No peito, / uma ternura leve, mansa, / um pedaço de teu sorriso / que se perdeu aqui / e envelheceu dentro de mim...”
“Pedra Falsa” é o título do volume de poemas da poetisa Maria de Fátima Joaquim. A família, a natureza, o próximo e o romantismo são os seus temas principais: “O vento varreu minha solidão, / o sol brilhou minha esperança, / os pingos da chuva / repetem meu nome / me chamando pra viver...”
Sólon Schil, poeta e radialista, não tinha ainda obra solo, apesar de ter participado de várias antologias, publicado em jornais, revistas e na grande rede e de ter organizado uma antologia com a poesia dos ouvintes-poetas de seu programa. “Dentro da Noite” é o seu volume de poemas, revelando um poeta lúcido, romântico e sensual: “Vítima de mim mesmo, / meu coração / de desenganos sofrido / mas de paixões fortalecido, / se rebela, grita, não se cala, / e minhas mãos, inertes, / avidamente afagam o nada.”
Selma Franzói de Ayala, além de poetisa, é professora e tradutora. Seu livro “Alma Boêmia” é uma reedição atualizada de “Refúgio”, um projeto mais antigo. A poesia de Selma é a alma do ser humano transbordando o coração, é sensibilidade, é ritmo e musicalidade, é comprometimento e solidariedade com o próximo: “... e depois da poesia, / quero banhar minh’alma / em sais de esperança, / florir meu sentimento-criança / inda cheirando jasmim...”
Silvinha Schmidt é uma das poetisas mais românticas do grupo A ILHA e seu livro “Palavras a um Sonho Lindo Chamado Você” mostra bem o seu estilo cheio de lirismo, falando de amor direto aos corações: “Se a saudade chegar, / contudo, forte, / arrebatando todas as emoções, / lembre-se que, sozinhos, / não passamos de palavras vazias, / de universos incompletos...”
Else Sant’Anna Brum é autora de literatura para crianças, mas sempre produziu poesia, que já foi publicada em revistas, jornais e na web. Faltava um livro de poemas dela, que agora existe e se chama “Hóspedes do Coração”. Seus versos evidenciam uma poeta madura, de cosmovisão ampla, sempre preocupada com o ser humano e o mundo em que vivemos, sem deixar de lado o romantismo: “Amava o carinho do vento / os pingos de chuva / o voejar da borboleta / a dança do beija-flor. / Um dia, morreu. / Derramou-se em sementes / multiplicando / a vida na ressurreição...”
Isto é uma pequena amostra do que é a Coleção Poesia Viva. A poesia catarinense precisava deste registro, desta coleção, destes livros.

 

 

SABOROSA


Virgínia Vendramini

O que amo na vida, o que a faz saborosa
Não é a tranqüilidade cotidiana,
Nem o salário garantido, o alimento,
Objetivos e planos bem traçados.

O que amo na vida é o imprevisto
Que traz consigo soluções e problemas,
Pequenos nadas, grandes contratempos,
Manchas de cor num panorama cinza.

O que torna a vida bela são coisas simples
Como abrir uma caixa de bombons
Sortidos, de marca desconhecida
E descobrir o sabor de cada um.

É usar um vestido novo sem motivo,
Comprado num impulso de vaidade,
Rever amigos perdidos no tempo,
Provar de novo o beijo do passado.

O que amo mesmo na vida é o inesperado,
O que a torna tão doce e valiosa...
A ignorância do momento extremo,
A incerteza do que virá depois.

 

 

A ALDEIA DE NORMA BRUNO

Norma Bruno é cronista, das boas. Eu a “conheci” no Coojornal do portal Rio Total, da minha amiga Irene Serra. Li, há algum tempo, a crônica da semana, gostei muito e fui procurar mais no arquivo dela. Gosto dos temas, gosto de vê-la falando de coisas da ilha, gosto de vê-la transcrever a fala do ilhéu, que ela usa também na narração, às vezes, como jeito seu de falar, o jeito de falar do nativo desta nossa tão bela Ilha de Santa Catarina, um registro lingüístico fiel do manezinho.
Depois de ler a escritora, tive que me comunicar com ela, para dizer-lhe como fiquei feliz em descobrir a sua leitura tão gostosa, de estilo elegante e aconchegante, e acabei indo conhecê-la pessoalmente. Encontrei uma criatura simpática e amável, entusiasta das coisas referentes à cultura e à leitura. Tanto que seu negócio é um revistaria num grande shopping de Florianópolis, onde também se vende livro.
Conheci, então, o livro da autora, “A Minha Aldeia”. Uma leitura deliciosa, com muita sensibilidade e experiência de vida em textos sóbrios e com bom humor e muito amor por essa nossa terra, essa ilha para onde a gente vem e não que mais sair. O livro é da editora Papa-Livro, tem 172 páginas e vale a pena ser lido. (lca)

 

 

ENERGIA

Teresinka Pereira (USA)

A energia compartilhada
faz revoar os condores
nos sendeiros do destino
O valor da expressão
o entendimento dos versos
nos arma de poderosos desejos
que se arrancam para o horizonte
sem medo de perder-se.
As palavras despertaram
a felicidade da espera.
Já não importa o oceano
nem o céu que se estende
sobre o sal, as ondas e a praia.

 

 

ÁRVORE NO CHÃO

Por Jurandir Schmidt

No quintal do vizinho tinha uma ameixeira. É uma das plantas frutíferas que mais se difundiu pelo mundo, sendo cultivada em várias condições climáticas devido as suas variedades existentes.
Quantas e quantas vezes apanhei seus cachos com uma forquilha. Não satisfeito, subia no muro e realizava com mais sucesso a proeza, disfarçadamente, para não ser visto. Tempos depois, um chuchuzeiro tomou conta de seus galhos e continuei o mesmo processo obscuro também com os seus frutos.
Todo esse trabalho seria poupado se tivesse solicitado permissão ao vizinho, gente fina e de bom coração. Mas parecia que o furtar tornava tudo mais saboroso. Os pássaros se achegavam no tempo certo para banquetearem a fartura dos cachos maduros, amarelados e suculentos, não havendo disputa pela posse alimentar. A árvore era um ponto de baldeação: eles chegavam, se alimentavam, descansavam e retomavam seu trajeto. Alguns permaneciam e faziam seus ninhos imaginando que pela altura escolhida, estariam longe das ameaças humanas.
Sem egoísmo, não se importavam com a presença de outros visitantes alados. Muitos dos meus dias amanheciam com uma chilreada. Por vezes o vento forte sacudia os galhos e as aves, cautelosas, se aninhavam protetoras, com medo de perder suas proles.
Uma visão bonita eram as orquídeas brancas, popularmente denominadas “véu de noiva”. Desabrochavam com tal magnitude que mais pareciam flocos de algodão doce. Pena que o chuchuzeiro encobria parte deste espetáculo.
O vizinho vendeu a propriedade e tudo veio abaixo, inclusive a ameixeira. Felizmente, não houve necessidade de socorrer os pássaros, já que não havia ninhos habitados na ocasião. Consegui coletar as orquídeas, plantando algumas em vasos e outras num exemplar de cipreste.
Os destroços da árvore foram serrados e comprados por uma panificadora. Toda vez que compro pães, me lembro da ameixeira. E quando as orquídeas florescem, fico feliz por ter praticado um ato ecologicamente correto.
O progresso desfalcou o caminho das aves que agora continuam sua vida rústica em outras bandas.

 

 

PENSAMENTOS

Dennis Koulentianos
(Grécia)



Eu não sou um professor,
um padre, um intelectual.
Sou apenas uma voz
e uma mão... em falta de amor!

Eu estimo e respeito o espírito.
mas adoro o coração.

Não conte minhas lágrimas
uma por uma.
Eu não sou uma estrela.

Há muitos professores sábios
ao redor de nós.
É minha culpa
ser autodidata?

(Tradução: Luiz C. Amorim)

 

LA SEBASTIANA

Por Belvedere Bruno

Enquanto percorria La Sebastiana em Valparaíso, não sabia se ria ou se chorava. Era muita emoção andar de um cômodo a outro, ou descer a tortuosa escadaria , imaginando se algum dia ele teria ali caído, se ferido, ou talvez apenas sofrido um tropeção.... Por todos os cantos, sentia aquela energia que, certamente, não podia faltar em uma das diversas casas onde viveu Pablo Neruda. Da janela de um dos cômodos, eu vislumbrava o que outrora havia sido uma grande fonte de inspiração para o poeta. Da casa, no alto do morro, avistava-se a cidade e o porto. Afastado do burburinho de Santiago, ali, Neruda conseguira a inspiração que precisava. A casa, os cômodos, a decoração, os mais íntimos pertences traziam o poeta . Sentei para assistir ao vídeo que mostrava algumas cenas de sua vida . Declamações, entrevistas... Tristeza e emoção tomavam conta de mim ao pensar que visitava um museu e, por mais que tivesse a impressão de que Neruda surgiria de repente, isso não passava de devaneio .
Continuei assistindo à filmagem. Neruda, em 1970, nomeado embaixador na França, durante o governo de Allende. Em outubro de 1971, recebendo o Prêmio Nobel de Literatura, e em 23 de setembro de 1973 , a notícia de sua morte, mesclada às tristezas causadas pela queda de Allende e o fim do sonho socialista. Já não havia Allende, já não havia Neruda, senão em nossa memória, em nossa admiração. Contendo as lágrimas, saí, dando, assim, vez a outros , para que adentrassem La Sebastiana.
À saída, um cartaz afixado em uma das portas falava sobre um evento literário na tarde seguinte, com um escritor chileno e um brasileiro. Infelizmente, eu já estaria de volta ao Brasil.
Retornando ao hotel, senti-me envolvida na mais profunda nostalgia. Todo meu ser , repleto de Neruda, parecia ouvi-lo declamar: 
"Saudade é sentir que existe o que não existe mais..."

 

CHUVA SOBRE PARIS

Marie-Andrée Balbastre
(França)

Nuvem baixa sobre a Notre Dame
O rio Sena represa em suas passagens
Uma corrente cinza

O aborrecimento se infiltra
Nas portas dos cafés
Onde se escuta o velho canto
De um acordeon de outrora.

A noite reverbera
Dentro do tugúrio
Um homem espera

(Tradução: Teresinka Pereira)

 

 

JOINVILLE E OS LIVROS

Estive na Feira do Livro de Joinville, para o lançamento de “A Primavera Sempre Volta”. Foi, na verdade, uma volta no tempo, porque foi em Joinville e São Francisco do Sul que começou e prosperou o Grupo Literário A ILHA. O grupo começou em São Francisco, mas foi em Joinville que ele atuou por quase vinte anos.
Então é uma sensação bem forte voltar às origens, em uma Feira do Livro feita no mesmo espaço onde por quase duas décadas nos reuníamos, uma vez por mês, um punhado de poetas e escritores para apresentar o Varal da Poesia, fazer recital de poemas, distribuir folhetos e sanfonas poéticos, lançar livros, tornar a poesia mais conhecida, enfim. É a mesma praça, agora um pouco diferente, sem o grande palco fixo, de concreto, onde fazíamos os recitais e sem quase todas as grandes árvores onde amarrávamos os fios para colocar os cartazes estampando poemas, como se fora roupa a secar no sol.
A Feira do Livro de Joinville, em sua quarta edição, está se consolidando e só tende a crescer. Vi muita criança lá e soube que o Instituto Feira do Livro, que promove o evento, facilita a ida das escolas à feira, oferecendo vale-livros aos professores. Precisamos incentivar o gosto pela leitura nos leitores em formação e para isso, entre outras coisas, há que levá-los à feira do livro.
Além de stands que ofereciam livros de todos os gêneros, havia os lançamentos de livros, sessões de autógrafos, palestras, mesas redondas, música e teatro. Foi muito bom estar lá, de volta à praça, vendo a literatura acontecer no mesmo lugar de outrora, encontrar velhos amigos, como poetas da praça que estiveram tantas vezes por ali, cuidando do Varal da Poesia e recebendo o público, como Célia Biscaia Veiga, Else Sant´Anna Brum e Caco. E encontrar um dos mais novos integrantes do Grupo Literário A ILHA e também o patrono da feira: Wilson Gelbcke.
Para a feira do livro de Joinville dE 2008, já pedimos à organizadora Sueli Brandão que nos agende para um sábado à tarde, quando então poderemos reunir novamente os poetas e escritores da grande Joinville na feira e não só relembrar o Varal da Poesia e o Recital de Poemas, mas revivê-los, realizando-os novamente no mesmo espaço, em meio à feira.

NOTÍCIAS LITERÁRIAS (LITERARTE NA ILHA_

SAIU A REVISTA DA CONFRARIA DE QUINTANA

A Revista com textos de admiradores de Quintana, organizada pela escritora Maria de Fátima Barreto Michels, vai ser lançada brevemente. A Confraria de Quintana também foi uma idéia daquela escritora e os adeptos vão se juntando, transformando em realidade o projeto de reunir escritores que são leitores do grande poeta, para discutir e divulgar a sua obra.
A revista chama-se MIRANDUM em verso e prosa, e conta, nesta primeira edição, com escritores como Norma Bruno, Viegas, Amorim, Liane Morais, Urda, J. Machado, Eva Bueno e outros.

 

REATIVAÇÃO DA UBE EM SANTA CATARINA

 

Depois da gestão do escritor Enéas Athanázio à frente da União Brasileira de Escritores, quando ele entregou a casa em dia, com os problemas resovidos, como a própria legalização da entidade, que estava com problemas junto à Receita Federal, mensalidades dos associados cobradas, informativo reeditado e circulando, comunicação com os escritores filiados reatada, a casa desapareceu.
Agora a seção catarinense da UBE acaba de eleger uma nova diretoria para tentar reerguer a associação, que já teve mais de 200 integrantes. O principal objetivo da enteidade, segundo o presidente eleito Péricles Prade, é reaver uma cadeira no Conselho Estadual de Cultura, perdida pela falta de representatividade da UBE-SC, que ficou desativada nos últimos três anos. Vamos esperar que seja retomada a boa época em que tudo estava funcionando, principalmente porque os escritores do estado, não aqueles da panelinha, precisam de assistência.

 

“BORBOLETAS E JACATIRÕES” NO PRELO

Está no prelo, para lançamento em breve, o novo livro de crônicas de Luiz Carlos Amorim, “Borboletas e Jacatirões”. O livro é uma seleção feita dentre toda a produção do escritor e sai pela Editora Hemisfério Sul. Temas como Natureza, Tempos de Festas, Infância, Saudades e Esperança, Texto para Criança, Informativo, Família, Quintana e outros poetas, Trajetória, Bastidores da Literatura, são abordados nos textos que compõe “Borboletas e Jacatirões”. O prefácio é do escritor Enéas Athanázio e as orelhas da escritora Urda Alice Klueger. Os primeiros lançamentos acontecerão em Blumenau, Joinville e Florianópolis.


 

EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição número 101 - JUNHO/2007 - Ano 27
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
End. para Correspondência:
lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br
A ILHA na Internet: Veja o portal PROSA, POESIA & CIA. em
Http://geocities.yahoo.com.br/prosapoesiaecia


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