SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Edições A ILHA

Edição Eletrônica da revista do Grupo Literário A ILHA - Edição 108 - Florianópolis SC

Março/2009

O BRASIL E O ACORDO ORTOGRÁFICO EM VIGOR

E o Acordo Ortográfico entrou em vigor. Proposto em 1990,esperou-se quase vinte anos para que todos os países que tem como língua oficial o português aderissem e ninguém, ao que parece, foi estudá-lo a fundo para esmiuçá-lo e dirimir as dúvidas que, com certeza, apareceriam. E apareceram, confundindo a todos que querem se adequar. Algumas regras são um tanto quanto genéricas e em alguns casos, evasivas. Como em um dos casos do hífen: "O hífen deixa de ser usado quando se perdeu a noção de que a palavra é composta". Quais são todas as palavras que perderam a noção de compostas? As atualizações publicadas pelos grandes dicionários, citam quase sempre as mesmas palavras, provavelmente as citadas no acordo original. Mas e o resto? Uma palavra composta pode parecer ter perdido a noção de composta para uns, mas para outros não. Sem contar que há casos em que mais de uma regra se aplica ao mesmo caso.
A padronização, a reforma tratada de forma clara e detalhada, seria publicada pela Academia Brasileira de Letras até final de janeiro. Mas fechou janeiro e nada. Passaram a prometer a esperada nova edição do VOLP - Vocabulário ortográfico da Língua Portuguesa, a lista oficial com a grafia correta das palavras para março. Somos obrigados a esperar o documento da ABL, para ver se teremos sanadas todas as inconsistências deste acordo ortográfico que teve tanto tempo para ser estudado e não foi.
Não sei até que ponto essa reforma era necessária, pois não muda nem a pronúncia nem a compreensão de nenhuma delas. A leitura dos textos de um país em outro onde o português é a língua oficial também continua como sempre foi. A compreensão só apresentará dificuldade nos casos de palavras que são usadas exclusivamente em um ou outro dos países e de palavras com sentido diferente em um e outro país. O que já acontecia e continuará acontecendo. Mas como essa é mais uma decisão política do que cultural, vamos tentar nos adequar.
Quem vai ser onerado, não só no Brasil, é o poder público, que terá de pagar a reimpressão (vai hífen aí ou não? Este caso é um que têm tido interpretações diferentes dos dicionaristas) de todos os livros didáticos da escola pública e dicionários e gramáticas. E quando digo poder público, lembro que me refiro a nós, cidadãos, que pagamos impostos. O que significa que quem está pagando a conta somos nós.
Essa reforma trará benefícios para alguém, além das grandes editoras e gráficas? Duvido que os livros publicados em qualquer país dos envolvidos na reforma serão mais vendidos, agora, em quaisquer outros daqueles países.
(O Editor)

 

 

AS CRIANÇAS DE GAZA

Teresinka Pereira (USA)

As crianças que morrem em Gaza
não tiveram o privilégio de saudar
o novo ano de 2009
com seu sorriso inocente.
Seus poucos dias, meses, anos de vida
são passados na escuridão e pavor,
em lágrimas de dor. Seu sangue
fecunda o canto exato da terra
em que nasceram: sua terra.
Em meu entender, essa guerra em Gaza
não tem nenhuma explicação válida.
Não me importa quem sejam os donos
dessa franja de terra, nem muito menos
quem vive nas ricas colônias ou conjuntos
de apartamentos judaicos ou nos casebres
palestinos. Não me importa quem paga
com o imposto obrigatório de seu trabalho
honesto pelos mísseis que voam
de um lado a outro da fronteira de Gaza.
Os criminosos são os que os estão lançando,
vendendo e comprando essas terríveis
armas para matar e mutilar
tanta gente ao mesmo tempo.
A vida de uma criança vale muito mais
que a terra inteira, vale mais que todas
as ideologias religiosas ou políticas,
vale mais do que os papéis de mapas oficiais
da nova geografia dos países
repartidos depois das guerras.

As crianças morrem como pássaros
indefesos arrancados do ninho
antes de seu primeiro voo.
Não quero nenhuma explicação
nem razão pelas quais voam os mísseis.
Não quero perdoar aos que mandam
a morte, as feridas, a fome e o desamparo
às milhares de crianças de Gaza.

 

 

LEI GRANDO: LITERATURA CATARINENSE NAS BIBLIOTECAS

E a famigerada Lei Grando parece que vai funcionar. Ela existe há quase vinte anos e determina a compra de livros de autores catarinenses para distribuição às bibliotecas municipais catarinenses, livros esses que seriam selecionados pela Comissão Catarinense do Livro. Só que não vinha sendo cumprida. Mencionei, anteriormente, que a lei não havia saído do papel e então recebi um e-mail de Paulo Arenhart, ex-diretor da FCC, alertando-me que a lei foi colocada em prática na gestão dele. Ele garante que funcionou “como um relógio” durante três anos. Eu não sabia e não conheço ninguém que sabia. Mas se foi assim, menos mau. A boa notícia, na verdade, é que a presidente da FCC confirmou, em e-mail à redação deste suplemento, a primeira reunião que “formatará e fará a seleção das obras para fazer cumprir a Lei Grando”, para o dia 4 de março. O que surpreendeu foi a “seleção das obras” já na primeira reunião. Estaremos atentos e voltaremos ao assunto. (LCA)

 

 

PAIXÕES

Apolônia Gastaldi (Portugal)

As águas vêm em ondas,
vem trazidas pelo vento
que as empurra para a praia.
Elas, as ondas, vêm compassadas,
vêm calmas, serenas
e, sem esperar, se encontram
se avolumam, crescem
se alteiam, sobem como loucas,
enormes, elas avançam.
Formam no ar uma crista de rendas brancas,
um arco de águas e espuma.
Se erguem mais e mais
ameaçadoras correm para a praia
e então, num estalo, a onda quebra,
cai com toda a fúria
borbulha, avança
e depois se cansa,
esparrama imensa espuma,
grande véu leve e frouxo
vem calmo lamber a areia da praia.
Depois a água, mansamente,
desaparece voltando para o mar.
Mansamente,
retorna e
logo mais volta,
recomeça outro ensaio.
Como as grandes paixões
crescem, erguem-se,
avolumam-se, envolvem e
depois, quase sempre,
morrem na areia
deixando só marcas
indeléveis.

 

 

ELE QUERIA SER CIENTISTA

Por Enéas Athanázio

Com a publicação de "A Sétima Caverna" (Hemisfério Sul - Blumenau - 2008), Harry Wiese faz sua estréia no gênero romanesco. Autor de livros de poesia, contos e história, não é um iniciante e já testou suas habilidades em outros gêneros. Neste alentado volume ele revela fôlego para o romance, gênero em que não são muitos os que se aventuram com sucesso.
Trata-se de uma narrativa de fundo autobiográfico e memorialista, na linha documental a que se filiam tantos romancistas nacionais, relatando a saga do menino Henry Waldmann que, desde os sete anos de idade, queria ser cientista, embora a leitura do romance me sugira que suas tendências se inclinavam mais para a filosofia, tantas e tão variadas são as elucubrações filosóficas que vai pingando no correr do texto, às vezes surpreendentes num menino de tão tenros anos, e que também revelam um certo conformismo diante dos embates da vida naquela fase em que os garotos em geral reagem de formas mais enérgicas. Henry não se rebela, não extravasa ira, não reclama. Mas como o conformismo é uma postura filosófica, ele reforça a minha impressão. Também não chora nunca porque, segundo ele, um cientista não deve chorar. No final, porém, Henry, alter-ego do autor na infância, não se torna cientista e nem filósofo mas escritor, optando pela mais visível das três atividades, todas aliás pouco valorizadas entre nós.
Ambientado no Alto Vale do Itajaí, o romance retrata com minúcias a vida de um casal de colonos de origem germânica e seus dois filhos na luta árdua pela sobrevivência. Residem numa casa modesta, construída de madeira, com as paredes de tábuas largas e com as janelas voltadas para a densa e misteriosa Mata dos Bugres, na encosta de Serra Mirador, e que tanto instigava o desejo de aventuras e o gosto pelas pesquisas do menino que queria ser cientista. Ainda inexplorada, a mata guardava segredos nunca revelados e nela viviam pássaros e animais variados, inclusive onças que às vezes atacavam as criações na calada da noite e tinham que ser espantadas a tiros de espingarda. Bugres, porém, parece que não existiam mais, quase exterminados pelos bugreiros implacáveis, exceto os que se encontravam aldeados por obra de Dom Eduardo, fato a que o texto faz várias referências. Mas a floresta ainda estava inceira, pouco visitada e explorada, exibindo-se em toda sua impressionante grandeza verdejante.
Seis cavernas conhecidas existiam até metade da Serra, maiores e menores, que "num passado não muito distante, serviam de abrigo aos indígenas que viviam nas matas da região" (p. 17). Cavernas não interligadas entre si, secas, nas quais não existiam estalactites ou estalagmites. Mas a Mata dos Bugres guardava outros segredos, inclusive outra caverna - a sétima - que o menino sonhava desvendar, ainda que correndo riscos. Com esse propósito, aproveitando a ausência dos pais, faz secretas incursões pela mata, sempre acompanhado pelo inseparável cão Fidélis, um animal que tinha posturas e gestos quase humanos, carregando sua maleta de cientista onde guardava os achados que lhe parecessem interessantes. E assim, num momento de sorte, acaba por descobrir a sonhada sétima caverna e desvendar o mistério que a envolvia e que seria indiscreção de minha parte revelar. Temeroso da ação de predadores, inclusive humanos, tratou de esconder seu precioso achado sob caprichada camuflagem. Numa atitude também surpreendente, guarda a sete chaves, para si próprio, o segredo da caverna e seu mistério. Quanto ao cachorro de estimação, seu trágico final é um momento tocante do livro.
Entre os personagens do romance, afora o próprio narrador, o mais interessante é sem dúvida Criendiu Garlani. Homem idoso e solitário, com os cabelos brancos, era um hábil artesão e músico (embora não tivesse instrumento por razões que virão à tona) e que o garoto considerava um verdadeiro sábio. É verdade que bem pouco se sabe a respeito dele e que não era dado a muito falar, mas se tornou o grande amigo do menino e alvo de sua profunda admiração. "Morava no outro lado da pequena estrada, que passava logo abaixo de nossa casa. Situava-se numa colina. Havia um pátio entre as duas moradias e lá existia um caminho íngreme. De tanto andar, para cima e para baixo, a grama não conseguia crescer direito. Formou-se, assim, um friso e eu gostava de andar por ali" (p. 16). O pisoteio formou um carreiro, tal como nos campos. Criendiu muito ensinou ao garoto e até lhe confidenciou a respeito de seu amor jamais realizado pela índia Rosima. A ele se deve o caso de amor que preenche um dos curiosos capítulos do romance. Nas manhãs silenciosas daquela região bucólica, Henry olhava apreensivo para a casa do velho amigo. Quando avistava a fumaça se elevando da chaminé seu coração se tranqüilizava - Criendiu estava vivo, ainda que velho e doente. Com o passar do tempo a oficina do amigo seria transformada num pequeno museu por obra do engenhoso menino.
Surge também um personagem sinistro, aumentando a galeria dos exterminadores de bugres que agiam na região, e que ignoro se realmente existiu ou é pura criação do autor. Refiro-me a Saci-Bugreiro, matador de índios assim chamado porque tinha apenas uma perna. A ele se creditavam, sem que houvesse dúvida, chacinas de índios, entre elas aquela que se relacionava com a misteriosa sétima caverna e que teria sido a mais bárbara e desumana de todas. Ele agia "a mando de algumas autoridades e de uma pequena parte da população das cidades de Getúlio Vargas e Hammonia" (p. 118).
Para concluir, diria que o romance se fecha com uma espécie de milagre proporcionado pelo Dr. Cícero Bueno, médico em Blumenau e cientista, pesquisador, defensor da ecologia e da causa indígena. A ele o garoto confiou o segredo da sétima caverna e juntos foram ao local, tomando providências para resguardá-la. Embora raros, milagres acontecem e Henry Waldmann foi beneficiado por um deles, impondo nova direção à sua vida de menino criado no ermo e filho de colonos que batalhavam pela sobrevivência. Espécie de prêmio à sua dedicação ao estudo e ao amor pela ciência. Apesar desse final feliz, o romance, no conjunto, infunde no leitor uma certa melancolia.
"A Sétima Caverna" é um romance de leitura agradável, escrito de forma simples e direta, revelando um autor com poder de observação, admirável memória e seguro conhecimento da região retratada. Constitui boa contribuição à nossa resumida estante romanesca.

 

 

A FLOR DA PIMENTEIRA

Rosângela Borges (Eslováquia)

No meu quintal,
O pessegueiro me olha.
Suas folhas, seu tronco, seu fruto
Sorriem para mim e abraçam o dia.
E de novo... a escuridão,
O frio, a ventania,
Meu Deus, que falta me faz o verão!

No meu quintal,
A macieira me olha
E ri, e canta e chora:
-Olha, menina vai passar
Esse gelo no meu abraço!
E de novo, eu volto pra vida,
Pra chuva, pro espaço!

No meu quintal,
Apenas a flor da pimenteira,
Não olha pra mim,
Olha pro céu, pro vento, pro chão:
- Credo, menina !
Você precisa de açúcar
De canela e limão!

E de novo no meu quintal,
O pessegueiro segue em busca do sol.
A macieira me olha, me chama e me acalma.
Apenas a flor da pimenteira sorri pra mim,
E entende minha alma, tão sem sal, tão gelada
Tão sem graça e mal temperada!

 

 

DISCUTINDO O PRÊMIO CRUZ E SOUSA

Por Luiz Carlos Amorim

O retorno do Prêmio Cruz e Sousa está provocando discussões, e isto é bom, pode agregar valor à idéia inicial. O concurso dá alguns dos maiores prêmios do país: são cento e sessenta mil reais - já foi maior -, divididos entre os três primeiros colocados nas categorias nacional e catarinense.
A discussão que surge entre escritores do Estado é a possibilidade de, ao invés do Cruz e Sousa dar prêmios apenas para livros acabados, dar também bolsas para projetos de romances. Isto é: o prêmio, pago em parcelas por determinado número de meses, serviria para custear a dedicação integral do escritor na construção da sua obra. É claro que haveria algum controle nesta produção, tipo não pagar a parcela do próximo mês se o cronograma da obra não estiver cumprido e assim por diante.
Isto já existiu, e existe, inclusive no Brasil, e é uma boa idéia subsidiar a produção do escritor, que com uma bolsa não teria de se preocupar com outras atividades para garantir a sobrevivência.
A Bolsa Virtuose de Literatura é um exemplo. Concedida a escritores com livros publicados e com desejo de fazer um curso de aprofundamento em sua área, já deu cobertura dos custos do curso e uma ajuda de custo mensal para o participante no período de duração da mesma. Outro exemplo é Bolsa Vitae de Literatura, concedida para conclusão de obra e destinada a escritores com livros publicados. A bolsa duraria de 6 a 12 meses. Há, também, o concurso Prêmio Governo de Minas Gerais. Uma das categorias do concurso, que dá mais de duzentos e trinta mil reais em prêmios, é Jovem Escritor Mineiro e oferece quarenta e dois mil reais parcelados em seis meses, destinado à pesquisa e elaboração da obra. E há ainda o Prêmio Literário da Petrobrás, para obra de ficção e/ou poesia. Para ser apresentado, o Projeto já deve ter sido iniciado pelo autor. A idéia não é nova, mas é boa. É claro que a qualidade da obra contemplada com a bolsa, depois de acabada, poderia não ser a que mereceria o prêmio. Não há como haver garantia. Mas por que não?
Um projeto assim poderia ser inscrito no Edital Elizabete Anderle? Um Edital com tantos recursos a serem distribuídos poderia contemplar essa atividade cultural. Talvez fosse boa idéia alguém inscrever um projeto assim para ver no que dá. Eu confesso que não li o regulamento do Edital, então não sei se ele prevê este caso.

(Jornal Feira Hoje-Feirade Santana BA)

 

 

UM INSTANTE

Selma Ayala

...Enquanto a chuva cai fria
a música tão triste
traz uma saudade infinita...
E o vento rouba com toda sua força
uma última esperança...
E volta tão frio... tão triste...
Como a morte...
Com toda sua força, a dor retorna...
E a música é linda, mas traz um fim...

As folhas caem...
Elas eram esperanças
de uma vida inteira por viver...
Não há mais flor nem ilusão...
E depois,
enquanto as folhas caíam...
a melodia terminou...
O vento retornou
e a chuva fria levou tudo...
Sobrou só um pouco de infelicidade
e eu sou o pouco
que sobrou do nada...

 

 

ELI HEIL - A ARTE DA GÊNESE E DA FARTURA

Por Maria de Fátima Barreto Michels

O Museu de Arte de Santa Catarina vai fazer uma nova exposição com as obras da artista plástica catarinense Eli Heil. Está aí o tipo de notícia que gostamos de ler e ouvir!
Durante o curso sobre a História da Arte na UNISUL, tivemos a oportunidade de ouvir mestres e doutores, sobre as artes em geral e a pintura, mais detidamente.
Eli Heil, que é referência não apenas na pintura, mas também na escultura, no desenho, na tapeçaria e na cerâmica, nasceu em 1929 na cidade de Palhoça-SC.
Tive a oportunidade de ver suas obras através do SESC em Laguna, e da FURB em Blumenau. Já li a respeito de sua arte em jornais, folderes e também no sítio virtual que há em seu nome, na rede.
Fiz algumas fotos de suas telas para me deter um pouco mais a apreciá-las em casa.
Li que sua obra será registrada em novos livros e documentário, que serão lançados, para festejar os 80 anos que a artista completa em 2009.
Vai nos fazer muito bem ter em mãos um livro com as cenas que a Eli proporciona ao mundo. Provocará exercícios de diálogo íntimo com nós mesmos, e renovará nossa perplexidade.
Há um cinema que Eli cria e amplia sucessivamente, ao limite da tensão.
No movimento de in e out ao precipitar-se para si e para o universo ela (re)processa a gênese, em vôo obstinado, no seqüencial da fita, pintando, esculpindo, desenhando...
A Eli não suportou tanta cor, tanta força criadora que a assomou e então: a compulsão por espalhar seus óvulos.
Ela é a maior constrangedora de receitas prontas destes tempos .
Impressiona, causa-nos comoção a viagem a que somos submetidos diante das suas obras. O que nelas é fartura e fragilidade é ao mesmo tempo jactância, da boa, da que o mundo carece.
Cada obra de Eli pode ser uma independente, mas se conseguíssemos costurá-las, formariam tecidos vários em um só organismo , porque a cosmogonia que ela propõe, é uma fenomenal catarse de vida. E a vida nós sabemos, é um jorro único.
A arte é mais forte em Eli do que ela supôs um dia, penso comigo, e a levou a enfunar asas irreversivelmente, para as amplitudes ilimitadas do expressar-se.
A arte-vida dentro dessa mulher-ave, dotada sobejamente de fertilidade, eclode-se em óvulos-obras tresloucadamente, sem esperar a lua. Eli é atemporal e inventou sua linguagem ímpar, de cores e formas, para dizer que a única coisa importante que temos a fazer na vida, é transfundi-la em arte. Ela assumiu-se pássaro alienígena, que coloca ovos incessantemente. Eli é parceira da gênese e da fartura, é uma facilitadora de blástulas e mórulas, ela sabe disto. E nós também!

 

 

EM BUSCA DE RESPOSTAS

Joel Rogério Furtado

Desde muito
ando à procura de respostas
claras - lógicas
que revistam
conclusões mais firmes
que somem resultados
mais substanciosos
e definitivos.
Faz muito
que busco explicações
que contenham em seu bojo
os porquês dessas jornadas
tão sacrificadas
quanto compensadoras
nos parâmetros
dessa solidão tão longa
- quanto dura.
Desde priscas eras
rebusco momentos bons
na tentativa vã
(às mais das vezes)
de realimentar a alma
para enfrentar o amanhã
envolto na névoa
- mergulhado nas dúvidas.

 

 

CISSA E A BELEZA DA CRÔNICA

Por Luiz Carlos Amorim

Estou lendo pela segunda vez o livro de crônicas "A Pontinha das Páginas", da minha amiga Cissa de Oliveira, de Campinas. Não é que tenha ficado alguma dúvida na compreensão dele, em absoluto. É pelo prazer de ler, mesmo. Não é à toa que ele foi contemplado com um dos Prêmios Literários Cidade de Manaus.
Como eu já disse à Cissa, gosto de ler as crônicas que ela escreve porque lê-las é quase um diálogo com a autora, eu a vejo gesticular, fazer caras e bocas, acentuar entonações, num estilo coloquial que a traz pra perto da gente, como se estivéssemos conversando. É delicioso "ouvir" as suas histórias, sem pretensão de ser a dona da verdade, contadas com naturalidade, com bom humor, com graça e leveza.
A pontinha das páginas deste livro vão acabar ficando com orelha de burro ou manchadas, pois sei que vou lê-lo outras vezes. Aliás, este livro tem, entre tantas outras crônicas que eu gosto muito, uma para a qual eu escrevi uma outra à guisa de resposta, pois falava de Cora Coralina. Trata-se de "Um doce para Cora Coralina". Quando ela foi publicada no Coojornal do Rio Total da nossa amiga em comum Irene Serra, eu não pude deixar de me pronunciar, pois sou maluco por essa poeta goiana que se não é a maior do Brasil, está entre as maiores. E nasceu a minha crônica "A Doce Cora Coralina", que está no meu livro "Borboletas nos Jacatirões", objeto de resenha da Cissa, diga-se de passagem.
Em "A Pontinha das Páginas", Cissa fala de tudo. Fala dos doces de Cora, de felicidade, de poesia - e a prosa dela não é pura poesia? -, de juízes (a carapuça serviu para muitos), de homens e de marido, de Dalton Trevisan, de Hilda Hilst (os escritores sagrados de Curitiba), de dualidade, de manias, de fotografias, de gente, de bola de cristal, de flores, de etiquetas, de saias justas, de prosas e versos, de e-mails, de coisas do cotidiano, até de cocô. Cissa tem o dom de saber como dizer as coisas, de ser séria e divertida ao mesmo tempo.
Acho que é por isso que gosto das crônicas de Cissa: ela é inteligente e sensível, sem ser piegas nem pedante. Dá pra sentir pela prosa e pela poesia dela que ela é uma mulher feliz, uma pessoa bem resolvida. E faz bem pra gente "conversar" com pessoas que tem bom astral, que transmitem uma energia boa. Isso tudo está na "Pontinha das páginas".
Em seguida, recebo os originais de livro novo de Cissa, que leio imediatamente. E ratifico tudo o que disse do primeiro, quando leio "Uma Sujeita Esquisita", da cronista mais espontânea e original que conheço.
Os temas são os mais diversos e as abordagens as mais interessantes e inusitadas, o que agrega mais valor literário ao trabalho de Cissa. Olhem a definição que ela nos oferece de um cara saradão: "Da janela eu vejo um homem tão sarado quanto um bom chumaço de algodão alimentado de vento. Os ombros são duas arcadas (...) entremeadas por um pescoço de touro desprotegido pastando o tempo, na calçada. Curiosidade maior: há uma bunda de urso na parte traseira da cabeça dele. Traição essa coisa da calvície que avança por trás." Não é genial? Acho que vou parar de fazer musculação, apesar de ser receita médica, porque a bunda de urso eu já tenho...
Tudo é assunto para as crônicas de Cissa e ela sabe como contar uma boa história, com aquele jeito coloquial que lhe é tão peculiar, que dá gosto ouvir (ou ler).
"Traquinagens de uma menina de idade" é uma delícia, pura poesia, que pendura um sorriso largo na cara da gente. Não dá pra não sorrir. "Um gerúndio no meio do caminho" é imprescindível. Como ninguém tinha escrito essa crônica ainda? Quisera tê-la escrito. E "A consciência azul do professor" é crônica corajosa, pois não tem medo de desmascarar o estado atual da educação em nosso país, mostrar os porquês e apontar soluções. E vou parar de enumerar as crônicas, senão vou falar de uma por uma.
Só lendo o novo livro de Cissa para saber o que é crônica, para degustar a beleza e a importância desse gênero literário, que ela sabe valorizar tão bem.

 

 

EXALTAÇÃO

Aracely Braz

Esta Enseada linda que conheço
Céu e sol brilhando num sorriso
Onde quer eu vá, não a esqueço
Porque aderi a este paraíso.

É a rainha da nossa São Francisco.
Nas praias impera a doce princesa
É a primavera em nobres alvoradas
A canção enamorada, com certeza.

Misturo sonhos, rabiscos do caminho
Risco na areia frases de poesia,
Nas pedras cravo magias deste mar
Mar, minha orquestra em sinfonia.

Exaltação de amor a minha São Francisco
Cidade de 500 anos, muito amada,
Lembrando a maravilha deste mar
A nossa exuberante, encantada ilha.

 

RECOMEÇO

por Urda Alice Klueger

Oitenta e cinco dias depois do começo da Tragédia das Águas e duas semanas depois de ter voltado para casa, nesta manhã de domingo, pela primeira vez em tanto tempo, tive coragem de sair com meu cachorro para um passeio para o lado da minha rua que se afasta do centro. Tentei faze-lo, na semana anterior, só um pedacinho, um pequeno trecho que via limpo de lama e de poeira grossas, embora fosse tão evidente como a terra cedeu sob os out-doors dos quais já falei no passado, em outros textos, que tinham sob si todo um gramado cheio de florinhas amarelas, onde as capivaras vinham pastar ao por do sol. Aquele pequeno prado está tomado por ervas daninhas, mesmo a parte que cedeu e que agora está muito mais baixa, parecendo ter uma irresistível vontade de se juntar com o rio, e já não há capivaras. Era uma grande família, faz 85 dias - mais de vinte capivaras que moravam atrás do meu prédio. Que terá sido feito delas? Teriam morrido todas, vitimadas por pancadas recebidas por portas de geladeira ou outras desgraças flutuantes? Não sei, talvez elas tenham nadado e achado outro lugar para morar - sei que neste nosso Ribeirão Garcia que está horrível, com o leito quintuplicado e cheio de grandes lagoas que viraram grandes criatórios de mosquitos que nos mordem os pés pela tardinha, já não se vêm capivaras, e quantos outros bichinhos perderam o seu habitat, para cede-lo aos mosquitos, que, quem sabe, qualquer dia destes comecem por disseminar coisas como a dengue?
Na semana anterior, logo que voltei para casa, dei uma tímida investida para aquele lado da rua que se afasta da cidade - meu cachorrinho criou-se ali em lugares lindos; eu saía com ele e voltava com braçadas de flores silvestres para os vasos da minha casa. Meu cachorrinho conhecia trilhas, cheiros, latia no capivarão-chefe - e em poucos passos dei-me conta de que tudo havia acabado.
Há um gramadinho em declive diante do meu condomínio, e meu bichinho, desde filhote, aprendeu a descer correndo por ali, numa brincadeira que lhe ensinei quando era ainda um bebezinho que não sabia correr muito bem e rolava declive abaixo - pois naquele dia, na semana passada, ele foi descer correndo aquele declive cuja grama fora recém-aparada, e do nada, do meio da grama baixinha, uma cobra pulou nele! Nunca ninguém havia gritado com ele (excetuando o Dílson, que conserta o meu computador), mas naquela manhã gritei e gritei com ele com tamanho desespero, que ele ficou tão assustado que se esqueceu de pular na cobra também - e houve tempo para que ela se fosse embora!
Com tantos desastres, os bichinhos da região perderam seus habitat e estão vivendo onde dá. Não era de estranhar a presença daquela cobra naquele gramado.
Saí chorando do episódio da cobra, e passei a viver um faz-de-conta: não abro as cortinas e janelas, quando aqui (como é bom o ar condicionado depois dos mais de dois meses no abafado do nosso refúgio sem janelas!), e a cada vez que vou dar uma voltinha com meu cachorro, carrego-o no colo, coloco-o no carro, e vou para o centro ou para outros lugares onde há ruas limpas e com menores probabilidades de uma cobra pular em alguém. Houve um aproveitamento, nesse faz-de-conta: tenho passado por ruas que há décadas não passava; ando por outras que não conhecia; vejo lindas áreas arborizadas e quase sem trânsito, onde posso deixar meu bichinho solto, correndo a latir atrás de bagas de plantas desconhecidas, exímio jogador de futebol que ele é.
Nesta manhã de domingo, no entanto, resolvi encarar o lugar feio onde moro, e saí caminhando com meu cachorro pela rua que se afasta do centro. Olhava para as coisas analiticamente: o rio assoreado, as lagoas de água paradas fervendo de mosquitos, os desbarrancamentos e as quedas de barreiras que deixaram as profundas feridas nos morros, a terra alisada de onde foi retirado criminoso aterro que eu denunciei faz pouco, numa crônica chamada "A burguesia fede muito" - é claro que o aterro não foi retirado por conta de minha denúncia, mas porque luxuoso hotel reclamou, já que usava aquele espaço como estacionamento. O aterro criminoso apenas foi deslocado, atravessou o rio, fede lá do outro lado tanto quanto a burguesia, e é tão criminoso quanto o era do lado de cá. Deixou num dos lugares de onde saiu um buraco cheio de água, onde os mosquitos fazem festa.
Mais adiante na rua, porém, havia um bom trecho com ar de normalidade, se a gente não levantasse muito os olhos e olhasse para os morros. Parecia que nada havia acontecido por ali. Os jardins estavam normais, as casas estavam normais, as pessoas pareciam normais, embora muito mato e erva daninha estivesse a crescer por tudo, caindo por sobre a rua, insinuando-se nas frestas das calçadas na tentativa de abrir maiores espaços para crescer - o que me dava, no entanto, aquela sensação de normalidade, eram os cachorros, os muitos cachorros que viviam naquele trecho de rua, um ou mais em cada jardim, e que ladravam escandalosamente para o meu bichinho, informando por antecipação, bem alto, quem é que mandava ali.
Então eu soube da grande saudade que tenho dos cachorros da minha rua, e que se foram todos. Tirando os que vivem nos edifícios, aqui na região onde moro já não há mais nenhum. Suas casas caíram ou estão condenadas, e eu espero que seus donos os tenham salvado a tempo, quando fugiram do terror, naqueles dias e noites lá de mais de 80 dias atrás. Eles eram bons cachorros que guardavam bem suas casas, e que desde que o meu filhote era uma coisinha de nada, latiam para ele, informando qual era o seu domínio. Faziam tal algazarra que o meu bichinho mal lhes respondia: "nhec nhec", e as suas vozes possantes atroavam no ar e se propagavam por outros cachorros de outras ruas, e quando via, havia animais latindo até muito, muito longe, lá nos confins do bairro do outro lado do rio.
Então, chorei de saudade deles. Não há dúvida que as coisas mudaram demais.
Voltei para casa com alergia, espirrando e cheia de coriza. O coração é a coisa mais séria do mundo.

 

 

ELEGIA AO POEMA AUSENTE

Harry Wiese

O baque dos meus passos na calçada
é o ritmo do poema que faço e esqueço
e que nunca mais virá.

Amo-o intensamente
e aprecio sua brevitude
como se ama a musa que espia pela janela
e como se aprecia seu jeito de anjo
tão rápido e inconteste como meus passos na calçada,
sem rastros e sem pegadas.

 

 

Homenagem ao Dia das Mães, em Maio:

A CASCA DA BERGAMOTA

(Pensando em minha avó)

Por Mary Bastian

" Quem parte, reparte, e fica com a melhor parte "
Nem sempre. Tive uma chefe, que no inverno voltava do almoço com duas sacolas de bergamotas e sentenciava que todas podiam comer... contando que primeiro alguém descascasse duas ou três para ela. Sempre tinha uma voluntária, e comíamos as frutas na maior gula até acabar com todas. O cheiro forte, e a prepotência da chefinha, pairavam no ar até as dezoito horas, mas a gente levava na farra.
Durante um cursinho que fiz, a professora pegou duas suculentas bergamotas e perguntou se alguém queria ajudar a descascar. Ninguém se manifestou e ela generosamente, completou a desagradável tarefa e ofereceu o prato com os gomos separados. Todos nos servimos sem nenhum pudor.
Isto me fez pensar nas mães, que se partem e repartem em doação. Os filhos, um a um, igual as pombas do Raimundo Correa, vão deixando a casca protetora. Alguns voltam, outros, nem notícias mandam. E há os que ficam grudados na casca da bergamota.
Ela continua aí, no mesmo lugar onde se partiu e repartiu, murchando, secando. Este é o seu destino. Aos poucos vai deixando de exalar aquele cheiro tão forte que alimentou e guiou os gomos. Fica só um aroma suave como lembrança.
Não importa mais o sumo que ardeu nos olhos quando se apertou a casca. Não importa o cheiro que não saía das mãos. Não importa o gosto doce que ficou na boca por um tempo.
Importa a casca que ficou sozinha, ali, até que alguém junte os pedaços secos e coloque num canto de um quartinho da casa.

 

 

CONFISSÃO

Else Sant´Anna Brum

Qualquer dia ainda te conto:
Porque vivo
Porque sonho
Porque canto e sou risonha,
Porque gosto desta terra,
Deste céu, deste meu povo,
Deste nosso mundo novo
Cheio de descobrimentos.
Porque tenho esperança
Porque gosto de criança
E de rosas amarelas.
Gosto do sol de abril
E de chalés de madeira
Com cortinas nas janelas.
Qualquer dia ainda te conto:
É bem simples!

 

 

AUSÊNCIA DE FLORES E GESTOS

Por Jurandir Schmidt

Empoleirado silenciosamente no fio da linha telefônica, o beija-flor observava indignado uma extremidade do quintal. Tinhas suas razões, já que naquele local, havia um pé de ipê-amarelo que foi abatido por conveniência. Outra vez, na época da florada, ele retornava para saciar-se do néctar das flores da sua árvore preferida.
Fiquei na obrigação de compartilhar de sua indignação em não mais encontrar aquela árvore, pois ela havia me proporcionado momentos de extrema contemplação. Além da floração que produzia belíssimo efeito na copa e no chão, a diversidade ecológica nela fluente, monopolizava as atenções e se podia invadir o momento íntimo do pássaro com as flores.
Era curioso ver o beija-flor namorar os cachos amarelados com ardor e meiguice, deixando em seus ventres a semente da próxima estação. A árvore tornava-se pequena para o seu voo. Ele ia e voltava várias vezes, empregando seus meios para encontrar alguma flor ainda não explorada. Quando cansado, pousava em qualquer dos galhos, sentindo-se no paraíso.
Agora, empoleirado no fio da linha telefônica seu silêncio transmitia a locomoção para outros quintais, para outras árvores e flores que lhe dariam uma nova esperança de voar e garantir o sustento. Consumindo mais energia do que qualquer outro animal, tem a necessidade de se alimentar dezena de vezes ao dia.
Desejo continuar vendo o pássaro beijar as flores cor de ouro e desempenhar um importante papel na polinização e na preservação. Sulcarei a terra, plantarei uma nova semente da espécie, regarei com o suor da esperança e cuidarei para que germine e se torne frondosamente florida. Preservarei para que o beija-flor seja novamente feliz e para que minhas recordações sejam atualizadas.
O ipê-amarelo é uma árvore muito conhecida, senão a mais cultivada e a mais linda, sendo considerada a árvore símbolo do Brasil. O beija-flor possui boa memória e poderá lembrar deste local como uma fonte alimentar. Lá adiante, existem outros ipês, mas quem sabe, algum dia para cá ele poderá voltar.
Tentarei trazer um pouco mais da natureza para o quintal.

 

 

MEMÓRIA DE ANTÓNIO VIEIRA NA CIDADE VELHA

Nuno Rebocho (Cabo Verde)

modi nhô padre, nhô padre vieira!
tanta canseira… tantos enganos…
chegaste ao aqui das almas e o mar nem foi fronteira
separando irmãos dos oceanos.
trouxeste as palavras salgadas
pela pólvora das batalhas despejadas dos altares
em nome dos homens e dos avatares
deste o nome às pátrias.

ah nhô padre: nhazinha da rua da banana
inda tem medo do pelourinho
- pró brasil não quer ir, de angola não queria vir,
monda de cana não lhe serve
não lhe serve o machim
que se a febre a batuca é homem macho que a escreve
homem patrão que a toma
homem ladrão na redoma
homem senhor a emprenha
homem dor homem dor
a abocanha, mas amor?
amor não...no brasil só se for quilombo,
tronco por tronco antes assim

ah padre vieira, como conjugaste
o verbo independência e o verbo liberdade - as palavras justas
sempre ferem tiranias:
valeram mais que as alabardas e menos custas
que as esperanças que deixaste
entre discursos e ave-marias
- saltaram palavras do arcabuz: pátria e fraternidade
por vontade dos povos e de jesus. nunca sujeição
nem de homem nem de chão (nhazinha manda dizer
que tem saudades da rebelião e que se lembra de ti
mas não sabe escrever)
meu padre, chego na cidade velha e já lá não estavas.
de ti me falam as azedinhas e dizem:
por isso os donos de deus te encerraram
e nem podiam
que divina é a liberdade, nem te calaram
que ungida será a justiça.
aqui falaste ao mar que une as ilhas e o mundo
e as palavras andaram tão azinha
quanto as almas e suas pernas.
aqui rasgaste as misérias do mando
e adubaste sonhos para escravos acorrentados.
até as pedras te ouviram
e os ventos e os canaviais que prendiam homens sem pátria:
ouviram-te e guardaram-te
porque não se desperdiça o pão.
e depois partiste para outros aquis:
é sempre aqui quando o homem resiste.
é sempre pátria quando o homem se rebela e luta.
é sempre tempo quando os séculos despenteiam vontades

ah, nhô padre, nhô padre vieira
quanta canseira quantos enganos…
mas desistências nunca porque a esperança manda
e só ela importa - vergam-se cidades
às investidas da maresia
quando o musgo bate à porta
e as paredes sofrem danos.
sucumbe a liberdade à tirania
mas não dobram as vontades
de quem não pára, de quem insiste e anda.
as pedras é que murcham
as pedras é que morrem
as ribeiras é que secam
as palavras é que correm.
descubro-te padre vieira na ribeira grande
onde as palavras resistiram mais do que as pedras
modi, nhô padre! livrai-nos do mal
nhô padre vieira! ámen!

 

 

EDIÇÕES A ILHA E A COLEÇÃO LETRA VIVA

As Edições A ILHA estão preparando e lançarão, no próximo ano, os primeiros volumes da Coleção Letra Viva, livros de crônicas de integrantes do Grupo Literário A ILHA, em comemoração aos trinta anos de atividades da entidade. A exemplo da Coleção Poesia Viva, serão publicados, a principio, livros de autores que não têm ainda obra solo publicada, o que não impede que praticantes do gênero crônica que já tenham livros de outros gêneros publicados, tenham oportunidade. Os primeiros três volumes da Coleção Letra Viva, que contemplará o gênero crônica serão lançados em junho de 2010, quando o Grupo A ILHA e esta revista completam trinta anos de existência e persistência, os mais perenes do gênero.

 

 

LIVROS DA EDITORA HEMISFÉRIO SUL - ONDE ENCONTRAR

O livro “Borboletas nos Jacatirões”, de Luiz C. Amorim e todos os livros da Hemisfério Sul estão à venda nas seguintes livrarias: Saraiva (inclusive virtual), Curitiba e Catarinense. Central Livros e Rio Centro (Rio do Sul), Convivência, Fapeu, Livros e Livros, Catarainense, Saraiva (Florianópolis), Aladim e Casa Aberta (tajaí), Acadêmica, Alemã, Papelaria Danúbio, Blulivros (Blumenau), Diocesana (Lages), LDV (Indaial), Papelaria Mosimann (Brusque), Cultural (São Leopoldo-RS), Bauhaus (Balneário Camboriu), Midas e Catarinense (Joinville), Nova Objetiva (S. Miguel do Oeste), Origem (Timbó), Grafipel (Jaraguá do Sul), Recanto do Livro (Videira), Refopa Joli (Pomerode), Fátima Art. Esp. (Criciúma), Ponto do Livro (Cruz Alta-RS). Pedidos também para o e-mail hemisferiosul@san.psi.br


EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 108 - MARÇO/2009 - Ano 28
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
Contoatos: lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br
A ILHA na Internet: Veja o portal PROSA, POESIA & CIA. em
Http://geocities.yahoo.com.br/prosapoesiaecia


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