SUPLEMENTO LITERÁRIO A AILHA

Revista do Grupo Literário A ILHA

Setembro/2012

Versão Impressa da revista em pdf

32 ANOS DE LITERATURA CATARINENSE

A revista literária do Grupo Literário A ILHA chega a sua 122ª edição com os escritores já conhecidos do público leitor, por estarem sempre nas páginas do Suplemento Literário A ILHA, mais alguns deles que já haviam passado por aqui e que agora voltam a marcar presença.
Quando o Grupo Literário A ILHA acaba de completar 32 anos de caminhada, criando e mantendo espaços para a literatura catarinense, o número de escritores que se reúne em volta dele aumenta. E o projeto do novo livro com a história do grupo e de todos os escritores que fizeram parte dele, consequentemente aqueles que fazem a história da nova literatura desse Estado Catarina, está sendo desenvolvido e deverá ser publicado até a data do nosso próximo aniversário, em junho de 2013.
Neste ano de 2012, quando comemoramos os 32 anos, recebemos várias homenagens, como na Noite da Poesia de São José, no Literanoite, também de São José, e na Tarde Literária de Ascurra, assim como através da escolha do coordenador do Grupo A ILHA como Personalidade Literária de 2011, pela Academia Catarinense de Letras e Artes.
Nesta edição, a merecida homenagem ao grande escritor brasileiro Jorge Amado, pelo centenário de seu nacimento neste ano.

 

 

RECEITA

Júlio de Queiroz

Eu preciso é de chorar;
deixar que um rio me lave;
bater com os pés, ranzinzando,
rolar no chão da calçada
e me negar à caminhada
que outros me apontam, sem ir.
Mas vou, manso, pelas ruas
dando bons dias a todos,
sorrindo, vendendo olhares,
quando a melhor solução
seria dar um gemido
que nunca mais se acabasse.

 

 

ESCRITOR PARA MULTIDÕES

Por Enéas Athanázio

Este é o Ano Jorge Amado. No dia 9 de agosto acontecerá o centenário de nascimento do escritor, ocorrido em Ferradas, então distrito de Itabuna, na Bahia, na região do cacau, e que inspiraria vários de seus romances. Dentre as inúmeras matérias que têm sido publicadas a respeito do assunto, merece um comentário a reportagem feita por importante revista de cunho cultural e educativo sob o título de "Um escritor para multidões"(*). Segundo ela, Jorge Amado (1912/2001) "continua cultuado como um dos grandes da literatura do Século XX." E não é para menos, porque calcula-se que foram vendidos 30 milhões de exemplares de suas obras, em todo o mundo, traduzidas para 48 idiomas diferentes, fato extraordinário na carreira de qualquer escritor, ainda mais em se tratando de um latino-americano e brasileiro. Só a Companhia das Letras (SP) vendeu 240 mil volumes das 37 obras que editou. Não existe exagero, portanto, em considerá-lo um escritor para multidões.
A par da constante atividade de escritor, escrevendo e escrevendo, Jorge Amado viveu com intensidade a vida profissional e teve uma existência repleta das mais variadas e muitas vezes inesperadas aventuras. Muito cedo foi residir com a família em Ilhéus, onde seu pai, que fôra vítima de uma tocaia, se sentia mais seguro. Lá viveu anos da infância, aqueles que costumam ser fundamentais para qualquer escritor e por isso se considerava um legítimo "grapiúna." Enviado para o internato, em Salvador, não se ajusta aos regulamentos e foge, realizando uma caminhada solitária de dois meses, através do sertão, até Sergipe, onde residia o avô. "Pelo caminho fui parando e fazendo amizades", lembrava ele, cheio de saudades. Depois, convencido pelo pai, retorna a Salvador e, mais tarde, ao Rio de Janeiro, onde se bacharela em Direito, ainda que nunca tivesse a menor intenção de fazer uso do canudo. Anos mais tarde foi eleito deputado federal por São Paulo e teve o mandato cassado. Exilado, refugiou-se em Paris, de onde foi expulso, e então foi parar na antiga Tchecoslováquia, onde residiu num castelo adaptado para abrigar exilados, período que é relatado em minúcias por Zélia Gattai em um de seus livros. Serenadas as coisas, fixa-se afinal em Salvador, na célebre casa do Rio Vermelho, à Rua Alagoinhas, número 33.
Com a publicação de sua obra, pouco a pouco, se transforma em escritor universal - como acentua a equipe da revista. Seus livros se espalham pelo mundo, ainda que muitos tenham sido queimados em praça pública, em autênticos autos-de-fé, pelos agentes da ditadura. Torna-se amigo de figuras de renome mundial, como Sartre, Simone de Beauvoir, Picasso, Illya Ehrembug, Neruda (seu compadre) e muitos outros. Recebe inúmeros prêmios e honrarias, é eleito para a Academia Brasileira de Letras e sua obra é adaptada para o cinema, o teatro e a televisão. "Não pretendi nem tentei jamais ser universal senão sendo brasileiro e cada vez mais brasileiro. (...) E, se meus livros foram felizes pelo mundo afora, se encontram acolhimento e estima dos escritores e leitores estrangeiros, devo essa estima à condição brasileira daquilo que escrevi, à fidelidade mantida para com meu povo, com quem aprendi tudo quanto sei e de quem desejei ser intérprete" - afirmou o escritor (pp. 59/60). A Fundação Casa de Jorge Amado, com sede no coração do Pelourinho, por ele eternizado, é a guardiã de sua obra e de sua memória. Especialistas conhecedores e dedicados se esmeram nos cuidados ao precioso acervo, visitado por brasileiros e estrangeiros em quantidade cada vez maior. Neste ano do centenário de seu nascimento, o grande Jorge Amado, que tão longe levou o nome do país, merece nossas homenagens.

 

 

ERA DE AQUÁRIO
E PEIXES MORTOS

Jacqueline Aisenman
(Suiça)

Falsos profetas,
Estetas
da maldição.
Fogo nas palavras,
ego no lugar
do coração.
Cegam, ensurdecem,
curvam, aniquilam.
Farejadores dos fracos:
hienas, abutres,
arquitetos da destruição.
Ameaçam, corrompem,
castigam, usam as chibatas
da religião.
Falsos profetas,
abjetos criando objetos...
Tecem futuros incertos
com as linhas
da manipulação.

 

 

O ANO DO BRASIL EM PORTUGAL

Por Luiz Carlos Amorim

Meu primeiro texto premiado foi sobre os laços que unem Brasil e Portugal, quando eu tinha uns onze anos ou doze anos e estudava no Grupo Escolar Teresa Ramos, em Corupá - SC, a Cidade das Cachoeiras. Tratava-se de um concurso de redação sobre a relação de amizade entre os dois países, com o título de "Portugal, Meu Avozinho", se não me engano, de âmbito nacional, e em cada cidade era escolhido o melhor texto dos estudantes participantes. Não lembro direito, mas parece que entre os vencedores de cada cidade seriam escolhidos algum para visitar a terrinha. Eu tirei o primeiro lugar da minha cidade e recebi o troféu, que não tenho mais, faz muito tempo e eu o perdi - em solenidade no cinema da cidade - quando ainda havia cinema nas pequenas cidades, uma honraria. Acho que foi daí que surgiu a minha preferência pela poesia de Pessoa, assim como também de Quintana e Coralina.
Lembrei disso quando soube, falando com minha filha que está em Lisboa, do Ano do Brasil em Portugal, lançado em meados deste agosto, no Rio de Janeiro. Os eventos começam no dia 7 de setembro deste ano, data da nossa independência, e vão até o dia 10 de junho de 2012, dia de Portugal. Nos dez meses de programação estão previstos, nos dois países, eventos culturais e também encontros e atividades nas áreas de economia, educação, tecnologia, turismo e esporte.
Desde 16 de agosto, até 5 de outubro, artistas e produtores poderão se inscrever para participar do processo de construção da programação do Ano do Brasil em Portugal. Serão selecionadas 72 atrações musicais para compor a programação do Espaço Brasil, de janeiro a junho de 2013, através do Edital de Música Ano do Brasil em Portugal, do MEC.
Há, também, o Edital de Chancela, pelo qual se pode inscrever atividades em outras modalidades de arte que não a música. Neste edital pode ser encaixada a literatura.
É uma ótima iniciativa de fortalecer a integração entre os dois países irmãos. Estou inclinado a inscrever algum projeto dentro da literatura, pois pretendo ir para Portugal ainda este ano. Não vejo a hora de voltar à terrinha, para ficar mais tempo e conhecer mais, porque há muito para se ver em Portugal.
E participar do Ano do Brasil por lá. Representar a Santa e bela Catarina, este pedacinho tão açoriano do Brasil, representar Florianópolis e seu Ribeirão da Ilha, berço da colonização açoriana por aqui.

 

 

CONFIDÊNCIAS

Erna Pidner
(Ipatinga-MG)

Noite, tuas horas vazias
Abrigam momentos de paz
Em que abro minh´alma
Aos murmúrios da emoção.
Liberta do ter, agir, construir
Para apenas ser
Na quietude do infinito.
Estrela, a indicar o caminho
Desde as mais remotas eras
Até o incerto amanhã,
Absorvo teu brilho cadente
Ao banhar-me na luz
Do que foi e será
No limiar do século ascendente.
Espaço entre o ser e o não ser
Desprendo-me dessa vã realidade
À procura de duendes
Entre fímbrias de teu manto.
Doce fada madrinha
Guardiã de meus segredos
Cúmplice de meus medos!

 

 

JORGE AMADO

Por Urda Alice Klueger

Eu provenho de uma família humilde do Sul do Brasil. Minha região é de colonização alemã, e meu Estado, o de Santa Catarina, caracteriza-se por ser formado de muitas "ilhas culturais". A região alemã onde me criei é ladeada de um lado por uma região de colonização italiana; do outro, pelos descendentes dos açorianos que para cá vieram no século XVIII. Meus pais eram pequenos comerciantes sem muitas luzes, e tenho certeza de que nunca passou pela cabeça deles que uma das filhas se tornaria uma escritora, e que um dia iria conhecer pessoalmente um monstro sagrado como Jorge Amado.
Criei-me lendo muito, muito e muito, e lá pelos 12 anos deparei-me a primeira vez com um livro de Jorge Amado. Foi ler e gostar nosso grande escritor fascina ao primeiro contacto. E passei a minha vida a procurar os livros dele, a viver através dos livros uma Bahia fantástica e maravilhosa, e o tempo passou, e um dia já tinha mais de trinta anos e fui conhecer a Bahia.
O Brasil é muito grande. Da minha casa, em Blumenau/SC, até Salvador/BA, são 3.000 km e 48 horas de ônibus, mas tudo correu bem, e num final de tarde cheguei a Salvador. Deveria estar moída pelos dois dias e duas noites no ônibus, mas a fascinação que pressentia na Bahia de Jorge Amado me tirou todo o cansaço: foi só tomar um banho e fui para a rua, a descobrir o que havia de verdade no que havia lido. E foi como se conhecesse a cidade, foi bem como se entrasse num livro de Jorge Amado!
A Bahia é um lugar mágico! Conheço, hoje, 16 países e 16 estados brasileiros, e continuo afirmando que a Bahia é o melhor lugar do mundo! A Bahia mistura tudo: Arte e a História, o Brasil e a África, a beleza e o encanto, as religiões e a magia. Totalmente encantada com a Bahia, nos seis anos seguintes voltei lá sete vezes, enfrentando, a cada vez, 48 horas de ônibus. Só para que aquilatem o quanto a Bahia é maravilhosa, nesse ínterim fui passar um mês em Paris. Todos nós, brasileiros, sentimos uma grande fascinação pela Europa, e eu achei que passar um mês em Paris seria a coisa mais maravilhosa da minha vida. Só que, depois que estava uns quatro ou cinco dias em Paris, tudo o que eu pensava era "O que é que eu estou fazendo aqui? Por que é que não fui para a Bahia?"
Encantadora Bahia, só ela poderia produzir um escritor como Jorge Amado!

 

 

É NOITE

Maura Soares

É noite.
Vinte horas.
Chove demais.
A lua minguante se esconde nas nuvens
que teimam em derramar suas lágrimas.
Aqui, guardadinho no coração, o AMOR para Amar.
Quietinha, ouço melodias,
às vezes acompanho quando sei a canção.
Lembro do amado, aquele que também faz versos;
aquele que na lida da vida
quase não tem tempo pra pensar.
"A vida é cheia de desafios que enfrentados,
podem se transformar em oportunidades",
disse Maxwell Maltz.
Sigamos então a nossa lida, meu amado,
para que possamos bem juntinhos,
no calor das cobertas,
fazer a nossa festa
e deixar nosso amor agasalhar.

 

 

A ARTE DE LER

Por Harry Wiese

É preciso que haja, no mínimo, um pouco de amor nas páginas da vida, dos livros e dos jornais. Assim poderia expressar-se o poeta nas suas criações literárias. Talvez Camões o tivesse dito, ou Goethe ao anunciar o Romantismo em sua obra "Os sofrimentos do jovem Werther" (Die Leiden des jungen Werthers). Assim, também, desejo dar início a minha crônica, neste jornal, no ano de 2012, embora tardiamente. Que os bons ventos e os bons exemplos dos nossos autores clássicos me guiem, para o meu bem e o bem dos meus distintos leitores!
É preciso que haja emoção nas páginas dos livros diz-se hoje ao folhear um compêndio bem impresso ou bem digitado em páginas virtuais. Mas vamos à relevância dos fatos. O tempo não espera!
Além de jornais, revistas e livros técnico-científicos, é necessário ler os poetas e escritores, pois são eles que apresentam a veracidade histórica nas linhas e entrelinhas do texto. Os sentimentos e os desejos dos personagens refletem a verdadeira situação socioeconômica e cultural de uma nação e de um povo.
Sábias são as palavras do ensaísta e poeta mexicano Octávio Paz, autor de "O labirinto as solidão, quando afirma: "Poeta é aquele que sabe ouvir seu povo e transformar o que ouviu em imagens, ritmos e metáforas. O poeta é a memória do seu povo, lembra o que deve ser preservado. Um povo sem poesia é um povo sem memória." Com referência à solidão, mergulhou fundo ao dizer: "A solidão é a profundeza última da condição humana. O homem é o único ser que se sente só e o único que é busca de outro."
Sábias também são as pessoas que conseguem decifrar as metáforas e tantas outras figuras e transformá-las em mensagens cativantes. Ler é amar. Ler bem é o ápice da comunicação humana. Ler é a consumação do amor entre o escritor e o leitor. Um conhecido ator brasileiro parece ter chegado ao clímax desta relação amorosa, quando afirma: "Falar de livros com um ator é quase como conversar com um personagem. Choro e grito quando leio. Eu adoro ler e é isso mesmo, a literatura não pode acabar." Talvez seja por isso que eu escrevo, caro leitor! Sim, entre outras coisas, é por causa disso!
Se a literatura não pode acabar e se a literatura tem no bojo a verdadeira história, além de ser lazer, enlevo, encanto e conhecimento, o que nós podemos fazer em favor dela? Ou a favor de nós mesmos? Todas as respostas são válidas, desde que não se ignore o ato de ler.
Espera-se que mestres e não mestres tenham sabedoria tamanha que consigam despertar a graça da literatura nos seus pupilos para que encontrem o "amor" nas páginas da vida! Por amor entendem-se todas as satisfações que um ser humano possa alcançar.
Então, o que estamos esperando?

 

 

CONVITE

Apolônia Gastaldi

Entra comigo
No reino da ternura

Quero desvendar
O ser

Sou um evangélio
De loucuras
Inteiro
Feito de ingênuas
Criações

Um delírio exuberante
De utopias
Marcado de sonhos
Ilusões

Não vivo
Vibro

Vibro como se a vida
Fosse imensa
Colossal eternidade
Um universo de venturas
Ingênuas
Loucuras.

 

 

JACATIRÕES, OS PRECURSORES

Por Donald Malschitzky

Na semana passada escrevi que Nísia Andrade da Silva definiu os cronistas como "espiões da vida". Pensando bem, levo isso muito a sério, mesmo que seja somente para mim. Quando dá para compartilhar com os leitores, melhor, mas mesmo não sendo possível fazê-lo, não me afasto da missão de espionar e constatar a maravilha da diversidade em cada instante vivido, cada espaço olhado, cada pegada pisada. Nada, absolutamente nada se repete, há nuances ou diferenças brutais entre um metro quadrado e outro, um nascer do sol ou seu ocaso e outro e qualquer espaço ou suspiro no meio deles. Nos recentes dias do calorão, subi a Serra Dona Francisca em diferentes dias, coincidentemente na mesma hora e, todas as vezes, a combinação do ângulo da luz e do céu exageradamente azul me davam um "bem-vindo" inesquecível. Um "bem-vindo" que variava do branco ofuscante ao lilás pomposo, perfazendo o caminho com todas variações possíveis. Eram os jacatirões emoldurando a estrada com a ousadia da juventude e a dignidade da maturidade reunidas nas mesmas árvores.
Clima alguns graus mais ameno e o convite irresistível: o compromisso pode esperar um pouco, o espetáculo, não, e o pé ficava mais gentil com o acelerador. Mais beleza: neste ano as bromélias também resolveram mostrar suas fantasias com ousadia.
O jacatirão, além de sua beleza, tem uma missão edificante: é uma espécie de João Batista da natureza: vive, no máximo, 20 anos e faz parte da vegetação do estágio médio de regeneração da floresta, preparando o ambiente para as árvores de crescimento lento e vida muito longa. Quando tudo está pronto, ele morre e essas tomam seu lugar. Uma chegada precedida por flores. Ah, se todas as chegadas fossem assim.
Agora veio a chuva e veio o vento (em Joinville um tornardo andou aprontando um pouco além da conta) e muitas flores o seguiram, imitando borboletas desenfreadas, mas outras já se mostram, de outra forma, em diferentes buquês, afinal, sua missão não depende do reconhecimento, mas da vida. E ainda dão as boas vindas a quem sobe a Serra. Ou será que só indicam o caminho aos viajantes e perguntam: "Pressa pra quê?"

(Esta crônica é dedicada a Luiz C. Amorim)

 

ÁRVORE-FLOR

Luiz Carlos Amorim


Meu pé de jacatirão
caiu semente em mim
brotou viçoso e verde,
fincou raízes,
cresceu frondoso
e desabrochou,
floresceu cores.
Pintou de branco,
vermelho e vinho
todo o chão
do meu coração...

 

 

REZA VELA

Marinaldo Silva e Silva

A vela é a oração que dança
A cera, a prece recolhida
Há uma alegria suprimida na dor e dolorosamente erguida

Pediram pra eu deixar de contar dinheiro
Fui tirando do saleiro todas as minhas metades
No bolso ficou a saudade
E um rombo pro costureiro

Costureiro, rombo, saudade, bolso, tudo faz vela
A vela do mar faz vela
A vela aniversaria os contrários.

A vela aniversareia
Universariando a reza
Bota na testa a cruz tirada da veia.

A vela é uma dança em oração
Que só cansa quando apaga.
Um vento fraco a incendeia
Enquanto um forte, a desaba.

Reze baixo.

 

 

PRA FALAR DE PRIMAVERA

Por Ana Ribas Diefenthaeler

"Não se admire se um dia um beija-flor invadir a porta da sua casa, te der um beijo e partir. Fui eu quem mandou o beijo". A canção de Vital Farias, o compositor paraibano que nos deu, entre outras canções, a maravilhosa "Caso Você Case", imortalizada pela voz de Elis Regina, embala a ensolarada tarde de sábado, no interior gaúcho. Primavera alma a dentro, observo, da janela, o pequeno passarinho bebendo da doce seiva das flores. Azul quase metálico, em suas penas, fica parado, o longo bico abrindo espaço entre as pétalas.
Eu olho e quero crer na beleza. Eu ouço o passarinhar múltiplo por entre as várias árvores de minha infância, tantos cantares, tão belos... Mas não o beija-flor. Silencioso, ele recolhe seus sumos com tamanha delicadeza e dedicação, que emociona os olhos meio aflitos, meio solidão. Mergulhada em tons e cores, quase não percebo que o bichinho chega muito perto de mim - passa, voo rasante, a um centímetro de meu nariz. Eu me surpreendo e sorrio, rio de minha vã inquietude. Nem consegui ainda identificar na memória um bom poema sobre primavera - a gente se inspira, que coisa, romanticamente, em meio ao inusitado da natureza se expressando, assim, em plenitude.
E não é de primavera este meu visitar gaúcho. É puro outono, ocaso, despedidas. Mas há algum sentido maior, deve haver, nesta experiência quase metafísica com o passarinho frequentador de jardins. E ele quase me beija, vai saber a razão... Quem sabe tivesse eu alguma doçura na face para compensar o amargo sal do mirar.
Outro deles, um pouco mais clarinho e menos fosforescente, dança, nervoso, buscando novas flores, ansioso pelo néctar, bico assanhado, querendo entrar... Os hibiscos do quintal de minha mãe são tímidos, não se abrem, assim, para qualquer um. As borboletas perambulam seus azuis, mas ele, o pequeno beija-flor tão clarinho, fica parado no ar, qual grito de vida e morte, quando se encontram na garganta...
E, no entanto, meu passarinho beijoqueiro já não está por ali. Distraída com a paisagem, nem vi quando partiu, quietinho, sem dizer adeus.
Ficou em mim o perfumado ar de seu viço, a energia violeta espalhada por suas asas, a alegria ruidosa de suas penas. Talvez, para acalmar as minhas.

 

 

IMAGINAÇÃO


Célia Biscaia Veiga(Jlle)

Quem pode dizer em sã consciência
Que nunca teve arroubos de inocência
Em que sonhou que podia voar?
Tenha sido na infância ou na adolescência,
Ou mesmo adulto, sem incoerência,
Teve o desejo de contra o mal lutar?

Cada dia ver um lugar diferente,
Conhecer todo e qualquer tipo de gente,
Viver a cada dia uma nova emoção...
E através do livro, de repente
Podemos viver isso tão somente,
Indo nas asas da imaginação...

 

 

RESGATAR A EDUCAÇÃO BRASILEIRA

Por Luiz Carlos Amorim

 

Venho falando do abandono da educação brasileira há anos. Do ano passado para cá, intensifiquei o foco, escrevi vários artigos sobre o tema, porque a situação tem se agravado, não só pelo resultado constatado na aprendizagem dos estudantes, mas pelo estado cada vez mais precário das escolas públicas e do descaso para com os professores. Além disso, nos últimos anos foram feitas modificações no sistema de ensino – alfabetização, ensino da matemática, etc., que ao invés de melhorar a educação, prejudicaram ainda mais os estudantes do ensino fundamental, que estão chegando ao terceiro, quarto ano sem saber ler e escrever. E isso reflete nas etapas seguintes, é claro, no ensino médio e também no superior, pois se a base não é boa, todo o resto estará perdido.
A União e os Estados – o Ministério da Educação e as Secretarias de Educação – não estão dando a devida atenção à educação, não estão investindo na educação. Parecem não se dar conta de que um ensino de qualidade é condição sine qua non para que tenhamos, mais adiante, pessoas educadas e qualificadas para trabalhar e ter uma vida digna, para que tenhamos profissionais qualificados e dirigentes preparados, com um mínimo de cultura para desempenharem um bom governo à frente do país, dos estados,dos municípios, das grandes empresas.
Vendo e sentindo essa situação, evidenciada ainda mais com o resultado do Ideb e com a colocação do Brasil em 88º lugar no ranking internacional da educação, a sociedade gaúcha e catarinense está se mobilizando para identificar os problemas e encontrar soluções, chamando os gestores do ensino - MINC e as Secretarias de Estado da Educação – e os detentores do poder dos estados e municípios, para participar da discussão. Trata-se da campanha “A Educação precisa de respostas”, lançada neste final de agosto.
As primeiras perguntas já foram lançadas no primeiro debate realizado em Porto Alegre, quando o ministro Mercadante, da Educação, esteve presente. Ele próprio admitiu que o professor precisa ser melhor qualificado e mais valorizado. Admitiu, ainda, aquilo que temos repetido várias vezes: mais de um terço das crianças do inicio do primeiro grau, com oito anos, não aprenderam a ler e escrever, o que compromete, como já dissemos, toda a vida escolar.
Então ele concorda e sabe que o ensino fundamental e médio estão com a qualidade bem abaixo do necessário. Mas volta a insistir numa modificação no Ensino Médio que, ao invés de melhorar a qualidade, pode comprometer ainda mais. Ele quer que as treze disciplinas do Ensino Médio sejam aglutinadas em apenas quatro áreas, porque a excessiva quantidade delas estaria prejudicando o rendimento dos estudantes. Como já disse, isso é temerário, porque o que parece, na verdade, é que estão querendo diminuir o conteúdo curricular para que os estudantes possam tirar melhores notas no Enem e, por conseguinte, que a educação brasileira melhorou.
A mudança no Ensino Médio não será um tiro pelo culatra, como já foram outras “reformas” feitas no famigerado governo Lula? Essa é uma das muitas perguntas que também terão que ser respondidas.
A verdade é que, com o ensino deficiente, a qualificação para o trabalho e para o ensino superior estará prejudicada, como o próprio ministro conseguiu enxergar. E como isso é uma bola de neve, a formação de professores, como de outros profissionais, também não terá a qualidade desejada, pois o ensino superior é a última etapa da cadeia educacional.
Então o governo, a União, sabe o estado deplorável em que se encontra a educação brasileira. O que precisa fazer é responder todas as perguntas sobre os entraves que jogam a qualidade do nosso ensino cada vez mais para baixo e começar a investir para melhorar a qualificação de nossos professores – e de outros profissionais -, na melhoria das instalações das escolas públicas, assim como equipa-las adequadamente e pagar dignamente os professores.
Sempre defendi que os professores dos primeiros anos do Ensino Fundamental devem ser os mais bem pagos – por isso devem ser altamente qualificados – pois a base de tudo é o começo, o inicio da jornada para aquisição de conhecimento, de educação e para a formação de caráter. Não que os outros professores não devam ser reconhecidos, mas se começarmos valorizando aqueles lá do inicio da cadeia, todos os outros serão, consequentemente, bem qualificados e bem pagos. Se o ensino tiver qualidade, os educadores formados com ele também terão qualidade.

 

 

MEU POVO

Mario Tessari

Do topo de minha descrença,
plantada e colhida
em tantos fracassos,
contemplo a cultura
e o lazer do meu povo:
boates enfumaçadas,
discotecas ensurdecedoras,
porres completos,
piadas obscenas,
prostitutas sociais,
máquinas envenenadas,
tóxicos milagrosos.

Temo que meu povo
sinta somente prazer
ao acertar o tiro,
ao ver o sangue correr.

 

 

LUARES

Por Mary Bastian

Nunca fui capaz de aprender sobre as fases da Lua. Não sei quando é crescente, minguante, quarto crescente. Só reconheço a lua cheia, ainda bem. Sempre fui apaixonada por noites enluaradas e, quando criança, ficava sentada no pátio acompanhando a caminhada dela no céu noturno.
Como passei mais da metade da vida no interior, a gente sentava na calçada conversando só com a claridade da Lua por muito tempo, até dar sono.
Outra coisa que sempre me intrigou foram as marés e por que subiam e desciam dependendo da Lua. E por que as crianças dependiam da mudança das luas para nascerem. "Vai mudar a Lua esta semana, te prepara", eram as recomendações das avós, das tias e das vizinhas.
Adorava a canção "Luar do Sertão", e imaginava como seria aquele lugar descrito na música em que a Lua parecia um "sol de prata prateando a solidão." E meu pai pegava na viola e a gente cantava com ele.
Enquanto morei no interior, me regalei vendo a Lua nas suas diferentes fases. Namorei no portão sob o luar e ouvi muitas histórias sobre ela da boca dos antigos, inclusive aquela de que "Lua avermelhada, desgraça anunciada"; ou "Lua encoberta, chuva na certa". Enfim, coisas do interior do Rio Grande do Sul, que não sei se por aqui também são assim.
Aqui, lá da casinha do Bom Retiro, aquela em cima do cocuruto da rua Roberto Ponick, eu tinha uma visão completa da Lua, nada atrapalhava a visão daquela coisa linda lá no céu. Era o meu presente dos anjos. Depois me mudei para a rua Ágata, e o apartamento tinha portas e janelas por todos os lados, pois o prédio era ovalado. Então eu seguia o luar pelas aberturas. E quando ia dormir, ele já estava no chão do meu quarto. Lindo! E eu dormia com portas e janelas abertas.
Já onde moro agora, não posso fazer isto, porque o apartamento é térreo e a dignidade não permite dormir com a casa escancarada. Mas quando me preparo para encerrar o dia, espio e procuro pela Lua. Às vezes, nos encontramos, mas ela me parece muito longe e ainda não descobri por que, mas hoje ela estava lá na janela do meu quarto, acho que olhando meus vasinhos de flor. Então vou dormir mais feliz, porque um pedacinho de luar vai me fazer companhia. Boa noite.

 

 

POEMAS SÃO SEMENTES

Maria de Fátima Barreto Michels

Poemas são palavras
a proteger a germinação do sentir

São o primeiro impulso
na intimidade da semente

São asas a se enfunarem céu acima

São sementes de outros poemas
que se casaram e geraram novos poemas-sementes.

 

 

O MESTRE DAS PALAVRAS

Por Sonia Pilon

O auditório estava lotado. Mais de 500 pessoas, seguramente. A vinda do grande Mestre das Palavras havia deixado a região em polvorosa. Ônibus lotados de estudantes estacionaram na Praça Ângelo Piazera bem antes da palestra. Os pequenos caminhavam em fila indiana, segurando a cordinha para não se perderem na multidão, orientados pelas professoras. Câmeras fotográficas, gravadores e celulares estavam prontos para disparar a qualquer momento.
A espera parecia interminável, tal era a expectativa de receber um convidado tão ilustre. Até que uma entrada lateral da grande tenda de lona se abriu e ele entrou, com uma fragilidade cheia de força e uma presença que tomou conta de todo o espaço. Era ele mesmo, com aqueles cabelos brancos, os olhos brilhantes e um sorriso doce estampado no rosto, encantado com tanto carinho.
Foi aí que aquele homem tão admirado, ícone de tantas gerações, começou a falar de sua vida, da dura experiência no cativeiro, por defender ideias e ideais de liberdade e justiça social, como jornalista e livre pensador... Falou de seus desenhos e caricaturas, do limão que transformou em limonada, ao passar a desenhar e escrever para crianças. Utilizou na prática a máxima de um lendário revolucionário e provou que não perdeu a ternura, jamais!...
Estimulou os pais e professores a lerem histórias infantis para as crianças, alimentando sua ludicidade e conduzindo pelo mundo mágico da literatura. Que uma das maneiras de se conhecer o mundo e ter respostas para a vida é mergulhando nos livros.
Aquele homem adorável e carismático, que arrancou risos e gargalhadas em muitos momentos, também confidenciou detestar gramática e gramatiquês, com suas regras que engessam os textos e levam para bem longe a criatividade inerente às crianças... E que a melhor forma de se aprender a ler, escrever e se expressar, passa pelos livros.
"Uma pessoa que lê está mais aparelhada para a vida. Uma pessoa semi-analfabeta tem que ser jogador de futebol, ou ganhar na loteria", disse ele. E todos concordaram.
Mas, para tristeza de todos, a palestra terminou. Uma fila imensa se formou, de leitores-admiradores à espera de um autógrafo daquele homem tão querido por todos. E ele fez questão de atender, um a um...
Até que chegou a hora da imprensa... Também os jornalistas estavam ali, incondicionalmente rendidos pela simplicidade daquele ícone da literatura nacional, que também era lido em vários cantos do planeta.
Uma repórter veterana, que também se atreve no universo literário, expressa sua admiração por ele e sua obra, e é surpreendida com um abraço e um beijo na mão. Um gesto de um cavalheiro genuíno, da mais alta estirpe, cada vez mais raro nesses dias áridos do século 21, em que a falta de gentileza e respeito imperam...
A coletiva de imprensa acabou, mas o rastro luminoso deixado por Ziraldo, em mais uma de suas visitas a Jaraguá do Sul, ficará para sempre na memória de todos os que beberam suas palavras, na 6ª Feira do Livro.

 

 

SAUDADE II

Aracely Braz
(S.Francisco do Sul)

Passa o dia, passa a noite,
E pela espuma do mar
Passa a brisa alvissareira
Mas não passa esta saudade.
De anteontem, de ontem,
De há pouco, aperta agora...

Pretendo jogá-la fora,
Mas a coragem não vem.
Oh, saudade, dê uma volta,
Mas não largue minha escolta:
Sem você,
não sou ninguém...

 

 

A FORÇA DA PALAVRA

Por Karine Alves Ribeiro

Um dia, nos meus catorze anos, a professora me designou dissertar sobre a força da palavra escrita. Se bem me lembro, a minha nota foi oito. Naquele tempo, eu já sentia, mas não era capaz, ainda, de discorrer sobre toda a dimensão que a escrita possui. Coisa que, aliás, ainda hoje, julgo não ter o completo domínio.
As palavras vêm até mim, às vezes, claras como a luz da manhã. Às vezes, coloridas, como a aurora boreal. Às vezes, sorrateiras, como estrelas espiãs. Nós, os ditos literatos, somos, na verdade, compositores de canções mais ou menos belas - lançadores de chamas. Somos, talvez, apenas, malabaristas das palavras, equilibrando nos ares, o que há no prelúdio da musicalidade do ser.
A força da palavra escrita está no âmago do que é eterno. Mais do que a palavra falada, que sucumbe ao instante que passa, a palavra escrita vive, seja num pergaminho, em papiro, placas de metal ou bronze, ou numa simples folha de papel, pichada numa parede morta, incisa no tronco de uma árvore, grafada nas lápides, ou nalgum troféu. Hoje em dia, mais do que nunca, nos sites e nas redes sociais, ela é forte, embora nem sempre verdadeira, vai se espalhando pelo mundo como rizoma que não se acaba.
Apenas penso que se deve ter cuidado e buscar no leito da sabedoria o quê escrever, e para quê escrever. Porque a palavra escrita tem missão sublime e o poder de alcance de um míssil lançado de Júpiter: revira as almas acomodadas, premia o gênio, ratifica o que foi acordado, ramifica as relações humanas, fortalece as amizades, denuncia as injustiças, informa, afronta, às vezes agride. Mas isto é quase um pecado quando acontece, porque as palavras foram criadas pelo homem, graças à lei de progresso, instituída por Deus. Ofender ou agredir a outrem pela palavra é, no mínimo, imoral, crime, segundo a lei de amor universal.
Compor um texto, um poema, ou seja, desenhar com palavras uma ideia, é algo que aprendemos aos poucos a fazer. Defendo que ao escrever, devemos estar conscientes, sempre, da magnitude que palavras tais como: amor, vida e Deus, possuem. Cônscios de que o universo reside nos "nós" (da vida), na noz (que alimenta e adoça) e em todos nós (seres humanos). Que a palavra escrita, em si, deve esquecer do que é destruição e cuidar apenas de criação.

 

 

AINDA

Marcos Antonio Meira

Ainda é possível sentir a alegria,
enxergar a vida em uma criança.
Por que, então, querer calar a sua voz
e eliminar a sua espontaneidade?
Desconhecemos os motivos,
mas facilmente agredimos uma criança.

A educação, porém, não pode ser a fórceps,
tem de ser um movimento natural e voluntário.
Afinal, emudecer o coração de uma criança
é o mais grave delito que se pode praticar.
E o calar a boc de uma criança
significa silenciar a vida.

 

 

MANEZINHO DA ILHA, CERTIFICADO DE ORIGEM

Por Norma Bruno

De três em três meses vou ao Jardim da Paz renovar as flores do túmulo do meu pai. Os intervalos coincidem com algumas datas significativas. Natal e Dia dos Pais, naturalmente, e também o aniversário de sua morte e o do seu nascimento. Hoje, 24 de março, ele faria 84 anos, então fui até lá, cumprir meu compromisso filial.
Estou sem carro, de modo que tô de ônibus. E, "porque hoje é sábado" e os horários ficam rareados, ao chegar ao Terminal pedi a um senhor de uniforme azul e cabelo pintado de preto, que me indicasse a linha que leva ao Jardim da Paz. Foi o suficiente. - Morreu alguém da sua família, foi?, a mão já apoiada sobre o meu ombro e o olhar pesaroso (desandei a rir). - Meu pai, eu disse. Há quatro anos! Hoje seria aniversário dele. Vou lá trocar as flores. - Tadinho! Meus pêsames!, disse ele apontando o ônibus linha Saco Grande via João Paulo, parado na plataforma. Agradeci e me alojei perto da porta. Ele voltou: - A senhora sabe onde fica? O sorriso limitado por dois caninos de ouro.
O ônibus seguiu em direção ao bairro, uma profusão de mansões, casas pequenas, condenadas, espremidas entre os paredões e os prédios em construção que contornam a Baía e o que restou do mangue. Aproximadamente a uns duzentos metros do Jardim da Paz há um ponto de ônibus, de modo que, preparada para descer, puxei a campainha, mas o motorista passou direto. Eu protestei, preocupada em ter que voltar todo aquele trecho a pé. O ônibus parou exatamente em frente ao portão do Cemitério. - Vai lá, vai minha filha! Vai rezar pro teu paizinho! Era o seo Alcebíades, o nome dele, me olhando pelo espelho interno!
É por essas e por outras que eu fico indignada quando alguém diz: - As pessoas daqui são fechadas! Fechadas uma ova! O nativo autêntico, o mané com Certificado de Origem como é o caso do seo Alcebíades, é "dado", é solícito, é hospitaleiro. Nem bem a pessoa chega à sua casa, ele já sai oferecendo seu café ralo, vai fazendo confidência e, principalmente, já vai especulando tudo sobre a tua vida. Te aprecata!
Nesse tempo em que "Manezinho da Ilha" virou grife e todo mundo se outorga o título de "Mané", é preciso prestar atenção: a pessoa pode saber falar "olhó lhó!" e te chamar de "quirido", pode até apresentar a certidão de nascimento, mas… Fez doce ou arregô não é "legito"!

 

 

OBJETIVIDADES e
RINOCERONTES

Clotilde Zingali
(São Paulo)

permanecer fragmentada
estrangeira
alimária

não deveria falar tanta bobagem
desvirtuar
ter essa paciência
bicho no encalço
deveria ser rinoceronte
revestida em chifres, couro e lama
precipitada, atirar-me

 

 

LITERATURA INFANTIL

A MARGARIDA LILÁS

Por Else Sant´Ana Brum

Num lugar bem longe daqui havia um campo de margaridas brancas. Todas as manhãs, o sol lançava seus raios dourados sobre elas e dizia:
- Eu me vejo em cada miolo amarelo destas brancas margaridas!
Elas, então, sorriam para o sol!
Mas, no meio de tantas margaridas sorridentes havia uma que não sorria. Vivia triste, com carinha de choro. O sol não demorou a perceber e, intrigado, mandou um de seus raios conversar com ela.
- Que acontece com você? Por que não sorri como suas irmãs?
- Ah! Raio de sol, eu vivo triste porque não estou contente com a minha cor.
- Por acaso, perguntou o raio de sol, você quer ser amarela como as margaridas do campo ao lado?
- Não, não, eu também não quero ser amarela, pois o meu miolo já é amarelo. Eu gostaria de ser lilás!
O raio de sol ficou com pena da margarida branca que não queria ser branca, pois uma vez ele também teve vontade de ser um raio de luar. Levou então para o astro-rei o desejo da margarida.
O sol ficou encabulado. Ele sabia bronzear, mas transformar branco em lilás ele não sabia. Mas lembrou de alguém que sabia.
- Vá chamar a Fada das Cores, disse ele para o raio.
Quando a fada chegou, sorriu ao conhecer o desejo da margarida branca e disse:
- Ah! É bem assim. Garanto que se ela fosse lilás, gostaria de ser branca.
Mas, como tinha todas as cores em sua palheta, não gostava de ver ninguém triste e queria retribuir ao sol toda a luz que ele lhe dava, coloriu a margarida branca deixando-a lilás.
O raio de sol sorriu pelo final feliz.
A margarida lilás abrindo um grande sorriso, agradeceu à boa fada e naquele mesmo dia mudou-se daquele campo de margaridas brancas para formar outro campo de margaridas da sua cor, deixando ainda mais belo e colorido aquele lugar!

 

 

COSTUMES

Eloí Elisabet Bocheco

Alecrim-de-beira-d´água
não se planta em fevereiro
Se planta no aniversário
da avó da menina rendeira.
Manjerona-de-jardim
não se colhe pra tempero
Se colhe no por do sol
pra encher o travesseiro

Malva-rosa com perfume
não se joga na bacia
Se joga na direção
de qualquer estrela guia.

 

 

TARDE LITERÁRIA EM ASCURRA

 

Aconteceu, no dia 25 de agosto, no Colégio São Paulo, de Ascurra, a Tarde Literária, evento do qual fui o escritor convidado. Aliás, foi uma belíssima homenagem, na verdade, homenagem que eu estendo à todos os escritores catarinenses. Muita música, poesia, teatro - crônicas minhas foram dramatizadas por turmas de alunos, em performances emocionantes.
É muito gratificante e alentador ver uma instituição de ensino desempenhar com eficiência o seu papel de educar. Mais, ver ampliado e maximizado o seu trabalho, pois o Colégio São Paulo não transmite apenas conhecimento aos seus alunos, os seus educadores vão além, despertam a sensibilidade e o gosto pelas artes: música, literatura, teatro, declamação, artes plásticas.
Vendi muitos exemplares de livros meus, o que evidencia o gosto e o hábito da leitura, incutido nos alunos. E mais, os professores e a direção do colégio idealizaram e vem realizando um evento que, além de possibilitar a integração autor-leitor, divulga os escritores catarinenses entre os leitores em formação.
Então agradeço a esses professores e educadores pelo seu importante papel na educação e na disseminação da cultura. Foi uma tarde espetacular, quando a cultura, mais do que qualquer outra coisa, foi festejada e cultuada. (LCA)

 

 

PÉROLA NEGRA

Adriana Niétzkar


No calor desta noite encontrei-me como o espelho
de meus tempos; passado e futuro
entre olhares indianos
e sorrisos africanos
a diversidade na alma
o coração em calma
há calmaria no mar
a calmaria do vento
meu tempo-presente
contentamento.

 

 

PÉ DE PANO, PÉ DE LUA

Por Jura Arruda

Chegou a Joinville pelo aeroporto. Desceu tonto. Pegou um táxi. Parou num bar.
Pediu um xis-qualquer-coisa e comeu uma empada. Examinou a extensão da João Colin e
pensou que ali era um bom lugar. Procurou a fábrica cuja sirene berrava, não viu. Tomou
um gole de coca e pôs-se a pensar nos acontecimentos das semanas anteriores.
Ninguém notou, mas Neil Armstrong estava em Joinville. À entrada do
estabelecimento avistou uma mulher de lenço na cabeça, de vestido estampado e com
curiosos tecidos a cobrir-lhe os tornozelos e os pés. Ela aproximou-se e revelou um rosto
castigado e uma magreza débil. "Eu te conheço. Tu é turista". Soletrando um "sou sim",
ele assentiu. E ela continuou: "De outro país, digo mais". Com sotaque inconfundível e
quase a entoar o hino ele solfejou: "U.S.A". Ela torceu o nariz pra dizer "eu sei".
- Qual seu nome?
- Neil. E o seu?
- Rosa.
- O que são esses panos em seus pés?
- Inchaço... O que tá fazendo aqui?
- Vim dar um tempo, give a break, you know?
- Trabalha no quê?
- Sou astronauta. Estive numa missão pioneira.
- Ah é?
- Fui o primeiro homem a pisar na lua.
Rosa desabou a rir e o dono do estabelecimento quis pô-la para fora, mas Neil
pediu que a deixasse. Ela olhou atentamente nos olhos dele para dizer "tu tá mentindo, eu
sei". O astronauta sorriu e cochichou para ela "Você está certa, mas não conte pra
ninguém". Rosa piscou um dos olhos, olhou para os lados e disse: "Paga um café".
Foi nesse dia que Neil Armstrong sentou-se à mesa com Rosa do Pé Inchado e
revelou que tudo não passara de uma grande ficção, uma grande bulshit de Nixon, um
enorme erro que com certeza seria desvendado anos mais tarde. Rosa ouviu tudo sorvendo
ruidosamente o café da xícara, depois também revelou com tom soturno o seu segredo: já
havia pisado na lua. Olhou para baixo indicando seus pés. "Nunca me recuperei".
Levantou-se e saiu. Armstrong olhou-a arrastar os pés cheios de pano e sumir de sua vista.

 

 

A QUAL TRIUNFO?

Teresinka Pereira
(USA)



A qual triunfo
a fogueira do espaço
me conduz?
Aqui estou queimando-me
em ânsias,
oxidando meus desejos
sem assustar ninguém,
com medo de que riam
desta pela clara
como açúcar sem doce.
Minhas palavras
se reduzem ao abismo do tempo,
não vejo sequer o horizonte:
sou espectadora do nada!

 

 

CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA

De 24 a 29 de setembro deste 2012, será realizado o XX Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves-RS. Mais de cem poetas de vários estados brasileiros e outros países latinoamericanos e da América do Norte estarão presentes, para desenvolver uma programação diversificada, composta de recitais, performances, rodas de poesias, espetáculos teatrais, palestras e debates sobre as diversas formas do fazer poético.
Haverá lançamentos de livros de poetas participantes e projetos para divulgar a poesia estarão sendo levados a efeito, como “Poesia na Vidraça”, que consiste na exibição de poemas nas vitrines das lojas da cidade e “Uma ideia tece a outra”, quando poetas são levados para as salas de aula, além da presença da poesia na Via Del Vino.
O Grupo Literário A ILHA estará presente através do seu coordenador, que estará lançando seu novo livro, “O Rio da Minha Cidade”, menção honrosa nos Prêmios Cidade de Manaus.

 

 

AJUSTE DE CONTAS

Anair Weirich


Para cada bocado de alimento
tirado de um faminto,
há um político opulento.
Mas dele será cobrado
um aumento
no acerto de contas final...
Não importa se político
ou figurão social!

 

 

NOVO LIVRO DE CRÔNICAS

O novo livro de crônicas “O Rio da Minha Cidade”, de Luiz C. Amorim, Menção Honrosa nos Prêmios Literários Cidade de Manaus, foi lançado na Tarde Literária de Ascurra, em agosto, e terá lançamento também na Feira do Livro de Florianópolis, em novembro, e no Congresso Brasileiro de Poesia, em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul.
O livro tem cento e sessenta página e a apresentação do escritor e acadêmico da Academia Catarinense de Letras e da Academia Sul Brasileira de Letras, Júlio de Queiroz.
Reúne crônicas mais intimistas, mais pessoais do coordenador do Grupo Literário A ILHA, que colabora com dezenas de jornais pelo Brasil.

 

 

MENINO DE RUA

Mª.Carmo Santana(Jlle)

Sem teto, sem plano, sem rumo
Caminhas sem chão por toda cidade
Voltar para onde? Ninguém te espera.
Lutar pela vida em tão tenra idade!...

Junta-se ao bando com outros meninos
Que da mesma forma chegaram às ruas.
Perder a inocência, tornar-te cruel,
São regras do bando, sem defesas tuas.

As provas são duras, mas tens que provar
Que as dores do mundo não vão te matar.
Se a vida é guerra, alguém vai morrer.
Pra sair vivo vais ter que lutar.

Ferir o teu corpo com as próprias mãos,
Pra mostrar que és forte e a dor não te vence,
São testes que a vida na rua te exige;
Ao chefe do bando, agora pertences.

Chorar tu não podes, pois mãe tu não tens.
O colo que aquece a ti não foi dado;
Chegaste ao mundo por via do medo,
Carregas na alma amor embotado.

Mas vejo menino, em teu coração,
A seiva da vida que não quer morrer,
Implorando ao mundo tão organizado,
Que ceda um espaço onde possas viver.

 


EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 122 - Set/2012 - Ano 32
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
Contatos: lc.amorim@ig.com.br
prosapoesiaecia@yahoo.com.br


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