SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Edição on-line da revista do Grupo Literário A ILHA

Setembro/2006

VEM AÍ O SUPL. LIT. A ILHA Nº 100

Estamos chegando à edição número 100, que sairá no início de 2007. Desde 1980, quando foi fundado o grupo, a revista circula ininterruptamente, com periodicidade trimestral, firmando-se como a publicação cultural mais perene e mais representativa da literatura catarinense. Verdade que a revista não publica só autores de Santa Catarina: em suas páginas têm comparecido escritores de todo o Brasil e até de outros países, como Grécia, Estados Unidos, Rússia, França, Espanha, México, República Tcheca, Itália, Romênia, Uruguai, Chile, Índia, Argentina e outros, num intercâmbio salutar e produtivo. Publicamos aqui autores de outras línguas traduzidos para o português e eles publicam em seus países textos e poemas nossos traduzidos para o seu idioma, o que nos permite atingir leitores pelo mundo todo, independente do que circula na Internet. Nosso trabalho é lido na Grécia, na Índia, na Holanda, na Rússia, na Inglaterra, Estados Unidos e em outros países.
Mas a revista registrou o surgimento e a revelação de muitos escritores da terra, nesses 26 anos de existência. Tanto que, para comemorar esse marco de cem edições publicadas, estamos preparando um livro, que poderá chamar-se “Escritores Catarinenses e o Grupo Literário A ILHA”, que pretendemos lançar na Feira de Rua do Livro de 2007.
O livro tem o objetivo de reunir aqueles escritores e poetas que passaram pelo Grupo Literário A ILHA ou ainda participam dele e conterá pequena biografia, bibliografia, opiniões (críticas) sobre a obra e trecho de algum de trabalho do focalizado (excerto de romance, de um conto, um poema, uma crônica). A intenção é não fazer, simplesmente, uma lista de escritores com seus livros publicados, mas sim dar o máximo de informações sobre cada um, mostrando, inclusive, alguma coisa de sua lavra. Este seria o diferencial.
São quase cinqüenta escritores, alguns de projeção nacional, como é o caso de Enéas Athanázio, Urda Alice Klueger, Rosângela Borges, Eloí Bocheco e outros.
O Grupo Literário A ILHA é a entidade do gênero que mais tempo desenvolve suas atividades, com reconhecimento em vários outros estados pelo Brasil e até nos meios culturais e literários de outros países. Por isso precisamos comemorar esses 26 anos de existência e persistência e as cem edições da sua revista. (O Editor)

 

AMOR

Irene Serra

Não tenhas pressa de encontrar aquilo
Que amor se chama e em descrever me excedo.
Teu coração é plácido e tranqüilo
E não precisa de sofrer tão cedo.

Dia virá, no entanto, em que o bacilo
Deste mal que progride lento e ledo
Há de roer-te o peito, o brando asilo
Onde o acolheste sem suspeita e medo.

Por isso mesmo evita procurá-lo:
Daquele que lhe mata o sonho insano
Torna-se escravo em rápido intervalo.

Mas, se a gente o procura (acerbo engano)
Ele, que é feito para ser vassalo,
Faz-no de servos, torna-se tirano...

 

"GRANDE SERTÃO: VEREDAS": 50 ANOS

O romance Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa, faz 50 anos neste ano de 2006. Guimarães Rosa é tido como um dos escritores brasileiros mais inventivos do século XX e Grande Sertão: Veredas uma obra prima, considerada um divisor de águas na literatura brasileira.
Para celebrar a data, foi realizada a Semana Guimarães Rosa, com apresentações de teatro, música, dança, contadores de histórias e oficina de leitura. A programação integrou o Seminário Internacional Guimarães Rosa, promovido pelo Instituto de Estudos Brasileiros. A obra do grande escritor foi discutida em todas as suas vertentes, não só a literária, mas também a histórica, a geográfica e a psicanalítica, entre outras.
Aconteceu, também, a Mostra João Rosa, que reuniu cinema e exposição bibliográfica, evento que foi organizado pelo Centro Cultural São Paulo para comemorar o aniversário de lançamento de Sagarana (1946), também, que completa 60 anos desde a publicação da primeira edição. Com apoio da Cinemateca Brasileira e do MIS (Museu da Imagem e do Som), a mostra de cinema apresentou produções para o cinema e televisão inspiradas na vida e obra do autor.
Nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908, João Guimarães Rosa, irmão mais velho dos seis filhos de D. Francisca e do comerciante Floduardo Pinto Rosa, desde pequeno ficava fascinado com as “estórias e causos” contados pelos sertanejos e tropeiros que freqüentavam a venda de propriedade de seu pai.
Em 1929, enquanto estudava na Faculdade de Medicina de Minas Gerais, lança seus primeiros contos: Caçador de Camurças, Chronos Kai Anagke, O Mistério de Highmore Hall e Makiné.
Formado, iniciou uma carreira em que alternou as funções de médico, diplomata e escritor. Em 1936, concorreu, e venceu um concurso promovido pela Academia Brasileira de Letras com o livro de poemas Magma.
Em 1938, Rosa foi nomeado cônsul-adjunto em Hamburgo. Após a estada na Alemanha, foi para a Colômbia (Bogotá) como secretário da Embaixada. Voltando ao Brasil, lançou Sagarana no ano de 1946 e, dez anos após, publicou Corpo de Baile. Em maio de 1956, Guimarães Rosa apresentou o romance Grande Sertão: Veredas. O livro, considerado por Rosa sua “autobiografia irracional”, recebeu três prêmios importantes de literatura: Machado de Assis, Carmem Dolores Barbosa e Paula Brito.
Em 1963, foi eleito presidente da Academia Brasileira de Letras, mas a posse aconteceu somente em 1967. Morreu de enfarte três dias depois, aos 59 anos.

“VEREDAS”

Principal obra literária de João Guimarães Rosa, o romance "Grande Sertão: veredas" traz as reflexões do jagunço Riobaldo e conta as historias das guerras jagunças, nos interiores de Minas, Bahia e Goiás representando um estilo único na literatura brasileira. Os regionalismo, liberdades e invenções lingüísticas são características fundamentais na literatura de Rosa e em “Grande Sertão: veredas” não é diferente.
Guimarães rosa inaugura um idioma calcado na originalidade, baseado na língua portuguesa, mas que possui também a influência de outras línguas. Termos como refrio, desfalar e frases como os passarinhos que bem me voam dificultam a leitura, mas facilitam a oralidade do texto. Grande Sertão: veredas , não é só um livro sobre os interiores e sertões do Brasil. O livro fala sobre as construções do medo do homem, das carências, das construções humanas. Geograficamente o termo “veredas” designa caminhos de verde para se caminhar no sertão, caminhos internos de busca de identidade.

Modernismo
Considera-se que “Grande Sertão: Veredas” tenha representado uma continuidade na revolução iniciada pelo modernismo, propondo uma ruptura entre os limites das culturas erudita e popular. Mas qual seria a pertinência desse debate nos dias de hoje?
”Já se falou que o livro é uma espécie de “Macunaíma” de Mário de Andrade, a sério. Rosa é um antropólogo fino que faz falar as culturas do povo numa forma nova, cultíssima, nunca vista antes nem repetida depois, uma forma singular que liberta as línguas que existem na língua. Hoje, as culturas do povo e a cultura erudita estão dominadas pelo kitsch dos meios de massa.
A discussão sobre a barreira entre erudito e popular segue atual. Ela se revela cada vez mais importante, mesmo para além da literatura brasileira, onde desde o arcadismo a literatura se alimenta e entra em simbiose com a cultura popular, especialmente sua expressão musical. Lembremos a figura recente de Vinicius de Moraes e o circuito que operou entre a melhor poesia e a música popular.
A edição comemorativa da obra-prima de Rosa e um dos grandes clássicos da literatura brasileira, “Grande Sertão: Veredas”, deve chegar às livrarias no final de setembro. Mas já sairam outras duas obras-primas do escritor mineiro: “Sagarana”, que completa 60 anos, e “Corpo de Baile”, publicado originalmente no mesmo ano que “Grande Sertão: Veredas”, 1956. A Nova Fronteira não poupou esmero no projeto gráfico dos livros.

POESIA BRASILEIRA EM RUSSO


A revista da IWA - International Writers and Artists Association acaba de publicar, na sua edição de agosto, os poemas “A paz que eu quero”, “Seu Sorriso”, Poesia no céu”, “Homem-menino”, Simplicidade”, “Tempo” e “Saudade”, de Luiz Carlos Amorim, traduzidos para o russo, pelo poeta Adolf P. Scvedchikov.
O conselho de direção da IWA é composto de escritores dos Estados Unidos, Brasil, Rússia, Tunisia, Japão, Korea, Colombia, Rep. Tcheca, Algeria, Serbia, Cuba, França, Panamá e a revista é distribuída para outros países, além desses.

 

 

 

REFLEXO

Teresinka Pereira
(US|A)

A noite espera
com silêncio tua entrega.
Os enfeitiçados versos
que me mandaste esta manha
ja perderam um pouco da magia
com que os escreveste.

Entretanto me aproximo de ti
para dissipar a fúria
e a tensão de minhas pupilas
nas quais reverbero espumas
de tua presença
rendido ao meu amor.

Na tela do computador
há uma vertigem astróloga
que te confunde
com o reflexo sideral.

 

FEIRA DO LIVRO DE FLORIANÓPOLIS 2006

O Grupo Literário A ILHA participa, mais uma vez, da Feira do Livro de Florianópolis, que acontece de 31 de agosto a 10 de setembro de 2006, no Beira Mar Shopping, com o lançamento dos livros “Saudades de Quintana”, crônicas, em homenagem ao centenário do poeta, do “Livro de Natal” - crônicas, contos e poemas e desta revista, nos dias 2 e 9 de setembro. O local dos lançamentos é o stande das Academias, B 07.

 

 

ALÉM DOS BROQUÉIS

Já está nas bancas a edição 9 da revista DISCUTINDO LITERATURA, da editora Escala, com dezenas de boas matérias, como sempre, entre elas “Além dos Broqueis”, do editor deste suplemento. Em quatro páginas, escritores contemporâneos de Santa Catarina, nenhum dos medalhões atuais, são apresentados ao grande público brasileiro. A matéria procurou não se concentrar naqueles escritores mais conhecidos do estado, quase todos concentrados na capital, pois eles já tem a mídia aqui do estado em favor deles. Há percalços que saíram, infelilzmente na edição da matéria, como a omissão da citação do escritor Salim Miguel – saiu apenas menção a sua nacionalidade, atribuídas a outro nome.
Mas o objetivo foi alcançado: projetar nomes catarinenses que estão brilhando nas letras.

 

AUSÊNCIA DE LUZ

Tânia Melo

Olho o céu, não vejo a lua
Que será que aconteceu?
Saiu com o sol, não voltou,
uma estrela respondeu.

Mas não há substituta?
Prá poder se apresentar?
Como vai ficar a noite
se a lua não regressar?

Com os olhos vertendo lágrimas
essa estrela me contou
que o Sol iludiu a Lua
e ela tudo abandonou.

Percebi que mesmo os astros
não escapam da paixão
e aquela estrela chorava
a sua decepção


O céu escuro sofria
sem poder compreender
porque fora abandonado
por ela, seu bem querer.

Por fim, acabando a noite
viu-se uma luz embaçada
era a Lua que voltava
sofrida, desencantada.

Mostrava um brilho tão triste
que o céu se compadeceu
pediu ajuda pra chuva
e esta logo desceu

Já não sei se eram gotas
de chuva que vi rolar
ou se brotavam dos olhos
da pobre lua a chorar.

 

A SAGA DE APOLÔNIA GALTALDI

Por Luiz Carlos Amorim

Apolônia Gastaldi é uma escritora maiúscula. Ela começou com a poesia, enveredou pela prosa com todo a força e firma-se uma representante legítima da boa literatura catarinense com romances como “Barra do Cocho”, “Anjos Azuis” e “A Força do Berço”, saga em quatro volumes. Além dos livros de poesia, como “Mar”, “Amor”, “Panoramas” e outros. E novos títulos estão em produção, inclusive o quinto volume de “A Força do Berço”.
A saga de Stelle, a personagem central de “A Força do Berço” da escritora catarinense, chegou, então, ao quarto volume publicado. O grande romance de Apolônia começou com “A Força do Berço – Herança” e seguiram-se-lhe, em 2005, escritos durante os quase vinte anos de intervalo desde a publicação daquele primeiro volume, as seqüências “Segredos”, “Sinais” e “Regresso”.
“A Força do Berço” conta a trajetória de uma mulher vivendo na França do começo do século 20. Uma herança a faz sair da vida urbana em Paris, para assumir um vida rural na Provença. Dona do Paradis, uma grande fazenda com muitas pessoas trabalhando para ela, descobre-se exímia administradora. E paralelamente a isso, começa a perceber e a descobrir segredos da família, que a vão envolvendo e a fazem descobrir o amor.
Em “Segredos”, a vida tranqüila do “Paradis” começa a evoluir para grandes mudanças, com a chegada de novos agregados. E a protagonista vai descobrindo segredos também dos novos personagens que se infiltram, gradativamente, em sua vida. Stelle vê grandes mudanças acontecerem e ela volta à vida urbana, transformando-se em poderosa mulher de negócios, em meio a pessoas de cultura diferente da dela, com toda a sua vida sentimental também transfigurada.
No final desse segundo volume da saga, a vida de Stelle dá mais uma reviravolta, que é resolvida no terceiro volume, “Sinais”. Nessa terceira parte, novas guinadas na vida da protagonista, revelações de alguns segredos, alguns mistérios são desvendados, ela retorna à fazenda, ao paraíso Paradis, a volta às origens.
Em “Regresso”, o destino - ou a autora de “A Força do Berço” – leva Stelle de volta para Marselha, aos negócios e à vida diplomática, tudo o que ela tinha deixado para trás quando do retorno ao Paradis. O envolvimento profundo com pessoas de uma outra cultura mudaram a vida dela e os costumes diferentes dessa cultura de um país distante contribuíram para isso. Novas guinadas na história preparam e dão o gancho para o derradeiro volume da saga, a ser publicado em breve.
Apolônia se firma como excelente narradora que é, desenvolvendo um universo complexo e personagens interessantes, com muita criatividade, misturando suspense e romantismo, aventura e conhecimento, beirando a trama policial.
Contadora de histórias por excelência, Apolônia usa vocabulário simples e objetivo, em frases curtas, quase telegráficas, que dão leveza e dinamismo a sua obra.
“A Força do Berço” não é um romance de enredo previsível. É uma trama bem engendrada e desenvolvida, que vai prendendo o leitor cada vez mais, quanto mais se leia.

 

AMBIÇÃO DE POETA

Virgínia Vendramini

“Não quero um poema bem comportado”,
talhado num molde perfeito,
em linguagem filigranada,
com “chave de ouro” no fecho.
Não quero grades para o sentimento!

Quero, sim, meu verso nascendo livre,
Sem metro, sem rima nem cor,
Seja branco, vermelho ou amarelo...
Eu quero mesmo é que todos saibam
Porque choro, porque canto ou protesto.

Não quero ter meu nome consagrado,
Como poeta clássico ou moderno,
Rotulado, enquadrado num estilo...
Nem ser tema para qualquer debate.

Eu quero da poesia o que é mais raro:
Fazer meus versos como quem respira,
Falar das coisas que todo mundo sente,
Eu quero só ser um poeta simples.

(do livro "Matizes")

 

JUCA PATO


Por Enéas Athanázio


No início do mês de agosto a União Brasileira de Escritores (UBE) fez a entrega do Troféu Juca Pato ao escritor Luiz Alberto Moniz Bandeira, eleito Intelectual do Ano de 2006. Esse é um dos maiores prêmios brasileiros, mantido há 42 anos pela entidade que congrega os escritores e com o patrocínio do jornal “Folha de S. Paulo.” Doutor em ciência política, professor emérito da USP e docente de universidades européias, o eleito é autor de importante obra, avultando o livro “Formação do Império Americano”, onde analisa a vocação imperial norte-americana e suas origens.
Escritores brasileiros de primeira linha têm recebido o prêmio ao longo de sua existência, entre os quais Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Luiz da Câmara Cascudo, Érico Veríssimo e muitos outros.
A UBE é a maior entidade do gênero no Brasil, contando com milhares de associados em todo o território nacional e seccionais em vários Estados. Fui fundador da UBE-SC, seu conselheiro, coordenador do jornal, vice-presidente e, por fim, presidente. Como todas as entidades anteriores aqui no Estado, a UBE-SC não vingou. Em outros Estados existem seccionais ativas, como em Goiás, Piauí e Pernambuco. A UBE-RJ é independente e tem o mesmo status da paulista.
Juca Pato é um personagem criado pelo célebre caricaturista Belmonte (Benedito Bastos Barreto – 1896/1947) e que aparecia sempre nos jornais exercitando um humor cáustico a respeito dos fatos de nosso dia-a-dia. Baixote, calvo, barrigudinho, sempre de fraque e gravata borboleta, tornou-se temido pelas coisas que dizia. Como bem definiu o crítico Anatol Rosenfeld, “Juca Pato é o próprio povo que universalmente costuma pagar o pato e que, no entanto, não perde o bom humor.” É, em suma, o brasileiro, somos nós que todos os dias pagamos o pato e continuamos rindo e aparentando alegria, mesmo porque não encontramos saída. Em cada tentativa de mudança acabamos pagando um pato ainda maior.
E de fato, os mensalões devoram nossas finanças e nós pagamos o pato; os sanguessugas metem a mão e nós pagamos o pato; outros avançam nos recursos da previdência e nós pagamos o pato. E por aí vai pelo passado próximo e remoto e, ao que parece, pelo futuro, “per omnia saecula...”
Mas Juca Pato gozou de imenso prestígio e seu nome batizou célebre bar paulistano, no centro da Capital, nas proximidades da Praça da República e dos melhores cinemas da época. Ali se reuniam intelectuais, escritores, gente de teatro, políticos, jornalistas, aficionados do cinema e apreciadores de bom papo. Ali se degustava um excelente “pernil” (lanche que caiu no ostracismo em face de sua gordura), regado a goles de um “cristal” (chopinho) ou de uma límpida “loira” (cerveja). Ali tudo se discutia, ainda que a conclusão fosse a mesma: “na realidade sempre se paga o pato, em todo o mundo e em todos os tempos”, como escreveu Rosenfeld, seu assíduo freqüentador.

 

 

MAR...

Apolônia Gastaldi

Longe do ninho feito
vagando a onda do mar
marca cravada no peito
continuo a marear.
Não sonho com a bonança
só o vento encapelar
e no timão a esperança
de um dia
aportar.

Vago perdido na proa.
Sonho acordado voltar.
Mas meu barco
vaga à toa
nestas ondas do meu mar.

Vivo perdido no leme
Tentando o rumo acertar.

 

 

CRUZ E SOUSA PARA CRIANÇAS

Por Luiz Carlos Amorim

Comentamos, em outra crônica, o fato de que nossos leitores em formação, e até os adultos, não raro, não sabem quem foi Cruz e Sousa. Até aqui mesmo, em Florianópolis, berço do grande poeta. Realizou-se uma pesquisa entre adultos e crianças em idade escolar para se saber o quanto conhecemos o maior poeta da terra e houve até quem respondesse que se tratava de nome de rua.
Então, numa das últimas feiras do livro eu me deparo com o livro “Cruz e Sousa – Além do horizonte da Poesia”, de Sérgio Mibielli. Um pequeno-grande livro, de quarenta e quatro páginas, feito para o público infanto-juvenil, mas que pode e deve ser lido por leitores de todas as idades.
A editora é a Papa Livro, daqui mesmo de Florianópolis. O livro tem uma apresentação impecável, com ilustraçõe
s coloridas e fartas, numa linguagem clara e objetiva. O autor, dando voz à Fada Poesia, em tom coloquial, quase poético, conta a história do nosso João da Cruz e Souza, desde o seu nascimento até a sua morte, mostrando trechos da sua poesia. Um dos poemas de Cruz e Sousa que estão no livro é “Pátria Livre”, um hino de amor à liberdade e à igualdade dos seres humanos: “Nem mais escravos e nem mais senhores! / Jesus descendo as regiões celestes, / fez das sagradas, perfumosas vestes / um sudário de luz p´ra tantas dores. // A terra toda rebentou em flores! / E onde haviam só cardos e ciprestes, / onde eram tristes solidões agrestes / brotou a vida cheia de esplendores. // Então Jesus que sempre em todo o mundo / quis ver o amor ser nobre e ser profundo, / falou depois a escravas gerações: // - Homens! A natureza é apenas uma... / Se não existe distinção alguma / por que não se hão de unir os corações?”
Como diz a narradora do livro, a Fada Poesia, “Joãozinho, meu afilhado, amava a beleza e sua alma iria transbordar poesia por toda a vida.”
Fiquei muito feliz por ver que finalmente existe uma obra que conta a história do maior poeta simbolista do Brasil de maneira cativante e atraente, para que nossos leitores em formação saibam, desde cedo, quem ele foi e sintam curiosidade de ler a sua poesia. Com a batuta os professores do primeiro e segundo graus, que precisam conhecer a obra para apresentá-la aos seus alunos.

 

ESPETÁCULO DA VIDA

Aracely Braz

Paro de repente
E custo a crer
Na diversidade do vaivém
Que me confunde a mente.
São rosas delicadas,
Bromélias gigantes
Olhando o mesmo sol,
A mesma lua
Que tanto me iluminaram.
O sinal dos tempos
Me leva à emoção
Do presente que se foi,
Do passado que ficou.
Eu, menina, mulher...
Essa pressa -
Atropelo, confusão,
É alerta ao coração
Que avança a travessia
Do caminho sem retorno,
A vida...

 

Anita Garibaldi
nunca morrerá


Maria de Fátima Barreto Michels


“Garibaldi segura a mão da mulher.
São sete horas e 45 minutos da noite de 4 de agosto de 1849.
Ana Maria de Jesus Ribeiro, Anita Garibaldi está morta” – (da obra ANITA GARIBALDI - Uma Heroína Brasileira - Paulo Markun.)


Para muitos catarinenses, inclusive para mim, não importa o que pensam os estudiosos quanto à dimensão histórica do levante farroupilha.
O que cultuamos por aqui é a memória da mulher que foi mais forte do que o preconceito. Anita surpreendeu as conveniências sociais e os limites do universo feminino em sua época.
Wolfgang Ludwig Rau, o maior estudioso de Anita Garibaldi em sua obra “Anita Garibaldi – O Perfil de uma Heroína Brasileira” revela, pelo zelo demonstrado em sua pesquisa, que também ele apaixonou-se por Anita.
Durante entrevista que concedeu à televisão (tive o prazer de assistir), foi perguntado ao professor Rau o que ele diria à Anita se pudesse falar-lhe, Wolgang respondeu prontamente: “Anita, eu te amo!”
Perseverança, iniciativa, parceria, autonomia e principalmente amor e coragem, que marcaram a personalidade de Anita Garibaldi apaixonam de fato, os que a revisitam nos livros e a procuram em Laguna.
Nadar, cavalgar e atirar pode se aprender. Vestir-se de soldado, fazer guerras pelo mundo ao mesmo tempo em que gerava filhos, há 150 anos, foi de uma certa singularidade.
Anita partiu há 157 anos mas, para nós sulistas e para o povo italiano ela nunca morrerá. Quando deixou seu espaço físico e assumiu seu tempo cósmico, Aninha virou estrela e perpetuou seu galope em alada montaria. Inquieta, Anita não parou.
Desviando-se de todo cerco e qualquer tentativa que façam de contê-la, corre célere pelos céus.
Lá, na imensidão celestial, as criaturas siderais também tentam decifrá-la mas confundem-se então, encantadas contentam-se em segui-la, em seu rastro de luz.

 

EU TENHO A VIDA

Luiz Carlos Amorim

Eu tenho um amor verde,
verde como mil folhas,
como todas as árvores,
como uma grande esperança.

Eu tenho um amor multicor,
colorido como as flores,
como um imenso arco-íris,
como toda a luz do mundo.

Eu tenho um amor sonoro,
como riso de crianca,
como um canção de ninar,
como uma orquestra a tocar
um peça de grande mestre.

Eu tenho um amor-natureza.
Eu tenho amores-criança
e tenho um amor-mulher.
Tenho um amor-saudade.
Eu tenho a vida.

 

Plano Nacional do Livro realiza consulta pública


O Plano Nacional do Livro e Leitura é constituído por projetos, programas e outras ações de fomento ao livro, à leitura, à literatura e às bibliotecas de iniciativa do Estado (governos federal, estaduais e municipais), setor privado, instituições não-governamentais e pessoas físicas.
Instituído com o objetivo de tornar o tema livro e leitura uma Política de Estado, com base nas diretrizes estabelecidas pela Política Nacional do Livro (Lei n. 10.753/2003), o PNLL foi elaborado a partir de um amplo e democrático processo de construção, que teve a participação de centenas de instituições e cerca de 50.000 lideranças que atuam na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas em todo o País. Foram diversos encontros presenciais, oficinas, seminários e videoconferências e, ainda, a partir de ações cadastradas no calendário do Ano Ibero-americano da Leitura, o Vivaleitura, comemorado em 2005 no Brasil e em outros 20 países da Europa e das Américas. O PNLL é, assim, uma política de Estado que tem por finalidade assegurar o acesso ao livro e à leitura a todos os brasileiros e formar uma sociedade de cidadãos leitores
Participe da Consulta Pública (www.cultura.gov.br/pnll/consultapublica). O PNLL é uma conquista da sociedade brasileira e precisa, assim, ser permanentemente aprimorado com sua participação. Acesso ao livro, valorização da leitura e fortalecimento da produção do livro constituem as bases do Plano Nacional do Livro e Leitura. A Portaria nº 1.442, assinada pelos ministros da Educação, Fernando Haddad, e da Cultura, Gilberto Gil, publicada no Diário Oficial da União em 11 de agosto, cria um conselho deliberativo, uma coordenação executiva e um conselho consultivo, que serão responsáveis pela dinamização das atividades do PNLL, e estabelece que os dois ministérios determinarão a cada ano um calendário de atividades e de eventos. Além das áreas governamentais da educação e da cultura, participam dos conselhos e da coordenação representações dos autores, editores, bibliotecários, especialistas em leitura e a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), na condição de assessora. A íntegra da Portaria nº 1.442 está no Diário Oficial da União de 11 de agosto, Seção 1, pag. 18 e 19. Para o Ministério da Cultura há quatro pontos fundamentais no PNLL: o fortalecimento econômico do setor livreiro, o apoio decisivo ao campo da criação, a ampliação e inclusão de pessoas ao universo da leitura e a democratização do acesso.  A leitura um direito fundamental do cidadão e o Vivaleitura (o Ano Ibero-americano da Leitura foi batizado com esse nome no Brasil) uma referência obrigatória na luta para mudar o panorama latino-americano.

 

NOVO L IVRO DE URDA


Saiu o novo livro da escritora Urda Alice Klueger, em parceria com o PHD Chico, “Viagem ao Umbigo do Mundo”, pela editora Hemisfério Sul. O livro foi lançado em agosto e conta a aventura que foi a viagem de moto para Cusco, no Peru. A imagem acima está certa, o livro tem duas capas mesmo. E vale a pena conferir.

 

QUERO TE FALAR
DE AMOR

Wilson Gelbcke

Quero te falar de amor...
Coração aberto
Ao dizer o que nele vai,
Sem rodeios, sem temores,
Sem rimas...

Quero te falar de amor...
Do amor puro e sincero,
Que sofre e teme
Não ser compreendido.

Quero te falar de amor...
Mesmo que não acredites
O quanto é verdadeiro,
E que precise repetir,
Reprisar, insistir,
Quero te falar de amor!

 

PARA SALVAR A BIBLIOTECA PÚBLICA DE SC

A Biblioteca Pública Estadual de SC é a terceira mais antiga biblioteca do País. Foi fundada antes mesmo da Biblioteca Nacional. Em seu setor de obras raras, há verdadeiras preciosidades, publicações dos séculos 17 e 18, as primeiras edições de Cruz e Sousa, de Virgílio Várzea, Oswaldo Cabral e outros catarinenses desconhecidos da juventude. Todos armazenados em condições duvidosas, sem climatização, sem proteção contra insetos ou luz solar. A memória cotidiana de Santa Catarina, desde meados do século 18, está em coleções de periódicos, originais ou microfilmados. Conchavos políticos, os desmandos das oligarquias catarinenses, a chegada do circo na Florianópolis de 1925, que, sem a ponte Hercílio Luz, atravessou o canal em balsa para se instalar no largo General Osório, estão registrados nas páginas dos jornais, mas por pouco tempo. Sem explicação, é deplorável a situação dos periódicos na Biblioteca Pública de Santa Catarina. Precisamos correr para salvar aquelas publicações do século 18. A Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina, uma instituição autônoma, apaixonada e interessada no futuro da Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina, busca fadas-madrinhas.
Vamos meditar sobre nossa participação e comprometimento com a preservação do acervo da biblioteca. Nós podemos viabilizar parcerias privadas, vetadas aos governos. Se os governos viram as costas, vamos procurar os empresários. A Biblioteca Pública (é) do Estado de Santa Catarina, não é do governo. É premente um plano consistente para o futuro e a preservação da Memória Catarinense sob a guarda da Biblioteca. Torna-se necessária uma política de governo, com continuidade, sem a obrigação de o novo governante perder tempo e dinheiro tentando apagar seu antecessor. Assim, a Associação de Amigos iniciou um ciclo de debates para identificar, sugerir e participar da formulação de um documento de salvação do acervo da Biblioteca. A mesa de debates (Re)Pensando a Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina mostrou, antes de tudo, que a Biblioteca tem amigos, muito mais do que pensava. As sugestões e os comprometimentos foram os mais diversos e inesperados. Ganhou aliados - estudantes, professores, bibliotecários, entidades da área, escritores e historiadores. E a mão estendida para a primeira parceria veio do Legislativo estadual, que já se engajou na sua revitalização. Esperamos que a sociedade civil organizada venha a integrar a mesa de debates. Precisamos estar unidos, reivindicar com consciência, cobrar com freqüência. (AN)

 

 

TRANSIÇÃO


Belvedere


E-book, antologias,
dois sites pessoais.
Páginas no google,
em caso de súbita saudade.
Não digo adeus,
não vou embora.
Uma parada,
um respirar poético,
um vestir fantasias...
Voltarei , quem sabe,
numa tarde azul,
com o sol salpicando raios...
Só não posso dizer
exatamente a hora.

 

 

LITERATURA INFANTIL: A POESIA DE ROSÂNGELA BORGES

Uma pulga napolitana, uma abelha em férias na praia e um dinossauro pós-moderno que resolve dar uma voltinha de skate na cidade. Esses são alguns personagens que transitam pelo livro “Conversa de Bichos” (Franco Editora, R$ 13,00, 20 páginas) em poemas voltadas ao público infantil, da joinvillense Rosangela Borges.
Primeiro livro da professora e poetisa, “Conversa de Bichos” apresenta textos divertidos e rimados e é fruto de um projeto que começou há quatro anos. Rosangela deu asas a um prazer que cultivava desde a adolescência: a poesia. “Comecei a criar para as meninas, minhas filhas, apresentei aos colegas de trabalho e recebi estímulo para seguir em frente”, registra.
Segundo ela, o gosto pelas letras acompanha a sua trajetória de vida e recebeu força de uma professora chamada Ivete Eifler. Os anos passaram, Rosangela continuou escrevendo, integrou o grupo de poetas A ILHA, coordenado por Luís Carlos Amorim e não desistiu do sonho de um dia lançar um livro. A primeira edição, da qual ela bancou uma parte, já está esgotada. Isso é resultado do trabalho de divulgação que ela fez junto às escolas públicas da região. Nelas, oferece a obra e uma oficina para apresentar aos professores as diversas formas de utilizar o livro em sala de aula.
Motivada, Rosangela comemora uma segunda obra no prelo. “Limpeza na Gaveta”, para pequenos de zero a seis anos, também sai pela Franco Editora, de Minas, especializada em obras para crianças. A diferença é que, desta vez, a autora não precisa bancar nenhuma cota da publicação. (Marlise Groth, A Notícia)

 

SEM TÍTULO

Bianca P. Yuzon (Filipinas)

Então, venha,
Concentre-se,
Tente deixar ir
tudo aquilo que você sabe,
Os seus medos e suas tristezas
de ontem.

Eles começam a perder o significado
Com o Tempo e o Espaço

A Força interna é libertada
Como se você re-emergisse transformado
na luz de sua paz interior.

Assim...
Deixe a energia fluir...
Re-conecte todos os pedaços,
Descubra seu papel:
- Espírito jovem,
Alma eterna -

(Tradução: Luiz C. Amorim)

 

 

ESCRITORES, POETAS, ARTISTAS E EDITORES DO BRASIL

Por Teresinka Pereira (USA)
(Brasileira radicada nos Estados Unidos)

Todos nós que vivemos em um país capitalista, ou pseudo-capitalista, como no caso dos países que vivem à sombra do império americano, sabemos que apoiar a literatura, ou qualquer manifestação cultural tem que ser um esforço pessoal ou o esforço de um grupo da elite intelectual. O Brasil não faz nenhuma exceção a esta regra. Os escritores, artistas, jornalistas, poetas, editores e produtores de literatura e arte no Brasil são heróis na batalha contra a ignorância, a inaptidão e a indiferença da política do governo. E o que é pior, o intelectual brasileiro está sofrendo baixa na sua auto-estima.
Creio que devemos pôr em claro a existência e o valor desses vencedores da apatia governamental no Brasil, que têm lutado com enormes sacrifícios para dar a público jornais, revistas, páginas literárias, colunas, suplementos, exposições de arte-postal e a já tão conhecida “imprensa alternativa”. Citar os nomes que se dedicam a essa última forma de publicação seria impossível, pois encheria páginas e páginas de nomes gloriosos que tanto os leitores como eu admiramos e agradecemos.
Vamos, portanto, direto à elite das vanguardas da editoração brasileira, por ordem alfabética porque queremos afirmar a igualdade de valor em seu heroísmo de arcar com todo o esforço, trabalho, tempo, gastos, envios e sacrifícios para dar a luz aos trabalhos literários e artísticos de seus compatriotas ou companheiros internacionais. Os leitores vão ver que a lista é pequena, em relação aos portadores da propaganda governamental, mas enorme considerando tratar-se de um só país, em comparação com os outros países onde a quantidade de revistas e jornais desse tipo está reduzida a duas ou três publicações.
O primeiro título da lista é “A ILHA – Suplemento Literário”, uma revista que já sobreviveu 26 anos pelos esforços do seu editor Luiz Carlos Amorim, de Florianópolis, Santa Catarina. Em seguida vem “A Fiqueira”, revista de poesia cujo editor é o poeta Abel B. Pereira, também de Florianópolis.
O eminente magistrado Enéas Athanázio publica em Balneário Camboriú, SC, uma revista chamada simplesmente “Jornal do Enéas”, que contém artigos e poesias de primeira linha.
Aos leitores de colunas literárias, dos suplementos e das revistas que contém poesia e artigos de literatura, não é necessário lembrar a importância dos mesmos. Embora nos países capitalistas sempre se fale de liberdade de imprensa e de pensamento, o que vemos é sempre o contrário do que dizem. O governo não faz investimentos na literatura porque diz que os escritores sempre pertencem à esquerda radical ou são anarquistas e usam a pena para falar mal dos políticos eleitos. E mesmo que assim não fosse, não há ajuda para publicações literárias.
A liberdade de imprensa para nós é assunto sagrado, além de ser garantida na constituição. E vamos continuar praticando a liberdade e a literatura e as artes, ainda mesmo se tivermos que pagar para fazê-lo. Foi por isso que Albert Camus disse um dia: “A imprensa é livre, quando não depende do poder do governo ou do poder do dinheiro”. E Tomas Jefferson, autor de “Declaration of Independence” disse: “A imprensa é o único alarme da nação”.

 

ALGUMAS DÚVIDAS

Denis Koulentianos (Grécia)



Onde você está?
O que é você?
Um beijo do vento ou
um vento de esperança?
Eu tento achar sua presença
através de minhas más suposições.
Aqui e lá, espelhos mágicos
tentam soletrar alguma coisa
para cerimônias místicas antigas
dentro de conventos escuros.
Mas minhas dúvidas ainda permanecem:
Onde você está? O que é você?

(Tradução de Luiz C.Amorim)

 

VIAJANDO COM A POESIA DE ANAMARIA KOVÁCS

Cada página, uma surpresa. Cada frase, um ritmo, uma rima e mais uma descoberta. Em textos espontâneos, que brincam com as palavras, a escritora Anamaria Kovács inseriu na poesia o cotidiano das crianças e seu interesse pelas coisas do universo. A natureza, os sonhos e o valor das pessoas viraram temas da coletânea Viajando com Dona Poesia, onde o conhecimento se faz tão simples quanto a compreensão infantil.
A caixa com 10 livrinhos ilustrados pela própria autora - incluindo um volume sobre como as crianças a partir dos sete anos podem escrever poesia - estão chegando às escolas da Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina, graças a um projeto financiado através do Fundo Estadual de Cultura (Funcultural).
As poesias de Anamaria são um passeio pelo imaginário das crianças. Enquanto despertam sensações com ritmo, rima e cor, ensinam Português, Ciências e convidam ao exercício da criatividade. O livro Brincando com a Poesia, por exemplo, mostra aos pequenos como fazer uma rima. A autora revela que a emoção é o segredo dos versos.
- Poesia é simples. É brincar com as palavras e ver o mundo com os olhos do coração - diz às crianças, para quem escreve desde 1988.

 

NA AREIA DA PRAIA

Adolf P. Shvedchikov
(Moscou – Rússia)

Sentado na areia da praia
olhando para a onda rolando
Eu sei que não posso alcançar
Eu sei que não posso salvar
aquele mistério escondido dentro
de suas profundezas, oh, mar rebelde.
Quanto tempo nós temos que agüentar
aquele quebra-cabeça que nós somos?

(Tradução de Luiz Carlos Amorim)

 

Crônicas de Eloí Bocheco reunidas

Um dia, há quase dez anos, a professora Eloí E. Bocheco resolveu mandar um texto para um jornal, para ver no que dava. Acabou se transformando em cronista de A Notícia, com dezenas de trabalhos publicados entre 1998 e 2001. Uma seleção dessas crônicas foi reunida no livro “Pedras Soltas”, recentemente lançao, na Capital, pela Editora da UFSC.
”Comecei a escrever por essas crônicas, e hoje não viveria mais sem isso. Nunca planejei ser escritora, achei que ia ficar só em sala de aula, que é algo de que também gosto muito”, conta Eloí, revelando que recebia muito retorno quando seus textos eram publicados, inclusive de ex-alunos. Para escrever as crônicas, ela buscou muito material na memória, misturando o passado com o presente, recordando objetos importantes para ela. O fato é que essa primeiras crônicas acabaram dando o empurrão inicial para uma carreira que já contabiliza vários livros publicados, a maioria voltada para o público infanto-juvenil. Um deles, o romance “Beatriz em Trânsito”, conquistou o prêmio Mário Quintana e foi indicado para o catálogo White Ravens, da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique. Outro, o “Não vá embora, Clarice”, ganhou o prêmio Leia Comigo!, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Nascida há 50 anos em Campos Novos, hoje aposentada, Eloí acaba de conquistar o primeiro lugar no prêmio Literatura para Todos, categoria tradição oral, promovido pelo Ministério da Educação, com “Batata cozida, mingau cará”. Trata-se de um livro de poemas vinculados à tradição oral brasileira, e recria o folclore poético de todas as regiões do Brasil. Desencava e reinventa produções bastante conhecidas e outras que ninguém lembrava mais. ( São 50 poemas escritos ao longo de cinco anos).

 

 

“Poema Sujo”, de Ferreira Gullar, recebe edição comemorativa e CD


Forçosamente exilado em Buenos Aires pela ditadura militar e temendo engrossar a lista dos desaparecidos, o poeta Ferreira Gullar iniciou, com sofreguidão, a obra que representaria seu testamento e seu protesto. Surgiu “Poema Sujo”, poema que em 2006 completa 30 anos de publicação, comemorados com a palestra que Gullar apresentou na 4ª Festa Literária Internacional de Parati.
”Achei que podia desaparecer, assim pensei em escrever um poema que dissesse isso, que se parecesse como a última coisa que eu faria na vida”, explica ele, cuja obra traz uma reflexão vigorosa e penetrante sobre a infância, a perda e o resgate. Por sua importância, “Poema Sujo” ganhou agora uma edição comemorativa pela José Olympio Editora, que vem acompanhada de um CD em que Gullar declama os versos.
O registro oral, aliás, não é meramente ilustrativo: impossibilitado de deixar a Argentina, pois a embaixada brasileira não renovou seu passaporte, Gullar gravou em fita cassete os mesmos versos naquela tenebrosa década de 70, que foi trazida escondida por Vinicius de Moraes. O poetinha começou a divulgar o poema, fazendo cópias da fita até que uma chegasse às mãos do editor Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, que decidiu publicar o livro. “Esse movimento todo me ajudou a voltar ao Brasil”, conta Gullar.
O poeta lembra que escreveu “Poema Sujo” em alguns meses, mas, durante esse período, só se preocupou com isso. “Foi algo completamente alucinante, pois fui tomado pelo poema. Mesmo tendo escrito apenas cinco páginas, sabia que ele chegaria a cem.”
Além da urgência, Gullar viu-se convencido também a variar radicalmente no estilo e nas estruturas. “A construção revela sua semelhança com uma sinfonia: são vários movimentos e que refletem a forma como trabalhei com a inspiração. Tudo o que havia sido movimentado dentro de mim para fazer aquele poema, a matéria que ia dar forma, era volumosa, muito rica. Havia uma tonelada de matéria. Era minha vida inteira.”
A vida é a fonte geradora da poesia de Gullar que parte de algo que o espante, que o surpreenda, para então começar a criar. “O poema é fatalmente inspirado na casualidade, que pode ser uma imagem, uma conversa e até mesmo um cheiro”, diz. “O poema é um processo de transformação da linguagem. É o local onde este processo se dá. Fazer um poema é dar vida a algo que não existe.”
A maturação, no entanto, é lenta. Gullar conta que passa meses sem escrever até o momento em que subitamente algo fervilhe suas idéias e o leve até o papel. “A desordem é essencial em minha poesia. Estou fascinado com essa descoberta”, confessa. “A língua funciona como um sistema, com uma ordem própria. Se desordenado esse sistema, há problema na comunicação, mas o poeta sempre quer dizer algo que a lógica da palavra não diz.
Ele conta que já escreveu um punhado de poemas (o último surgiu durante a Feira de Parati), que logo vai ganhar o contorno de um novo livro. Pouco disposto a tratar do passado (“tenho horror do passado, preocupo-me apenas com o presente e, quem sabe, com o futuro”), Ferreira Gullar exibe, aos 76 anos, um vigor invejável. A receita? “Não quero ter razão, quero é ser feliz.”

 

 

O CRÍTICO E A CRÍTICA DE LITERATURA

Por Lauro Junkes

...O que é um crítico? Em que consiste a crítica? Responderemos com tranqüilidade: criticar consiste em ler; todo leitor consciente é um crítico. Sem leitura e leituras, a atividade crítica assumiria ares de absurdo. Antes de criticar, torna-se imprescindível conhecer e compreender a obra, o que só é possível através da leitura. Por essa leitura que se torna reveladora do texto, em sua amplitude e profundidade, como muito bem colocou Serge Doubrovsky, num dos mais argutos conceitos de crítica que já encontrei: “Uma vez que toda expressão é ao mesmo tempo manifestação e dissimulação, a crítica consistirá em revelar o que se esconde e em associar aquilo que se franqueia ao que se subtrai, num esforço para libertar a totalidade da expressão.
Assim, se o crítico é um leitor, será um leitor instrumentado; um leitor que adquiriu preparo suficiente no seu ramo de arte: um leitor em que haja disponibilidade interior para receber, aceitar e sentir a obra na sua individualidade e especificidade, sem preconceitos nem radicalismos. Não será um leitor que busque na obra apenas o deleite, o passatempo, a satisfação da curiosidade aventuresca. Será, sim, um leitor de experiência; um leitor que não se recuse a releituras; um leitor que domine os códigos lingüístico, retórico, estilístico, simbólico e ideológico que estruturam o texto literário e que, assim, esteja habilitado para
sondagens verticais profundas sobre a obra, tanto no seu nível de conteúdo como no da forma. E a leitura crítica deve abranger, nas sucessivas etapas do seu processo, os níveis da analise, da compreensão, da interpretação e do julgamento.
Esse crítico é um mediador. A crítica medeia entre a obra e o público – informando o leitor sobre a obra, revelando sua estrutura, desvendando sua temática, detectando sua beleza e originalidade, explicando em termos acessíveis e racionais a intuição original do autor, abrindo perspectivas para uma penetração mais profunda no valor estético da obra. A crítica medeia entre o autor e a obra – valorizando o esforço criativo do autor, traçando o elo evolutivo e estabelecendo as ligações entre a obra conjunta do mesmo, servindo de termômetro para o escritor aferir sua performance literária. A crítica medeia entre o passado e o presente, entre as correntes estéticas gerais e a obra literária individual – estabelecendo uma hierarquia de valores entre as obras-mestras no decorrer da história, mantendo viva a imagem do escritor através dos tempos, integrando a obra no seu contexto histórico-estético, contribuindo para a manutenção e ampliação de um ambiente literário, essencial para que a obra literária encontre acolhida entre os leitores.
Existindo em função da obra literária e implicando esta necessariamente a comunicação, a crítica tem por objetivo último contribuir para que a obra se realize plenamente. E para satisfazer sua razão de ser, como um sistema simbólico de comunicação inter-humana, a obra necessariamente terá que completar o ciclo que inicia no autor (emissor) e termina no leitor (receptor). Antonio Candido, lúcido como poucos na consideração do fenômeno literário, é explícito em exigir a interação como público receptor, para que qualquer obra de arte se realize plenamente: “O público dá sentido e realidade à obra, e sem ele o autor não se realiza, pois ele é de certo modo o espelho que reflete a sua imagem enquanto criador”, escreve o ensaísta em “Literatura e Sociedade”. Ora, é objetivo primordial da crítica promover e facilitar este acesso compreensivo do leitor à obra de arte literária.
O crítico é um leitor, o crítico é um mediador, o crítico existe em função da obra literária. Bem por isso, crítico algum é dono da verdade. Nenhuma crítica esgota o manancial da grande obra de arte.

 

GUIA DO PROFISSIONAL DO LIVRO

Já em sua 9ª edição o Guia do Profissional do Livro - Informações importantes para quem quer escrever e publicar um livro está disponível, explorando os seguintes assuntos: Lei do Livro; Legislação Cultural; PIS/Cofins/Pasep; Papel Imune e Planejamento Tributário; BNDES; Direito Autoral / EDA; ISBN / Código de Barras; Ficha Catalográfica; Fundação Biblioteca Nacional; Depósito Legal; Biblioteca; Leia, escreva e publique; Partes do Livro; Agenciamento Literário; Leitura Crítica e Revisão; Assessoria de Imprensa para autores e livros; Ghost-writer & Personal writer; Escolas para autores e profissionais do Livro; Design e Processos de produção; Cores - Noções básicas; Capa e Miolo / Tipos de Papel; Tipos de acabamento; Associações e Entidades do Livro; Datas Comemorativas do Livro; Sites Literários, Culturais e de Serviços; Glossário. Edição com 236 páginas, formato 14 x 21 cm, o Guia do Profissional do Livro, já está nas livrarias..


EXPEDIENTE
Suplemento Literário A ILHA - Número 98 - SETEMBRO/2006 - Ano 26
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
Contatos: lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br
A ILHA na Internet: Veja o portal PROSA, POESIA & CIA. em
Http://geocities.yahoo.com.br/prosapoesiaecia


VOLTAR