SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Revista do Grupo Literário A ILHA

Setembro/2010

GRUPO LITERÁRIO A ILHA EM JOINVILLE

O Grupo Literário A ILHA continua a comemorar os seus trinta anos de atividades, completados no mês de junho deste ano de 2010, desta vez em Joinville, com o lançamento da coleção Letra Viva. Será no dia 9 de setembro, as 19h30min, na Biblioteca Rolf Colin. Os poetas escritores do Grupo A ILHA estarão reunidos para, além de autografar seus livros, fazer declamação de poemas, leitura de prosa e apresentação de performances. Até o Varal da Poesia do grupo está de volta à Biblioteca, para marcar a presença do grupo de novo em Joinville. Célia Biscaia Veiga estará autografando "Figuras nas Nuvens", Mary Bastian autografará "A Casca da Bergamota", Jurandir Schmidt autografará "Flores Azuis num Canto do Muro" e este que vos escreve estará autografando seu "Terra: Planeta em Extinção", os primeiros quatro volumes da coleção Letra Viva. Novos volumes já estão no prelo e em breve teremos outro lançamento.

 

FESTEJANDO "A ILHA"

Else Sant´Anna Brum
(Joinville)



Seria ingratidão se eu me calasse
Seria ingratidão se eu não falasse
o que tem a dizer meu coração:
-A ILHA tem dentro dela
Como uma linda aquarela
Rimas de muitos autores
Rimas de sonhos e amores.
Meu poetar simplezinho
Nela tem o seu cantinho
Pra se mostrar, pra se por.
Trinta anos é jornada
É uma longa caminhada
Parabéns ao criador!
Continue "A ILHA" sempre
Porto amigo, acolhedor,
Onde encontram bom abrigo
O poeta e o trovador!

 

 

A VOZ DA POESIA

Por Luiz Carlos Amorim

Fiquei sabendo, com muito pesar, que o amigo e irmão Sólon Schill nos deixou. Radialista e escritor, foi produtor e apresentador de programas que divulgavam a poesia "de gente da terra da gente", como dizia, no rádio catarinense. Tocava música popular brasileira da melhor qualidade e declamava poemas que os ouvintes lhe enviavam, assim como também de poetas consagrados. Recebeu centenas de poemas de poetas da região que as emissoras onde apresentava seus programas alcançava, rádios como Cultura e Colon, tantos que acabou fazendo uma seleção que resultou numa antologia. O livro foi publicado em 2003, pelas Edições A ILHA.
Então, além de publicar seus contos e poemas em revistas e jornais, em antologias como "Um Toque de Poesia", A Nova Poesia do Norte Catarinense", "Poesia Viva", "A Nova Literatura Catarinense", "Show das Dez em Tempo de Poesia", e outras, organizou e publicou a antologia "Fim de Noite", título adotado para o livro por ser o nome do seu mais popular programa da noite no rádio do norte catarinense.
Publicou um livro solo, também, na coleção Poesia Viva do Grupo A ILHA, uma seleção de poemas que saiu em 2007, com o título de "Dentro da Noite".
A poesia de Sólon é romântica e sensual, sempre evocando a musa e a relação de paixão e sedução que envolve o seu relacionamento. Os contos pendem para o mistério policial.
Sólon publicou em vários jornais e revistas, também, e fez parte do Grupo Literário A ILHA logo que a sede do mesmo passou para Joinville. Foi um divulgador da literatura produzida na região e da cultura de um modo geral.
Santa Catarina perde uma das vozes mais bonitas e talvez o maior incentivador, divulgador e apoiador da poesia que o rádio já teve. O rádio, hoje, infelizmente, tem muito menos poesia.

"No fim de noite eu te procuro
e te encontro em todas as ruas,
em todas as casas,
em cada passante;
no ressonar inocente da criança,
no sorriso cúmplice dos que amam,
na gota de saudade que rola na face.
No fim de noite eu te procuro
para te ofertar um pouco
daquilo que existe de melhor em mim.
Em toca, peço-te apenas
que me escutes,
para que juntos,
sejamos mais felizes
neste fim de noite..."
(Sólon Schill)

 

 

O E-BOOK E O PREÇO DOS LEITORES ELETRÔNICOS

Por Luiz Carlos Amorim - Http://luizcarlosamorim.blogspot.com

Livro eletrônico é um assunto em ebulição, todo o mundo está de olho nas novidades e a gente descobre informações novas a cada dia.
Foi constituída, no Brasil, a Distribuidora de Livros Digitais, formada pelas editoras Record, Objetiva, Rocco, Sextante e Planeta. E a livraria Cultura, paulistana, assinou contrato com a DLD, mais as editoras Moderna e Salamandra, para ampliar seu acervo e está vendendo, através de seu site, mais de 1.200 títulos eletrônicos, ainda que apenas 700 deles em português. E vende também o e-reader Positivo Alfa, com tela touchscreen de 6 polegadas, 2 GB de memória e com Dicionário Aurélio já instalado.
Mas na verdade a Cultura não é a única, temos também a livraria virtual Gato Sabido, que também disponibiliza milhares de títulos, embora a maioria seja em inglês, e vende o e-reader Cool-er.
Temos, ainda, à venda por essas bandas de cá, um e-reader com software próprio, nacional, embora o hardware seja fabricado na China, o Mix Leitor D, da Mix Tecnologia. Além desses e do Kindle e do I-pad, há também o leitor eletrônico de e-books Pandigital, prometido pela Tecnoworld para outubro.
As editoras tradicionais, por sua vez, estão começando uma transformação necessária, pois os livros eletrônicos abrem a possibilidade de agregar muitas novidades além do texto e da ilustração, como vídeos, áudio, etc. Mais ou menos como está o jornal, hoje em dia: o impresso traz a notícia com foto ou ilustração, mas no site do jornal há vídeos, áudios com entrevistas, documentários, para complementar. De sorte que o livro impresso, que continuará existindo por muito, muito tempo ainda, trará o principal, que é o texto. A versão eletrônica poderá trazer elementos além disso, pois pode comportar outros tipos de informação visual e auditiva.
Vê-se que o livro digital está disponível para quem quiser aderir. O preço do e-reader (leitor eletrônico) ainda é meio salgado, começa em setecentos reais e vai até mais de mil reais. Aliás, há um por menos de setecentos reais, justamente o Kindle, o primeiro de todos, que conseguiu desmistificar o livro eletrônico, começando uma revolução no ato de ler, e pode ser comprado também por brasileiros, por quinhentos e cinqüenta reais – valor dele, que é de cento e oitenta e nove dólares, mais os impostos de importação.
Mas não foi só o preço dos e-readers, leitores eletrônicos para nós, brasileiros, que me deixou preocupado. Andei navegando pelas livrarias virtuais, aquelas que oferecem o livro em versão digital, e fiquei assustado com o preço de alguns livros. Vi livros em formato pdf e epub (para e-reader) de dois reais, mas também vi vários outros preços, num crescendo, de até mais de quarenta reais. Não era para ser muito mais barato do que o livro de papel, já que não há custo de impressão, o custo do papel, transporte, distribuição, etc? Encontrei livro que a versão impressa custava cinqüenta e quatro reais e a versão digital custava quarenta e nove. Será que vai ser assim? Desse jeito, não vai ser o preço do leitor (e-reader) que vai inibir o leitor, mas sim o preço do próprio livro (e-book). Vamos acompanhar para ver como isso vai ficar.

 

 

ASSIM DITO

Nuno Rebocho (Cabo Verde)


mulher submersa no mar começado
como se o sol existisse e não fosse achado
- no verbo desfeito o tempo passado
de um modo imperfeito – talvez desejado,
talvez contrafeito, talvez compensado,
talvez proibido, talvez sonegado
.m sonho talvez: talvez revelado.
do outro lado das coisas, o sentido guardado
que o mar esconjura por ser naufragado
e não há palavras. nem signos. nem lado.
apenas distância. e o já conversado.

raios partam o verbo. raios partam o fado.

 

OS CAMPOS DE ÉRICO VERÍSSIMO IV

Por Urda Alice Klueger - Blumenau

E então, num dia, numa tarde, eu estive lá, dentre eles, neles, e caminhei por eles num dos que foi um dos grandes encantamentos da minha vida, e era como caminhar pelo país das fadas, pois aqueles eram os mágicos campos de Érico Veríssimo, e eu esperara desde os 12 anos para um dia conseguir chegar lá, sem nunca crer muito que tal fosse possível, pois como pode acreditar em campos pessoas como eu, que passam suas vidas dentro de um Vale? Fui, no entanto, no último inverno, e fazia uma temperatura de 1,5 graus Centígrados, e a verdura daqueles campos que deviam ter amanhecido cobertos de geada era uma coisa tão impressionante, como se de esmeraldas fossem feitos e como se nunca tivessem sido tocados pelo gelo, que fiquei meio em dúvida se eles eram de verdade, mesmo, ou se, quem sabe, eu divagava, caminhava por campos imaginários, somente sonhados pela mente de um escritor único...
Uma estrada atravessava os campos, e fui caminhando pela beirada dela, bem longe, bem longe, não tão longe quanto meu coração pedia, pois queria, além do espaço, atravessar o tempo, e encontrar, de repente, na beirada da estrada, andando comigo, o padre que possuía um punhal que era como que um estigma, e que criou um menino que ficaria para todo o sempre com o nome de Pedro Missioneiro... Pois é, depois da destruição das Missões, Pedro Missioneiro muito errou por muitos campos, à deriva, na espera do seu destino, e como ali eram os campos de Érico Veríssimo, com toda a certeza ele andara por ali também, e o que me faltava era a possibilidade de atravessar o tempo, tão poucos séculos, para caminhar por ali com a candura daquele Pedro gerado por uma índia nas antigas Missões, e que, com certeza, era antepassado de tantas daquelas gentes que viviam naquela cidade rodeada dos campos, e no entorno da cidade que era também rodeado pelos campos...
Eu mal acreditava que estava ali mesmo, onde tanta coisa tinha acontecido na História e no meu imaginário que vinha desde a infância, que daqueles campos se alevantara tamanha onda de energia quando um menino chamado Érico Veríssimo aprendera o be-a-bá e deixara de só imaginar, para começar a escrever o fantástico mundo que legou a mim e a tantos pelo mundo afora, e que lá no escondido do meu Vale eu fora atingida por aquela onda, e nunca mais, depois, pudera ser como antes!
A emoção me fechava a garganta, e eu pensava se lá do alto do gelado céu azul daquele dia Érico Veríssimo estaria podendo ver que os campos dele, agora, tinham muitas coisas novas, como aquela comprida fita que se desenrolava no meio do verde e que era uma ferrovia, e que atravessando aquela fita havia outra, que era uma fita de asfalto e que levava a outra coisa nova naqueles campos chamada universidade - que diriam os padres das Missões se soubessem que o saber, um dia, já não seria teocrático? Pois os padres das Missões muitas coisas também sabiam e ensinavam, e um lugar especializado no ensinar e aprender não era uma idéia nova naqueles campos - mas agora a ciência tomara o lugar da teocracia. Só que na hora não refleti muito nisto, não - o encantamento que me possuía me fazia como que flutuar entre Pedro Missioneiro e uma legião de outros personagens que dele descendiam ou não, subindo e descendo coxilhas vestidas de verde, e era tão fantástica aquela realidade de estar, de verdade, um dia, andando pelos campos de Érico Veríssimo, que fui colhendo um matinho cá, um galhinho lá, flores inesperadas dentro daquela vegetação de inverno, desde delicadas camélias até hirsutas flores de espinhos, todas tão lindas, tão etéreas, mesmo as hirsutas, que segurá-las era como ter as mãos levitando. No alto de uma coxilha, já quase ao pôr do sol, parei para conversar com um homem velhinho que guiava uma pequena carroça com uma pequena carga - quem seria ele, na verdade? Qual seu parentesco com Pedro Missioneiro? Não sei, mas sei que ele era de verdade e estava ali, e me perguntou:
- Por que você está colhendo esse mato?
E eu entendi que ele não tinha consciência de ser o personagem que era, mas mesmo assim lhe expliquei:
- São flores dos campos de Érico Veríssimo!
Era complicado, para ele, entender aquilo, mas ele me olhou com bondade, como decerto olham até hoje os descendentes de Ana Terra.
Então, voltei para o meu Vale e trouxe aquelas flores. Arranjei-as dentro de um frasco de vidro, colei nele uma etiqueta onde está escrito "Flores dos campos de Érico Veríssimo" - e como sabia que as flores acabariam ficando secas e parecendo não ter importância, colei ao redor do frasco pequenas borboletas emprestadas de Quintana, para que ficasse sempre muito clara a magia que emana dali. Eu me emociono até às lágrimas, quando olho para elas. Aquelas flores são a certeza de que não sonhei, e que um dia, de verdade, andei até muito, muito longe, pelos reais campos de Érico Veríssimo!

 

 

PÁSSARO CATIVO

Erna Pidner
(Minas Gerais)

Em teu refúgio limitado
da solidão, aprendiz,
desconheces liberdade.
Segues engaiolado.

Tristemente ecoa
no gorjeio, teu lamento.
Dura realidade;
sem crime, és um detento!

Pagas com teu cantar
O alpiste que te oferecem,
Sem condições de optar.
Disso todos esquecem!

Querem tua beleza,
teu canto, pr´admirar;
olvidando, com certeza,
que teu destino é voar!

 

 

HÁ BRAÇOS

Por Mary Bastian - Joinville

Um amigo meu, escritor, diz que usa a expressão "Há braços", para mandar abraços. Lindo, né? Poético, faz a gente se sentir feliz. Há braços para abraçar e ombros pra receber. Melhor que um abraço, só dois abraços bem apertados. Hajam braços e abraços, portanto, neste mundo que está ficando tão feio.
Braços compridos, curtos, gordos, magrinhos, para abraços de mães, pais, avós. Um abraço para aquela vizinha esquisita, que olha de rabo de olho como se tivesse medo de rir. Tem tanto tipo de abraço por aí, que seria até covardia procurar um tipo.
Ah!, mas também tem aquele que a gente não pode dar, pois o abraçado está doente, e não deve ser importunado, ou já foi para o andar lá de cima, e a gente fica só na vontade, então pra estes, um carinho e uma oração.
Também tem aquele da neta que crava o queixo no ombro da gente. Este já não é tão bom.
Foi o que vi na TV outro dia, no centro da cidade: moços e moças com pequenos cartazes, dizendo que o abraço era de graça, e induzindo o povo todo a se abraçar, ali na rua, na praça. Ninguém resistia às carinhas alegres e risonhas deles. Abraçavam crianças, velhos, moços, gordos, magros, pretos, brancos, todos que passavam por eles, alguns desconfiados, mas logo cativados pela ideia.
Temos até um dia oficial do abraço, mas juro que não lembro quando é. Por isso, quero mandar uma mensage especialmente para aquela gurizada que agitou o centro da cidade:
"Hoje quero um abraço, mas não um gesto formal
Quero um abraço macio, de criança pequenina
Ou um abraço alegre como aquele da vizinha
Talvez um abraço morno, como sabem dar as mães
Ou um bem firme, apertado, confiante, solidário,
Do amigo ali ao lado.
Mas o que eu mais gostaria, e me faria contente,
Seria um abraço de urso, daqueles que dói na gente,
Em que o ar sai do peito e as costelas estalam,
Abraço pra todo sempre, abraço de bem querer
Abraço bem apertado,do tipo " eu só quero você.""
Crianças da praça, hajam braços, há braços, abraços, braços , É só querer.
Parabéns.

 

 

MAR DE DÚVIDAS

Joel Rogério Furtado
(Araranguá-SC)

Difícil é vencer o duro
e fero
obstáculo da dúvida.
Como olvidar
que nossos caminhos
se bifurcaram
para além das montanhas
mortas e distantes?
Faz tempo que percebo
que meu barco
é para qualquer mar
inclusive aquele
em que lavramos juntos
inesquecíveis horas
de alento de cristal
de alegria de vidro
de interpenetração
(indubitavelmente lógica
Absolutamente completa
Absurdamente compensadora).
Na verdade
só os insensíveis
não entenderão (jamais)
a profundidade sublime
da mensagem poética.

 

 

OBSTÁCULO INESPERADO

ou O DESAFIO DE UMA ESCADA

Conto de Enéas Athanázio - Balneário Camboriú

O relógio do carro assinalava a meia-noite, quando entramos na pequena cidade do Planalto. Fazia um frio terrível, daqueles de encarangar, e o vento gélido, batendo em lufadas, levantava a poeira do chão e alguns papéis que rodopiavam no ar e desciam um pouco adiante. No céu, uma névoa branca se adensava e baixava vagarosa sobre a cidade em silêncio.
Procuramos o hotel onde tínhamos reserva, o único da cidade. Rodamos para lá e para cá e não o encontramos. Nem placas, nem anúncios, nem indicações. Nada. Não havia viva alma nas ruas, nem mesmo os costumeiros cachorros sem dono, que deveriam estar enrodilhados em algum canto, fugindo da friagem. Não havia a quem perguntar. Que fazer? Lembrei-me do hospital. Lá deveria haver alguém de plantão. O prédio baixo, de um amarelo escuro, estava imerso em silêncio. Havia luz no saguão mas a porta estava fechada e ninguém apareceu. Minhas batidas na porta metálica repercutiam longe e de um jeito lúgubre. Fosse uma emergência, o doente estaria em maus lençóis.
Desanimado, voltava ao carro quando avistei uma mulher com uma criança pela mão. Apelei àquela alma salvadora, temeroso de que levasse um susto e se pusesse a correr. Mas ela parou e explicou que o hotel ficava uns três quarteirões para dentro, em cima de um posto. Aliviados, rumamos à procura do hotel encantado. Achamos o posto, em total escuridão, sem nada que pudesse indicar a existência de um hotel. Numa casa vizinha, um casal acompanhava nossa movimentação, e saiu à janela.
"Tem que passar diante do posto e dobrar à direita. Ali tem uma portinha estreita com campainha. É a entrada do hotel!"
Assim fizemos, encontrando a portinha estreita. Mas a campainha? Onde está que não a vejo? Tateei aos lados, no alto, em baixo, naquela escuridão impenetrável. Nada de campainha; deveria ser secreta. A solução foi voltar o carro para a porta, com os faróis acesos, e assim localizar, afinal, o misterioso aparelho, instalado na mais incrível posição. Toquei, toquei, até que uma janela se abriu e uma cabeça desgrenhada surgiu lá em cima.
"Temos reserva para esta noite!" - bradei para os céus.
Houve movimentação no alto e o homem voltou à janela.
"Pode estacionar o carro em baixo da cobertura do posto. Mais adiante tem uma escada para subir ao hotel." Retiramos a bagagem, duas malas e uma sacola com calçados e petrechos necessários, e tratamos de procurar a escada. Para surpresa nossa, nada ali se parecia com uma escada, a dita cuja não existia. Anda para lá, anda para cá, no escuro, deparamos com o inacreditável. Tratava-se de uma escada de metal, em espiral, muito estreita, com corrimões altos e curvas fechadas, subindo ao lado da coluna do prédio e que parecia rumar ao infinito, uma vez que seu fim se perdia no breu noturno. Só havia uma solução: enfrentar o desafio. Como eu e a mala não cabíamos, lado a lado, nos corrimões estreitos, colocava a mala três degraus acima, depois subia até ela, e assim até em cima. A operação foi repetida três vezes, até que toda a bagagem chegasse ao alto. Através de um corredor estreito, chegamos, por fim, ao apartamento que nos abrigou da intempérie. Havia, no entanto, compensações: as camas eram boas e os acolchoados de lã tão grossos e pesados que mal permitiam os movimentos. E o banheiro era usável.
No dia seguinte, tive que fazer a descida de costas - ou de ré. Colocando a mala adiante de mim, ela correria descontrolada e se espatifaria lá em baixo. Descia três degraus e puxava a mala, mais três degraus e puxava a mala. Assim por três vezes.
Esbofado, suado e irritado, mal pude acreditar que estava no carro e de saída para outras paragens.
Ó Literatura, a que desafios me submetes!

 

 

VENTOS DE PASÁRGADA

Ma. de Fátima B. Michels
(Laguna)

Cachorros loucos vagavam
como pandorgas de rabiola pesada.
Corações também,
querendo surfar ventanias.
Em agosto estivemos todos loucos,
salivando desejos de primavera.
Doravante
andaremos de bicicleta
e faremos ginástica.
Inclusive Manoel, que é amigo do rei!

 

 

CRIANÇAS E LIVROS

Por Luiz Carlos Amorim - Florianópolis

Sempre defendi que a convivência com livros desde a mais tenra idade faz com que as crianças adquiram o gosto pela leitura. Já escrevi sobre isso uma ou duas vezes e atraí a ira de uma escritora e de uma pedagoga, que não concordaram com a afirmação. Acontece que eu comprovei o fato, pois minhas filhas e alguns sobrinhos viveram, desde bebês, em casas com livros em estantes, em cima da mesa, no criado mudo, na mesinha da sala, em todos os lugares da casa e nas mãos das pessoas. As crianças sempre estiveram vendo o livro circular pela casa, sempre lhes foram mostrados livros com formas e cores, depois com texto e os textos eram lidos para elas.
Então essas crianças manusearam livros desde muito cedo e cresceram com a curiosidade de poder tirar tantas coisas interessantes de dentro deles, tantas histórias, tanta fantasia e tanta descoberta, que aprenderam a ler mais cedo. Porque não é só a curiosidade que o livro desenvolve, é também a imaginação e a criatividade. E eles acabam querendo eles mesmos abrir aquele baú de surpresas, de conhecimento, querem eles mesmos saber desvendar aqueles mistérios.
E não é que, no último domingo, leio no Correio Braziliense que “estudos comprovam quanto mais cedo for desenvolvido com as crianças o hábito de acompanhar a leitura, maiores serão as possibilidades de ela ser bem-sucedida nos estudos”?
Uma reportagem de página inteira confirmando tudo o que eu havia dito há alguns anos e mais alguma coisa. Fiquei feliz de saber que uma constatação tão simples, mas que havia causado polêmica, na época, é um fato comprovado.
Crianças que vivem no seio de famílias que gostam de ler, crianças que veem o livro fazendo parte do seu dia a dia normalmente, desde que nascem, fatalmente vão gostar de ler. É só mostrar a elas, mesmo quando ainda são muito pequenas, tudo o que pode conter aquele objeto tão mágico que é o livro. Uma criança que cresce com livros na mão mesmo antes de saber ler, é com certeza um adulto que terá o bom e edificante hábito da leitura.

 

 

PASSOS E ESPAÇOS

Aracely Braz
(São Franciscso do Sul)

Desfruto espaços do tempo
Extravasando saudades
Trazendo à tona bagagens,
Histórias, mitos, verdades
Que o coração revela.

Quem dera voltar no tempo,
Sonhar, viver, reviver!
Comovido, colho flores
Viajo no mar sereno
Ou no espaço sideral.

Sou jardim em cada flor,
Nos trilhos sou locomotiva,
Nos caminhos, ardente sonhador
E o tempo, meu amigo incerto,
Abre passagem para horas certas,
Espaços novos de esperança e amor.

 

 

FRUSTRAÇÃO

Por Célia Biscaia Veiga - Joinvillle

Moro em Joinville há mais de 20 anos, mas vim para cá já adulta, casada, com filhos pequenos e carrego comigo uma frustração: não sei andar de bicicleta, mesmo morando na Cidade das Bicicletas.
A cidade em que nasci tem uma topografia que não facilita o uso de bicicletas, e por isso não aprendi quando criança nem na adolescência.
Hoje é comum passar por aquela situação em que crianças de 5 ou 6 anos me olham com olhos arregalados e incrédulas ao saberem disso. Depois me olham com ar de superioridade e me informam:
- Pois eu sei, e sem rodinhas, né, mãe - completam para me mostrar que tem provas de sua superioridade sobre minha ignorância equilibrista.
E eu reconheço que realmente eles são mais espertos que eu. Minha desculpa é que não tem bicicleta com rodinhas para o meu tamanho. Aí, algumas vezes, encontro umas boas alminhas que se oferecem para me doarem as rodinhas tiradas das suas bicicletas ou até para segurar a bicicleta para mim como o pai ou mãe seguraram para elas.
Agradeço comovida por tanta boa vontade, mas fico imaginando a linda cena que seria eu tentando me equilibrar numa bicicleta com rodinhas, cercada por crianças de 5, 6, 7 anos, preocupadas em não me deixar cair. Surreal... pra não dizer: que mico!
Mas outro dia, quando me dirigia ao meu trabalho a pé, vi um homem andando de bicicleta carregando algo atravessado sobre o cano. À medida que foi se aproximando, vi que o que ele carregava era um par de muletas e que... fiquei espantada... esse homem só tinha uma perna. Como ele conseguia pedalar com uma só perna é um mistério para mim que não consigo me equilibrar mesmo tendo as duas.
Em pouco tempo o perdi de vista, mas sua imagem ficou vívida em minha lembrança como um exemplo vivo de superação.
Não sei se ele aprendeu a andar de bicicleta quando ainda tinha as duas pernas e reaprendeu após perder uma em algum acidente, ou se já nasceu assim e aprendeu direto com uma perna só.
Mas seja como for, são aquelas coisas que fazem a gente acreditar no grande potencial que existe dentro de todas as pessoas e que a maioria de nós desperdiça, enquanto outras desenvolvem ao máximo que podem.
Nunca mais vi aquele homem, mas presto minha homenagem a ele que não permitiu que a falta de uma perna o impedisse de andar de bicicleta, na Cidade das Bicicletas.

 

 

O POETA REINVENTA

Cissa de Oliveira - Campinas SP

 

Mais do que contar,
o poeta imagina,
ajusta e reinventa
o que jamais vivenciou.

Materializa pequenos infernos
largos, obscuros,
castelos, luas brancas,
paz de búzios encravados
em praias distantes.

Acolhe na nuvem difusa
d'alma,
o grito das gaivotas
vagando na memória
das tardes futuras
e depois
com a propriedade dos visioná-rios,
visceral e salutar,
descortina tudo.

 

O LIVRO HOJE

Por Luiz Carlos Amorim

E a discussão sobre a substituição do livro tradicional, de papel, pelo livro eletrônico, ganhou força, com o anúncio de que a Amazon, maior vendedora de livros pela internet dos Estados Unidos, vendeu mais e-books do que livros de capa dura nos últimos meses.
Não duvido, pois o Kindle, leitor de livros eletrônicos mais popular é da Amazon. A loja vende os livros digitais para o Kindle, mas eles também podem ser lidos no novo leitor multimídia da Aplle, o I-pad.
No entanto, precisamos levar em consideração que a Aplle edita e vende livros digitais, além do livro comum, é o seu forte. Enquanto o resto do mundo vende os livros impressos, tradicionais. Então a percentagem de vendas divulgada se refere a centro de venda específico, sem levar em conta a venda dos livros físicos em todas as outras livrarias tradicionais pelo mundo, que talvez não sejam tantas quanto desejaríamos, mas são em grande número. E é só olhar as relações de livros mais vendidos nas grandes revistas semanais e nos jornais em vários países para ver que a venda dos livros de papel estão num crescendo.
De maneira que todo aquele que tem um leitor eletrônico nos Estados Unidos e em vários outros países compram o livro digital na Amazon. O que não tira o mérito das vendas de livro eletrônico, mas não significa que o livro de capa dura, manuseável, folheável, vai sumir. Ele tem vendido cada vez mais.
Com a notícia, voltaram as previsões que vaticinam o fim do livro como o conhecíamos até agora. Há quem dê mais dez anos para que apenas vinte e cinco por cento dos livros publicados sejam impressos em papel.
Penso que a venda de leitores de livros eletrônicos pode continuar crescendo e com isso a venda de e-books também, mas não dou prazo tão curto para que o consumo dele se equipare ao livro de papel. Como já disse, eles deverão conviver harmonicamente. Até porque não há, como já disse, o livro eletrônico disponível em qualquer livraria. As editoras, a não ser a Amazon, a Apple e outras poucas, ainda não estão publicando na versão eletrônica os livros que são publicados em papel. E não sabemos quando acontecerá a equiparação das duas versões.
É certo que o e-book é mais barato do que o livro impresso, pois é apenas um arquivo para ser lido em aparelhos como o Kindle ou I-pad ou outro leitor, mas nem sempre a diferença é tanta como deveria. E o preço dos leitores pode até ser menor lá fora do que aqui no Brasil, mas não é tão baixo que qualquer um possa comprá-los.
E sempre haverá quem prefira o livro físico, com volume, com cheiro, com textura, sem a necessidade de qualquer aparelho para lê-lo, sem necessidade de qualquer energia a não ser a luz e a nossa vontade de ler.

 

O CENTRO DO MUNDO

Wilson Gelbcke
(Joinville)

Pensei que eu era
o centro mundo...
Que tudo girava
em torno de mim.
Onde quer que eu estivesse,
para onde quer que eu fosse,
bastava olhar em voltar e notar...
tudo girando em torno de mim.
Então, ao te ver, vi o Sol...
E Passei a girar em torno de ti.

 

 

COLEÇÃO LETRA VIVA EM JOINVILLE

A Coleção Letra Viva, publicada em comemoração aos 30 anos de atividade do Grupo Literário A ILHA, será lançada também em Joinville, no dia 9 de Setembro. Será na Biblioteca Municipal Rolf Colin, as 19h30min, com recital de poemas, leitura de crônicas e outras performances, além da presença do Varal da Poesia.
Os autores dos quatro primeiros volumes da coleção, Célia Biscaia Veiga, Mary Bastian, Jurandir Schmidt e Luiz Carlos Amorim estarão autografando seus livros.

 

 

O HOMEM E A TERRA

Teresinka Pereira
(USA)



A última foto
não é tão cruel...
mas o último homem,
sim.

Temos que viver
e esperar que o ego
supere as calamidades
que criou.

Algum dia o poder
não importará tanto
e haverá coexistência
entre o homem e a natureza
e os outros homens
sem o perigo do ego coletivo
e da guerra nuclear.

 

LITERARTE

LIVROS PARA LER DE GRAÇA

Foi lançado, em Florianópolis, o Projeto Floripa Letrada, que colocará à disposição dos usuários do transporte coletivo, no terminais do Centro, de Canasvieiras e Rio Tavares, livros e revistas para serem lidos por quem espera o seu ônibus ou mesmo em viagem.
Segundo as secretarias de Educação e de Transportes, o projeto já começa com 2500 unidades de livros e revistas e esse número tende a aumentar, pois aceita-se doações. A comunidade pode doar obras dos gêneros romance, conto, poesia, ficção, auto-ajuda, crônica, aventura e biográfico. As revistas podem ser as de cultura, ciência, música e variedade.
Numa época em que cada vez mais se faz tudo para incentivar o acesso ao livro e o hábito da leitura, é muito bem-vinda essa iniciativa. Os livros e revistas estarão disponíveis, inicialmente, em bancas nos três terminais, mas podem estar em todos eles, se a aceitação for boa.
E o benefício não será apenas para o leitor, pois os novos autores da terra poderão ter seus livros no projeto e, assim, terão suas obras conhecidas.
O projeto prevê, ainda, a promoção de saraus com poetas da grande Florianópolis, contação de histórias e capacitação de professores e educadores para a difusão da declamação e da oralização da literatura.
O leitor tem mais um lugar onde conseguir livros e, importante, gratuitamente. E os escritores da terra têm um vitrine para colocar a sua obra e chegar até o leitor.

 

MEU MAR

Luiz Carlos Amorim
(Florianópolis)

Ah, esse meu mar sereno
a temperar sentimentos,
a agitar anseios,
a embalar meus sonhos...

Ah, esse meu mar irado,
a invadir-me a alma,
a revirar guardados,
a descobrir segredos...

Ah, esse meu mar catarina,
essas praias sem igual,
supra-sumos naturais
a arrebatar corações
em ondas de sedução...

 

SAIU MIRANDUM 5

A revista Mirandum número cinco já está circulando, com vinte páginas de crônicas, contos, ensaios, poemas e informação, tudo exclusivamente sobre Quintana. A revista da Confraria de Quintana reúne escritores que são leitores do poeta e que escrevem sobre ele ou sobre a obra dele.
Nessa edição, temos Maria de Fátima Barreto Michels, Maria Lucia Nascimento Capozzi, Luiz Carlos Amorim, Mário Pereira, Erna Pidner, Nelson Valente, Luiz C. Nelson, Irene Serra, Marcelo Spalding, Clotilde Zingali, Tânia Melo e é claro, a poesia de Quintana.
Peça seu exemplar para um dos editores da revista: fbarreto@bizz.com.br

 

 

VIDA DE CRIANÇA: PAZ TODO DIA

Rosângela Borges (Joinville)

Nessa vida de menino
Acontecem dessas coisas
Que não deixam a gente em paz:
É a mamãe que não permite
(por mais que eu peça, chore ou grite)
Que eu jogue futebol
Nem na chuva, nem no sol,
Nem no asfalto, nem no vento!
- É que nessa rua tem tanto movimento!

É a voz da minha vizinha
(faladeira, tão chatinha)
- Menino, hoje você não escapa,
E pode até me chamar de fofoqueira
Mas vou contar pra tua mãe
Que você subiu na goiabeira
Andou de patins na grama
E nadou na poça de lama!

É a minha irmãzinha
(tão pequena, coitadinha!)
Que na hora da TV
Vem logo me incomodar:
- Maninho, vamos brincar?
E quando eu penso
Que consegui escapar,
Mamãe grita da cozinha:
- Cuide de sua irmãzinha!

Nessa vida de menino,
Ninguém deixa a gente em paz
É o professor lá na escola
/dizendo sem parar:
- Quero silêncio, nem um pio,
Ta na hora de estudar!
Boca fechada e chega de zunzum!
Ah, e ele ainda fica bravo
Quando a gente solta um pum!

É a titia, a vovó, o primo,
o irmão do amigo
(quanta gente, cruz credo!)
Que complicam a minha vida
Não dão folga, me chateiam
E me perguntam o tempo inteiro:
- E aí, menino, você já sabe dizer
O que vai ser quando crescer?

Nessa vida de menino eu só tenho paz
Quando papai e mamãe dizem contentes:
- Vamos todos tomar sorvete!
Quando a minha vizinha (aquela chatinha)
Fala manso e bem caminha:
- Fiz um bolo bem fresquinho
Você quer um pedacinho?

E só me sinto mesmo em paz
Quando a minha irmãzinha
(tão pequena, tão fofinha!)
Me diz antes de dormir:
- Você é o meu irmão mais querido
Você é o meu melhor amigo!

E me dá uma paz danada,
Quando o professor me diz
- Gostei do seu texto,
Sua história me deixou feliz!
Você não precisa fazer prova
Já conseguiu uma boa nota!

É titia, a vovó, o primo,
o irmão do amigo
Que me encontram no fim de semana
E dizem ao me abraçar:
- Você já está maior que eu!
Nossa, como você cresceu!

Ah, essa vida de menino!
Me dá beijos, me dá queijos
Me dá a certeza de que a vida
É a gente quem faz:
Com muita música e poesia
Pra deixar esse mundo em paz!!!


EXPEDIENTE

Suplemento Literário A ILHA - Edição Nº 114 - SETEMBRO/2010 - Ano 30
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
End. para Correspondência:
lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br


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