TODOS OS POETAS

Antologia Poética

 

Ma. de Fátima B. Michel

(Fátima de Laguna)

 

TECIDAS MANHÃS

 

Não há galos nas redondezas

Bem-te-vis já tecem a madrugada

Aguardo, espreito com a máquina ao alcance de um bote rápido

Ainda friozinho o ar passeia na varanda

Por trás dos prédios já se espalha o vermelhão

Chego até a sacada, nos surpreendemos. Lá vem!

Ele soberano, e eu, colhendo seu esplendor

Uma, duas, vinte, quarenta vezes!

Tento roubar, cor e frescor desta praiana manhã... É Laguna !

Não, não há galos nas redondezas, mas irrequietos sabiás,

pardais e quero-queros também tecem o amanhecer

São os minutos iniciais do cerimonial. Testemunho.

Fotografo, me envolvo. Ele soberano, súdita eu, colhendo-o

O vermelhão agora vai tingindo mesmo todos os vidros dos prédios

Questão de segundos e um laranja, vai tomando conta das nuvens

Continuo colhendo todas as poses

Vai se dourando a sala e eu, ficando rica de repente

Meu corpo diáfano, coração e também meu pensamento

A passarada, insistente, agitada, tece ao léu

Penso no amor, nos amores, colho mais 21 vezes

A sala fica toda dourada com jeito de paixão

Passarada em vôos lilases, rosáceos, laranja, vermelhões,

riscando, tecendo no espaço que a luz colore. Ao léu!

Meu coração também vai tecendo, vermelhões, alaranjados,

lilases, dourados e cheio de passarinhos, vai tecendo...

Fica rico de paixões. Ao léu!

 

Da alma, da carne, da civilidade

 


Da alma?

Das necessidades da alma, desconfio, nem todos sabem.

Desconfio que almas são insaciáveis


Das urgências da carne ?

Ah! Já nascemos sabendo

E que prazer! Ah! matar nossas fomes

Embora haja sempre outra fome, a substituir aquelalimentadamorta

Há olhos famintos de beleza

E cada pessoa, elege sua beleza (há discordâncias descomunais)

ouvidos são famintos dos mais inconfessáveis sons

E cada um se satisfaz como prefere

Bocas desejam os mais estranhos sabores

Cada pessoa escolhe (ao menos deveria) , o seu.


Há sexos sedentos, esfomeados,

e cada um com seu gosto!


Com a civilidade é diferente.

As necessidades da civilidade amarram-nos.

Irmanam-nos, sua práxis civil meu irmão...

não vara o tempo por muito tempo, se não for comunitária

A minha civilidade depende do nós

( e como está difícil, meu irmão!)


Da minha carne e meus buracos cuido eu


Com a minha alma- esta insaciável

estou pelejando, buscando, me encantando

Com a minha alma estou

Te buscando

Me encantando

Com a minha alma, insaciavelmente

Estou ...

amando!

VOLTAR