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Antologia Poética

 

FELIZ ANO NOVO

- Frei Betto -

No próximo ano, soterrarei de perdões o meu mal-querer e de afagos essa
sórdida tendência de apostar na desgraça alheia. Serei dom e não dor.


No próximo ano, porei em prática sábias lições de vida: pão que se
guarda endurece o coração; a cabeça pensa onde os pés pisam; o contrário
do medo não é a coragem, é a fé.


No próximo ano, segredarei aos peregrinos os três aforismos de meu
bem-viver: Deus tem sabor de justiça; a vida trafega a bordo do
paradoxo; a morte é verbo e não se conjuga no presente, é sempre
pretérito ou futuro.


No próximo ano, cultivarei cada um de meus cabelos brancos, modelarei de
gorduras a flacidez de minhas carnes e preservarei cioso as rugas que
maquiam de sabedoria o meu rosto.


No próximo ano, tratarei o semelhante com a reverência dos anjos e
lavarei as portas de minha cidade para acolher em festa os que trazem
boas novas.


No próximo ano, violarei todas as regras da civilidade torpe que me
engravata de cabrestos e rasgarei as etiquetas que me fazem perder horas
em cuidados supérfluos. Arrancarei do pulso as algemas do relógio que me
escravizam ao ritmo implacável de minutos e segundos.


No próximo ano, serei irresponsavelmente feliz, liberto dessa
onipotência que recobre de fúria a minha excessiva fragilidade.
Confessarei a mim mesmo os meus pecados e, crucificado numa
roda-gigante, ressuscitarei com a inocência das crianças que sorriem
prenhes de vertigens.


No próximo ano, nomearei para o governo da cidade um cavaleiro que
chegue montado num burrico e tenha as mãos calosas como quem cavou as
entranhas da terra. Não darei lugar aos príncipes revestidos de palavras
vãs, nem porei a minha confiança nos arautos surdos ao clamor dos
desvalidos.

 

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