Abril/2006

 

ECOLOGIA E INSPIRAÇÃO

Por Luiz Carlos Amorim

Estamos no início do outono e hoje, pela manhã, fomos visitar um parque, na ilha, quase um jardim botânico, com muito verde, árvores dos mais diferentes tipos, com indicação dos nomes, lago com patos, marrecos, peixes, cágados, etc, trilhas para caminhar, etc. etc. Os etcéteras incluem espaços e brinquedos para crianças, razão porque levamos Gabriel, meu sobrinho, de dois anos.
O lugar é lindão, amplo, bem cuidado. Dentre as árvores, não posso deixar de falar de um pé de pau-brasil, que nem eu conhecia pessoalmente. Um tipo de árvore frutífera que tem em todo canto do parque é araçá. São árvores jovens, que não começaram ainda a produzir e quando isso acontecer, vai ser uma festa. Quero estar lá. Ando namorando um pé de araçá, ainda que não tenha espaço para plantar em meu jardim, mas acho que vou comprar um híbrido, que produz rápido e não cresce muito, então poderei plantá-lo em um vaso.
Não tenho uma experiência muito boa com árvores em vasos, pois no começo do verão comprei um pé de jacatirão e plantei em um vaso grande, mas por mais que eu o regasse todo dia, ele acabou morrendo. Penso que o sol foi muito forte, mas vou tentar de novo, numa estação mais amena.
Mas voltando ao parque ecológico do Córrego Grande, caminhamos pela trilha, fizemos um pouquinho de tai-chi com o professor oriental que leva para lá, todo domingo de manhã, um grupo de quase cinqüenta pessoas para praticar essa arte milenar que mantém saudável nosso corpo e nossa alma e colhemos goiabas - até um coelho comeu goiaba - e gostou.
Gabriel, por sua vez, brincou nos balanços, andou nos brinquedões - aqueles brinquedos enormes de madeira, com escada, escorregador, pontes e mais algumas coisas das quais não lembro, e foi para a beira do lago dar pedacinhos de pão para os peixes, patos, marrecos, gansos, cágados (ele chama de tartarugas), pombos. Hoje não vimos as garças que estão sempre por lá.
Todos eles, a não ser os pombos, ficam na água, além do deque que fica na beirada do lago. Mas um pato, esperto, veio pelo lado contrário, por terra, para comer o pão que dávamos para os pombos e que não era tão disputado como aquele que a gente jogava na água. Uma criança correu atrás dele e ele subiu na cerca à beira do deque. Parecia meio indeciso sobre se pulava na água ou não, mas as crianças avançaram para ele e ele voou. Mas, para surpresa nossa, ele não pulou na água. Voou até a outra beirada, uns cinqüenta metros mais ou menos, e nem sequer molhou os pés.
Rimos muito com o pato que não gostava de água e decidi que preciso escrever uma história sobre esse pato singular. Daria um bom livro infantil: o pato que tinha medo de água. Não é interessante como os assuntos para a gente escrever aparecem assim, de repente, sem esperarmos? Não sei se dá para chamar isso de inspiração, mas rendeu a crônica e mais o meu segundo livro infantil. Espero que fiquem bons.

 

GULA

Virgínia Vendramini

Ainda guardo na boca
O gosto de fruta verde
Comida quente do sol.
Não havia defensivos...
Apenas um pouco de pó...
Bicadas de passarinhos...

Ainda guardo a cobiça
Pelas mangas e goiabas
Distantes de minha gula.
Belas, nos galhos mais altos...
E guardo no corpo inteiro
Fome e sede insaciáveis
Das coisas doces da infância,
Delícias que são saudade.

 

COMEÇA A FEIRA DO LIVRO DE JOINVILLE

De 3 a 12 de abril, dezenas de milhares de livros integram a paisagem do centro da maior cidade do Estado. Localizada na praça Nereu Ramos, a Terceira Feira do Livro de Joinville trará grandes escritores nacionais - Carlos Heitor Cony e Ignácio Loyola Brandão - e autores da região. O horário de funcionamento será das 9 até as 21 horas, de segunda a sexta, e das 10 às 18 horas, no sábado e domingo. A entrada é franca.
A edição de 2005 da feira reuniu um público de 100 mil pessoas, que adquiriu cerca de 40 mil livros. Segundo Sueli Brandão, organizadora do evento, este ano houve um acréscimo no número de estandes, bem como a vinda de grandes editoras. Entre elas está uma gigante do filão de livros infantis, a japonesa Shinseken. Um dos destaques da editora é uma coleção sobre o folclore asiático, ilustrado por artistas consagrados da China, Nepal, Irã e outros países da Ásia. A Shinseken também conta com títulos inspirados em histórias de autores brasileiros, como o tradicionalista gaúcho Simões Lopes Neto. Outra editora estrangeira que participa do evento é a chilena Livros Mais Pequenos, especializada em miniaturas de clássicos da literatura, vertidos para o espanhol e português.
Membro da Câmara Catarinense do Livro, Sueli informa que a literatura de Santa Catarina, em especial de Joinville, receberá mais destaque nesta edição da feira. "Reservamos, em conjunto com a Fundação Cultural de Joinville, um estande para os escritores joinvilenses exporem e comercializarem suas obras". Vários autores da região realizarão sessões de autógrafos na praça Nereu Ramos.
No intuito de valorizar o papel dos professores como formadores de leitores, a organização da feira irá distribuir vales-livro para educadores da rede pública e privada. "O objetivo é trazer os jovens para a praça, de encontro ao mundo da leitura", aponta Sueli.
Historiador e jornalista desde 1968, Apolinário Ternes é o patrono da Terceira Feira do Livro de Joinville. Autor de 23 livros, Apolinário Ternes será entrevistado na Feira do Livro, às 15 horas, na abertura do Projeto Prata da Casa.No segundo dia, o convidado do Prata da Casa é o escritor Wilson Gelbcke, integrante do Grupo Literário A ILHA na Manchester.

 

SEM TÍTULO

Apolônia Gastaldi

Este mar
denso e negro
aperta meu coração.
Dentro da noite
esmoreço.
Assaltam-me mil temores.
Navego escuridão.
Monstros,
fantasmas...
Deliro.
Insano, suspeito de tudo.
Tudo
Imaginação.

Depois a brisa passa
disfarça minha dor.
Estremeço.
Amanhece.

Dentro da noite
esmoreço.

 

ABYA-AYALLA - OUTUBRO

Urda Alice Klueger


Sempre soube, desde pequena, que as coisas tinham coração, tinham sentimentos, tinham vida, sofriam e eram felizes tanto quanto os seres vivos. Na minha infância, por exemplo, se acontecesse de eu dar uma topada numa pedra, por mais que o meu pé estivesse doendo, eu ficava a imaginar o quanto a pedra se machucara também, e pedia perdão a ela, e assim por diante. Árvores, plantas, por exemplo, eram coisas vivas, e então deveriam sentir e sofrer ainda mais que as outras coisas, e então eu evitava de arrancar qualquer folhinha, qualquer galhinho, e quando me consentia tirar pedacinhos de folhas dos pés de tangerina, para ficar a cheirá-los, a esmagá-los na mão e friccioná-los no corpo por causa do seu perfume que para mim é inigualável, ficava muito apiedada do que sentira o pé de tangerina, e conversava com ele, explicava-lhe dos meus sentimentos e do meu amor por seu cheiro, e lhe pedia desculpas.

Tive que crescer mais um pouco, porém, para entender que não eram só as coisas como pedras, formigas e pés de tangerina que tinham alma e sentimentos: um dia viajei pela primeira vez para a encantada cidade de Salvador, que conhecia quase que profundamente através de um escritor que dedicara sua vida a ela, um baiano chamado Jorge Amado, mas que jamais imaginara que fosse uma cidade com alma. E ela estava lá, a alma de Salvador, batendo fortemente dentro de um coração que se situava bem sob a estátua de Castro Alves, na praça do mesmo nome, sobranceira ao Mar de Iemanjá! Foi uma surpreendente surpresa descobrir aquela coisa, e eu não queria mais sair daquela praça, tentando auscultar as poderosas batidas que vinham de sob ela, entendendo perfeitamente, então, que também as cidades possuem coração e sentimentos!

Descobri o coração de Salvador em 1988; descobri o coração de Abya-Ayalla cinco anos depois, quando me aventurei por países nunca dantes navegados por mim, e fui bater em Sacsayuhaman.

Alguém há de me perguntar o que poderá ser Abya-Ayalla, e então explico: é o nome que muita gente quer que tenha este continente aonde vivemos. Alguém pode até rir, achando que é bobagem, mas esse é um assunto que tem sido seriamente debatido em Fóruns Internacionais, por sérias pessoas que pensam muito seriamente sobre tal possibilidade, e eu já tenho visto uma porção de gente chamando de Abya-Ayalla a este continente que faz uns 500 anos foi batizado de América, por causa de um navegador estrangeiro chamado Américo Vespúcio. Além de saber que era um navegador, e estrangeiro, o que você sabe sobre Américo Vespúcio? Aposto que nada – o que pode representar o nome de América tirado de um navegador que não teve a mínima importância para nós? Pois é, e o nome está aí, durando quase 500 anos.

Abya-Ayalla, no entanto, tem uma significação poderosa: numa das antigas línguas existentes na América Central, ele é traduzido como “Mãe Terra”, ou seja, a mãe de todos nós.

E a Mãe Terra tem coração, tem alma, tem sentimentos?

Tem, e eu descobri tal coisa em 1993, quando fui pela primeira vez a Sacsayuhaman, aquela antiga fortaleza Inca, nas cercanias da cidade de Cusco, Peru, onde, no século XVI, houve a batalha final entre o povo Inca e os soldados do invasor espanhol Pizarro, o que alterou toda a História do nosso continente. É bem ali o coração da América; é ali que gente pode auscultar o solo e senti-lo bater, angustiado e arfante, na mágoa pela destruição dos seus amplos tempos de glória e pelas injustiças do presente. Nunca esquecerei a emoção de descobrir tal coisa, de entender que o nosso continente tem uma alma como as mães têm, já que Abya-Ayalla ele é, mesmo.

Passou-se bastante tempo; foi só no outro outubro, faz agora 15 meses, que eu voltei ao coração deste meu continente muito amado. Eu tinha muita coisa a contar-lhe, mas uma era a mais linda de todas.

Despistei todos os turistas de todos os lados do mundo que por lá andavam, e sorrateiramente me esgueirei até os píncaros daquela fortaleza que parece chorar, tamanho o peso das suas lembranças, e lá, no seu ponto mais alto, sentindo um enorme e poderoso coração pulsar sob mim, eu gritei – gritei bem alto, o mais alto que podia, gritei para o continente inteiro ouvir – o quanto eu amo o meu amor!

Abya-Ayalla entendeu, soube na hora. Seu poderoso coração sofrido de repente deixou de arfar, e disparou de alegria como disparam os corações das mães!

Obrigada pela solidariedade, Mãe Terra! O grande amor não tem como deixar indiferentes sequer o coração dos continentes!

 

VESTIDA DE TI

Tania Melo



dormindo me achava,
sorrindo, sonhava.
Estavas aqui...

os olhos brilhantes,
o peito pulsante.
Estavas aqui...

o corpo vibrando,
desejo aumentando.
Estavas aqui...

paixão num crescendo,
suor escorrendo.
Estavas aqui...

a boca tremia
enquanto gemia.
Estavas aqui...

sussurros ouvia,
teu gosto eu sentia.
Estavas aqui...

fizeste-me tua
no chão, sob a lua.
Já não estou nua,
VESTI-ME DE TI


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