Revista Eletrônica de Literatura do Grupo Literário A ILHA

Abril/2007

 

JOINVILLE E OS LIVROS

Por Luiz Carlos Amorim

Estive, no último final de semana de abril, na Feira do Livro de Joinville, para o lançamento de "A Primavera Sempre Volta". Essa volta é, na verdade, um túnel do tempo, porque foi em Joinville e São Francisco do Sul que comecei a minha "carreira literária", digamos assim, se não for muita presunção. Explico: em Joinville e São Francisco do Sul ao mesmo tempo porque quando estava na faculdade de Letras, em Joinville, eu morava e trabalhava na ilha de São Francisco do Sul, onde também publicava o jornal "A ILHA" e de onde surgiu a revista literária "Suplemento Literário A ILHA" e o grupo literário do mesmo nome. Em seguida transferi-me de vez para Joinville e fiquei vivendo lá e batalhando por espaços para a literatura por quase vinte anos.
Então é uma sensação bem forte voltar às origens, em uma Feira do Livro feita no mesmo espaço onde por quase duas décadas nos reuníamos, uma vez por mês, um punhado de poetas e escritores para apresentar o Varal da Poesia, fazer recital de poemas, distribuir folhetos e sanfonas poéticos, lançar livros, tornar a poesia mais conhecida, enfim. É a mesma praça, agora um pouco diferente, sem o grande palco fixo, de concreto, onde fazíamos os recitais e sem quase todas as grandes árvores onde amarrávamos os fios para colocar os cartazes estampando poemas, como se fora roupa a secar no sol. Aliás, a participação tradicional do Varal da Poesia na Feira de Arte e Artesanato de Joinville acabou justamente pela implicância dos fiscais da prefeitura municipal, que não deixavam mais amarrar os varais nas árvores e nos postes da praça. Depois de tentar outras alternativas, sem muito sucesso, e de desistirmos, substituindo o projeto Varal da Poesia pelo Projeto Poesia no Shopping, outro grupo ligado à "cultura oficial" até apresentou um varal por algumas semanas, mas depois a feira ficou sem poesia: sem varal, sem recital, sem poetas. E até a feira minguou, pois agora não é mais feira de arte, é apenas feira de artesanato e não é mais na praça, é levada no jardim da biblioteca municipal, diminuída e escondida. Uma pena.
Mas voltemos ao presente. A Feira do Livro de Joinville está na sua quarta edição, está se consolidando e só tende a crescer. Vi muita criança lá e soube que o Instituto Feira do Livro, que promove o evento, facilita a ida das escolas à feira, oferecendo vale-livros aos professores. Precisamos incentivar o gosto pela leitura nos leitores em formação e para isso, entre outras coisas, há que levá-los à feira do livro.
Além de stands que oferecem livros de todos os gêneros, há os lançamentos de livros, sessões de autógrafos, palestras, mesas redondas, música e teatro. A propósito, o tema desta edição é a música na literatura.
Foi muito bom estar lá, de volta à praça, vendo a literatura acontecer no mesmo lugar de outrora, encontrar velhos amigos, como poetas da praça que estiveram tantas vezes por ali, cuidando do Varal da Poesia e recebendo o público, como Célia Biscaia Veiga, Else Sant´Anna Brum e Caco. E encontrar um dos mais novos integrantes do Grupo Literário A ILHA, conosco há uns dois anos, um escritor-revelação em Joinville, autor de vários romances, livros infanto-juvenis e poesia e também o patrono da feira: Wilson Gelbcke.
Muitos outros escritores e poetas teriam comparecido, mas infelizmente o horário da minha sessão de autógrafos foi um pouco difícil, pois 14 horas numa sexta-feira é um horário no qual todos ainda estão trabalhando. Mas não faltará oportunidade, e para a feira do livro de Joinville do próximo ano já pedimos à organizadora Sueli Brandão que nos agende para um sábado à tarde, quando então poderemos reunir novamente os poetas e escritores da grande Joinville na feira e não só relembrar o Varal da Poesia e o Recital de Poemas, mas revivê-los, realizando-os novamente no mesmo espaço, em meio à feira.

 

 

CANOA

M. Fátima Barreto Michels

 

Canoa,
que leva o marujo
traz alimento
Canoa que as águas entrega-se
Amor
que em calmarias faz-se.

Outras vezes de dor é
intempérie.
Tormenta
Porque a dialética,
a da vida,
é mesmo esta!

 

 

Abril com Livros


Com uma intensa programação literária, começa amanhã, com abertura oficial prevista para às 14h, a terceira edição do Abril com Livros, projeto coordenado pela Sociedade Amantes da Leitura, de Florianópolis. Durante todo o mês, sempre de sexta-feira a domingo, escritores e leitores poderão se encontrar na Biblioteca Barca dos Livros, localizada na Rua Senador Ivo D'Aquino, 103, na Lagoa da Conceição, sede da sociedade e ponto de partida dos passeios de barco. Amanhã estão previstos três passeios, às 15h, 16h e 17h, durante os quais serão feitas homenagens aos escritores de literatura-infantil Monteiro Lobato e Hans Christian Andersen. À noite, a partir das 19h30, haverá um sarau com narração de contos e lendas.
A diretora da sociedade Tânia Piacentini conta que o Abril com Livros deste ano vai enfatizar a programação na leitura em voz alta e no depoimento de escritores.

 

POEMA NOVO

Teresinka Pereira (USA)


O silencio me domina
e nao posso contradize-lo.
A convivencia com a noite
traz finissimas gentilezas.

Nao espero reconstruir
meu passado, mas seguir
em busca de um novo Sol
que escrevera meu futuro.

As diafanas ansias
ja se transformaram
em aventureiros sonhos
e utopias.


 

1ª Bienal do Livro da Grande Florianópolis


No segundo semestre deste ano, nos dias 4 a 14 de outubro, a Câmara Catarinense do Livro promoverá no Shopping Center Itaguaçu, em São José (SC), a 1ª Bienal do Livro da Grande Florianópolis. Evento pioneiro que tenta reunir os municípios da região metropolitana de Florianópolis, para momentos de cultura, lazer e incentivo à popularização da leitura. A grande Florianópolis terá, então, três grandes feiras do livro.

2ª Bienal do Livro de Santa Catarina

Ocorrerá em Lages (SC), no período de 20 a 24 de junho de 2007, a segunda edição da Bienal do Livro de Santa Catarina. O evento é uma promoção do Núcleo das Escolas Particulares - Instituto Cultural de Lages. Muito bom existir uma bienal do livro num a região como a de Lages, tradicionalmente apegada à cultura.

 

A BARCA

Aracely Braz


Na imensidão do mar
De azul brilhante,
No calor do sol ardente
E do meu coração solitário
A barca desliza...
O horizonte infinito me extasia!
E me leva ao encantamento
De um oásis tão sonhado.
Guiada pela emoção,
Sussurro nossa canção,
Não me sentindo mais só,
Mas no aconchego
Do nosso amor presente;
O destino eloqüente
Na barca então eu sigo.

(do novo livro "Tela Viva")

 

 

FEIRA DO LIVRO

Por Célia Biscaia Veiga
celinhabveiga@bol.com.br

Desde o dia 27 até o próximo dia 5, Joinville é a capital da literatura. Sediando a Feira do Livro, a oportunidade do conhecimento cultural está em alta.
É importante dedicar um pouco do nosso tem-po para prestigiar esse acontecimento.
Além de poder dar uma olhada nos livros que estão com preços mais acessíveis que normalmente, há as apresentações musicais e literárias que fazem parte da programação.
O bom dessa Feira é que além de trazer figurasde expressão nacional como Arnaldo Antunes, também a prata da casa está tendo sua vez.
Autores residentes em Joinville, participante da Ajole (Associação Joinvillense de Letras) estarão presentes, dividindo um estande com o Sesc, tendo oportunidade de divulgarem seu trabalho.
Fiquei sabendo também que nesta sexta, às 14 horas, estará presente o poeta Luiz Carlos Amorim, lançando seu 22º livro - “A Primavera Sempre Volta”, de crônicas.
Amorim, que atualmente reside em Florianópolis, morou durante 20 anos aqui em Joinville e nas décadas de 80 e 90 foi um dos responsáveis por inúmeros varais de poesia, montados junto à Feira de Arte e Artesanato, que na época ficava na mesma praça Nereu Ramos que está sendo a Feira do Livro. Também no Shopping Cidade das Flores, Amorim organizou exposições de poesias, prestigiando escritores iniciantes (ou não) joinvillenses ( de nascimento ou de coração), como Erna Pidner, Rosangela Borges, Margarete Iraí, Aracely Braz, Darcy Nogueira, entre outros, além de publicar o Suplemento Literário A Ilha. Também durante a Festa das flores, organizou “sanfonas de poemas”, com participação de vários poetas usando os temas “Flores, cores e amores”.
É muito bom saber que o “poeta do jacatirão” estará aqui, presente nesse evento que tem tudo a ver com a sua disposição de divulgar não só as suas obras, como também o trabalho incessante de incentivador de outros escritores.
Esperamos que ele, assim como todos os escritores que estarão lançando seus livros possam atingir os corações dos visitantes e, que estes se tornem, se possível, também leitores.
(AN Cidade, 20.03.07)

 

 

MEU MAR AZUL

Selma Franzói de Ayala


Vejo este meu mar
Azul dos olhos de meu pai.

Vejo meu mar
De azul
Dos olhos teus
De meus sonhar...

Vejo a cor
Da força e luz
Deste olhar
Que é meu mar
Deste azul
Radiante luz
De meu viver.

Vejo este meu mar
Azul
Que nunca mais será tão azul
Tão mar
Sem teu olhar...
Pai, foi você que me ensinou a rimar
Amar com mar...

 

 

A MENINA DO RETRATO

Por Apolônia Gastaldi, escritora

Acredito que eu vivia sempre em estado alfa. Uma dimensão fora do comum deixava-me quase em delírio. Tudo colaborava. A casa imensa, centenária e a minha grande solidão.
Dormia na sala sobre o sofá de quatro lugares, nas noites de lua cheia . Ela rolava no céu passando direto na frente da casa e as cortinas rendadas eram um filtro para o luar. Desenhos se refletiam no assoalho, sobre os móveis, por tudo. Era a lua que fazia aquilo. As janelas enormes, as cortinas cheias de rosáceas e aqueles desenhos cobriam toda a sala. Somente o quadro lá do outro lado, na parede, não era atingido. Imenso , lindo , mostrava uma família no fim do século dezoito.Era um retrato não uma fotografia. Os pais já grisalhos sentados. A família toda em pé, os rodeava. Sempre me chamou a atenção uma menina de aproximadamente cinco anos que ficava bem na frente do retrato. Linda. Loura de cabelos cacheados. Vestido de rendas brancas e laços cor de rosa. Belíssima! Numa das mãos segurava algo , pequenino e indecifrável. Naquela hora o retrato ficava na penumbra.
Ali estava eu observando toda a cena. Quase dormindo mas, de olhos bem abertos. Novamente se repetia o encanto . A pouca luminosidade deixava ver tudo tênue e flutuando. Num repente a menina sorria para mim. Eu estremecia. Brilhava a menina do quadro. Mais um pouco e ela rodava pela sala imensa como uma bailarina, como uma boneca das caixas de música. Rodava, dançava, sorria e mostrava o objeto que tinha na mão.Pequeno, ainda indecifrável. Pensava que era miragem , encanto , ilusões de meu cérebro. E a menina linda , loura, dançava para mim , assim , numa distância de poucos metros dentro da sala imensa da Casa Azul. Nenhum som. Somente o luar focalizava . Meus olhos extasiados nem piscavam. Logo mais a lua se escondia atrás de uma pequena nuvem . Que pena! Adormeci na espera, na escuridão da sala.
Amanhecia e o sol vinha. Olhei rapidamente para o retrato. Lá estava a menina pousando, sorrindo. A mesma de sempre. Nem parecia cansada da dança. Na sua mão algo indecifrável. Porém, quando sentei no sofá onde dormira, achei sobre a mesinha de centro, na minha frente , um docinho de natal, de mel , escuro , pintado com fios de glacê, colorido. Iguais aqueles que a nossa Dona Nilda faz para Ibirama. Lindo! Agora eu descobria o que a menina tinha na mão. Era um doce. Oferecia um para mim, alegrando minha solidão. Era o mesmo, aquele objeto indecifrável do retrato. Uma estrelinha de natal.Um doce!

 

 

RENASCIMENTO


Luiz Carlos Amorim


Há um raio de luz
nascendo no horizonte.
Há um fio de esperança
apontando o futuro.
Há um resto de fé
se multiplicando.

É a vida ressurgindo,
É a Páscoa
do renascimento,
do encontro da paz,
da busca do amor,
a comunhão com Deus

 

Como você vai escrever
Reforma ortográfica


A unificação da escrita entre os países de língua portuguesa nunca esteve tão próxima. Para que sejam incluídas as letras k, w e y no alfabeto, suprimidos os acentos no primeiro "o" de palavras como "voo" e "enjoo", extinto o trema, entre outras dezenas de transformações, basta que Portugal ratifique um protocolo. A mudança, sem data para entrar em vigor, influenciaria a vida dos 188 milhões de brasileiros.

Para que se compreendam as alterações é preciso voltar 17 anos. Em 1990, os oito países que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa firmaram o Acordo da Ortografia da Língua Portuguesa. Um documento final teria de ser ratificado por pelo menos cinco nações para que entrasse em vigor. Mas só três o referendaram: Brasil, Portugal e Cabo Verde.

A comunidade decidiu, portanto, criar um Protocolo Modificativo, que reduziu para três o número de signatários necessários. Dos três que já tinham assinado, Brasil e Cabo Verde repetiram o gesto. Em novembro passado, São Tomé e Príncipe ratificou o protocolo. Na prática, a mudança já poderia ter ocorrido nos três países. Mas como levar adiante o assunto desta natureza sem a presença de Portugal?

- Não se pode tocar para frente a unificação da língua portuguesa sem que Portugal esteja envolvido - diz o presidente da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vinicios Vilaça, um dos defensores do acordo.

Em dezembro, em visita ao Rio de Janeiro, a representante do Ministério da Educação de Portugal, Maria Angélica Ribeiro, revelou que faltava apenas uma "questão política" para a assinatura do protocolo.

Segundo a assessoria de imprensa do Itamaraty, que representa o Brasil nas discussões, o governo defende a uniformização porque, entre outras coisas, "representa uma economia a médio e longo prazo".

No Estado, a chefe interina da Divisão de Ensino Médio da Secretaria Estadual da Educação (SEC), Jane Graeff de Oliveira, vê a possibilidade de mudança com preocupação. As cerca de 900 escolas estaduais com Ensino Fundamental têm pelo menos mil livros nas bibliotecas. Parte deste acervo teria de ser atualizada, o que representaria um gasto milionário aos cofres públicos.

- Acho que esta mudança não é uma necessidade e nem uma prioridade - opina Jane.

 


Como o idioma é reescrito


As negociações sobre o Acordo da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa se estenderam de 1985 a 1990 entre membros das academias Brasileira de Letras e das Ciências de Lisboa e técnicos dos respectivos governos, além dos de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, e Cabo-Verde.
Em1990, o acordo foi aprovado por representantes dos respectivos executivos, em Lisboa.
Em 1991, a Assembléia da República, de Portugal, aprovou o decreto por decreto legislativo.
Em 18 de abril de 1995, o Congresso baixou o decreto legislativo aprovando o texto do acordo.
O documento final teria de ser ratificado por pelo menos cinco países, mas apenas três o fizeram: Brasil, Portugal e Cabo Verde.
A comunidade criou um Protocolo Modificativo, que reduziu para três o número de signatários necessários. Dos três países que já tinham assinado, apenas Brasil e Cabo Verde repetiram o gesto.
Em novembro, São Tomé e Príncipe ratificou o novo protocolo.
É considerado inviável que o acordo vá adiante sem que Portugal ratifique o Protocolo Modificativo, mesmo que três país já o tenham assinado.
Algumas das alterações definidas pelo Acordo da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa:
- Não leva acento agudo diferencial as palavras homógrafas tônicas para distingui-las das átonas. Alguns exemplos:
- para (verbo) - para (preposição)
- pela(s) (substantivo) - pela(s) (verbo) - pela(s) (per + la(s))
- pelo(s) (substantivo) - pelo (verbo) - pelo(s) (per + lo(s))
Facultativo:
- fôrma (substantivo) - forma (substantivo - verbo)
- Supressão do circunflexo nas formas verbais "creem", "leem", "veem" e seus derivados
- Criação de alguns casos de dupla grafia para fazer diferenciação. Por exemplo, uso do acento agudo na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação, tais como "louvámos" (passado) em oposição a louvamos (presente) e "amámos" (passado) em detrimento de amamos (presente)
- Incorporação definitiva ao alfabeto das letras k, w, y, passando-o de 23 para 26 letras
Extinção do trema
- Eliminação do acento agudo nos ditongos abertos ei e oi de palavras paroxítonas, caso de "assembleia", "ideia", "heroica", "jiboia", hoje grafadas com acento
Não levam acento agudo as vogais tônicas "i" e "u" das palavras paroxítonas quando precedidas de ditongo, como: "baiuca", "baiuno", "cauila".


Idéia contrária


O que diz Cláudio Moreno, professor de português e doutor em Letras:
"Assisti às mudanças em 1971, quando foi retirado o acento circunflexo diferencial de 'gelo' e 'coco'. A partir daquele momento, todos os dicionários e os livros de literatura infantil, por exemplo, tiveram de ir para o lixo. É uma tolice. Só países ridículos fazem reformas ortográficas."
A favor da idéia
O que diz Mauro de Sales Vilar, co-autor do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa e diretor do Instituto Houaiss de Lexicografia
"É uma necessidade e uma vergonha que ainda não tenha sido feito (o acordo). Todas as grandes línguas já fizeram isso. O árabe, por exemplo, idioma de mais de 15 países, é falado de forma diferente, mas escrito da mesma forma."

 

MAR DE ROSAS

Caco de Oliveira

 

para que tamanha vastidão

de rosas

se somente uma dentro de vós

é a dos ventos?


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