Revista Eletrônica de Cultura e Literatura

do Grupo Literário A ILHA

Agosto/2006

 

CANÇÃO DE AMOR

Luiz Carlos Amorim

Vem, pai,
senta-te à soleira
do meu coração
e me conta
uma história de vida.
Encosta a tua cabeça
num pedacinho da minha alma
e me canta
uma canção de ninar.
Depois, diga-me, por favor,
um poema de amor,
um daqueles
que quase ninguém disse,
e só você pode me dizer...

 

JORNAL VAIA - EDIÇÃO ESPECIAL COM QUINTANA

O Jornal Vaia, de Porto Alegre, publicou uma edição especial, neste mês de julho, inteirinha sobre o poeta Mário Quintana, a propósito do seu centenário de nascimento. Artigos, ensaios, crônicas, entrevistas e poemas de Aricy Curvelo, Armindo Trevisan, Charles Abegg, Cláudio Portela, Isaac Starosta, Juarez Fonseca, Larí Franceschetto, Lau Siqueira, Luis Pimentel, Luiz Carlos Amorim, Marcelo Spalding, Mario Pirata, Miguel Sanches Neto, Nei Duclós, Paulo Mendes Campos, Sidnei Schneider, Urda Alice Kluegercarlos Drummond de Andrade, Fernando Ramos. Uma edição histórica. Quem quiser conhecer, contate o jornal: colaboradores@jornalvaia.com e acesse o site: www.jornalvaia.com

 

 

Num gélido 30 de julho de 2006...

Tania Melo



Quem é esta figura pequenina e encurvada, cigarro à boca, que caminha pelas ruas, passos lentos, olhar viajante, como se nada buscasse, mas ao qual nada escapa?
Tem seus cabelos brancos despenteados pelo vento frio, cortante, mas que não lhe tira do rosto o sorriso de felicidade.
Para onde se dirige em sua caminhada aparentemente sem destino, despretensiosa, que, entretanto, conhece o formato e o local de cada pedra por onde pisam seus pés?
Desde as primeiras luzes desta manhã gelada, como se a temperatura fosse a de um dia primaveril, ele trilha, sorridente, o mesmo pedaço de chão, ora para cima, ora para baixo.
Entra e sai de locais velhos conhecidos que lhe falam de um tempo que sempre será.
Em cada trecho uma lembrança, pedaços de uma vida repleta de encantamentos.
Ei-lo, enfim, à porta dos Cataventos...
O ambiente lotado, o faz estanque, por instantes, até que se anime a entrar.Afinal, ali é seu verdadeiro lugar.
Quem é afinal, esta criatura amadurecida pelo tempo, mas em cujo peito palpita um coração que não envelheceu?
Os amigos se aproximam e o tomam pelo braço.
Todos os presentes só falam no seu nome e ele sorri, timidamente, ou melhor, de forma introvertida, como sempre se definiu: "Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?"
Senta-se com eles e, hoje, mais do que nunca, comemora.
Ouvem-se foguetes espocando pelo ar, um bolo com cem velinhas é trazido para a mesa e o Parabéns a Você é entoado por um coro de corpos e almas reunidas, homenageando àquele que dizia "não se sentir pronto, por ser prematuro", até que soube que outros grandes como Churchill e Newton, também o tinham sido.
"Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz".
Assim é o nosso aniversariante do dia. O nosso amado Quintana. Tão comemorado, tão festejado, tão lembrado que se emociona e só se vai quando o último raio de sol já abandonou o céu da sua adorada Porto Alegre.
Mas ele volta... ah, quanto a isso podem ter certeza!

 

SAUDADE

Mário Quintana


na solidão na penumbra do amanhecer.
Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.

Via você no ontem , no hoje, no amanhã...
Mas não via você no momento.
Que saudade...


O luar
O luar, é a luz do Sol que está sonhando

O tempo não pára! A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...

...os verdadeiros versos não são para embalar, mas para abalar...
A grande tristeza dos rios é não poderem levar a tua imagem...

 

MEU PÉ DE JACATIRÃO E AS BORBOLETAS DE QUINTANA

Por Luiz Carlos Amorim


É manhã de domingo e o dia está triste, cinzento. O sol não saiu. Abro a janela e vejo meu pé de jacatirão com suas flores vermelhas, brancas e dessas duas cores misturadas, muito vivo. Nos dias de sol vou aguá-lo, pois o calor faz as pétalas de suas flores murcharem. E me vejo fazendo a mesma coisa hoje, carinho desnecessário, pois o sol não veio. E as borboletas também não virão, penso.
Então me lembro de um poema de Quintana, o menino Quintana, nosso menino Quintana, sempre ele: "Pedro pintou, um dia, em alguma parte do mundo o retrato de uma borboleta. / as cores, as de seu desejo. / Pintou, ainda, sobre o papel, flores para a borboleta se esconder e galhos para descansar. / ... / Nesse dia, ele viu o vôo de uma borboleta / (vôo de borboleta pode transformar qualquer dia em domingo)."
Então me dou conta de que meu dia triste já se iluminou com as cores do jacatirão, me dou conta de que posso pegar as cores das pétalas da minha amiga árvore, mais todas as cores do sol que não veio e pintar borboletas esvoaçantes dentro dos meus olhos e dentro do meu coração.
E deixo minhas borboletas alçarem vôo para fora do meu olhar e pousarem em meu pé de jacatirão. Percebi, então, que aquele não era um dia qualquer: era uma manhã de domingo, iluminada e feliz, com as minhas flores de jacatirão e as borboletas de Quintana.
Só ele, o "passarinho" Quintana, o nosso poeta menino, para me devolver minha manhã de domingo. Como sempre, ele tinha razão do alto dos seus cem anos de poesia neste mundo de Deus e no outro mundo de Deus, para onde ele foi fazer poesia para os anjos. Nada como um vôo de borboleta para transformar qualquer dia em domingo, mesmo que esse dia seja mesmo domingo e mesmo que essas borboletas sejam pintadas com as cores do sol e das flores de jacatirão, dentro dos olhos de um poeta triste, para alegrar o seu coração.
Será acaso, ou Deus juntou-se a todos nós, numa grande e natural homenagem ao poeta Quintana, o fato de ser domingo o dia 30 de julho de 2006? Alguma dúvida?
Feliz aniversário e feliz manhã de domingo, menino Quintana! De presente pra você, todas as flores e todas as borboletas! Pois todos os seus dias não são, agora, manhãs de domingo?


Bolhinhas de sabão

Maria de Fátima Barreto Michels

Que leves são
bem coloridas faço trezentas
já num minuto!
E no espaço,
elas
se vão !

Se houver brisa,
da bem suave,
até viajam, um bocadinho
mas tais bolhinhas são como eu
deixam de ser,
bem ligeirinho

Tudo é igual aqui no mundo,
a uma bolhinha bem delicada
Não se demore
Não se distraia
apenas olhe e se permita
Seja bem leve e compreenda
Que ser bolhinha,
é nossa lida!

E estar humano, é tão ligeiro!
É nossa sina.
É tão depressa que a gente brilha
É num repente,
que a gente finda.

E por ser tão breve
esta nossa vida,
use seu tempo só pra me olhar
dizendo sempre que me assoprar
linda! linda!
Ela é tão linda!

 

Memória de minhas putas tristes

Por Maicon Tenfen

Lançado em português há cerca de duas semanas, /Memória de minhas putas tristes/, do Nobel colombiano Gabriel Garcia Márquez, bateu /O Código da Vinci/, não se sabe por quanto tempo, nas listas de livros mais vendidos entre nós. O dado numérico se faz necessário, porque Márquez, desde que estourou em 1967 com /Cem Anos de Solidão/, constituiu-se num raro exemplo de escritor coroado com o sucesso tanto de público quanto de crítica.
Naturalmente, não é fácil explicar um fenômeno dessa natureza, mas basta ler três linhas de qualquer de suas obras para percebermos que sua genialidade passa longe do hermetismo e da falsa erudição que se tornaram moeda corrente no mundo das letras. Márquez consegue ser simples sem ser banal, profundo sem ser prolixo, poético sem ser clichê.
"No ano de meus noventa anos", começa o personagem-narrador, "quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem." É assim, com apenas vinte palavras, num chute de primeira e sem pulo, que o autor configura o protagonista, promete uma grande trama e dá o tom para o resto de sua novela.
A partir dessa sentença de abertura, não por acaso polêmica, uma história aparentemente imoral vai aos poucos se transformando numa lírica meditação sobre a vida. E essa meditação, sempre intercalada pelas tiradas espirituosas da cafetina Rosa Cabarcas ("Também a moral é uma questão de tempo"), vem confirmar aquilo de que os mais novos desconfiam e que os mais velhos sentem na pele: o Amor, fantasma incansável, rondará e atormentará até o último de nossos dias!
Enquanto narra seus encontros noturnos com a púbere Delgadina, espécie de anti-Lolita enclausurada nos mistérios do silêncio e da inocência, o protagonista nonagenário, raro na literatura e praticamente impossível no cinema, revive suas lembranças de fidalgo terceiro-mundista e seus infinitos quase-amores de bordel.
O título, por isso, não é despropositado. As prostitutas de antigamente, que norteiam as inúmeras fases da longa e solitária trajetória do narrador, são concretas, vivas, delineadas, ao contrário da jovem aspirante a concubina, tão vaporosa e fugaz quanto às melhores virgens do Romantismo. Quem ler entenderá o porquê dessa diferença.
Claro que não estamos diante de um novo /Cem Anos de Solidão/, imbatível inclusive por seu próprio criador, mas isso não quer dizer que /Memória.../ não tenha os encantos e os odores de Macondo e a simetria das outras obras de Garcia Márquez.
Há, nas páginas iniciais, uma melancolia que nos remete às melhores passagens de /Ninguém escreve ao coronel/, até que essa comparação - inevitável - se dissipa ao entendermos que aqui há mais ironia e mais sutileza no tratamento dos dois temas essenciais do autor: a velhice e a solidão.
Livro que inquieta e diverte. Recomendo. Especialmente a quem andava meio desanimado com as listas de mais vendidos.

 

 

GAIVOTA

Apolônia Gastaldi

Sou gaivota
solta
imensa
no ar.

Sou gaivota
leve
triste
arfando
meu navegar

Sou gaivota
leve
branca
lívida
no jejuar

Sou gaivota
leve

na ventania
do mar.

Sou gaivota.
Só.

 

 

Festaria de Brincança - A leitura literária na Educação Infantil.

 

A pedagoga e doutora em Letras Eliane Debus acaba de lançar, em Florianópolis,

o livro Festaria de Brincança - A leitura literária na Educação Infantil.

A importância de ler é uma bandeira

com a qual Eliane Debus costuma acenar
para aqueles em quem ela percebe qualquer semente de paixão pelos livros. É
um tema sobre o qual ela vem falando para professores, alunos, jornalistas,
leitores. Um assunto que ela divide, apaixonadamente, em encontros,
palestras, sites, releases. E que agora, com Festaria de Brincança, ganha
traços certeiros sobre linhas brancas.

O livro é oportunidade para pensar objetivamente esta que é uma questão tão
importante da Educação Infantil. Um passo em direção às inúmeras soluções
que podem ser encontradas no dia-a-dia para driblar o tão desgastado
"criança brasileira não gosta de ler". Para isto, ela reúne propostas de
atividades, que podem ser compartilhadas com crianças de zero a seis anos.
Ou seja, mesmo antes que elas se tornem leitores independentes. E isto pode
ser feito através da contação de histórias, de brincadeiras orais, de livros
de imagens, para citar exemplos.

Nestas propostas, vale ressaltar, há muito mais do que o cumprimento de
diretrizes instituídas. Existe a percepção de uma necessidade real que só
pode ser genuinamente sanada quando ocorre envolvimento por parte de
educador, educando - e pais. O texto de Eliane, aliás, é destinado
primeiramente aos mestres (os de hoje e os do futuro), mas também aos
cuidadores que entendem educação como algo que começa antes do café da manhã
e termina depois da janta - de preferência com uma leiturinha e um beijo de
boa noite.

 

 

CHUVISQUEIRO

Virgínia Vendramini

De repente vem lá de fora
Um ruído leve, quase um murmúrio,
Inesperada melodia, quase alegre,
Suave rumor de pés descalços,
Ágeis, roçando na areia.

É pena que dure tão pouco...
Alguns momentos somente...
Canção interrompida nas primeiras notas...

E no silêncio que se renova
Perdura o cheiro bom da terra
Apenas umedecida
Pela alegria breve do chuvisqueiro.

 

ENCONTROS EM LAGUNA

Maria de Fátima Barreto Michels


De 29 de julho a 04 de agosto deste 2006, estaremos comemorando os 330 anos
da fundação de Laguna, aqui ao litoral sul de Santa Catarina, uma cidade que
provoca encantamentos já a partir das praias e lagoas que a banham.

Laguna possui características especiais que cativam de imediato quem até
aqui vem para visita-la ou mesmo para conhece-la, no íntimo.

É uma cidade com muitas histórias para contar e, justo por ser tricentenária
fez também muitos amigos, nesta sua viagem pelo tempo.

Assim como em outras cidades, por aqui temos também carências de toda ordem
até porque não somos uma cidade endinheirada, não possuímos fábricas
,sobretudo porque talvez ,ainda não tenhamos de fato descoberto Laguna, no
seu singular patrimônio e no potencial de turismo que ela possui.

Questões empresariais, financeiras, contudo não são da minha competência,
prefiro lidar com assuntos ligados aos aspectos pedagógicos e culturais.
Certamente que educação e cultura são os alicerces do desenvolvimento e
jamais, muito menos nos dias que correm, pode-se pensar em crescimento e
autonomia sem escola, cultura e educação.

Neste contexto vejo a leitura e os livros como os maiores aliados das
crianças e jovens. Aparelhos como computadores vão se tornando cada dia mais
presentes na vida de escolares, seja em casa ou na escola. A questão é que
digitar comandos e operar tecnologias não representarão conquistas de
cidadania e evolução sem a prévia vivência da leitura. Para que leia a vida,
o mundo e desenvolva-se com capacidade crítica, uma pessoa precisa
aproximar-se e manter-se com freqüência junto aos livros.

Não tenhamos dúvidas, que neste quesito, os professores do primeiro grau são
as pessoas mais indicadas para criarem os elos entre o livro e a criança.
Eventos que incentivem a leitura trarão sempre benefícios à juventude porém
vejo com preocupação a ausência das estantes e dos livros pelas centenas de
casas onde há estudantes.

No início deste mês em entrevista que concedeu à imprensa na capital, a
premiada escritora Ana Maria Machado, perguntada o que deveríamos fazer
para incentivarmos nossos filhos a lerem, ela respondeu:

"- dando-lhes o exemplo!"

Recentemente tive uma bela surpresa ao saber que foi criado o Carrossel das
Letras, um grupo de escritores de Laguna que vem realizando encontros há
mais de um ano.

O Grupo de Escritores Lagunenses, reuniu seus contos, crônicas e poemas e
vai publicar "ENCONTROS", livro a ser lançado na primeira quinzena de
agosto.Não conheço o conteúdo da obra, apenas tive a satisfação de
participar de uma destas reuniões no início do mês onde apresentei uma foto
de minha autoria, (com o visual do Jardim Calheiros da Graça - na Praça
Vidal Ramos) a ser votada pelo grupo, para eventual utilização na capa do
livro.

Independente do que os leitores, dentre os quais me incluo, vierem a opinar
com relação ao que produziu cada escritor, vejo com otimismo a iniciativa
deste grupo que poderá realizar muitos projetos benéficos para a nossa
cidade. A provocação do leitor, desde o mirim até o idoso é prioridade a ser
buscada.

Sinto esperança, quando vejo iniciativas que possam transformar-se em
práticas que conduzam crianças e jovens a envolverem-se com o mundo dos
livros. O Carrossel das Letras é uma linda semente que começa a germinar.
Neste aniversário de Laguna onde festejamos também a proclamação da
República Juliana, o Carrossel é um belo presente que o Grupo de Escritores
de Laguna oferece à terra de Anita Garibaldi.

 

AS MÃOS DE MEU PAI


Mário Quintana


As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
Sobre um fundo de manchas já da cor da terra
Como são belas as tuas mãos
Pelo quanto lidaram, acariciaram
Ou fremiram da nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
Essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
Nos braços da tua cadeira predileta,
Uma luz parece vir de dentro delas...
Vira dessa chama que pouco a pouco, longamente,
Viste alimentando na terrível solidão do mundo.
Como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los
Conta o vento.
Ah, como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas...
Essa chama de vida – que transcende a própria vida...

e que os anjos, um dia, chamarão de alma...

 


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