Revista Eletrônica de Literatura

Junho/2006

 

A ILHA na FEIRA DO LIVRO DE ITAJAÍ

O Instituto da Educação e do Livro de Itajaí promove, no período de 22 de junho a 02 de julho de 2006, o Circuito Catarinense de Literatura - Etapa Itajaí, tendo por local a Rua Hercílio Luz - em frente à Casa da Cultura.

O Circuito abrange os seguintes eventos:
1) Feira do Livro
Em Itajaí está na sua 3ª edição, se constitui como um espaço local de acesso ao livro e à cultura integrando escolas, instituições, livrarias e editoras numa jornada em prol da democratização do conhecimento.
2) Encontro com Grandes Nomes da Literatura
Espaço que reunirá nomes nacionais no qual estudiosos e críticos literários debaterão obras que são referência obrigatória na história da literatura e um convite permanente a leituras e releituras.
3) Prata da Casa
Tem como objetivo relevar a presença dos talentos literários de Itajaí; revelar novos autores que merecem, pela qualidade literária, mostrar sua produção na praça e, aproximar o autor itajaiensee do público leitor. O programa preenche um vazio que se constata pela ausência do autor local nas livrarias, na mídia e mesmo entre os leitores da cidade. Os escritores convidados darão entrevistas e farão uma sessão de autógrafos para o público visitante

Com certeza o Evento será um grande momento de popularização do livro, formação de leitores e incentivo à leitura.
O Grupo Literário A ILHA estará participando com o lançamento dos livros de Apolônia Gastaldi - a saga "A Força do Berço" em quatro volume: Herança, Segredos, Sinais e Regresso - romances, "Barra do Cocho" - romance, Anjos Azuis - romance e "MAR" e "Amor" - poesia.

Também serão lançados os livros deste colunista, "Emoção não tem Idioma" - edição trilíngue de poemas em espanhol, português e inglês, do livro de crônicas "Saudades de Quintana", em homenagem ao centenário de nascimento do poeta e da edição de junho da revista Suplemento Literário A ILHA, especial de aniversário - 26 anos de existência e resistência, que traz encarte especial sobre o Contestado.

 

JUNHO, MÊS DO ROMANTISMO

A revista eletrônica de cultura e literatura do Grupo Literário A ILHA se rende ao romantismo e homenageia os românticos neste mês de junho, com poemas de namorados enamorados.

CONVITE

Apolônia Gastaldi

Entra comigo
No reino da ternura

Quero desvendar o ser
O ser

Sou um evangélio
De loucuras
Inteiro
Feito de ingênuas
Criações

Um delírio exuberante
De utopias
Marcado de sonhos
Ilusões

Não vivo
Vibro

Vibro como se a vida
Fosse imensa
Colossal eternidade
Um universo de venturas
Ingênuas
Loucuras.

 

LIVRARIA À BEIRA-MAR



Se eu pudesse trabalhar na beira do mar, de bermudas, chinelos... Você já sonhou com uma vida assim? É bem provável que sim. Talvez o que lhe falte - e a todos nós - seja a oportunidade de dar uma guinada na vida, como fez Francisco Carlos, formado em jornalismo pela PUC de Porto Alegre. Ele trabalhou durante muitos anos em jornais gaúchos e paranaenses, escreveu três livros, dois deles contando histórias da Guerra do Contestado.
Apesar do estresse diário, Chico gostava da vida que levava, mas tinha o sonho de juntar suas duas paixões: os livros e a praia. Só não sabia como fazer isso. Queria montar um sebo (compra e venda de livros usados), mas era apenas mais um de seus desejos, bem distante de ser realizado.
Até que um dia, Chico conheceu uma moça de Florianópolis pela Internet e, apaixonado, decidiu mudar-se para a capital catarinense. Foi morar na Praia do Pântano do Sul, uma comunidade tranqüila, que é reduto de pescadores artesanais. O namoro não deu certo, mas o jornalista gaúcho nem pensou em voltar para sua terra.
Comprou uma camioneta ano 96 e nela montou seu sebo ambulante. Trouxe os livros que já tinha em sua biblioteca, comprou outro tanto e ganhou mais alguns. Hoje, seu carro permanece estacionado o dia todo na beira da Praia do Pântano do Sul, embaixo de uma grande lona branca que serve como abrigo do sol. É ali, a partir das 10 da manhã, que Chico recebe seus clientes, de bermudas, chinelos e boné, como sempre sonhou.
Possui mais de mil títulos, de todos os gêneros. Seus clientes são os moradores da própria comunidade - que querem comprar, vender, alugar ou emprestar livros e revistas - e também os turistas, que elogiam a idéia de vender livros a preços populares na beira da praia.

 

UM NOVO DIA

Para qualquer mulher, para qualquer homem,
que sinta amor fraterno. Que sinta qualquer amor. Para qualquer pessoa,
que sinta alegria, e fé, depois da dor, ou desamparo.


Maria de Fátima Barreto Michels


Um novo dia,

E tua alma, uma nova alma.

Sei que é assim

Que sempre te resgatas

És mais forte que qualquer rotina

Nada ao teu redor terá mofo

Sim sei o quanto és frágil

Mas sei da tua vontade grande

Um novo dia

Te saúdo,

o frescor de(o) espírito!

Em mim também

Acontece em certas manhãs

Uma alegria gratuita

QUE SE ACORDA COMIGO

E esta talvez seja uma

Em que a rua acorda cheia de sol

E meu pensamento

É de fé

De leveza

De sol

E uma vez mais

Bendigo tua existência

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Camping I - Junho

Urda Alice Klueger

Quando emerjo da minha pequenina barraca, oito ou nove da manhã, depois de ter dormido acolhedoramente junto ao seu peito ausente, estou cheia de bem-estar e pronta para mais um livro a ser lido ou estudado, que tal já fiz antes de dormir, provavelmente até lá pelo meio da noite. Então emerjo da barraquinha azul que tem quase nada, um colchão, uma coberta e um travesseiro de penas, herança de família, um lençol cor-de-rosa, uma sacola com coisas pessoais e uma pasta com livros e cadernos e saio para um mundo ainda envolto pela névoa. A grama verde está toda molhada pela névoa espessa; meu carro, ali pertinho, também está todo perolado da água condensada daquela cerração. Então saio para ela e fico encantada com o silêncio dela, e dentro dela posso ver o rio com compridos cardumes de compridos peixes que parecem que nunca sentem frio, e então me dou conta que o barulhinho que ouvia dentro do sono é o barulhinho da água do rio bastante largo para que a gente não se atreva a atravessá-lo a pé, e que se encachoeira um pouco adiante, onde acaba o remanso que é o domínio dos cardumes dos peixes compridos.
Atenta, percebo outros pequeninos ruídos que parecem silêncios: são pequenos pios, leves arrulhos, gorjeios quase imperceptíveis, e se prestar bem atenção, até distingo de quais árvores ou arbustos tais barulhinhos provêm sem quebrar, de forma nenhuma, o grande silêncio da névoa espessa. Pela grama molhada costuma saltitar silenciosamente um quero-quero que penso que não está acasalado, pois nunca o vi a defender barulhentamente ninhos e filhotes. Os insetos que cometeram suicídio durante a noite jogando-se sobre a lâmpada que fica acesa já foram devidamente devorados pelas formigas pretas que vejo ao redor dos meus tênis brancos enquanto estudo, e as formigas pretas faz tempo que foram-se embora para algum ninho tão escondido e silencioso que nunca o vi. Tudo está limpo e organizado nas manhãs de névoa, e escovo os dentes observando a perfeição da mesma e da natureza, atenta aos arrulhos e cicios silenciosos, e depois como meu iogurte passeando pela grama que molha minhas meias. Sei que lá longe, na cidade, está bem mais quente, mas ali naquela umidade do silêncio e da névoa, são necessárias meias de lã e um casaco peludo. Sei que antes do meio dia o sol vai perfurar aquele mundo branco e que vai transpassar as folhas dos palmitos novos que ficam perto da churrasqueira aonde estudo, deixando aberta à minha visão a clorofila de cristal daquelas folhas com tanta clareza como se cada folha tivesse sido aberta por um fino e impiedoso bisturi que não permite a intimidade da cor interna - mas por enquanto as folhas dos palmitos novos também ainda estão mergulhadas na névoa, e todo aquele mundo silencioso, branco e adstringente é um mundo pejado de você, tão cheio da sua doçura quanto o meu coração costuma estar. E eu o sinto silenciosamente em cada arrulho silencioso, em cada cicio, em cada piu quase inaudível, na cerração e na clorofila que virá, e principalmente dentro do meu coração. Então, sem fazer barulho para não quebrar aquela harmonia, começo a tirar da minha pasta o livro que terei que ler naquela manhã, já me envolvendo psicologicamente com ele, quando lá do rio vem o primeiro ruído:
- Blump! - e foi um dos peixes compridos que pulou fora da água e quebrou o silêncio, e quebrou a ilusão de que se estava no Mundo das Fadas, e devolveu ao cenário à sua realidade terrestre. Então me certifico de duas coisas: que está mesmo na hora de estudar, e que, mais que na névoa e na beleza da natureza, você está tão vivo e tão forte dentro de mim!

Blumenau, 11 de Junho de 2005 (Véspera do dia dos Namorados)


MEU MAR

Luiz Carlos Amorim

Ah, esse meu mar sereno
a temperar sentimentos,
a agitar anseios,
a embalar meus sonhos...

Ah, esse meu mar irado,
a invadir-me a alma,
a revirar guardados,
a descobrir segredos...

Ah, esse meu mar catarina,
essas praias sem igual,
supra-sumos naturais
a arrebatar corações
em ondas de sedução...

 

 

BIBLIOTECA NO HOSPITAL, PARA PACIENTES

Desde o final do ano passado, o Hospital Universitário da UFSC conta com sua Sala de Leitura. Batizada de Salim Miguel, a sala foi viabilizada com o apoio da empresa White Martins e da Editora Record, que doaram mil obras, todas novas. A maioria dos títulos encaixa-se nos gêneros romance, crônica, poesia, auto-ajuda e religião. O objetivo é incentivar a leitura dentro do hospital, além de descontrair os pacientes e tornar a estada menos traumática.
Os funcionários do hospital poderão emprestar os livros ou lê-los na própria sala. Para os pacientes e acompanhantes, foi projetado um carrinho em uma parceria com a Associação Amigos do HU para recrutar voluntários de leitura para pacientes analfabetos ou cegos.
O escritor Salim Miguel disse se sentir lisonjeado por ceder seu nome a uma sala de leitura, pelo fato de considerar os livros seus "amigos silenciosos", "fundamentais para um país com tanta desigualdade social". Apesar dos mil livros já existentes no acervo, as prateleiras da sala ainda não estão com plena capacidade, esperando a doação de novos títulos. Informações pelos fones 48-33319132 ou pelo mail ssm@hu.ufsc.br

 

Sonhando à Beira-Rio

Anamaria Kovács

A floração despenca
E flutua
Na pele do rio
Flor contra flor
Num beijo narcísico e circular
Redemoinhando
Preguiçosamente
Rumo ao mar...

 

O ANIVERSÁRIO DA VELHA SENHORA


(ou "Parabéns, Ponte Hercílio Luz")

Por Luiz Carlos Amorim

Acabou de completar oitenta anos, a velha senhora, no dia 13 de maio. Não lhe comemoraram muito o aniversário, apesar de oitenta anos ser um marco significativo. Mas deveriam. Sua comunidade, as pessoas que vivem na cidade a qual serviu, até que foi aposentada, aos cinqüenta e seis anos, deveriam festejar-lhe a longevidade. Parece pouco, parece ter se aposentado ainda jovem, mas trabalhou muito a velha senhora, dando passagem ao seu povo, ao progresso, facilitando as idas e vindas do continente para a ilha e vice-versa.
Velha senhora que, apesar de aposentada, continua servindo, posando como principal cartão postal da capital de Santa Catarina. Triste e melancólica, a dama de ferro, se vista de perto, passando por mais uma operação plástica, mais uma cirurgia para poder receber, no futuro, os caminhantes da sua cidade. Sim, os caminhantes, pois ela está muito cansada, a idade lhe pesa e não pode mais suportar veículos, os automóveis, caminhões, ônibus, nem pensar. Depois da série de cirurgias que vem sofrendo ao longo do tempo, quem sabe, pode até acolher o metrô de superfície que cogitam implantar para passar sobre ela, quem sabe?
Mas continua imponente e majestosa de qualquer ponto da cidade que domina, a velha senhora mais bela da capital.
Presto homenagem a você, velha senhora, em nome de todos aqueles que vivem na nossa bela Florianópolis, e quero que saiba que entendo a sua melancolia, você que nos deu passagem por mais de meio século por seus braços estendidos sobre o mar, um do lado do continente e o outro do lado da ilha de Santa Catarina. Sentimos falta de caminhar sobre o seu peito protetor, a nos dar segurança para chegarmos ao outro lado. As pontes de concreto que se perfilaram ao seu lado não têm a beleza e o carisma que você tem. Sabemos que já trabalhou demais, que merece a sua aposentadoria, mas está tão bela e sua solidão é tão dolorida que sonhamos ser acolhidos em teu seio novamente. Enquanto estiver assim, altaneira e soberana, teremos esperança. Sabemos que lhe são incômodas as cirurgias contínuas que sofre e pedimos perdão por isso, mas é para devolver-lhe a saúde e poder mostrar que é a velha senhora mais forte que todos conhecemos.
Parabéns, Ponte Hercílio Luz, patrimônio da bela e Santa Catarina, pelos seus oitenta anos. Esperamos que possamos comemorar muitos outros aniversários e, quem sabe, num futuro próximo, no meio dos seus longos braços abertos.
Você, que é patrimônio histórico e artístico de nossa terra, mas mais do que isso, é patrimônio do coração de todos nós.

 

MUSA INSPIRADORA

Wilson Gelbcke

Palavras soltas ao vento
buscam se encontrar...
Em prosa e verso,
toque de encantamento,
palavras se unem, se completam,
para amor declarar!
Nenhuma magia ou dosagem,
Poção milagrosa sequer...
Em prosa e verso,
toque de emoção e coragem,
palavras se unem, se completam,
o milagre é mulher!
Musa que sussurra
vocábulos de inspiração...
Em prosa e verso,
toque de amor e ternura,
palavras se unem, se completam,
fala o coração!

 

AUDIOLIVRO GANHA NOVOS LEITORES

Os áudio-livros ou livros falados já são uma realidade não só para crianças e deficientes visuais, mas também para as pessoas que não conseguem encaixar a leitura dentro da rotina diária.
As apostas de editoras brasileiras neste segmento são otimistas. O áudiolivro cumpre o papel de aprimoramento do mercado editorial. Tanto que hoje, nos Estados Unidos, é comum ocorrer o lançamento simultâneo do livro impresso e do CD.
Confirmando o entusiasmo das editoras pelos livros falados, uma editora nacional acaba de receber encomenda de mais de três mil kits de livros com CD para uma escola. Os professores procuram os audiolivros tanto pra estimular a leitura, quanto para trabalhar com crianças com dificuldades de aprendizado.
Uma administradora, que costumava ler três livros por mês, conheceu recentemente o audiolivro por meio de uma amiga deficiente visual. Descobriu que ela tinha "O Código da Vinci" em CD e pediu emprestado. Sem tempo para conhecer o polêmico livro, em três dias ela ouviu a obra, ao mesmo tempo que fazia tarefas domésticas. É claro que ouvir um livro, para quem não é deficiente visual, não é a mesma coisa que ler, mas é uma tendência, uma alternativa nesses tempos sem tempo que atravessamos.
A Biblioteca Nacional, órgão brasileiro responsável pela catalogação de livros no país, revela que no final de 2005, eram 140 os audiolivros registrados.
Nos Estados Unidos, os livros falados reproduzem fielmente a narrativa da obra escrita. No Brasil, as editoras têm procurado adaptar as obras ao novo formato.
A audioteca do Centro Braille da Fundação Cultural de Blumenau possui um projeto de construir um estúdio para produzir livros falados.
Além de ocupar menos espaço que os livros em braile - uma adaptação de "o Código...", por exemplo, possui mais de 1600 páginas (20 volumes), enquanto no áudio a obra se limita a 18 CDs.

 

INVERNO

Luiz C. Amorim

Não quis dizer solidão.
O coração está feliz,
o amor fez dele morada,
mas o inverno chegou.

E uma saudadezinha escondida,
Lá no fundo quase esquecida,
insiste em levantar a voz.

Um amor perdido,
uma desilusão?

Saudadezinha doída,
vem me lembrar, atrevida,
que amor a gente não esquece.
Que cada carinho é um carinho,
que cada ternura é só uma,
que amor não morre jamais.

Recaída , coração?
Você mesmo não me disse
que o amor não conjuga
o verbo substituir?

E você, saudadezinha,
atrevida, escondida,
não me disse ao pé do ouvido
que há tantos jeitos de amar?

Que venha a primavera,
que venham com ela as flores
e a flor do jacatirão...

 

ELOÍ BOCHECO PREMIADA

O Ministério da Educação divulgou os vencedores do I Concurso Literatura Para Todos e a nossa escritora Eloí Elisabet Bocheco foi premiada na categoria Tradição Oral, com "Batata cozida, mingau cará". Nas palavras da própria autora, "o Concurso do MEC é uma coisa inédita porque foi realizado para prover material de leitura para os neo-alfabetizados. Ninguém pensa neles, não é mesmo? São pessoas de 50, 60, e até de 90 anos que começam a ler e descobrir o mundo dos livros, já com uma baita experiência de vida."
Bom, Batata cozida, mingau de cará é um livro de poemas vinculados à tradição oral brasileira, e recria o folclore poético de todas as regiões do Brasil. Desencava e reinventa produções bastante conhecidas e outras que ninguém lembrava mais. ( São 50 poemas escritos ao longo de cinco anos).

 

CÂNTICO DO AMOR AUSENTE

Virgínia Vendramini

Escuta, amado meu, a voz aflita
Que te chama no escuro.
A noite caiu já faz tempo
E não vieste nos braços da lua,
Como é teu costume.
Talvez te retenha alguma estrela...

Escuta, amado meu, este lamento
Que não é dos ventos nem das ondas...
Atende o meu apelo.
Teu leito está preparado,
Perfumado de verbena
E meu corpo cheira flores.

Escuta, amado meu, este chamado
Que ecoa na solidão noturna...
Vem, que está maduro o fruto do desejo
Que só por ti deve ser colhido,
Em minha boca, em meus seios,
Por entre folhagens macias.

Escuta, amado meu, este gemido
De quem se queima no frio da ausência...
Acende tochas em teu caminho
E enche de labaredas nossa noite
Tão escura, tão gelada!
Incendeia a terra com a sagrada chama...

 

"BARRA DO COCHO" - A SAGA DE UMA FAMÍLIA

Enéas Athanázio


"Demasiado felizes, os agricultores,
se conhecessem a própria felicidade."
(Virgílio)



"Barra do Cocho", de Apolônia Gastaldi (Nova Letra - Blumenau - 2005), é um romance de fundo histórico e memorialista ambientado no Alto Vale do Itajaí. Escrito em texto inteiriço, sem a divisão em partes ou capítulos, estende-se por quase 250 páginas, revelando o fôlego da autora para um gênero em que é escassa a estante catarinense. Como demonstra a leitura, exigiu exaustivas pesquisas, entrevistas e contatos, além das lembranças da própria autora, expectadora e partícipe de grande parte da ação. É um documento autêntico e confiável da vida naquela região, recriando-a de forma mais perfeita que a história convencional, como tantas vezes acontece. Através dele o leitor sentirá com mais intensidade o modus vivendi local da época do que compulsando obras históricas. Como romance, no entanto, guarda muitos momentos de encantamento, imaginação, enlevo e ternura, tornando a leitura agradável e viva.
Toda a narrativa se focaliza, em primeiro plano, na saga da família Bento da Silveira, oriunda da Serra-Abaixo, e que se fixou na Barra do Cocho, proximidades da localidade da Subida, tendo como pano de fundo a região em seus mais variados aspectos. Vida dura, trabalhosa, na luta constante para extrair da natureza agreste os meios de subsistência para a numerosa família, comandada pelo irmão mais velho - o Joca - recolhido a misteriosos pensamentos e dotado da capacidade de prever o futuro, quase sempre adivinhando desgraças. No interior do lar desenvolvia, em paralelo, outra luta, na tentativa inútil de manter unida a numerosa irmandade sem o que seria impossível conservar em atividade o sítio que se estendia por vasta área de terras e onde se realizavam inúmeras atividades. Com o passar dos anos, porém, os irmãos foram debandando, um a um, até que ele próprio se mudou para outro local, ficando o velho sítio entregue ao abandono como autêntica tapera. Só a janela do sote, onde ele cismava, tragando seus palheiros, permaneceu fechada. E também a caixa de madeira que guardava os livros que lia sem cansaço. Espécie de herói conservador, batalhou a vida inteira contra as mudanças avassaladoras dos novos tempos e, não obstante sua abnegação, acabou vencido, solitário e pobre. Sua história é emocionante.
Com agudo senso de observação, a autora descreve a natureza exuberante da região com suas incontáveis tonalidades de verde, os riachos marulhantes que escorrem águas cristalinas, serpenteando entre morros agudos, as lagoas que refletem o anil do céu e a paisagem viva, como que pintada em tons fortes. Ali cresce a mataria inceira onde se misturam numerosas espécies de árvores, inclusive fruteiras, arbustos, cipós, capins e matas fechadas moradas de animais selvagens, não faltando a onça pintada, pássaros, répteis e insetos sem conta. Um mundão quase virgem, em grande parte inexplorado. Aninhadas na curva do ribeirão começavam as terras largas dos Bento da Silveira, sede de sítio bem organizado e em constante atividade produtiva. Roças, criação de gado e animais domésticos, engenho de farinha e de cana, cafezais e mandiocais, abelhas, porcos na engorda - um sem fim de serviços que exigiam o esforço constante da irmandade. Sem queixas ou reclamos, cada qual vencia o seu jornal, consciente de que tudo se fazia pela família e seu bem estar. Como vaticinava o Joca, "um dia todos irão descobrir que o melhor tempo era aquele em que estávamos todos juntos aqui nesta casa." Respirando fundo, concluiu: "Será tarde!" (pág. 153). Previsão que lembra inquietação semelhante de John dos Passos em "The best times."
Para tanto trabalho os dias se faziam curtos, faltavam-lhes horas. Havia as farinhadas, transformando a mandioca bruta em finíssima farinha; havia o corte da cana, dela retirando o açúcar e a cachaça; havia a carneação de vacas e porcos; havia as roças lavradas com arado, deixando sulcos paralelos no chão, e as capinas para libertar as plantas das ervas daninhas; havia a colheita dos grãos vermelhos do café e seu preparo caseiro, perfumando o ar com o cheiro acre da torrada; havia a busca do mel escondido no oco das árvores, o corte e a puxada da lenha, a tirada do leite, o trato dos animais, a limpeza geral... Era um uf! a serviçama! Para completar, as mulheres cosiam ternos muito apreciados, camisas, vestidos e os "chapeados", espécie de colchas de retalhos disputados pelos compradores. Não obstante, a refeição constituía um momento de paz e todos se postavam em seus lugares cativos ao longo de mesa enorme e de tampo polido. As prosas lentas se estendiam, não faltando as brincadeiras e piadas. Eventual mau humor era passageiro.
Engana-se quem imaginar que ali reinavam a monotonia e o isolamento. As notícias vinham com rapidez, como se transmitidas por fios invisíveis, e as visitas novidadeiras se repetiam, tanto de vizinhos como de tropeiros, viajantes e mascates chegados de longe e faziam pouso. Havia os bailes, sempre animados, alguns culminando em inevitáveis brigas, e as festas, entre elas a de São Roque, na vila de Aquidabã, em que o santo oriundo da nobreza de França e que sobrevivia alimentado pela esperteza de seu cão era celebrado com todas as honras. Freqüentes serenatas movimentavam as noites enluaradas e a música estava presente em muitas ocasiões. Não faltavam sequer os porres de algum ressentido, acometido de violenta "dor de cotovelo." As visitas ao sortido armazém, onde os moradores se forneciam, constituíam momentos agradáveis e os encontros transmitiam informações. E às vezes, para preocupação de muitos e indignação de outros, surgiam os famigerados "pasquins" anônimos falando mal das mulheres e escritos em versos. A presença de vizinhos solidários dando um ajutório nos períodos de serviço acumulado ou de dificuldades em família acontecia sempre. Os homens organizavam caçadas, armados de espingardas "picapau", aquelas de carregar pela boca, e criavam cães de caça valentes e destemidos, como o "Ferro" que fez história. A coleta de frutas silvestres, de variedade incrível, proporcionava incursões agradáveis pelas matas próximas. A presença inovadora do trem deu um toque diferente ao ambiente, com as locomotivas resfolegando nas subidas e curvas do caminho. Acompanhar sua chegada na estação e viajar apreciando a beleza da paisagem deixavam lembranças inesquecíveis.
Figuras curiosas e "causos" insólitos pontilhavam o cotidiano e o imaginário da região. Assim, "Caera", andarilho esfarrapado que lançava bombas para espantar os bugres e cuja presença causava receio, mostrou-se capaz de visitar uma doente da família, interessado em sua recuperação, pela qual até fez promessa. A feiticeira de aspecto repulsivo, capaz da espantosa proeza de localizar o anel perdido e que fôra parar no papo de um pato - "uma feiticeira de mão cheia" (pág. 37). E surge um "monge", vivendo isolado e quieto, sem nada pedir - só rezava. Ergueu uma choupana sob um ingazeiro e ali passava os dias, esquelético, dormindo sobre uns trapos. "Já temos rezadeiras, mandingueiras, benzedeiras, parteiras... só faltava um santo" - comenta Maria (pág. 196). Seu esqueleto só seria encontrado anos depois. Pela época, o segundo João Maria havia desaparecido há muito, tratando-se, portanto, de mais um dos tantos eremitas que viveram -em nossos sertões. Pena que seu nome não seja mencionado, talvez por ser desconhecido. Antes dele, em local diverso, aparecera um ermitão, mas este plantava, colhia, caçava, tudo indicando que tinha sangue alemão. Essas figuras provocavam o surgimento de histórias sem fim. A proximidade dos bugres estava entre as preocupações constantes, embora nunca tivessem atacado. Não poderia faltar a figura do "papudo", aquele sujeito que tudo aumenta e exagera. Aportava também, de tempos em tempos, o mascate, trazendo mercadorias miúdas do Desterro, na mesma labuta do inesquecível Xixi-Piriá, de Mário Palmério. É curioso notar que todos os comerciantes, ou quase todos, tinham nomes germânicos. Vale lembrar ainda o primeiro professor de português, contratado pelos pais dos alunos, e que não raro recebia seus proventos em produtos da lavoura em face da falta de dinheiro. Não se esqueça o cavalo de Eduardo de Lima e Silva Höherann, o pacificador dos "xokleng." Pois o animal, introduzido na venda do Dalfovo, bebeu duas cervejas num balde, de uma só tacada, tendo seu dono montado. Este tomou apenas uma cachacinha e se afastou sem dizer nada, deixando os presentes boquiabertos (pág. 120).
Acidentados e doentes procuravam recursos na farmácia e no hospital de Hamonia. A malária e o tifo faziam numerosas vítimas, este último de forma quase sempre fatal. A explosão de uma caldeira, provocando mortes e ferimentos, foi um acidente que ficou na lembrança do povo. Em caso de morte na família, impunha-se o luto fechado e todos se cobriam de preto.
Assombrações e visagens, bastante freqüentes, assustavam moradores. Tudo indica, porém, que fossem pacíficas e só vinham matar as saudades. Pessoas falecidas apareciam, uma pomba misteriosa fazia visitas periódicas, objetos sumiam, provocando promessas para que fossem encontrados (na minha terra enfiava-se um pau no chão e, quanto maior a raiva com que fosse enterrado, melhor, repetindo: devolve, devolve! Às vezes dava certo). Corria o "causo" da moça que dançou com o Demo e foi levada por ele, lembrando a lenda do boto que é contada na Amazônia.
Mas os tempos correm e tudo vai mudando. A linha férrea chega a Bela Aliança e os apitos das locomotivas cortam os ares. As tropas diminuem e os caminhões de reboques, carregados de tábuas, arriscavam-se pelas curvas, topes e lançantes da estrada precária no rumo do porto de Itajaí. Começam a chegar os estranhos, entre eles os Gastaldi, construindo serraria na região. Um deles, João, vem a casar com Izabel Silveira, futura mãe da autora. As plantações de fumo se incrementam e provocam a poluição das águas para revolta dos moradores. Surgem os "fordecos" e os caminhões a trafegar são muitos. Com a exploração intensiva do pinho e madeiras de lei um dos irmãos adquire pequena serraria. Transforma-se a paisagem regional e o empobrecimento dos colonos é visível. Não têm como concorrer com os novos métodos e máquinas. Maria, a mais velha e única solteira, também se casa e deixa o "ninho." Só restou o Joca, triste e pensativo, mas impotente diante da realidade. Em continuidade, como a vida não pára, inicia-se nova saga - a dos Gastaldi. Será um dia contada, com certeza.
São notas que me ocorrem sobre o romance de Apolônia. Nem de longe retratam o livro, apenas sugerem que seja lido e apreciado.Com elas não me despeço dele em definitivo, apenas repito, como se dizia na Barra do Cocho: "Até a gente se esbarrar..."


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