Novembro/2003


Clipping de material literário e cultural publicados na Coluna do mesmo nome, presente em alguns jornais do norte de Santa Catarina e artigos e notas publicados em vários outros veículos.
E-mail para contato: lcamorim@ig.com.br


 

AFONSO ROMANO EM SC

Escritores, editores, livreiros, distribuidores, educadores, professores, acadêmicos e toda a comunidade tiveram oportunidade de participar do 2o Fórum Brasileiro de Literatura de Blumenau, no último final de semana de outubro. Paralelamente, houve uma feira de livros, com preços promocionais, e oficinas. Com o tema Literatura e Leitura: Contexto e Caminhos, o fórum abordou questões como literatura na virtualidade, crítica literária e a leitura no Brasil.
O escritor Affonso Romano de Sant'Anna, convidado principal do forum, lançou dois livros. Um deles é "Que Fazer de Ezra Pound", ensaio que agradou tanto Octávio Paz, que este o republicou na sua revista "Vuelta". Intensificando uma revisão do século 20, noutro texto, faz um diagnóstico dos aspectos não só literários, mas psicológicos das vanguardas, movimentos que o autor bem conhece por ter deles participado nos anos 50 e 60.
Outro livro lançado por Affonso Romano de Sant'Anna é "Descontruir Duchamp". Diferentemente de obras que tratam de histórias a arte moderna endossando, repetindo lugares comuns, parafraseando e reorganizando o já dito. Esses textos olham a arte dos últimos 150 anos não com o olhar saudoso e complacente no retrovisor, mas como um esforço para afastar o entulho e descortinar outros
caminhos.

 

 

FESTA DAS CORES

Luiz Carlos Amorim

Na esquina do sol
e da chuva,
na esquina das cores,
brota uma cidade:

a Cidade das Flores.

Joinville da poesia,
da primavera sem fim,
Joinville dos sotaques..

Em todas as estações,
ela se banha de luz
e floresce a orquídea,
a azaleía, a petúnia,
o ipê, o jacatirão.
E é a festa das cores...

 

 

INCENTIVO À LEITURA

O 7º Encontro Estadual do Programa Nacional de Incentivo a Leitura (Proler), que aconteceu na Universidade da Região de Joinville (Univille) no final de outubro, reúniu educadores, bibliotecários, estudantes de letras e pedagogia, agentes culturais, entre outros, e teve como objetivo despertar os profissionais para uma nova postura frente ao universo. Não no sentido de guarda, ou defesa, mas sim de aproximação. Isso porque, a cada dia o ser humano recebe uma carga muito grande de informação e tecnologia; mas por outro lado, carece de sensibilidade e afeto.
Com o tema "construindo pontes entre a escola e a biblioteca por meio da leitura e da escrita", os participantes foram convidados a responder ao questionamento inicial. Palestras e oficinas ministradas por especialistas ajudam nessa tarefa cujo interesse é o auto-conhecimento.
Para o professor Celso Sisto, é preciso lembrar que a leitura não está apenas relacionada a língua portuguesa e a literatura. "Ela está em tudo, integra o processo de formação do ser humano", resumiu.
De acordo com a pedagoga Tânia Mara da Silva Reis, coordenadora da oficina "De conto em conto o encontro", o professor precisa descobrir aquilo que ele mesmo gosta para entender o público com o qual está trabalhando". Segundo ela, nesse desafio de "se fazer entender e se entender", é necessário disposição e receptividade para mudar de estratégias. Isso não significa fugir ao plano de ensino, mas trabalhar de uma forma a garantir o prazer tanto para o aluno como para si próprio durante o processo de ensino-aprendizagem.

 

Sinto a Poesia

Vânia Moreira Diniz

Sinto a poesia,

Na ternura de mãos entrelaçadas,

No olhar a me falar de sentimento,

Amores Realizados

Sinto a poesia

No olhar apaixonado e faiscante,

Segredo longamente revelado,

Ansiedade desse instante.

Sinto a poesia,

No gorjeio harmonioso dos pássaros,

A sobrevoarem nossos sonhos,

Riqueza de méritos.

Sinto a poesia,

Em cada pensamento de saudade,

Enclausurado no peito em opressão,

A me privar da liberdade.

Sinto a poesia,

No equilíbrio perfeito da natureza,

Transformada na sábia energia,

A se dividir em mil formas de beleza.

Sinto a poesia,

No restabelecimento da justiça,

No entendimento do sofrimento,

Em todas as formas de acolhida.

Sinto a poesia,

Quando penso no apoio aos excluídos,

No carinho dirigido aos que necessitam,

E na ausência total dos preconceitos.

Sinto a poesia,

No sorriso de cada inocente criança,

A crescer e consolidar os conceitos,

Na esperança da verdade que avança.

Sinto a poesia,

Nas estrelas a me contarem segredos,

Na lua clareando de dourado o planeta,

E a proteger eternamente os namorados.

Sinto a poesia,

Na generosidade, compreensão e na paixão,

No beijo de nossos lábios que se unem,

E na minha mais desvairada emoção.

 

O LIVRO, PERENE COMO A PALAVRA

Por Luiz Carlos Amorim

Ter o compromisso de escrever semanalmente para o Coojornal, espaço que abriga colunistas diversos, que abordam variados temas, no portal RIO TOTAL, provocou o surgimento do livro de crônicas "LIVROS, LEITORES E ESCRITORES", em 2002. De lá para cá, muitas outras crônicas foram escritas, estão sendo escritas e serão escritas, sempre focalizando algum ângulo do assunto que eu considero inesgotável: o livro, seus leitores e seus autores. Há o livro literário, o livro didático, o livro técnico, o livro esotérico, etc, e todos eles merecem a nossa atenção. As coisas relacionadas com o livro, como as bibliotecas, as editoras, as livrarias, as escolas, as academias, a televisão, as feiras, as diferentes mídias para abrigar ou veicular as obras literárias, os sebos, as "políticas culturais", os diferentes públicos a se alcançar, tudo deve ser colocado em discussão. Surgiu, então, mais uma coletânea de crônicas, que chamei de "Livro: A Perenidade da Palavra", publicada pelas Edições A ILHA e lançada na última Feira do Livro de Florianópolis, encerrada no último domingo, dia 14.
Pra que melhor que o livro para tornar a palavra perene? É claro que existem meios digitais para armazenar quantidades imensas de texto, atualmente, mas vai demorar muito tempo até que o livro, como o conhecemos hoje, seja substituído na mão do leitor.
Por isso, colaborar com portais na internet como o Rio Total, jornais e revistas é muito importante, pois propicia um incentivo à produção constante. Em outros tempos, já mantive colunas semanais de crônicas em jornais como Diário Catarinense, A Notícia, Jornal de Joinville, Diários Associados (quanto tempo!), Jornal de Santa Catarina, com crônicas sobre o cotidiano, sobre cultura, sobre música e sobre literatura. E isso me faz lembrar da minha amiga Urda, romancista mais importante das letras catarinenses, exímia cronista, que está publicando, há alguns meses, suas deliciosas crônicas no Caderno Variedades do Diário, aqui em Santa Catarina. Além de publicá-las, é claro, no Coojornal, também. Mas digo que o meu tempo de crônicas semanais me lembra dela, porque ela mora em Blumenau e eu em Florianópolis e então, a cada segunda-feira, quando leio a página dela, parece que estou conversando com ela e me dá vontade de falar com ela de fato. Já disse a ela que tenho raiva do telefone dela, porque às vezes, depois de ler a crônica da semana ligo para lá, mas quem atende é uma gravação. É engraçado, porque quando eu escrevia regularmente para os jornais citados, as pessoas escreviam cartas, para mim ou para o jornal, ou me encontravam na rua e me cumprimentavam como se me conhecessem. Lembro que um senhor, dono da loja de aviamento fotográfico da qual eu era cliente, adora conversar, depois de ler a coluna, sobre de onde tirei a idéia para aquela crônica, se era baseado em fatos reais, etc. Aí entendo a vontade dele de discutir o que havia lido, quando ligo pra Urda para falar do que ela escreveu.
Tenho conhecido pessoas e feito novos amigos através das crônicas. Compartilhar idéias e provocar reflexão ou discussão pode ser muito gratificante. Vocês conhecem Irene Serra, editora do Rio Total, que abriga o Coojornal? Pois é, é uma criatura fantástica, e é uma amizade que ganhei através das minhas crônicas.

 

ORQUIDÁRIO

Silas Corrêa Leite

Para Leila Chueri

 

A lição da orquídea

É pertencer-se à matriz

Que dela extirpa a cor

Como quem se mutila

A oração da orquídea

Não cabe no Ser raíz

Que dela explende a cor

Como quem se realiza

A lição da orquídea

É ser flor – não feliz

Por isso fenece logo

Depois que se eterniza



FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE


A 49ª Feira do Livro de Porto Alegre será realizada entre os dias 31 de outubro e 16 de novembro de 2003, na Praça da Alfândega - Centro de Porto Alegre. A visitação pode ser feita diariamente das 13h às 21h, com entrada franca.
A área total da Feira é de 10 mil m². Destes, 6,1 mil m² são cobertos. As sessões de autógrafos serão realizadas no espaço central da Praça. Os autógrafos de livros infantis serão realizados no coreto montado na área destinada às crianças.


Área Infantil e programação para jovens

Objetivos: Além de seu objetivo básico de formar leitores, a Área Infantil tem-se preocupado, cada vez mais, com a promoção da escrita e, aproveitando o grande número de professores, bibliotecários, pais e outros mediadores da leitura que circulam por seu recinto acompanhados ou não de crianças, tem ampliado, anualmente, os espaços de troca de experiência e de motivação sobre a promoção da escrita e da leitura.

Atividades preparatórias
Com a perspectiva de que a leitura é uma questão para todo o ano, as atividades relativas à Área Infantil e à programação para público jovem foram retomadas no mês de fevereiro e, em março, a equipe já estava atuando em coordenação com redes municipais, estadual e particular de ensino, com vistas ao desenvolvimento de atividades prévias, que culminarão com a visitação escolar à Feira.

Entre as ações desencadeadas, destacam-se as seguintes:

- Programa de Leitura Adote um Escritor (2a edição)
Lançado oficialmente em abril, na solenidade promovida pela CRL para marcar a passagem do Dia Mundial do Livro, o programa beneficia as escolas da rede municipal de Porto Alegre. A exemplo do ano passado, cada escola adota um autor, não necessariamente de literatura, e elabora projeto com vistas ao trabalho com suas obras, adquiridas com bônus-livros disponibilizados pela SMED e lidas pelo corpo docente, corpo discente e, em muitos casos, por toda a comunidade escolar.

A CRL viabilizou a visita do autor adotado à escola nos meses de agosto, setembro ou outubro. O diferencial com relação a programas similares é que o autor adotado passou um turno inteiro compartilhando a vida da escola, conheceu os trabalhos produzidos em diferentes matérias sobre sua obra e manteve contatos com os diversos grupos da comunidade escolar.

O programa culminará com a visitação escolar à Feira.

- Programa Fome de Ler
Desenvolvido pela CRL em parceria com os Cursos de Letras da Ulbra/Guaíba e da Ulbra/São Jerônimo, o programa foi lançado oficialmente em 5 de maio. Envolve a elaboração de projetos de leitura, sob a orientação dos laboratórios de leitura e escrita dos dois campi, e a intervenção de alunos da ULBRA que atuam como professores em municípios da região Centro-Sul do Estado.

Além de disponibilizar acervo de obras relacionadas com as questões da escrita e da leitura e banco de dados sobre editoras e autores, a equipe da CRL profere palestras, colabora na elaboração de projetos e na intermediação com editoras e autores e assessora, ainda, as escolas e municípios a respeito da preparação de suas visitas à Feira do Livro de Porto Alegre.
Programação para público infantil

O autor no palco

Mais uma vez, o ponto alto da programação deverá ser o projeto O autor no palco, que, este ano, contará com 26 encontros, com uma participação média de 400 alunos que terão lido, previamente, ao menos uma obra do autor escolhido por sua turma. Para que os encontros sejam mais produtivos, as escolas infantis e séries iniciais serão recebidas em uma sessão (13h30min) e os alunos de 5a à 8a séries em outra (16h).



 

O ESPETÁCULO DA VIDA

Por Luiz Carlos Amorim

É início de primavera e nesta época temos este espetáculo esfuziante de cores e de vida: o verde brotando em todos os lugares e flores colorindo os caminhos da gente. Dentre tantas flores e tanta cor, uma árvore vestida de luz, grávida do sol, chama minha atenção, em vários trechos dos caminhos: o ipê, majestoso, se veste de amarelo, irradia beleza e depois, devagarinho, estende um manto dourado aos pés dos caminhantes.
E o inverno, que atrasou um pouquinho, fez com que o ipê conviva, maravilhosamente, com os pés de azaléia, ainda completamente floridos, manchando de vermelho algumas ilhas de amarelo. Até o jacatirão, aquele de jardim, que floresceu há bastante tempo, ainda exibe, orgulhoso, algumas flores brancas, lilazes e rubras, conseguindo participar desta grande festa da mãe natureza. E quase dá as boas vindas ao seu irmão nativo, o jacatirão que floresce em outubro no norte catarinense, tingindo de vermelho as florestas e as encostas, anunciando o verão.
O tempo parece ter conspirado com ela, a natureza, para juntar as flores e as cores de árvores tão belas e que têm épocas de floração diferentes, para que em todas as estações tivéssemos beleza desabrochando por esse mundo de Deus. E nós as temos, então, flores de janeiro, de julho e de outubro, de uma vez só, num festival inédito que temos o privilégio de ter diante dos olhos. Isso sem contar com as petúnias, onze horas, violetas, marias-sem-vergonha, amores-perfeitos que vicejam pelos jardins em verdadeiros arco-íris.
A festa da vida recomeça e eu festejo a primavera! Renasce a esperança: é a vida sorrindo, música ao vento, poesia no ar. Vai embora, com o inverno, a solidão e a saudade e vem com a primavera o sol, com os seus raios de luz, força e cor, essência de vida do ser humano, pequeno filho da terra, irmão gêmeo da natureza.

 

SOU ASSIM

Maria de Lourdes Scottini Heiden

Sou assim... um pouco luz.
Um pouco escuridão.
Um pouco sol,
Um pouco lua.
Mistura de noite com dia
Mistura de paz, solidão.

Sou assim... um pouco de amor.
Um pouco de ódio,
Um pouco de sonho,
Um pouco de realidade.
Mistura de vida com morte.
Mistura de tudo, saudade.

 

Devaneio

Crônica de Eliane H. Cauduro

Claro que eu poderia dizer que isso tudo é bobagem, rir um par de risos soltos e sair a pé para uma volta na quadra. Calçaria um par de tênis surrados e sairia pela rua a chutar pedras e caraminholas. Seria aconselhável que chovesse forte e fosse quase fim de verão. Que a rua estivesse deserta e eu de cabelo solto e sem sutiã sob a camiseta branca. Mas você me deu seu endereço, escancarou as portas de sua casa e é impossível fingir que não existe no meu corpo, que arrepia ao ouvir sua voz.

Eu poderia, a tempo, abrir o guarda-chuva e desviar das poças, no melhor exemplo de prudência. Fingir um ar recatado e escondê-lo atrás do leque florido e rebordado de candura. Vestir luvas de pelica, botas de camurça, muitas saias e baixar os olhos, ruborizada, à sua aparição. Demonstrar indiferença para depois arfar dentro do espartilho, atrás da escada poeirenta. Seria aconselhável agir como uma dama, elegante e discreta, com o permanente tom de enfado a tudo e a todos a me proteger do seu contato. Mas saio de bermuda e camiseta velhas.

Se eu não fosse eu, sairia daqui, apagaria a luz e sentaria na varanda para um chá com algum parente chato. Bastaria abrir o jornal para esquecer, ou ler um livro e fingir que não é minha a mão que escreve seu nome em todos os espaços em branco do papel ou não é meu o coração que arranha o peito ao pressentir seu cheiro irracional de homem. Seu jeito de furacão disfarçado de garoa fina. Claro que eu poderia dizer que você não existe, que sou feliz assim e ir à cozinha preparar um bolo de fubá ou frango assado para o almoço, enquanto você espera, em frente ao telefone, a minha chamada. Seria simples, se não fosse eu.

Assim, consciente e fiel aos meus desejos, vou descalça ao seu encontro, chapinhando a água que empoça no caminho e rindo com todos os dentes a minha sorte. Aviso que vou sair e caminho à toa pela rua, até parar diante da sua janela, sob a chuva, encharcada e oferecida. A roupa colada no corpo me faz enguia que enrosca em seus pensamentos. Grito a vontade de viver o que me cabe e peço que fechem os olhos, todos, para que eu faça do meio da rua o meu circo e tenha do meu pão até à fartura (e que morra de tanto repetir seu nome).

Não sei fingir que isso não me diz respeito. Quero tudo o que vier, a começar por você: inteiro, úmido, lânguido, virulento. Basta que desça e toque em mim como a um bicho-mulher, faminto de todo o amor cabível, verdadeiro e impossível. Tire minha roupa, seque-me o corpo, embale-me até sonhar. Quando acordar me ame à exaustão e acarinhe até que eu durma outra vez, entre as estrelas. Cante para os meus sonhos em murmúrios roucos de desejo. Morda-me a boca até extinguirmos esse amor hemorrágico. Depois feche os olhos para que eu o ame até a morte.

 

PELO FUTURO DO PAÍS

Luiz Alberto Cavalcanti Filho
e-mail: la.filho@bol.com.br

Amigos! Precisamos despertar!
Um crime aos nossos olhos acontece:
Nosso porvir sem rumo e sem um lar,
Doente, nos semáforos padece.

Amigos! Nos anais de nossa História
Lauda infame se escreve no momento.
O mal sem os lauréis da nobre glória
Neste solo triunfa mui sangrento.

Até não levantarmos nossa voz
Contra esta mancha trágica a ferir
Este orgulho que existe em todos nós,
Jamais um mundo novo irá surgir.

São frontes onde o mundo pode ver
Da covardia sombra mortuária,
São retratos que ao peito irão trazer
Reminiscências vis da Candelária!

Por todo canto vê-se tristemente
Plangentes batalhões de nascituros.
São cândidos pedintes no presente,
Facínoras cruéis mais no futuro.

Nesta pátria, nas sórdidas esquinas,
Vê-se o rosto da morte que gargalha,
Sepulcro de meninos e meninas
Que se vestem apenas com mortalhas.

Em nome da Justiça e da verdade,
Em prol destas crianças olvidadas,
Pelas ruas, praças, faculdades...
Ergamos nossa voz acomodada.

Ouçamos meus amigos, a chorar,
Pelas ruas, de crianças multidão,
Tenros lábios que gritam sem parar:
- Quero casa, comida, educação!

 

PARA GOSTAR DE LER

Por Luiz Carlos Amorim

Pensando a respeito do que devemos fazer para que nossas crianças gostem de livros e de leitura, quando chegarem à idade escolar, lembrei-me do comentário de um colega escritor sobre um artigo meu abordando este assunto. Afirmava eu, em meu artigo ou crônica, que se nossas crianças convivessem com livros desde muito pequenas, se nós, os pais, tivermos o hábito de ler, de manusear livros, nossos filhos aprenderão a gostar da leitura. E o comentário, que a mim pareceu ambíguo, pois tanto poderia ser um elogio a uma idéia oportuna, quanto poderia ser uma ironia pela citação de uma coisa óbvia, nunca me saiu da memória.
E achei que seria bom voltar ao assunto. Porque é importante, sim - eu diria até que é fundamental - que a criança conviva com livros em sua casa, desde os primeiros anos de vida. Há que haver livros nas estantes, nas cabeceiras, nas mesas, nas mãos das pessoas. Para que quando alguém, pela primeira vez, se prontificar a ler alguma coisa de um livro para uma criança, ela descubra que aquele objeto que tem estado a sua volta constantemente, tem tanto a oferecer: conhecimentos, descobertas, lugares diferentes e inimaginados, personagens novos, cenários desconhecidos, emoções, sentimentos.
A criança precisa conhecer o livro em casa, na sua casa, quando ainda nem sabe ler. A curiosidade de poder descobrir o conteúdo de um livro, o fato de depender de alguém que leia para ela vai despertar-lhe o desejo de aprender a ler para si própria, ter acesso direto à magia e encantamento que podem estar contidas em um volume.
E mais tarde, a escola vai ser parceira neste processo de abrir caminho rumo ao futuro, passando pelo passado, para que a criança possa entender o presente e possa construir o seu destino. Ou, quem sabe, nós da família é que nos transformaremos em parceiros da escola, cúmplices na tarefa de aproximar ainda mais a criança do livro, essa fonte inesgotável de experiência e conhecimento, registro da história e da evolução do ser humano através do tempo: o livro.

 

Poema para o aniversário de 43 anos

Jayro Luna (jayrus@uol.com.br)
A Manuel Bandeira, Álvares de Azevedo, Jorge Wanderley e Michele S. Neto


"To end up alone / in a tomb of a room / without cigarettes / or wine / just a lightbulb / and a potbelly" Charles Bukowiski.

A solidão coletiva multiplica-se nos estudos
E uma míriade de nada cobre tudo...
Os fios de cabelos rareados ainda evoaçados
Relatam a rebeldia inócua de poetas abandonados...
O Sol ainda brilha apesar das nuvens e montanhas
Nuvens: ilusões desertas
Montanhas: ruínas encobertas...

 

"VEM, VAMOS REMAR"

A Editora Hemisfério Sul Ltda. comunica aos apreciadores da boa leitura que já se encontra nas melhores lojas do ramo a quarta edição do livro “Vem, vamos remar”, de autoria da escritora Urda Alice Klueger.

A nova edição, revista e ampliada, traz-nos de volta os acontecimentos da Grande Enchente de 1983, em Blumenau. Não há o que se comemorar uma tragédia como foi tal Enchente – digamos, portanto, que se trata de uma edição rememorativa, agora que se passaram vinte anos. O livro saiu com um adendo, onde se conta o que aconteceu com cada personagem, desde então.

“Vem, vamos remar” é um livro todo de verdade, onde pessoas e acontecimentos são de verdade, e conta o que aconteceu dentro da casa da autora na ocasião.

Vejamos o que diz hoje a respeito uma das personagens do livro:

Passados vinte anos da grande enchente em Blumenau, reli "Vem, vamos remar", exatamente num dia de chuva torrencial, e todas as emoções vieram à tona. Senti-me novamente passando o período de enchente, com uma filha bebê, sentindo fome e frio, com toda a roupa úmida, inclusive a do guarda-roupas, sabendo que tantas outras pessoas estavam passando pelas mesmas dificuldades, ou talvez até maiores. Lembro-me bem da música de Geraldo Vandré, que adquiriu nova letra por conta do nosso drama; dos soldados, meninos que talvez nunca tivessem passado por nenhuma dificuldade na vida, e que depois de noites e dias, trabalhando para que a comunidade tivesse seus pertences a salvo, ou distribuindo sacos com sanduíches feitos com pão amanhecido, doados por algum supermercado ou padaria de outra cidade que não tinha sido atingida pelas águas, para matar a fome dos que nada tinham em casa para comer, também choravam de saudades da mãe, ou da mulher e filho. Chorei muito. Chorei tudo que guardei durante a enchente de 1983. E cheguei à conclusão que Urda teve a felicidade de contar com toda a verdade, todo o drama que nós, blumenauenses, passamos, não tendo água potável, comida e dignidade dentro da própria casa, apenas a água lamacenta da enchente.

Margaret Klueger

 

Averbação

Elcio Fonseca

elcio@fwcom.com.br

quero morar

contigo

num conjugado

podemos

decorar juntos

querer

saber

crescer

sermos

sem

mais

termos

 

LEITORES & LIVROS

Chá de sumiço em boa causa

Há quase três meses o jornal Leitores & Livros decidiu desenvolver um projeto de levar o livro para perto do leitor. No último mês, o trabalho prejudicou inclusive as edições impessa e virtual do jornal para que se pusesse dar andamento ao sonho de criar mais uma forma de divulgar a leitura. Um jornal “para quem vive o mundo dos livros”, como está em sua capa da edição impressa, devia agir efetivamente para que a distância entre leitor e livro seja menor. Surgiu então o projeto Canto do Livro com o objetivo de formar núcleos de leitura no município de Maricá (RJ), onde está sediado. Atualmente o projeto conta em torno de 2 mil livros reunidos através de doações particulares e de livreiros do Rio de Janeiro, da Biblioteca Tobias Barreto de Menezes, com o apoio de Evando dos Santos, e do próprio jornal. Em suas edições, o jornal também lança agora uma campanha de doação, que já está sendo divulgada em Maricá e entre livreiros do Rio, para abastecer o acervo.
O lançamento do projeto Canto do Livro ocorreu no dia 11, com a presença do prefeito Ricardo Queiroz e do secretário de Cultura, Walter Guedes, quando o jornal promoveu em uma associação de moradores o Dia da Criança Cidadã com a entrega de um núcleo de leitura com mais de 500 títulos, entre obras de referência, dicionários, literatura brasileira e estrangeira e uma estante apenas com obras infanto-juvenis. O jornal também patrocinou a distribuição de kits com brinquedos, blocos, lápis, caneta e um livro, atendendo, na maioria, a crianças carentes para quem o livro infantil é um artigo de encanto.
O projeto Canto do Livro pretende fornecer acervos direcionados a associações de moradores, que disponham de espaço para abrigar uma mini-biblioteca, e escolas municipais, além de disponibilizar palestras e mesas-redondas a estudantes e professores sobre livro e leitura. Também se incluem entre os objetivos distribuir reproduções de reportagens publicadas no jornal que tratem especificamente da leitura; criar exposição sobre o livro e ainda se planeja a organização de uma feira do livro a preços mais acessíveis na medida em que o livro é quase um objeto de luxo na região sem uma livraria ou sebo e com imensas dificuldades para os estudantes terem acesso ao livro.
Cada núcleo de leitura receberá volumes selecionados e limpos. E o projeto ainda se disponibiliza a atender os coordenadores, orientar a gerência do acervo e incentivar a participação da comunidade promovendo palestras. Cada núcleo terá toda assistência possível do projeto para melhor atender os usuários.
O projeto inclui futuramente a instalação na própria sede do jornal de uma biblioteca para consultas agendadas de estudantes universitários e professores, que terão à disposição um computador para digitarem e imprimirem suas anotações, além de poderem nele consultar textos sobre livros e leitura.
O jornal espera que os leitores internautas compreendam como é importante a criação de um projeto como este e nos desculpe pelo atraso na atualização do site.
Grato, Luiz Gadelha (www.leitoreselivros.com.br)

Nota do editor: o site está atualizado e a edição impressa de outubro circulou com o conteúdo de ótima qualidade e com muita indicação de leitura, como sempre. Alguns assuntos do jornal Leitores & Livros de outubro: "Abram alas para a Leitura", "Livro novo da estante", "Anotações de Leitura", "Tempos ou depósitos", "Exposição para imagens de D. Quixote", "Best-seller da pirataria colombiana", etc.

 

ACALANTO

Luiz Alberto Machado


Eu canto acalanto

Enquanto a criança de sono impelido

Não cresce de repente

A noite é cheia de surpresas

Nas suas expectativas sinistras

No seu momento cilada

Alcanço a lua

E a noite é íntima

Na minha solidão

 


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