Setembro/2005

FEIRA DO LIVRO POR DENTRO

Por Luiz Carlos Amorim

Começou a Feira do Livro de Florianópolis e este ano tenho mais tempo para participar do que das outras vezes. E isto é muito bom, porque a gente pode prestar mais atenção e observar tudo, constatando que o evento é muito mais do que simples oferta de todo tipo de livro num mesmo lugar.
Na feira encontramos pessoas do meio - escritores, editores, livreiros, leitores e leitores: pessoas que já conhecíamos e não víamos há muito tempo e outras novas, que a gente conhece lá, algumas muito interessantes, que se transformam em bons amigos. Principalmente, reencontra amigos que, devido à vida corrida de cada um, acabamos vendo pouco. É delicioso cruzar com alguém que você não tem visto há um longo tempo, poder conversar um pouco sem pressa, num ambiente agradável e tranqüilo.
Nas feiras a gente pode conversar com escritores consagrados, que a gente admira mas nunca tinha visto de perto. Conhecíamos a sua obra, o escritor, mas não conhecíamos a pessoa, o ser humano. E, às vezes, temos a felicidade de comprovar a sua humanidade, ver que são pessoas simpáticas e amigáveis, não raro, que te dão atenção e te deixam à vontade.
E, é claro, é muito bom, é verdadeiramente gratificante encontrar leitores que vem até nós para conhecer um novo livro e dizer que leu os outros, que recomendaram, etc. Dá a sensação que a gente acertou alguma coisa.
E a gente encontra, também, escritores novos, chegando com seu primeiro ou segundo livro, quase sempre publicado com recursos próprios, felizes por terem conseguido um espaço em um dos standes para fazer o seu lançamento. E excitados pela possibilidade de vender muito exemplares e, com isso, ressarcir-se do custo da publicação do livro e, de quebra, tornarem-se conhecidos. Eles têm pouca ou nenhuma idéia do que realmente deve acontecer, de como as coisas vão correr. E é triste, quando chega o final do dia e aquele autor novo, tão esperançoso de se destacar no mundo da literatura, não entende por que não vendeu nenhum exemplar do seu livro. Ele vai entender, sim, mais tarde, depois de algumas feiras, mas naquele momento e frustração é muito grande.
E não é preciso entrar, neste caso, no mérito do conteúdo, da qualidade da obra. Existem coisas novas e boas sendo publicadas e existe também muita coisa ruim. Mas até aquele escritor com alguma projeção, se não tiver uma divulgação eficiente e abrangente, em todos os meios de divulgação, pode ficar a ver navios na sua hora de autógrafos.
Até antologias - livros que reúnem textos de vários autores - ficam com a sala reservada para lançamento vazia durante todo o tempo a elas reservado. E olhem que, como os autores de antologia são vários, a expectativa da presença de convidados é maior, já que a quantidade de amigos e conhecidos de cada um deveria garantir casa cheia.
Passeando pela feira, encontrei um jornal aqui, outra revista acolá, folhetos e folders. Fiquei feliz ao tomar conhecimento da volta de algumas publicações literárias que estavam em vias de extinção, sem circulação por um bom período de tempo. Acho lastimável ver o desaparecimento de jornais e revistas literários, pois isso significa menos espaço e, conseqüentemente, menos divulgação para a literatura, o que resulta, infelizmente, na diminuição de leitores e da venda de livros.
Neste ano de 2005 desapareceu, por exemplo, a revista Cartaz - Cultura e Arte - uma excelente publicação editada aqui em Florianópolis, contemplando quase todas as modalidades de arte, mas com ênfase para a literatura. Bom conteúdo, com apresentação esmerada, uma pena que tenha acabado. Mas a gente via, quando abria as suas páginas, que havia muito pouca publicidade. E sem isso, não há revista ou jornal que sobreviva.
Então, é bom que algumas outras publicações, como o jornal da Fundação Catarinense de Cultura, "Ô Catarina", saiu com uma nova edição este ano, embora ela não tenha data. A apresentação está melhor, com diagramação mais dinâmica. A linha editorial parece ter mudado um pouco, vamos ver como é que fica nas próximas edições, que eu espero aconteçam, em detrimento do fim anunciado da fundação que o publica.
Outra coisa que me chamou a atenção foi a presença de crianças no evento. Fiquei na feira durante as tardes do final de semana e vi muita criança lá, levadas por adultos que, se não compravam livros para eles, compravam para os pequenos. Os livros infantis nas mãos da crianças confirmam que o gênero mais vendido nas feiras do livro continua sendo o infantil. E circulando pela feira, livros na mão, quando encontravam alguém contando histórias, lá se formava um mar de crianças. E havia contadores de histórias pelos corredores, em algum stande e no auditório.
Mencionei que os livros mais vendidos nas feiras literárias são os infantis porque acho isso um bom sinal, está sendo incutindo o gosto pela leitura nos leitores em formação, embora do gênero, os que mais se vendem são aqueles tradicionais, os "contos de fadas" importados, livros pequenos feitos em grandes tiragens para serem vendidos por menor preço. São os preferidos das editoras, que poderiam publicar mais os autores de literatura infantil brasileiros, que são muitos e de boa qualidade, inclusive em Santa Catarina.
Haveria mais para registrar, mas isto que vimos já é um bom saldo.

 

VERSOS INCOMPLETOS

Maria de Fátima Barreto Michels

É incompleto

todo poema até enquanto

(inacabado)

não lhe chegar do seu leitor o olhar primeiro.

É solitário

é quase inútil

todo poema não deflorado.

Também te afirmo que meu poema é incompleto

enquanto a música não o ferir não o rasgar

É incompleta

minha garganta, se meu poema,

se estou poeta

se faço verso

que não se

canta

Toda verdade, toda viagem.

É incompleta!

Te digo mais

É incompleto todo poeta

É momentânea toda certeza toda palavra

Insaciável todo poeta !

AUTORA DE BLUMENAU NA FEIRA DO LIVRO

A escritora blumenauense Lorraine Beatriz esteve lançando dois títulos na Feira do Livro de Florianópolis, no dia 2 de setembro. Lorraine, com apenas 16 anos, já tem três livros publicados. O primeiro, de poemas, "Aprendiz", saiu em 2001, quando tinha apenas doze anos. "Plenitude", também de poemas, um dos que foram lançados na feira, foi publicado em 2003. O outro livro lançado em Florianópolis foi "Colorindo a Imaginação", de hisstórias infantis, com ilustrações em traço para serem coloridas pelos pequenos leitores. Abaixo, poema extraído do livro "Plenitude":

COLINA

Larraine Beatrice

Sempre gostei das manhãs de outono.
Frias manhãs de outono
aconchego da minha solidão.
Caminhava com passos de vento
e o horizonte era meu espelho,
gota de orvalho caída ao chão.
E só o horizonte transmitia
aquela alva alegria
por tão doce lugar.
Mina vida também caminhava
num rumo ainda mais bonito
colina de sonho,
campina silvestre a me abraçar.

 

 

AUTORA DE JOINVILLE NA FEIRA DO LIVRO

No sábado dia 10, Rosângela Borges, de Joinville, fez o lançamento do seu livro de poesia infantil na Feira do Livro de Florianópolis, das 14 horas até o final da tarde, nos standes das Academias (A31 e A33).

O liv ro é "Conversa de Bichos", publicado pela Franci Editora, de Belo Horizonte e traz poemas sobre animais como o sapo, o urso, a pulga, etc. Que criança não gostará de um dinossauro de tênis, de um leão que sonha ser artista, de um pinguim cantor, de uma cobra apaixonada pelo Guga? Cada poema tem sua ilustração, colorida e divertida. Rosângela esteve lá, autografando seu livro, juntamente com a ilustradora da obra, Ana Carolina Winter. Abaixo, um trecho de um dos poemas do livro:

 

A COBRA APAIXONADA

Rosângela Borges

(...)
- Dona Cobra,
Por que tanta preocupação?
Você é linda desse jeito,
Não precisa de nenhuma transformação.
É vontade de ser diferente
Ou são coisas do coração?

- Ah, menino, não espalha!
É que ando apaixonada
Por aquele menino de raquete,
Que é tenista e surfista,
Que come banana
E tem um sorriso bacana.
Será que, se eu me transformar,
Ele vai se apaixonar?

 

O SEGUNDO PAI DE NARIZINHO


Aos 88 anos, ilustrador de livros de Monteiro Lobato, pintor Augusto Mendes da Silva vive em balneário de Florianópolis

Augusto Mendes da Silva, um senhor de 88 anos que mora numa casa simples de uma rua sem calçamento no balneário de Ingleses, no Norte da Ilha de Santa Catarina, guarda no armário um bem precioso: uma coleção de 23 livros de literatura infantil escritos por Monteiro Lobato (1882-1948). O motivo para tanto cuidado com as obras, publicadas há mais de meio século pela Editora Brasiliense, está nas diferentes capas de cada exemplar: Emílias, Pedrinhos, Narizinhos e Sacis foram pintados justamente por ele, "Augustus", como assina seus trabalhos.
O desenhista vive em Florianópolis há quatro anos. Nasceu em Santos, morou na cidade de São Paulo quase a vida toda. Foi lá que conheceu Lobato. "Ele já era famoso, e tinha um escritório no mesmo andar em que eu trabalhava com desenho comercial", recorda Augusto, que depois chegou a ilustrar, durante anos, o almanaque do Biotônico Fontoura. Na época, Lobato resolveu que seria bom unificar o estilo das capas de suas obras infantis, e fez uma espécie de concurso onde concorreram vários desenhistas. "Ele gostou mais do meu, e me deu a coleção inteira. Fiz a capa e a contracapa, que se completavam quando o livro ficava aberto", conta Augusto.
Ele gastou em média dez dias para desenhar cada exemplar. "Fiz a base com preto, depois colori com uma tinta que não existe mais. Ele me deu liberdade para fazer como eu imaginasse. Sei que as vendas aumentaram depois dos meus desenhos", afirma o artista, que devido ao trabalho ficou conhecido e passou a receber mais encomendas de trabalho.
Sobre Monteiro Lobato, recorda que era uma pessoa brincalhona, "mas queria as coisas certas". Ele lembra que uma época, jovem ainda, começou a criticar o trabalho de outro desenhista, já mais conhecido. "Lobato disse 'meu filho, não faça isso. Ele custou para conseguir o nome, e você está começando agora, precisa ser mais modesto'. Vi que o escritor estava certo, e fiquei menos presunçoso", recorda.
Em Florianópolis, Augusto continua trabalhando. Pinta quadros, e está investindo na encomenda de retratos. "Sou excelente retratista, já fiz 985 retratos", afirma o artista, mostrando as paredes atulhadas de obras de sua autoria. Ele também gosta de falar de sua segunda atividade, a de cantor de ópera. Tem dezenas de recortes de jornal onde aparece nas fotos, as legendas indicando-o como barítono, cercado por outros artistas.

 

INDEPENDÊNCIA

Progresso...
Grandes cidades,
arranha-céus,
computadores, máquinas.
E a ordem?
A justica?
A liberdade?
Nas grandes cidades.
A poluição, envenenando o ar,
os rios e o mar,
mata árvores, peixes,
animais e homens...
Nas grandes cidades,
a máquina substitui o homem,
o homem constrói armas
para destruir-se a si mesmo
e à natureza.
No campo, o homem deixa a terra
pra morrer de fome na cidade.
Nas grandes cidades
e até nas pequenas,
crianças com fome,
velhos abandonados,
à margem da vida, sem futuro...
Que progresso é esse?
Onde a ordem?
A liberdade,
A independência?
Abaixo o progresso!
Amor e respeito!

 

A 20ª FEIRA DO LIVRO DE FLORIANÓPOLIS

De 01 a 11 de setembro acontece a 20ª edição da Feira do Livro de Florianópolis, oportunidade para encontrar lançamentos e obras de todos os gêneros sendo vendidas com desconto pelos expositores, além de passear e aproveitar uma extensa programação, que inclui palestras, oficinas e participação de contadores de histórias. A feira, que ocorre ininterruptamente há 20 anos, já foi realizada em locais como a praça 15, jardins do Palácio Cruz e Sousa, Assembléia Legislativa e Centro Integrado de Cultura (CIC). Pelo sétimo ano funcionando em um shopping - espaço fechado e climatizado que protege dos ventos e das chuvas - o evento tem como tema "Livros, a Cultura em Nossas Mãos".

O Grupo Literário A ILHA vem participando da Feira há cinco anos, e este ano está lançando a edição 94, de setembro, da sua revista Suplemento Literário A ILHA e os livros "Saudades de Quintana" - crônicas e "Livro de Natal" - crônicas, contos e poemas, de Luiz Carlos Amorim, no dia 10 de setembro, as 15 horas no stande das Academias.


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