TODOS OS POETAS

Antologia Poética

 

Philos

 

OUTSIDER

 

Quinta.
Acordo com dores, olheiras
Desenhos inúteis nas mãos de poeta
Sem luz na janela, o dia já cheirando a mofo.

Dia após dia construo o homem
Dentro de camadas de gelo, às vezes deteriorado
Ás vezes tendo no rosto um sorriso cínico
De quem já não tem mais fé.

Bebo quantidades enormes de água.
Talvez me limpe, talvez meu coração
Fique alvo como a neve que nunca vi,
Talvez fique singularmente triste
Talvez fique pesado como calhamaços de poemas infelizes.

Tenho pouca fé, homem que escorrega
E não tem uma escada qualquer, nem corrimão.
Talvez seja tudo um jogo, talvez as cartas todas
Sejam um blefe, tese conceitual leibniziana
com gosto de Bourbon.

Coisas se arrastam, tateio, luto, persisto.
O dia insiste em me levar, insiste, ó deus
Em me fazer levantar e abrir as persianas.
Jean-Luc Ponty em cada unidade do meu ser
O som eletrônico, o cd já arranhado de tanto tocar.

O terno me espera, a gravata.
Cedo partirei, e as ruas serão mapas
Sem significado nenhum
Apenas garatujas de um escritor louco
Escrevendo sobre a cidade.

Minha única chance sou eu mesmo.
A ânsia de viver é mais forte que a textura
ínfima da luz.
De vez em quando rio, sem saber exatamente o porquê
Mas rio assim mesmo, dos mendigos, dos carros, do transito violento
Das noticias apavorantes que me dizem menos
Cada vez menos, cada vez menos.

Além de mim, o vasto mar de prédios, brancas estruturas
De aço, laminas, flechas fincadas sobre o solo de Deus.
Ferido, continuo.
Ferido, mantenho os olhos fixos nas janelas da vida
Na mulher, na criança de rua, suja e desesperada.
Como a vida.
Meu pai, qual é a solução desse enigma?

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