SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

 

 

BOAS FESTAS!

Queremos, em mais este final de ano, desejar um verdadeiro Feliz Natal para todos e que o Ano Novo seja próspero, melhor que todos os outros.
Para o Grupo Literário A ILHA o ano de 2005 será muito importante, pois estaremos comemorando as nossas Bodas de Prata. São vinte e cinco anos de atividades ininterruptas, divulgando e promovendo a literatura não só em Santa Catarina, mas no país todo. Estamos estudando uma programação para marcarmos a passagem de um evento tão importante.
Por ora, estamos relançando o LIVRO DE NATAL, coletânea de poemas, crônicas e contos sobre a data, obra que já foi lançado em setembro na Feira do Livro de Florianópolis.
O projeto POESIA NA RUA estará exibindo, em out-door pelas principais cidades do estado, um poema de Natal. E o projeto Poesia no Shopping estará levando, também, um Varal da Poesia especial de Natal aos schoppings de todo o estado.
Feliz Natal! Feliz 2005!

 

CHEGOU O NATAL!

Luiz Carlos Amorim

Natal chegou.
Muitas luzes se acenderam,
Muitos enfeites surgiram,
Muita coisa se comprou.
Alguém lembrou do Menino
Razão dos nossos Natais?

Natal chegou.
Mas parece que mudou.
Só lembramos de presentes,
Enfeites e muitas luzes,
Só pensamos em comprar.
E o Menino que nasce,
Todo dezembro, há milênios,
Ninguém vai comemorar
De verdade o seu aniversário?

Natal chegou.
O Menino chegou.
E traz de presente
Serenidade, amor,
Justiça e dignidade.
O Menino traz perdão,
Traz carinho e compreensão
Para toda criatura.

E nós não aceitamos
Esses tão ricos presentes.
Não é hora de mudar?

 

TODOS OS NATAIS

Por Luiz Carlos Amorim

Em um novo dezembro, impossível evitar a lembrança de Natais passados, antigos, felizes, da infância da gente, abençoada infância.
Meus melhores Natais aconteceram quando eu ainda era criança. E depois, quando minhas filhas eram pequenas. Apesar de saber o significado da data, tão importante, acho que para mim, até por causa disso mesmo, crianças fazem falta na mágica noite. Porque elas representam a presença de um menino nascido nessa época e de quem comemoramos o aniversário.
Então espero os netos que, com certeza, reavivarão a chama daqueles Natais saudosos e autênticos. Enquanto isso, passamos a noite de véspera com amigos e parentes que tenham “guris pequenos”, ou convidá-los para passá-la com a gente. Como não ter a presença de uma criança numa noite dessas para mostrar-lhe o presépio e contar a sua história, ver o brilho dos seus olhos refletirem nas bolinhas da árvore natalina, ensinar-lhe a cantar as canções tão nossas conhecidas, vê-la ter medo do Papai Noel de mentirinha e abrir presentes com aquela ansiedade estancada de há tanto tempo?
Saudade de meus Natais de quando eu era criança. Também tinha medo do Velhinho, mas adorava os brinquedos e chocolates que ele trazia. Sabia que naquela noite nascera um Menino eterno, porque minha “Vó Pequeninha” me contara a sua história. Infelizmente, nunca foi montado um presépio em nossa casa, naqueles Natais antigos. Nem montei um, também, para minhas filhas.
Mas mesmo assim, aquelas noites eram mágicas. O encantamento começava muito antes, meses antes, quando o tempo custava a passar, até que chegasse o dia de enfeitar o pinheiro. Aí, sabíamos, a noite estava próxima, muito próxima.
E então era uma azáfama só. Todos ajudavam a preparar a casa, por dentro e por fora – as paredes, o jardim, o quintal, os gramados – sim, porque não morávamos em apartamentos, como hoje, mas em casas -, alguns “ajudavam” no que era possível (e no que não era) na feitura de doces e bolachas natalinas. Era época também de se estrear roupa nova, e lá íamos nós tirar medidas ou experimentar peças simples, de tecidos simples, mas que eram o quanto bastava.
E na véspera da noite especial, que finalmente chegava, todos estavam prontos. Era só esperar as visitas que vinham partilhar a ceia de Natal, simples mas farta, que a mãe preparava com tanta dedicação e carinho, a chegada do Velhinho com os presentes e então todos cantávamos aquelas canções tradicionais e lindas para saudar o nascimento daquele Menino.
Foram Natais felizes. Depois, bem mais tarde, no segundo ou terceiro Natal de minhas filhotas, fiquei triste porque havia “encomendado” um Papai Noel para vir visitá-las e a outras crianças que nos faziam companhia, e ele não apareceu. Ficara bêbado nas primeiras visitas e esquecera a nossa. Fiquei indignado com o homem, pobre mortal que não cumprira o combinado e deixara minhas filhas esperando um Papai Noel ausente. Mas não poderia deixá-lo tirar o encanto daquela noite única, e falamos do aniversariante, cantamos as canções que falavam dele e a magia foi restabelecida.
Num outro Natal, pude me sentir quase um Papai Noel. Comprei, aos poucos, bem antes que aquele Natal chegasse, balas, chocolates e pequenos brinquedos, fiz vários pacotes e fui, num sábado antes da tão esperada noite, visitar um comunidade muito carente. Naquele lugar, de gente muito, muito pobre, sabíamos que as crianças não ganhariam nada de ninguém. Foi uma festa o que aconteceu ao redor do meu fusca, naquele dia.
E dentre tantos Natais felizes, um foi muito triste, para mim e para minha esposa: perdemos nossa primeira filha no final de um outubro, numa primavera linda, quando as primeiras flores de jacatirão começavam a desabrochar. E quando dezembro chegou, a ferida ainda doía muito e nunca uma criança – a nossa criança - fez tanta falta num Natal. Mas entendíamos que não perdemos nossa filha, apenas a deixamos ir ficar ao lado do pai do Menino que nascia mais uma vez. Em todos os outros Natais, por todos esses anos, aquela dor dói um pouquinho mais do que de costume, uma saudade antiga, um sentimento que parece ficar maior, então.
Mas as grandes perdas ensinam a gente a dar valor ao que se tem. Novos Natais felizes voltaram, assim como as crianças, que sempre voltam. Assim como menino que sempre nasce de novo. Sempre.

 

CANTO DE NATAL

Manuel Bandeira

O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que Ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.

LANÇADO O "LIVRO DE NATAL"

Foi lançado, em setembro, na Feira do Livro de Florianópolis, o "LIVRO DE NATAL", coletânea de crônicas, contos e poemas sobre o tema, de autoria de Luiz Carlos Amorim, publicados anteriormente em jornais e revistas.

O livro lea o selo das Edições A ILHA, tem 64 páginas e está sendo relançado junto ao Projeto Poesia no Shopping, que também exibe um Varal da Poesia Especial todo com poemas natalinos.

Pedidos deste livro para o endereço: lc.amorim@ig.com.br

 

 

LEMBRANÇAS

Aracely Braz

Lembranças são primaveras
Outonos, lindos verões,
Espaços de chuva e sol,
Céu e mar em nossa estrada
E nada de horas marcadas.
Retas e curvas, saudades
Buscando reminiscências,
Desenrolando canções.
Um João de Barro a cantar
E eu no tempo voltando,
Lua cheia de luar,
Natais cheios de luz,
E a vida renascendo...

RETRATO LITERÁRIO DE URDA

Foi lançado na FURB, em Blumenau, no dia 9 de novembro, o livro reportagem "RETRATO LITERÁRIO: URDA ALICE KLUGER E O FAZER LITERÁRIO", de autoria da jornalista Camila Lourenço. Bem a propósito e em bom tempo uma biografia dessa escritora que representa tão bem a literatura catarinense. Urda, além de grande escritoria, é também professora, historiadora e editora. É bom ter subsídios para se conhecer essa grande mulher.

 

 

PRESÉPIO

Conto de Carlos Drummond de Andrade

Dasdores (assim se chamavam as moças daquele tempo) sentia-se dividida entre a Missa do Galo e o presépio. Se fosse à igreja, o presépio não ficaria armado antes de meia-noite e, se se dedicasse ao segundo, não veria o namorado.
É difícil ver namorado na rua, pois moça não deve sair de casa, salvo para rezar ou visitar parentes. Festas são raras. O cinema ainda não foi inventado, ou, se o foi, não chegou a esta nossa cidade, que é antes uma fazenda crescida. Cabras passeiam nas ruas, um cincerro tilinta: é a tropa. E viúvas espiam de janelas, que se diriam jaulas.
Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar dos irmãos, velar pelos doces de calda, pelas conservas, manejar agulha e bilro, escrever as cartas de todos. Os pais exigem-lhe o máximo, não porque a casa seja pobre, mas porque o primeiro mandamento da educação feminina é: trabalharás dia e noite. Se não trabalhar sempre, se não ocupar todos os minutos, quem sabe de que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de moça? Eles são confusos e perigosos. Portanto, é impedir que se formem. A total ocupação varre o espírito. Dasdores nunca tem tempo para nada. Seu nome, alegre à força de repetido, ressoa pela casa toda. “Dasdores, as dálias já foram regadas hoje?” “Você viu, Dasdores, quem deixou o diabo desse gato furtar a carne?” “Ah, Dasdores, meu bem, prega esse botão para sua mãezinha”. Dasdores multiplica-se, corre, delibera e providencia mil coisas. Mas é um engano supor que se deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. Em seu coração ela voa para o sobrado da outra rua, em que, fumando ou alisando o cabelo com brilhantina, está Abelardo.
Das mil maneiras de amar, ó pais, a secreta é a mais ardilosa, e eis a que ocorre na espécie. Dasdores sente-se livre em meio às tarefas, e até mesmo extrai delas algum prazer. (Dir-se-ia que as mulheres foram feitas para o trabalho... Alguma coisa mais do que resignação sustenta as donas-de-casa.) Dasdores sabe combinar o movimento dos braços com a atividade interior - é uma conspiradora - e sempre acha folga para pensar em Abelardo. Esta véspera de Natal, porém, veio encontrá-la completamente desprevenida. O presépio está por armar, a noite caminha, lenta como costuma fazê-lo no interior, mas Dasdores é íntima do relógio grande da sala de jantar, que não perdoa, e mesmo no mais calmo povoado o tempo dá um salto repentino, desafia o incauto: “Agarra-me!” Sucede que ninguém mais, salvo esta moça, pode dispor o presépio, arte comunicada por uma tia já morta. E só Dasdores conhece o lugar de cada peça, determinado há quase dois mil anos, porque cada bicho, cada musgo tem seu papel no nascimento do Menino, e ai do presépio que cede a novidades.
As caixas estão depositadas no chão ou sobre a mesa, e desembrulhá-las é a primeira satisfação entre as que estão infusas na prática ritual da armação do presépio. Todos os irmãos querem colaborar, mas antes atrapalham, e Dasdores prefere ver-se morta a ceder-lhes a responsabilidade plena da direção. Jamais lhes será dado tocar, por exemplo, no Menino Jesus, na Virgem e em São José. Nos pastores, sim, e nas grutas subsidiárias. O melhor seria que não amolassem, e Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha a paisagem de água e pedras, relva, cães e pinheiros, que há de circundar a manjedoura. Nem todos os animais estão perfeitos; este carneirinho tem uma perna quebrada, que se poderia consertar, mas parece a Dasdores que, assim mutilado e dolorido, o Menino deve querer-lhe mais. Os camelos, bastante miúdos, não guardam proporção com os cameleiros que os tangem; mas são presente da tia morta, e participam da natureza dos animais domésticos, a qual por sua vez participa obscuramente da natureza da família. Através de um sentimento nebuloso, afigura-se-lhe que tudo é uma coisa só, e não há limites para o humano. Dasdores passa os dedos, com ternura, pelos camelinhos; sente neles a macieza da mão de Abelardo.
Alguém bate palmas na escada; ô de casa! amigas que vêm combinar a hora de ir para a igreja. Entram e acham o presépio desarranjado, na sala em desordem. Esta visita come mais tempo, matéria preciosa (“Agarra-me! Agarra-me!”). Quando alguém dispõe apenas de uns poucos minutos para fazer algo de muito importante e que exige não somente largo espaço de tempo mas também uma calma dominadora - algo de muito importante e que não pode absolutamente ser adiado - se esse alguém é nervoso, sua vontade se concentra, numa excitação aguda, e o trabalho começa a surgir, perfeito, de circunstâncias adversas. Dasdores não pertence a essa raça torturada e criadora; figura no ramo também delicado, mas impotente, dos fantasistas. Vão-se as amigas, para voltar duas horas depois, e Dasdores, interrogando o relógio, nele vê apenas o rosto de Abelardo, como também percebe esse rosto de bigode, e a cabeleira lustrosa, e os olhos acesos, dissimulados nas ramagens do papel da parede, e um pouco por toda parte.
A mão continua tocando maquinalmente nas figuras do presépio dispondo-as onde convém. Nada fará com que erre; do passado a tia repete sua lição profunda. Entretanto, o prazer de distribuir as figuras, de fixar a estrela, de espalhar no lago de vidro os patinhos de celulóide, está alterado, ou subtraí-se. Dasdores não o saboreia por inteiro. Ou nele se insinuou o prazer da missa? Ou o medo de que o primeiro, prolongando-se, viesse a impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa, ao misturar o sagrado ao profano, dando, talvez, preferência a este último, pois no fundo da caminha de palha suas mãos acariciavam o Menino, mas o que a pele queria sentir sentia, Deus me perdoe - era um calor humano, já sabeis de quem.
Aqui desejaria, porque o mundo é cruel e as histórias também costumam sê-lo, acelerar o ritmo da narrativa, prover Dasdores com os muitos braços de que ela carece para cumprir com sua obrigação, vestir-se violentamente, sair com as amigas - depressa, depressa, ir correndo ladeira acima, encontrar a igreja vazia, o adro já quase deserto, e nenhum Abelardo. Mas seria preciso atribuir-lhe, não braços e pernas suplementares, e sim outra natureza, diferente da que lhe coube, e é pura placidez. Correi, sôfregos, correi ladeira acima, e chegai sempre ou muito tarde ou muito cedo, mas continuai a correr, a matar-vos, sem perspectiva de paz ou conciliação. Não assim os serenos, aqueles que, mesmo sensuais, se policiam. O dono desta noite, depois do Menino, é o relógio, e este vai mastigando seus minutos, seus cinco minutos, seus quinze minutos. Se nos esquecermos dele, talvez pule meia hora, como um prestidigitador furta um ovo, mas, se nos pusermos a contemplá-lo, os números gelam, o ponteiro imobiliza-se, a vida parou rigorosamente. Saber que a vida parou seria reconfortante para Dasdores, que assim lograria folga para localizar condignamente os três reis na estrada, levantar os muros de Belém. Começa a fazê-lo, e o tempo dispara de novo. “Agarra-me! Agarra-me!” Nas cabeças que espiam pela porta entreaberta, no estouvamento dos irmãos, que querem se debruçar sobre o caminho de areia antes que essa esteja espalhada, na muda interrogação da mãe, no sentimento de que a vida é variada demais para caber em instantes tão curtos, no calor que começa a fazer apesar das janelas escancaradas - há uma previsão de malogro iminente. Pronto, este ano não haverá Natal. Nem namorado. E a noite se fundirá num largo pranto sobre o travesseiro.
Mas Dasdores continua, calma e preocupada, cismarenta e repartida, juntando na imaginação os dois deuses, colocando os pastores na posição devida e peculiar à adoração, decifrando os olhos de Abelardo, as mãos de Abelardo, o mistério prestigioso do ser de Abelardo, a auréola que os caminhantes descobriram em torno dos cabelos macios de Abelardo, a pele morena de Jesus, e aquele cigarro - quem botou! - ardendo na areia do presépio, e que Abelardo fumava na outra rua.

 

SÚDITOS DE PAPAI NOEL


Vânia Moreira Diniz


 
As ruas estão agitadas, alegres
Tudo tão colorido, vibrante,
Papai Noel espera em magazines
As visitas das crianças felizes.
 
Minha fantasia se desloca rápido,
Procurando na saudade flamejante,
O velhinho que um dia tanto acreditei,
Na crença de seu carinho desprendido.
 
Suas barbas brancas me revelam
Lembranças que chegaram e foram,
Desejos que ainda se perpetuaram,
Na força com que acreditei neles
 
As lojas barulhentas e cheias,
Todos a comprarem seus presentes,
Lembram aquela criança além,
Sem brinquedo e com fome.
 
Papai Noel que é a natureza,
A energia que se desprende ali,
O céu, o sol a aquecer a todos,
Proteja seus pequenos habitantes.
 
Vou sentindo o povo que se avoluma,
Olhos brilhantes, rostos corados,
Sonhando com a noite de natal,
Enquanto muitos pequenos choram.
 
Papai Noel cujos olhos azuis eu contemplo,
Quero acreditar que você ainda existe,
Que distribui os sonhos em forma real,
E entende as palavras de seu súditos.
 

(www.vaniadiniz.pro.br)

 

UMA PAIXÃO TRINTENÁRIA: O CONTESTADO

Enéas Athanázio

Nilson Thomé completa trinta anos de pesquisas a respeito do tema que o apaixona e ao qual tem dedicado o melhor de seus esforços – o “Contestado.” Desde 1974, através de incansáveis exames de velhos documentos, leituras sem fim, entrevistas e pesquisas de campo, publicações e palestras, seu nome se associou de tal forma ao tema que se tornaram inseparáveis. Vencendo as resistências iniciais ao seu propósito de “dar status ao termo “Contestado”, até então por estas plagas vinculado às tristes lembranças da Guerra do Contestado”, ele verifica hoje, com íntima satisfação, o crescente interesse que o assunto desperta em todas as áreas, o que mais o estimula ao prosseguimento desse trabalho tão árduo quanto desafiante. Esse receio provocado pelo tema foi uma espécie de tabu, tanto que eu próprio, nascido e criado no território do Contestado, jamais ouvia falar nele. As poucas referências eram feitas à “revolta dos jagunços”, com desprezo e desdém, como coisa menor, organizada por gente atrasada e que se opunha à “ação civilizadora da Cia. Lumber.” Hoje, a pobreza generalizada da região mostra por si só como ela foi sugada pela multinacional e nada recebeu em troca. E isso confirma o quanto Thomé estava certo no direcionamento de suas pesquisas.
Para comemorar o acontecimento, ele está publicando mais um livro que vem se somar aos inúmeros outros, inclusive opúsculos, que já constituem uma biblioteca especializada. Trata-se de “Uma Nova História para o Contestado” (Edição da UnC/Caçador e Museu do Contestado), espécie de súmula de seu pensamento como historiador, técnicas de pesquisa empregadas e rumos traçados para o futuro, além de um completo balanço sobre o acervo hoje existente, em todas as áreas, a respeito do assunto. Para a construção dessa nova história do Contestado, concluiu ele pela necessidade da “condução dos trabalhos em duas frentes, simultâneas e paralelas. Uma, mais imediata, marcando o início da construção da nova história do Contestado, através de pequenas publicações, enfocando variados aspectos do Contestado, com o aproveitamento, ainda que parcial, da nossa bagagem acumulada, para disseminar o conhecimento a curto prazo. Outra, mais paciente, pelo aprofundamento de estudos sobre determinados e relevantes temas, eleitos como problemas que exigiam mais tempo e dedicação à pesquisa, assim provocando nosso retorno às fontes primárias, tanto às conhecidas como à busca de outras” (pág. 28). Note-se que suas pesquisas se estendem à região e à guerra. (Continua na próxima edição)

 

VISITA DE NATAL

Virgínia Vendraminin

É tempo de voltar no tempo,
De rever antigas paisagens
E ainda uma vez abraçar nossos maiores.
É tempo de partidas e de chegadas,
De reencontros breves e despedidas.

É tempo sobretudo de deixar que acordem
As velhas lembranças e a saudade aflore,
Fardos que às vezes pesam mais
Do que malas e bagagens,
Mas que não podemos deixar para trás,
Esquecidos na confusão do embarque.

É para isso que serve o Natal:
Para lembrar e ter saudade,
Para lembrar e ter saudade,
Para um mergulho no passado,
Quando ainda existiam sonhos,
Para pedir perdão no silêncio de um abraço
E em silêncio ser perdoado
Do imperdoável pecado da ausência.

 

TEATRO: LITERATURA DRAMÁTICA

Facilitar o ensino nas escsolas, estimular a realização de montagens pelo Brasil afora, preservar e difundir um patrimônio artístico ou simplesmente proporcionar aos leitores interessados o prazer de conhecer uma obra que nem todo mundo poder ver no palco - muitos são os bons motivos para a publicação de textos teatrais. As editoras vêm descobrindo a importância de publicar literatura dramática e não é de hoje. A Editora Abril já publicava, nos anos 70, com absoluto sucesso, uma coleção com textos famos de teatro, desde os clássicos até contemporâneos brasileiros, com mais de cinqüenta volumes. Aliás, já está na hora de uma nova edição da coleção Teatro Vivo. Atualmente, estão sendo lançadas, no Brasil, quase vinte livros com textos teatrias, o que prova que as editoras redescobriram o filão.
Evidentemente, em teatro, nas substitui uma boa montagem. Mas teatro é também literatura. E pode ser fruído como tal.

 

O REDENTOR

Hernann Hesse

Sempre e sempre retorna feito homem,
fala a devotos e a surdos ouvidos,
chega-se a nós e já de novo some.

Sempre e sempre sozinho Ele conduz
as misérias e anelos dos irmãos,
e sempre acaba pregado na cruz.

Sempre e sempre se faz proclamar Deus:
quer que o espírito domine a carne
e que à terra venha o reino dos céus.

Sempre e sempre, nestes dias ainda,
de passagem, o Salvador redime
nossas angústias, queixas e perguntas

- com seu olhar de bem-aventurança
que nem ousamos nós retribuir,
pois só o encaram olhos de criança.

(tradução de Geir Campos)

 

BIBLIOTECAS SEM LIVROS


Santa Catarina está abaixo da média no que diz respeito a
acervo, equipamentos, modernização e material humano nas bibliotecas
públicas. Se forem levadas em conta as recomendações da Organização das
Nações Unidas pela Educação, Ciência e Cultura (Unesco), o Estado deixa
muito a desejar. De acordo com pesquisa realizada pela Associação
Catarinense de Bibliotecas (ACB), faltam 10 milhões de livros nas
instituições catarinenses. Dos 293 municípios, 53 cidades não têm uma
coleção pública, 18% do total. Segundo a entidade internacional, os acervos
deveriam oferecer dois volumes por habitante, sendo que o ideal seria três.
Em território catarinense, apenas 15 municípios superam a marca de dois
livros por habitante e sete a de três. Das cidades que possuem bibliotecas,
em 58 delas o conjunto oferecido está abaixo de 2,5 mil volumes, o mínimo
que deve estar à disposição do público.
As causas para esta situação desconfortável passam pela esfera política. Nas últimas décadas, nenhum governo teve atitude ativa em relação à leitura no Estado.
Outra questão grave é a falta de uma política para aquisição de acervo.
A Unesco sugere que para cada 6 mil
habitantes deveria haver uma biblioteca. Florianópolis, por exemplo, possui
uma média de 370 mil habitantes, ou seja, comportaria 60 bibliotecas. E existe
apenas uma municipal, escondida no Estreito.
É preciso criar novas bibliotecas, equipar e modernizar as que já existem em um esforço conjunto das entidades. Para se ter idéia, apenas 78 bibliotecas públicas contam com
um computador, 51 têm mais de uma máquina e apenas 20 oferecem Internet a
seus usuários.

 

NATAL

Olavo Bilac

Jesus nasceu. Na abóbada infinita,
Soam cânticos vivos de alegria;
E toda vida universal palpita
Dentro daquela pobre estrebaria.

Não houve sedas, nem cetins, nem rendas,
No berço humilde em que nasceu Jesus;
Mas os pobres trouxeram oferendas
Para quem tinha que morrer na cruz.

Sobre a palha, risonho e iluminado,
Pelo luar dos olhos de Maria,
Vede o menino Deus que está cercado
Dos animais da pobre estrebaria.

Não nasceu entre pompas reluzentes;
Na humildade e na paz desse lugar,
Assim que abriu os olhos inocentes,
Foi para os pobres seu primeiro olhar.

No entanto, os reis da terra, pecadores,
Seguindo a estrela que ao presépio os guia,
Vêem cobrir de perfumes e de flores,
O chão daquela pobre estrebaria.

Sobem hinos de amor ao céu profundo,
Homens, Jesus nasceu! Natal! Natal!
Sobre esta palha está quem salva o mundo
Quem ama os fracos, quem perdoa o mal.

Natal! Natal! Em toda natureza,
Há sorrisos e cantos nesse dia;
Salve Deus da humildade e da pobreza,
Nascido em uma pobre estrebaria!

 

MANIFESTO LITERATURA URGENTE

Insatisfeitos com a carência de políticas públicas direcionadas à criação literária, escritores de todo o Brasil se reuniram em São Paulo, no início de dezembro, no Movimento Literatura Urgente. Eles entregaram ao Ministro da Cultura, Gilberto Gil, o Manifeto Temos Fome de Literatura, com mais de 180 assinaturas de nomes representativos da literatura brasileira contemporânea, com dez propostas de programas públicos para a literatura.
O documento reúne propostas que freqüentemente são discutidas em encontros de escritores pelo Brasile e reinvindicam o óbvio que se precisa para a literatura.

 

CORAÇÃO DEZEMBRINO

M. Fátima B. Michels



Sempre que chega dezembro,
dou-me a chance outra vez,
permitindo ao coração
ser criança por um mês.
Encho-me de confiança,
troco perdão por beijinhos,
faço beiço, bato pé,
sonhando com presentinhos.
Renovo minha esperança:
a alma brinca de roda,
o mundo dói, mas é pouquinho,
em busca , a boca de doces.
A noite é feita de cores
Atravessando janelas
arvorezinhas e cantos
piscantam novos amores
Meu coração dezembrino
tic-tac ....tic-tac
(paz para o mundo que espera,
enfim, pelo Deus-menino)
Tremeluz, tremeluzindo
tic-taque tique-tac
“cri-ançeia”
coração
crê e anseia
tique-taque
Taquitindo


EXPEDIENTE


Suplemento Literário A ILHA - Edição número 91 - Dezembro/2004
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
End. para Correspondência:
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