SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Setembro/2004

Editorial

ESSE INSTRUMENTO ASSOMBROSO, O LIVRO

Já que estamos em ritmo de Feira do Livro, com a Feira do Livro de Florianópolis e a primeira edição da Feira do Livro de Itajaí, nada melhor do que abrirmos essa edição do Suplemento Literário A ILHA com um texto do grande Jorge Luís Borges sobre o tema:
"De todos os diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua vista; o telefone é extensão de sua voz, logo temos o arado e a espada, extensões de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro e uma extensão da memória e da imaginação.
Os antigos não tinham o nosso culto do livro - coisa que me surpreende - viam no livro um sucedâneo da palavra oral. Aquela frase que se cita sempre - Scripta manent verba volant - não significa que a palavra oral seja efêmera. Todos os grandes mestres da humanidade foram, curiosamente, mestres orais.
Sempre digo aos meus alunos que não leiam críticas, que leiam diretamente os livros; entenderão pouco, talvez, mas sempre gozarão e estarão ouvindo a voz de alguém. Digo que o mais importante de um autor é sua entonação, o mais importante de um livro é voz do autor, essa voz que chega a nós.
Tenho dedicado uma parte de minha vida às letras e creio que uma forma de felicidade é a leitura; outra forma de felicidade menor é a criação poética, ou o que chamo criação, que é uma mistura de esquecimento e lembrança do que temos lido.
Um livro tem que ser uma forma de felicidade. Eu tenho o culto do livro. Posso dizê-lo de um modo que pode parecer patético e não quero que seja patético; quero que seja como uma confidência que faço a cada um de vocês; não a todos, mas diretamente a cada um, porque todos é uma abstração e cada um é uma realidade.
Eu continuo achando que não sou cego e continuo comprando livros; continuo enchendo minha casa de livros. Outro dia me presentearam com uma edição de 1966 da Enciclopédia Brokhause. Senti a presença desse livro em minha casa, a senti como uma felicidade. Ali estavam os vinte e tantos volumes com uma letra gótica que não posso ler, com os mapas e desenhos que não posso ver; e no entanto, o livro estava ali. Eu sentia como uma gravitação amistosa do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que têm os homens.
Fala-se no desaparecimento do livro; eu acredito que é impossível. Pergunte que diferença pode haver entre um livro, um jornal ou um disco. A diferença é que um jornal se lê para se esquecer, um disco se ouve assim mesmo para esquecer, é algo mecânico e portanto frívolo. Um livro se lê para a memória.
O livro pode estar cheio de erratas, podemos não concordar com as opiniões do autor, mas no entanto conserva algo sagrado, algo divino, não quanto à superstição, mas com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria."

 

CHAMA

Luiz Carlos Amorim

Um menino
cruzou o meu caminho.
Despido de tudo,
até quase de vida,
restava-lhe, apenas,
no fundo dos olhos,
uma chama pequena,
quase apagada,
de pura inocência.
Dei-lhe um sorriso,
velho e surrado
de esmola
e fui procurar
a minha chama
perdida...

 

A FESTA DO LIVRO DE FLORIANÓPOLIS

Começou no dia dois de setembro a décima nona Feira do Livro de Florianópolis. É um evento que já adquiriu seu status de tradição na capital catarianense e em todo o estado e depois de fixar sua localização no Beiramar Shopping, tem crescido a cada edição. Até o final dos anos noventa, a Feira do Livro de Florianópolis era feita a céu aberto e mudou de local várias vezes, pois à beira-mar, com o vento sul batendo sempre, é um tanto difícil manter barracas ou tendas intactas.
No início desta década o evento, que então já era feito em área coberta do Beiramar Shopping, sempre no mês de setembro, deu origem à Feira de Rua do Livro, sempre em maio, ao lado do Mercado Municipal, em tendas reforçadas que tomam todo o Largo da Alfândega, bem no meio do caminho de quem transita pela Florianópolis tradicional e perto dos terminais rodoviários.
Edição extra da feira do livro que deu muito certo, pois possibilita a visita não só do leitor efetivo, aquele que sai de casa com destino estabelecido, mas também do transeunte avulso, que pode vir a ser um leitor em potencial, se ainda não o é.
A feira - ou as feiras - têm crescido, não só em tamanho ou número de standes. O número de visitantes também. A feira de setembro do ano passado teve cerca de oitenta e cinco mil visitantes e para a desse ano são esperados mais de cem mil visitantes. Os organizadores esperam que seja superada a marca estimada de cento e vinte mil visitantes.
O objetivo da feira, é claro, é o estímulo à leitura. Os livros nem sempre custam menos, mas há alguns descontos e o fato de podermos encontrar tudo num só lugar facilita bastante.
Para que os leitores em formação - os estudantes - não deixem de comparecer, foi fortalecido o relacionamento entre a Câmara do Livro, organizadora do evento, e as secretarias de educação. Ainda para aproximar os estudantes, foi instituído um concurso literário para estudantes de quinta a oitava séries das escolas da rede pública estadual, que teve participação significativa e que vai fazer a premiação durante a feira. O tema do concurso foi “Livros, um mergulho no conhecimento”.
A feira começou no dia dois de setembro e vai até o dia doze. E promete também vender mais livros do que a anterior.

A ILHA NA FEIRA DO LIVRO DE FLORIANÓPOLIS

O Grupo Literário A ILHA estará participando, mais uma vez, da Feira do Livro de Florianópolis, com o lançamento desta edição do Suplemento Literário A ILHA e dos livros "NAÇÃO POESIA", antologia poética de Luiz Carlos Amorim, "LIVRO DE NATAL" - crônicas, contos e poemas também de Luiz C. Amorim e "EMOÇÃO NÃO TEM IDIOMA", edição trilingüe (português, espanhol e inglês) de "A Cor do Sol" - poemas, de Luiz C. Amorim. Também será relançada a antologia "Fim de Noite" - poemas, e o livro de crônicas "Livro: A Perenidade da Palavra". O lançamento acontecerá no stand das Associações e Academias Literárias e os livros estarão à venda durante toda a feira.

 

 

TERNURA


Vânia Moreira Diniz

O olhar era intenso,
Como brilhantes faiscantes,
Admiráveis,
Imutáveis.

Havia neles,
Mais do que o brilho,
O regozijo pela vida,
E o fulgor da esperança.

Fixavam um ponto distante,
Como perdidos no sonho,
Quimeras incandescentes,
De longa duração.

Nada parecia irreal,
Na intensidade do momento,
Refletido em soberbas pupilas.

Sinônimo era ternura,
Da expressão a mais linda,
Que enxerguei um dia...

 

O CONTO MAIS VIVO TORNA

Por Luiz Carlos Amorim

Leio, numa dessas grandes revistas semanais de informação, que o conto, a história curta, volta à cena, depois de permanecer no limbo por mais de duas décadas: passa a ser respeitado e publicado por várias editoras e se transforma no ponto de partida para os novos escritores, aspirantes a autores de romances, novelas, etc.
Não há dúvida que é ótimo o assunto ter merecido atenção e destaque num veículo de tão grande alcance. É muito importante registrar o fato para que todos tomem conhecimento daquilo que o mercado editorial está vivenciando.
Particularmente, não vejo o conto com um gênero literário que estivesse em vias de extinção, como a matéria sugere. Sei que sempre foi difícil conseguir uma editora que publicasse um livro de contos, principalmente de autor novo. E a dificuldade também existe e existiu desde há muito tempo para livro de poemas e de crônicas. Mas sei também que as edições próprias ou alternativas se sucederam neste período considerado de decadência do gênero e através delas bons contistas se revelaram e se projetaram.
Em Santa Catarina, um bom exemplo disso é Enéas Athanázio, que publicou vários livros de contos, muitos deles as suas próprias expensas, sendo reconhecido como um dos melhores contistas do estado não só aqui, mas por quase toda a comunidade literária do pais. E há outros exemplos de sucesso, pelo menos por aqui, na escritura de contos, como Francisco José Pereira.
Então, depois de ser relegado a gênero “maldito”, por carregar o estigma de “não vender”, o conto está aí, mais forte do que nunca, alavancando vendas, como é o caso da coletânea “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”, que vendeu mais de cem mil exemplares, e servindo de laboratório para renovação da nossa literatura.
A matéria traz depoimentos de editores e escritores que reconhecem que, apesar de ser publicado em maior escala, o conto ainda vende pouco. Todos sabemos disso e sabemos também que a causa disso não é só a grande quantidade de oferta para poucos leitores. A qualidade de boa parte do que é publicado não anima o leitor a investir na sua leitura.
O fato é que o conto está resgatando o seu valor e as editoras estão percebendo que ele é um gênero que também pode fazer bonito no concorrido mercado editorial.
Como já disse em outro artigo sobre conto, ele é objetivo, linear, atual. É história curta, rápida, de linguagem quase telegráfica, com apenas um núcleo, com apenas uma unidade dramática e de ação, onde o bom autor vai até o ápice de uma situação.
É um gênero rico e relevante – é a matriz do romance e da novela – porque além de retratar costumes e modo de vida de uma sociedade em um determinado espaço e um determinado tempo, cumpre a função de mudar o comportamento do leitor, criticando, denunciando, sugerindo soluções e chamando a atenção para seus problema s e potencialidades, através de personagens e situações.

 

 

COLHEITAS

Virgínia Vendramini

Trago da infância
como visgo na memória
O perfume de fruta madura
nas mãos.
Laranjas e tangerinas
tão indiscretas,
O cheiro quase sensual
de cajás e mangas,
Alegre colheita
nas árvores do quintal.
Hoje, entre as gôndolas
do supermercado,
Escolho, peso,
em colheita tão diversa
Frutas contadas
já em suas embalagens,
Belas, perfeitas,
todavia sem fragrância...
E comprando sem provar,
sinto-me roubada.

 

 

SEM PRÊMIO CRUZ E SOUSA EM 2004

Duas tradicionais promoções culturais de Santa Catarina, o Salão Vítor Meireles, de artes plásticas, e o Prêmio Cruz e Sousa, de literatura, não serão editados neste ano por falta de dinheiro. A ausência do incremento, captado através da Lei Nacional de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), é conseqüência da burocracia, nos âmbitos estadual e federal.
O projeto do Prêmio Cruz e Sousa sequer foi encaminhado a Brasília para avaliação, tarefa que cabe à Fundação Catarinense de Cultura (FCC), reclama o presidente da Academia Catarinense de Letras (ACL), Lauro Junkes. Ele explica ser responsabilidade da ACL a captação de recursos do mecenato e a realização do evento após aprovação pelo MinC, mas a FCC deve formular a proposta.
Criado em 1980, estimula a produção literária em Santa Catarina e no Brasil, além de prestar uma homenagem ao poeta simbolista catarinense. A intenção era, a cada dois anos, alternar o prêmio nos gêneros poesia, romance e conto. As duas primeiras edições, 1980 e 1983, ocorreram dentro desta premissa. Na última edição, em 2002, o Prêmio Cruz e Sousa foi retomado em sua concepção original e foi dedicado ao conto.

 

 

TEMPO

Aracely Braz

Todos têm pressa,
por hábito dos tempos
que o caminho exige.
São massas ou maçãs,
são manhas das manhãs?

É o pedreiro, o jornalista,
o mestre, o navegador,
espectador ofegante,
egoísta ou sonhador.

É preciso chuva para florir,
é preciso paz
para poder sorrir;
Com tantos verões no caminho,
tornei-me inimiga da pressa.
Na cadência real do equilíbrio,
conquistei meu rumo
a seguir...

 

UM LEITOR DESCONHECIDO


Conto de Enéas Athanázio


Convidado para um lançamento coletivo de livros, coloquei o carro na entrada e cheguei pela noitinha. Foi numa bela cidade histórica, famosa por seus casarões preservados e pela baía de águas mansas que lhe dá um quê de paz e aconchego. No clube local, onde seria o propalado evento, estava montada uma exposição de artistas e nossos livros dispostos sobre longa mesa, entregues à vigilância de uma moça.
Na hora marcada começaram a chegar escritores, artistas, gente da imprensa e da política. Leitores mesmo, eram raros. O diretor da cultura deu início ao lançamento com as ditas palavras de praxe e o coquetel começou a correr o salão.
No centro da exposição, sob o brilho das luzes, algumas estrelas das letras e das artes se mostravam algo mais que o recomendável, enquanto uns poucos interessados examinavam os livros expostos sob o olhar atento da encarregada.
Quieto no meu canto, eu observava o desfile de vaidades que nem a venda rarefeita conseguia arrefecer. Alguns autógrafos eram dados por este ou aquele e um dinheiro escasso pingava no caixa.
Pelas tantas, postado no meu lugar, observei a chegada de alguém que me chamou a atenção. Tratava-se de um sessentão de cabelos grisalhos, trajando roupas claras, puxando para o branco. Fumava cachimbo, que trazia na mão, acredito que apagado.
Indiferente ao barulho das conversas e dos copos, não teve olhos para os exibidos e atravessou o salão com o passo firme de quem sabe com segurança onde vai. Quase sem olhar para os lados, rumou direto para os livros, correu a vista pelos títulos e se fixou nos meus. Surpreso, eu o mirava a poucos passos, admirando a atitude do leitor desconhecido. Enquanto isso, com jeito de entendido, ele afastava os livros que já devia conhecer e separou três outros, justamente os mais recentes. Colocou-os então sob o braço, depois de mostrá-los à moça, e pagou.
Ela falou alguma coisa, creio que alertando para minha presença.
Esperei que viesse ao meu encontro para o autógrafo, mas ele nem se voltou para o meu lado. Com a mesma tranqüilidade, retomou o caminho de volta, alheio ao bruáa e aos estrelismos. Seu negócio era com a obra, não com o autor. Creio que, como já aconteceu comigo, se defendia de possível decepção.
(Do livro “Fiapos de Vida”)

 

 

MEC ENTREGA LIVROS
DIDÁTICOS EM BRAILE

O Ministério da educação divulgou a distribuição, em agosto, de cento e sessenta e seis novos títulos de livros didáticos impressos em Braile para mil estudantes deficientes visuais, que receberão quarenta e oito títulos para primeira a quarta séries, quarenta e oito para quinta a oitava séries e mais setenta títulos paradidáticos. O material foi produzido com recursos do Programa Nacional do Livro Didático em Braile e do Programa Nacional da Biblioteca Escolar, ambos vinculados ao Fundo Nacional de Desenvolvimento e Educação.

 

TODA TORTA

Mª de Fátima Barreto Michels

Te mal amar
Era o que eu queria...
E pegar no sono!
Ai ! me livrar de ti
Ai! Se eu não precisasse ...
Me defender
Nem na poesia
Me submeter
Quanto bom seria!
Se eu não me entregasse
Se te mal amasse
Como eu gostaria!
De não ser assim
Esta mosca morta
Esta coisa torta!
Queres que eu resista
Pedes que eu me esforce
Sem que admitas...
Tens é dó de mim!

 

UMA MENSAGEM SOBRE CONTO


Transcrevemos mensagem recebida da escritora Maria de Fátima B. Michels, de Laguna: "Gostei da sua crônica "O conto mais vivo torna", Luiz Carlos, publicada no Coojornal (www.coojornal.com.br). Adoro a trama, a narrativa curta. Li do Chico Pereira "Pardieiro". Francisco faz uma mistura gostosa do jeito ilhéu com a ficção, onde o erótico mistura-se ao passional com boas pitadas de humor. Mas sobretudo Francisco Pereira passa a navalha e expõe na alma do personagem nossas próprias feridas.
Quanto aos 100 Melhores Contos do Século, tenho o livro, mas ainda não li, exceto uns três ou quatro. Lembro um do talentoso gaúcho Caio Fernando Abreu.
Quanto a Enéas Athanázio, não li ainda. Conforme disse há pouco, em mail à escritoria Urda, vocês dois fazem uma coisa muito bonita, divulgando para o país as riquezas catarinas.
O último livro de contos que li me fez "descobrir" Ligya Fagundes Telles em "Invenção e Memória". Coisa Linda!"

 

BIBLIOTECAS PARA TODOS

Segundo as estimativas do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, mais de 1.000 (mil) cidades em quase todos os estados brasileiros não possuem bibliotecas de acesso público. Em quase todas elas também não existem livrarias, banca de jornal e internet, o que configura uma quase intransponível barreira impedindo o acesso à leitura, que é um direito básico de cidadania. Uma versão preliminar do diagnóstico que está sendo preparado pelo Programa Fome de Livro indica que a maioria das cidades sem bibliotecas é de pequeno porte - até vinte mil habitantes, possui índice de desenvolvimento humano baixo e índice de analfabetismo bem acima da média brasileira. São cerca de 14 (quatorze) milhões de pessoas e a chegada da biblioteca pública vai representar para a maioria delas a criação do primeiro equipamento cultural do município. O estudo deve ser estendido a todas os municípios brasileiros para traçar a real situação das bibliotecas públicas no país. Além do empréstimo das obras, as bibliotecas do programa Fome de Livro deverão ter exposições, debates e oficinas de criação literária. É esperar para ver.

 

 

VENTO, AMOR E BRISAS

Eliana Wissmann Alyanak

O vento varre os grãos de areia,
Voa meu pensamento
atrás do movimento
das nuvens passageiras...

Divagando sobre o amor,
o tempo como numa ampulheta,
vai riscando o chão
com uma vareta...

O amor que vivo é o motivo
de estar aqui contigo,
pois o bem querer
é o que ofereço ao amado amigo...

De tantas brisas,
de tantos mormaços,
vamos nos dando os abraços
e estreitando nossos laços...

 

A ÚLTIMA NOITE

Conto de Luiz Carlos Amorim

Seu Antonio já estava aposentado e, a despeito dos seus mais de sessenta anos, ia a todos os lugares com sua inseparável bicicleta que ele chamava carinhosamente de Florisbela. Gostava da sua cervejinha e de um jogo de cartas com os amigos no boteco da esquina. Não se considerava velho, absolutamente: fazia questão de frisar que sentia-se jovem como um garoto, apesar da idade. Era viúvo, tinha filhos e netos, mas não os incomodava. Apenas queria viver, a seu modo, o tempo que lhe restava e que, segundo ele, era grande.
Uma noite, depois do jogo com os amigos, resolveu sair da rotina e tomar um cerveja em outro lugar qualquer. Joãozinho, um dos amigos mais chegados, dispôs-se a acompanhá-lo e sugeriu que fossem beber numa das casas suspeitas da cidade, onde estariam bem acompanhados. E lá se foram os dois, o seu Antonio dando carona ao Joãozinho na Florisbela.
Quando chegaram à primeira “casa” do caminho, o velho encostou a bicicleta num canto e foi entrando, pedindo logo pela cerveja. Uma das meninas veio trazer a bebida e já ficou sentada no colo do seu Antonio. Colocou a cerveja nos copos, mas ele não chegou a bebê-la, pois Laurinha, muito à vontade, já o abraçava e lhe aplicava uns beijos molhados.
Ele não se fez de rogado e rumaram para um dos quartos. Afinal, pensou – não sou tão velho assim e já estou viúvo há bastante tempo.
- Hoje é festa – disse, sorrindo – e foi tirando a roupa, enquanto Laurinha, que a despeito do nome era até bem volumosa, ia tirando a dela. Despiram-se rapidamente e jogaram-se na cama. Seu Antonio parecia mesmo um garoto. De repente, no entanto, com um gemido, caiu sobre Laurinha, não levantando mais. A mulher começou a gritar, tentando afastar o peso de cima dela.
O dono da casa bateu à porta e, como ninguém a abrisse e Laurinha continuasse a gritar, arrombou-a. Atrás dele, homens e mulheres semi-nus, vestindo suas roupas, vinham ver o que estava acontecendo. Constatando que o velho realmente passava mal, vestiram-no de qualquer jeito e colocaram-no em um carro, levando-o para o hospital. Ele estava quase desfalecido, mas ainda gemia.
No hospital, o médico atendeu prontamente, mas ele morreu em seguida. Fora o coração.
No dia seguinte, o enterro saiu da casa da filha. Mais tarde, alguém foi apanhar a Florisbela, que ficara onde fora deixada pelo dono, indiferente a tudo...

 

ALFETIZAÇÃO E LETRAMENTO

Por Luiz Carlos Amorim

Leio a pesquisa de aluna do Curso de Letras da Faculdade de Jaraguá do Sul, sobre a análise de desempenho em práticas sociais de leitura e escrita, por alunos em fase de conclusão do Ensino Médio do Centro de Educação de Jovens e Adultos de Corupá e percebo a importância de se avaliar e mensurar a eficiência da educação que estamos oferecendo aos nossos estudantes, desde a idade mais tenra até a preparação para o Vestibular.
A pesquisa é um estudo sério e consciente, com perguntas simples dirigidas aos estudantes, para que se possa determinar o nível de “letramento” do jovem e do adulto de uma cidade que poderia, por amostragem, espelhar uma tendência brasileira. Vale esclarecer “nível de letramento”, conforme mencionado na pesquisa: se o estudante está apenas alfabetizado ou se ele sabe utilizar a leitura na vida prática, decodificando e interpretando de maneira correta o que lê, sabendo comunicar-se efetivamente.
Apesar dos conteúdos programáticos das escolas privilegiarem um equilíbrio pelo menos teórico do ensino da língua com a prática da escrita e da leitura, a pesquisa mostra que os estudantes, um índice significativo deles, já no nível médio, ainda têm dificuldades com interpretação de textos e, paralelamente, com o registro de idéias.
Parte dos alunos entrevistados da mostra aleatória declararam ler livros, revistas e jornais, mas as respostas se conflitaram, pairando dúvidas sobre se realmente liam o que foi afirmado.
Cai em evidência, mais uma vez, aquilo que suspeitamos cada vez que falamos de leitura: a escola, de um ponto de vista global, não está incentivando a formação de leitores. Falamos já em outras oportunidades, da prática contraproducente de obrigar os alunos a lerem determinados livros, por parte de professores de língua e literatura, o que causa prevenção ao invés de propiciar a criação do hábito e gosto pela leitura.
E a pesquisa nos mostra que não é só isso. Os estudantes não sabem ler documentos simples, presentes no cotidiano de pessoas comuns, como formulários, mensagens, avisos, etc.
Outro fato importante levantado pela pesquisa, que corrobora o que se constatou a respeito da falta de habilidade de leitura dos alunos, incompatível com suas idades, é que a escola privilegia o ensino da escrita, relegando a leitura a segundo plano.
A escola precisa ensinar o aluno a ler e precisa incentivá-lo se “tornar-se um leitor competente e autônomo dos vários gêneros de discurso, do cotidiano ou não, que fazem parte da cultura letrada contemporânea”.
Assim, os leitores em formação, incentivados desde o início do primeiro grau, tornar-se-ão leitores efetivos. A escola precisa trabalhar o letramento do estudante com mais dedicação, para que tenhamos mais leitores eficientes e efetivos e que dominem uma escrita mais clara, objetiva e correta.

 

I AM...

Luiz Carlos Amorim


I am unquiet,
restless, unruly
romantic, embarassed
simple like a child.

I am an apprentice of life,
of love and of hope.
longing is my homework...

I am as a precocious kid,
in a hurry to become a grown-up;
I am an adult, grown,
wishing to be a child.

I am poet, lover, loved,
I am more than what I am, simply;
I am so many lives at a time,
in and out of myself,
that I divide myself in some more "Is".

I am small alone,
but I am great, very great
with someone waiting me...

 

POESIA CATARINA PELO MUNDO

O livro “The Color of the Sun”, versão para o inglês de “A Cor do Sol”, de Luiz C. Amorim, continua gerando referências em anuários, revistas e jornais literários pelo mundo, com a publicação, inclusive, de traduções de poemas da obra para outros idiomas. Recebemos uma edição da Revista Poet, publicada na India, com o poema “Sou” (I am), do referido livro, traduzido para o bengalês. Junto, carta do editor da revista “The Future”, com pedido de remessa de outros poemas para tradução e publicação naquele órgão literário. Recebemos, ainda, uma edição da revista Poetcrit, também publicada na India, com poemas extraídos de “The Color of the Sun”, em inglês.
A revista “The Activist”, publicada em Ohio, Estados Unidos, traz reportagem sobre o Grupo Literário A ILHA e poemas do livro “The Color”. O anuário de publicações literárias “New Hope International Review”, publicado na Inglaterra, traz resenha sobre o o livro de Amorim.

 

SOU

Luiz Carlos Amorim


Sou assim inquieto,
irrequieto, indócil,
romântico, atrapalhado,
simples tal qual criança.
Sou um aprendiz da vida,
do amor e da esperança.
Saudade é dever de casa...
Sou qual garoto precoce,
com pressa em ser gente grande;
sou qual adulto, crescido,
desejando ser criança.
Sou poeta, amante, amado,
sou mais que eu, simplismente;
sou tantas vidas a um tempo,
dentro e fora de mim,
que me divido em mais eus.
Sou pequenino, sozinho,
mas sou grande,
muito grande,
com alguém
a me esperar...

SAIU "O POVO DAS CONCHAS" DE URDA

Foi lançado, pela Editora Hemisfério Sul, o décimo quarto livro da escritora Urda Alice Klueger,”O Povo das Conchas”, no dia 8 de setembro na Livraria Alemã, em Blumenau.
Trata-se de um paradidático direcionado para crianças e jovens, mas de interesse para todas as idades, onde a autora conta inúmeras curiosidades sobre o Povo Sambaquiano, o antigo morador do litoral de Santa Catarina, que aqui viveu no período entre 6.000 e 2.000 anos antes do presente.
E vem aí o romance de Urda sobre o tema.

 

 

PROJETO POESIA NO SHOPPING


O Projeto Poesia no Shopping do Grupo Literário A ILHA leva, no mês de setembro, Varal da Poesia com poemas de Luiz Delfino à Feira do Livro. Em Outubro, será a fez de edição especial do projeto com poemas em homenagem ao Dia da Criança, a ser exibido em todos os shoppings do estado. E em novembro, uma edição especial para a Festa das Flores..


EXPEDIENTE
Suplemento Literário A ILHA - Edição número 90 - Setembro/2004
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
End. para Correspondência:
lc.amorim@ig.com.br
A ILHA na Interne: Veja o portal PROSA, POESIA & CIA. em
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