SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Revista trimestral do Grupo Literário A ILHA

Março/2003

Editorial

LITERATURA INFANTO-JUVENIL

Esta edição do Suplemento Literário A ILHA privilegia, com justiça, a literatura infanto-juvenil, este gênero tão importante, aquele que vai formar os leitores do futuro, com matéria nas páginas centrais focalizando os autores catarinenses mais importantes que o estão produzindo, além de transcrever matéria sobre o Boletim "O Balainho", talvez o único jornal sobre este tipo de produção literária e, ainda, publicando notícia sobre a publicação de clássicos da literatura universal em formato e com preço especiais para crianças, mais poesia dos autores que escrevem para os pequeninos.
Além disso, matéria especial sobre a obra de Cruz e Sousa, de professora de Faculdade de Letras de Minas, também matéria sobre a valorização da Literatura Regional pelo Estado, sobre a Bienal do Livro do Rio, sobre os poemas preferidos de Bandeira e sobre as antologias recentemente lançadas em Santa Catarina, uma de poesia e outra de contos.
Convidamos, também, os nossos leitores a visitarem o portal PROSA, POESIA & CIA. do Grupo Literário A ILHA que, além da edição on-line desta revista, traz várias outras seções, como Literarte, Grandes Mestres da Poesia, Escritores Catarinenses, Literatura para o Vestibular, Literatura Infantil, Crônica da Semana, Entrevistas com Escritores, Artigos sobre Literatura, Livros on-line e as antologias Todos os Poetas, O tema do Poema e Feira de Contos. Em Http://pleneta.terra.com.br/arte/prosapoesiaecia .
Entregamos a vocês, leitores, a edição de número 84, completando vinte e dois anos de circulação desta revista e de vida do Grupo Literário A ILHA.

 


ESSA ILHA

Luiz Carlos Amorim

Essa ilha catarina
cercada de sol
por todos os lados,
é a terra prometida,
o paraíso de areia.
A natureza, generosa,
deu as praias mais bonitas
a este pedaço de chão.
E deixou que eu, poeta,
me quedasse à beira-mar
para sonhar esperanças,
para cantar a beleza
sem igual da capital.
Florianópolis antiga,
ao mesmo tempo menina,
capital da natureza,
da magia e da beleza.

 

 

LITERATURA INFANTO-JUVENIL CATARINENSE

Por Luiz Carlos Amorim

No início do século passado, as crianças brasileiras não tinham muita opção: o que começava a aparecer de literatura para elas era quase que exclusivamente importada - os clássicos como os contos dos Irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen - com traduções que deixavam a desejar. Antes disso, apenas os “Contos da Carochinha”, publicados pela primeira vez em 1894, traduzidos por nomes como Olavo Bilac, Coelho Neto e outros. Preocupado com isso, com a falta de produção brasileira no gênero, Monteiro Lobato escreveu a “História do peixinho que morreu afogado”. Foi quando nasceu o maior autor de todos os tempos da literatura infanto-juvenil brasileira, que publicou dezessete volumes de produção do gênero.
Em 1921, depois do sucesso da sua primeira história infantil, a do peixinho afogado, Lobato publicava “A menina do narizinho arrebitado”, com mais de cinqüenta mil exemplares, um arrojo editorial para a época. A editora era de Monteiro Lobato. Ele doou quinhentos exemplares às escolas, o livro agradou aos estudantes mirins e chamou a atenção do governo do estado, que comprou trinta mil exemplares para que a obra chegasse às mãos das crianças de todas as escolas paulistas. E o Sítio do Pica-pau Amarelo, uma região rural com personagens próprios como Narizinho, Emília e tantos outros foi construída no imaginário daquela e de todas as gerações futuras. Em poucos meses o restante da edição foi vendido, e a história de Narizinho marcou o início da história da literatura infanto-juvenil brasileira.
De lá para cá, outros grandes autores de literatura infantil e/ou juvenil surgiram, como Ziraldo, Ruth Rocha, Pedro Bandeira, Ana Maria Machado, Sylvia Orthof e outros, evidenciando a criatividade e a excelência do autor brasileiro.
Santa Catarina também tem seus autores infanto-juvenis, gente de valor que, há alguns anos, vem fazendo sucesso entre crianças e jovens.
Else Sant’Anna Brum, de Joinville, por exemplo, também poetisa de mão cheia, tem vários livros infanto-juvenis publicados. Seu primeiro livro, “Miguelito Pirulito” saiu em 86, vencedor de um concurso literário do Estado. Em 92 saiu “Cri-Cró” pela Editora Eko, de Blumenau e em seguida “Retetéu”, também pela Eko. Outro livro, “Serelepe”, foi publicado pela editora Movimento e Arte, de Joinville. “Serelepe” é um hino à liberdade e à infância. é poesia em prosa, é vida. “Serelepe” leva a refletir, discutir, pesquisar, fazer poesia e escrever sobre o sonho de liberdade, o valor da amizade, a surpresa das viagens, a dor da saudade, os efeitos do vento, da chuva, do sol, o espetáculo dos ipês floridos, a fantasia das histórias. Uma boa novidade no gênero veio da Editora Hemisfério Sul: quem enveredou pela literatura infanto-juvenil, tendo já uma trajetória de grande sucesso no romance, foi Urda Alice Klueger. Seu primeiro livro infanto-juvenil, publicado em 98, pela Lunardelli em co-edição com a Hemisfério Sul, foi uma surpresa que agradou em cheio o público alvo, tanto que já está na segunda edição, indo para a terceira.
Outra autora, esta de São José, levou sua experiência de sala de aula para o livro e fez sucesso. Trata-se de Eloí Elisabeth Bocheco, que publicou, pela editora Papa Livro, de Florianópolis, a coletânea de poesia infanto-juvenil “Uni... Duni... Téia”. Depois veio “A de Amor - A de ABC”, também poesia e em seguida “Ô de Casa”, seu terceiro volume de poemas, pela Argos. Lançou, na Feira do Livro de Florianópolis de 2002, o livro “Poesia Infantil – O Abraço Mágico”, pela Editora Universitária Argos. É um livro que fala seriamente sobre poesia e criança, um livro de encantamento sobre os encantos da poesia. Eloí é, também, editora do jornal de Literatura Infantil “O Balainho”, publicado pela Universidade do Oeste de Santa Catarina. Maria de Lourdes Ramos Krieger, de Florianópolis, é professora e escritora. Tem vários livros publicados, destacando-se “Dona onça da floresta”, “Um amigo muito especial” – que faz parte do projeto Salas de Leitura do MEC, “Ana levada da breca” e “Vovô quer namorar” – considerado “altamente recomendável para o jovem” pela Fundação Nacional do Livro Infantil. Ana Maria Kovács, carioca há muito radicada em Santa Catarina, mais exatamente em Blumenau, é jornalista, professora e escritora.. E a sua obra é quase toda dedicada à literatura infanto-juvenil. Tem vários livros publicados, entre eles: “Sonhos de Criança” - poesia infantil; “O Canto da Sereia” - romance juvenil; “O Pingüim que Procurava o Sol” - literatura infantil; “O Monstro Atômico” - romance juvenil, “O Burrinho que Calculava” - literatura infantil. Recentemente publicou “Que Bicho é Esse”, sobre o Parque das Nascentes, um parque ecológico de 5300 hectares em Blumenau, livro com o qual a autora aproxima as crianças da natureza, ensinando-as a preservá-la. Yedda de Castro Bräscher Goulart é de Lages, mas vive em Florianópolis. No gênero Literatura Infanto-juvenil, tem vários livros publicados: “Aventuras na Ilha da Magia”, “Aventuras na Serra” e a coleção “Ursinhos Companheiros, composta de quatro volumes, publicada pela Editora Todolivro. O livro “Aventuras na Ilha da Magia” está se transformando num desenho animado, produzido em Blumenau. É uma história que se passa na ilha de Santa Catarina, em Florianópolis, com personagens do mundo da fantasia, em locais turísticos, vivendo muitas aventuras! O projeto ganhou o Prêmio Cinemateca Catarinense no finalzinho de 2001 e foi aprovado pelo Ministério da Cultura (Lei Rouanet).
Este articulista aparece, em 2003, com a sua primeira incursão no gênero, “Flecha Dourada”. O livro tem ilustrações da artista plástica Solange Gerloff Alves de Lima e deverá ser lançado na Feira do Livro. Outra estreante no gênero é Rosângela Borges, que também está com seu primeiro livro de poemas infantis pronto para publicar, ela que já é reconhecida poetisa no norte catarinense, com publicações em jornais, revistas e antologias. E mais outros autores devem existir escrevendo para o público infanto-juvenil. Voltaremos ao assunto, para evidenciar o trabalho de bons escritores para este público exigente e fiel que é composto pelas crianças.

 

A ABELHA

Rosângela Borges

A abelha operária
Tirou férias
E foi à praia
De biquíni
Guarda-sol
De toalha e anzol

“Quero ser feliz
Cantar, namorar
Ficar bronzeada
Pois o que é a vida
Senão o sol, o mar
E uma boa caminhada?”

A abelha operária
Está linda lá na praia!

“Chega de mel
Chega de ursos
Chega de rainha
Quero descansar
Curtir as férias
Sorrir...
e ficar na minha!”

O BALAINHO - BOLETIM DE
LITERATURA INFANTO-JUVENIL

 

Os incentivadores da leitura entre crianças e adolescente não estão sozinhos. Desde agosto de 1999, uma dupla de professoras vem reunindo suas experiências de sala de aula num periódico pouco convencional, “O Balainho”, boletim de literatura infanto-juvenil editado trimestralmente, destinado a professores, educadores e apaixonados pela leitura. Na verdade, Eloí Elisabet Bocheco, professora aposentada da rede pública estadual, e Zenilde Durli, atuando no curso de pedagogia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc) em Joaçaba, usam seus conhecimentos para que outros expressem suas opiniões, pontos de vista, críticas e sugestões sobre a leitura em artigos e cartas.
Três anos e quinze números depois, “O Balainho” é um sucesso editorial. Tanto que, além de ter conquistado fiéis leitores catarinenses que receberam o boletim através de uma mala direta, o jornalzinho já chegou a pessoas em outros Estados. “Soube que o número três foi lido numa rádio comunitária em Nova Mamoré, em Rondônia”, conta satisfeita Eloí Bocheco, 45 anos.
O boletim é patrocinado pelo Centro das Ciências da Unoesc, de Joaçaba, desde o segundo número, editado em novembro de 1999. A primeira edição saiu com 250 exemplares com o patrocínio do comércio da cidade - uma livraria e uma cantina universitária. A repercussão foi tão grande que em poucos meses o periódico estava sendo distribuído em 2.500 endereços.
Além das críticas acadêmicas, um outro tipo de retorno dá muita satisfação a quem faz o jornal. “Há muitos pais telefonando, lendo as colunas, mandando sugestões. Dia desses recebi a carta de uma mãe de Timbó falando da diferença que ela começou a sentir entre a publicação literária e o livro de modelo consumista que anda por ai. Isso me alegra muito”, observa Eloí Bocheco. A campanha do “O Balainho”, estendeu-se a outras áreas. “Antigamente existia um certo rótulo de quem devia se preocupar com a leitura eram os professores de português. Hoje, recebemos comentários de quem ensina física, química, matemática, geografia, fisioterapeutas. Quem quer uma sociedade melhor, diferente da que está aí, deve se preocupar com a formação do leitor”, explica.

Flexibilidade


As duas educadoras do boletim preferem adotar uma linha flexível em relação à edição. Há poucas colunas fixas, como “Todo Balaio Mágico Tem...”, com sugestões de leituras, e o espaço dedicado a comentários. Só isso. Quem manda na edição são os próprios leitores. “Até os títulos foram recriados muitas vezes”, conta Eloí. O espaço consolidou-se como um dos mais lidos trazendo a cada três meses cerca de dez títulos de autores nacionais, e catarinenses. Uma das fontes de consulta para sua elaboração é a lista publicada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, que sai em maio com os melhores do ano anterior. “Indicamos os premiados, mas não só eles, porque senão pode virar cartel. Há obras não premiadas que as crianças amam. Sem ler, raramente indicamos algum autor”, salienta Eloí.
Para Eloí Bocheco, o jornal é a continuação de uma paixão que a levou a ensinar língua portuguesa e literatura há 30 anos. “A leitura é insubstituível. Não há outro veículo que consiga mobilizar tanto as pessoas. Lamento que muitos educadores ainda não tenham descoberto o seu valor. Todos os textos são importantes, mas quando se trata de abrir e ampliar horizontes, o texto literário é criativo, aquele que permite olhar o mundo de forma lúdica e inventar a linguagem”, explica.

 

ESTILOS

Eloí E. Bocheco



A Lua Cheia
adora vestido
de bolinha
Diz que realça
as suas formas.
A Lua Crescente
fica indecisa
pra se vestir e
acaba sempre
pedindo emprestado
o blue jeans
do Dragão Ariosto
A Lua Minguante
acha as lojas do céu
muito caras e
confecciona suas
próprias roupas
na máquina
de costura da
Aranha Tatanha
A Lua Nova
adora os lenços
e os laços, mas
o que gosta mesmo
é de um abraço.

 

CLÁSSICOS DA LITERATURA PARA CRIANÇAS


A editora Ática lançou a coleção “Quero Ler”, com obras de autores consagrados feita para o público infanto-juvenil. A coleção "De Conto em Conto" reúne textos como “Um Apólogo”, de Machado de Assis (publicado pela primeira vez em 1884) e o recente “A Marinheirinha” (2001), de Pedro Bandeira.
“Quero Ler” apresenta ainda textos de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Lygia Fagundes Telles e Lima Barreto.
Dividida em Série Vermelha (leitores entre 11 e 12 anos) e Série Azul (leitores entre 13 e 14 anos), a coleção contempla ainda outros gêneros, como romance, teatro e folclore e traz textos de Moacyr Scliar, Luiz Puntel e outros.
Um dos destaques é “Histórias de Shakespeare”, que traz três obras do dramaturgo inglês: “Romeu e Julieta”, “A Megera Domada” e “A Tempestade”. Os textos ganharam o formato de contos na adaptação dos ingleses Charles e Mary Lamb, com tradução de Marcos Bagno e ilustrações de Cárcamo.
Ao final de cada livro, a seção “Quero Mais” oferece textos complementares, fotos e ilustrações sobre a obra, seu autor e a época em que foi escrita. Em “O Saci e o Curupira”, por exemplo, o leitor conhece vários elementos das culturas negra, indígena e branca, com seus costumes, lendas e fatos históricos. A seção também apresenta uma biografia do autor. Inicialmente, cada livro custa R$ 6,90.

 

A ESPERA


Aracely Braz


Espera por mim,
não tenhas pressa!
Vê como a brisa
se espalha devagar,
os rios caudalosos
marulham sobre as pedras,
de dia, de noite,
de noite e de dia;
As ondas do mar azul
vêm uma de cada vez,
beijam teu rosto,
acariciam teu corpo,
dão uma volta
e vêm de novo!
Espera,
espera por mim!
Vê como os sonhos bons
demoram para chegar,
a flor a desabrochar...
Não tenhas pressa,
espera por mim!

 

OS POEMAS PREFERIDOS DE BANDEIRA

Ainda em vida, o poeta Manuel Bandeira juntou os versos de que mais gostava e os reuniu em Meus Poemas Preferidos, reeditado agora pela Ediouro. No volume, que abre com a apresentação do próprio autor, tem-se um belo conjunto em que, segundo Bandeira, estaria aglutinado o essencial e ao mesmo tempo, a variedade de sua produção poética. O livro tem ainda um ensaio de 1936, assinado por Pedro Dantas, pseudônimo do crítico Prudente de Moraes Neto, que faz uma extensa análise não apenas dos poemas reunidos nesta seleção, mas da trajetória artística do Movimento Modernista. Poeta, cronista e tradutor, Manuel Bandeira nasceu em Recife em 1886, mas viveu boa parte da vida no Rio de Janeiro, tornando-se um nome central na história da Literatura Brasileira. Nesta reunião de seus pemas favoritos, pode-se conhecer mais de perto suas preferências poéticas, escolhidas com o preciosismo de sempre, e descobrir um pouco mais do gosto e do estilo inconfundível de um poeta extremamente popular. Na seleção, estão presentes poemas eternos como "Vou-me embora para Pasárgada", além de outros menos conhecidos, que dão mostra do grandioso universo de imagens, ritmo e sentimento delicamente construído pelo poeta. "Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada. /.../ Vou-me embora pra Pasárgada / Em Pasárgada tem tudo / É outra civilização Tem um processo seguro / De impedir a concepção / Tem telefone automático / Tem alcalóide à vontade / Tem prostitutas bonitas /Para a gente namorar".

 

DENTRO DE MIM

Vânia Moreira Diniz

 

Viajei para dentro de mim,
Encontrei terra não cultivada,
E espero com convicção, sim,
Reformular essa empreitada.

Há lugares que estão adubados,
E que vivem fortes e viçosos,
Outros que parecem derrubados
Com sementes e germes danosos.

Vi a devastação que destrói,
Aos poucos e progressivamente,
E quis procurar logo um herói,
Para tudo irrigar sucessivamente.

Na procura de cada canto interior,
Senti por vezes resquícios esquecidos
Que deixou a marca relevante e pior,
Em terrenos tão carentes e conhecidos.

Consolidei minha certeza no cultivo
De cada pequeno pedaço do ser,
E hoje quero tudo ao redor vivo,
Para que possa meu domínio exercer.

Caminho para dentro de mim cautelosa,
E aprendo a conhecer a verdadeira raiz,
Dessa terra que esperou tão calorosa
A espécie de cultivo que eu sempre quis.

Volto do meu interior renovada,
Na esperança de novo tempo,
com alegria e índole revigorada,
E ouço de longe o assobio do vento

 

CRUZ E SOUSA: NOVO MODO DE FAZER POESIA COM "BROQUÉIS"

“Broqueis”, de Cruz e Sousa, publicado em 1893, é o ponto mais alto da poesia simbolista brasileira, sendo responsável, à época de sua aparição, pelo questionamento do modelo parnasiano dominante entre nós. Dessa forma, embora contenha elementos do parnasianismo, essa obra também funciona como precursora da estrondosa crítica que os modernistas fariam, no século seguinte, à poesia parnasiana.
Noutras palavras, ao desenvolver uma proposta estética fora dos moldes parnasianos, “Broqueis” também inventou um novo modo de se perceber o mundo e de se fazer poesia. Exatamente porque introduziram no Brasil um novo paradigma estético, as experimentações sonoro-visuais e o caráter reflexivo dessa obra prepararam o caminho para a radical ruptura modernista de alguns anos depois.
Se considerarmos que o ritmo é o cerne da poesia e da música, e que, para se obter ritmo, é preciso que se explore a repetição de sons, perceberemos o caráter inovador de “Broqueis”, quando tal obra cria uma nova forma rítmica, relacionando as palavras entre si como se fossem sons musicais. Além de apresentar os recursos das aliterações (repetições de sons idênticos ou semelhantes no início das palavras) e das assonâncias (repetição de som vocálico idêntico ou semelhante), a obra também justapõe tais elementos em uma seqüência frasal que privilegia o uso de substantivos e adjetivos soltos, sem formas verbais ou conectivos que subordinem as palavras ou as idéias umas às outras.
Segundo Ivan Teixeira, com esses recursos, Cruz e Sousa inventou o chamado “verso harmônico” muito antes de essa forma ser teorizada pelo modernista Mário de Andrade, no Prefácio Interessantíssimo. Assim, o poeta explora a justaposição de frases nominais cuja interpretação o leitor deve buscar, conectando palavras soltas, colocadas em série, uma após a outra, como no poema a seguir:

ANTÍFONA

Ó formas alvas, brancas, formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas...

indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da cor do perfume...
Horas do ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do s
ol que a dor da luz resume...

Como se pode observar em “Antífona”, Cruz e Sousa constrói três estrofes usando principalmente substantivos e adjetivos, numa estrutura em que as formas alvas do primeiro verso são desdobradas sucessivamente em formas claras, formas vagas, formas do amor.
Além disso, tais formas são classificadas como de luares..., de virgens... e também de uma idéia básica e vai construindo suas muitas facetas, de tal forma que o poema parece estar dizendo sempre a mesma coisa, quando de fato, ele está abordando as muitas possibilidades de leitura de um determinado objeto, especialmente quando se trata de um conceito, ou de um elemento abstrato como formas alvas. portanto, nesta obra, a repetição não se apresenta apenas como um fenômeno sonoro, mas atinge também os campos imagético, cromático, visual e ideológico.

 

BIENAL DO LIVRO NO RIO

Dois grandes nomes prometem atrair as atenções da próxima Bienal do Livro do Rio de Janeiro, que ocorre entre 15 e 25 de maio: o do indiano Salman Rushdie e o do peruano Mario Vargas Llosa. Rushdie vem para lançar no País seu romance Fúria (Companhia das Letras), em que faz uma crítica à indústria cultural invocando personagens da literatura como Pinóquio e Frankenstein. Vargas Llosa também vem promover um novo romance: O Paraíso na Outra Esquina (Arx), que deve ser lançado em espanhol em março e, em português, em maio.
A Record planeja publicar em português, em 2003, o primeiro volume da autobiografia do colombiano Gabriel García Márquez, Viver para Contar. Entre as traduções, também se destacam uma nova versão de Os Demônios, de Dostoievski (ed. 34), ainda sem data, e a primeira edição em português de Os Invictos, de William Faulkner, em fevereiro.
Bons lançamentos, normalmente fracos no começo do ano, já começam a ocorrer.
Ainda em janeiro, a editora Bem-Te-Vi lança livro com a correspondência de Mário de Andrade e Drummond, "Carlos & Mário".

 

FIM DE NOITE

Sólon Schil

No fim de noite eu te procuro
e te encontro em todas as ruas,
em todas as casas,
em cada passante;
no ressonar inocente da criança,
no sorriso cúmplice dos que amam,
na gota de saudade que rola na face.
No fim de noite eu te procuro
para te ofertar um pouco
daquilo que existe de melhor em mim.
Em troca, peço-te apenas que me escutes,
para que juntos,
sejamos mais felizes
neste Fim de Noite...

 

GRUPO A ILHA NA FEIRA DO LIVRO DE RUA

Em maio próximo, temos a segunda edição da Feira do Livro de Rua de Florianópolis. O Grupo Literário A ILHA estará participando com a distribuição desta edição do Suplemento Literário A ILHA e com o lançamento, no estande das Associações de Escritores, do livro "FIM DE NOITE - Antologia do Fazer", seleção de poemas de vários autores, feita a partir de trabalhos enviados para o programa de rádio do mesmo nome, comandado pelo poeta e comunicador Sólon Schil. Também será lançada na Feira do Livro de Rua a edição trilíngüe de “A Cor doSol”, poemas - de Luiz C. Amorim, já com uma versão em cada um dos idiomas: português, espanhol e inglês.

 

 

O ESTADO E A VALORIZAÇÃO DA LITERATURA REGIONAL

Por Luiz Carlos Amorim

Há uns cinco anos, a “cartilha didática” para a rede escolar municipal de Joinville foi idealizada pela Secretaria de Educação da Prefeitura da cidade e concretizada por professores – no sentido de selecionar-se o material para organização - e depois foi esquecida por quase dois anos. Retomada em 2000, em 2001 a cartilha – então batizada de Projeto Viver Joinville – foi para as mãos dos alunos. Sei do projeto, porque fui convidado pelos professores organizadores, na época em que foram feitas as discussões e seleção dos textos. Fui convidado e participei, vi o que foi feito e fiz parte do projeto. O projeto constituía-se na confecção de uma cartilha escolar com base na realidade local, um livro texto para atender as séries do ensino fundamental. Um livro com textos mais próximos do cotidiano dos estudantes, abordando motivos e costumes, sensações e emoções comuns a eles, porque produzido por gente que vive no mesmo meio ambiente. Os textos usados no livro – ou cartilha – identificam-se muito mais com os alunos leitores, uma vez que personagens, espaço, tempo e temas são inerentes a eles. Além de geografia, história e atualidades da cidade, o livro é recheado de prosa e poesia de autores da terra, o que vem obedecer à portaria que regula o estudo do autor regional em suas respectivas regiões. “Viver Joinville” é um livro dinâmico, com muitas ilustrações, cores e idéias, abordando todos os aspectos da vida, do cotidiano da cidade. Um livro objetivo que caiu de imediato no gosto dos jovens estudantes, com uma linguagem apropriada e uma apresentação atraente, sem o ranço e a sisudez do livro didático, tradicional, tão formal e às vezes, desinteressante. Uma iniciativa de sucesso que o atual governador do Estado, antes prefeito de Joinville, se comprometeu a expandir para toda Santa Catarina. Será muito bom se ele conseguir que isso seja feito, pois dará oportunidades para os alunos do ensino fundamental de terem um livro mais agradável e mais perto da sua realidade e aos autores de cada região de ter a sua obra publicada num veículo que vai direto para as mãos de leitores em formação. A cartilha, uma vez implantada em todos os municípios do estado, se seguirem o exemplo de “Viver Joinville”, cairá de imediato no gosto dos estudantes, pois terá a cara deles. Que não demore tanto para se organizar e colocar nas mãos dos alunos o livro pronto, como aconteceu em Joinville. O projeto é bom e o retorno é fantástico. Outra forma de valorizar o escritor catarinense é fazer-se cumprir a lei número 8759, em 27 de julho de 1992, que dispõe sobre a aquisição de livros de autores catarinenses pelo estado, com a finalidade de integrar acervo das bibliotecas públicas municipais. A lei especifica, também, que em todos os casos, será considerada a qualidade da obra, qualidade esta que seria medida ou avaliada pela Comissão Catarinense do Livro. Como a lei, no entanto, já tem mais de dez anos sem que, na prática, tenha sido levada a efeito, apesar de sucessivas cobranças junto a governos anteriores, é preciso que se volte à carga, que a classe se mobilize e sensibilize o novo governador no sentido de finalmente a chamada Lei Grando seja cumprida.

 

LANÇADAS ANTOLOGIAS DE CONTO E DE POESIA


A Editora Garapuvu acaba de lançar duas antologias - uma de poesia catarinense e outra de contos. A de poesia - Poesia Contemporânea de Santa Catarina - organizada por Silveira de Souza, reúne vinte e sete poetas catarinenses do século vinte. Como o próprio organizador já disse, não é uma coletânea dos melhores, até porque não estão contemplados, nesse volume, alguns poetas reconhecidos fora do estado há bastante tempo.
“Nossos Melhores Contos” é o título da antologia de contos, organizada pelo escritor e editor Francisco José Pereira, que reúne vinte e quatro contistas catarinenses, ou radicados no estado. Nomes de peso, como o de Enéas Athanázio, contista e ensaísta, estudioso da literatura brasileira, reconhecido pelo Brasil afora, fazem parte da seleção. Não cabe aqui dizermos que esse ou aquele autor merecia ter entrado. O importante é que pelo menos alguma coisa foi feita.


EXPEDIENTE
SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA - nº 84 - Março/2003 - Ano 22
Editor: Luiz C. Amorim
E-mail para contato: lc.amorim@ig.com.br

prosapoesiaecia@yahoo.com.br


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