SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Dezembro/2001 - Edição Especial de Natal

 

2002 - O ANO DRUMMOND



O ano de 2002 será o ano do centen[ario de Carlos Drummond de Andrade, por isso é um ano especial para nós, amantes da poesia e da literatura. Neste ano que se finda já começaram as homenagens ao poeta e para o ano de 2002 a programação é extensa. Veja matéria nesta edição, que fala das homenagens e da reedição de toda a sua obra.
Nós, do Suplemento Literário A ILHA, saudamos o novo ano e desejamos a todos os nossos leitores toda a paz que podermos sentir, um Feliz Natal e um ano novo como nenhum outro, repleto de sucessos e realizações.
O Suplemento Literário e o Grupo Literário A ILHA, agora adultos, maiores de idade, mas com a mesma humildade de sempre, continuam na luta para popularizar a poesia e a literatura. Continuaremos juntos, por mais vinte e um anos, quem sabe, abrindo espaços e mantendo os já existentes para divulgar a poesia e a prosa.

 

 

TODA A OBRA DE DRUMMOND


O poeta Carlos Drummond de Andrade disse em uma de suas últimas entrevistas que não tinha a menor pretensão de ser eterno e previu seu esquecimento dentro de pouco tempo. "Tenho a impressão de que daqui a 20 anos eu já estarei no Cemitério São João Batista. Ninguém vai falar de mim, graças a Deus", confessou ao jornalista Geneton Morais, então no "Jornal do Brasil", 17 dias antes de sua morte, acontecida em agosto de 1987, quando estava com 85 anos.
A profecia, no entanto, felizmente não se realizou: a Editora Record iniciou a reedição da obra completa de Drummond seguindo exatamente suas instruções. Serão 36 livros. Está sendo preparada uma intensa série de atividades que vai culminar com o centenário do poeta, em 31 de outubro de 2002
"Os admiradores do Carlos jamais o abandonaram, por isso vamos presenteá-los com diversas homenagens", afirma o artista gráfico Pedro Augusto GraJna Drummond, neto mais novo do poeta (a quem trata pelo primeiro nome) e principal responsável pela administração de sua obra. "Os livros receberão finalmente o tratamento que ele esperava muito."
O volume mais aguardado da primeira fornada é justamente o primeiro publicado por Drummond, "Alguma Poesia", em 1930. Então com 28 anos, o poeta enfrentou as dificuldades habituais de um iniciante: sob o selo imaginário Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro, romancista, tipógrafo e seu amigo pessoal, foram impressos 500 exemplares, pagos do seu próprio bolso sob a chancela da Imprensa Oficial (em que trabalhava como redator), mediante descontos em sua folha de vencimentos.
Essa foi a única edição isolada de "Alguma Poesia", escrito sob o impacto do movimento modernista de 1922 e dedicado a Mário de Andrade. Nos anos seguintes, os 49 poemas dividiam espaço com outros títulos, em "Sentimento do Mundo" e, depois, na "Antologia Poética". "Seu desejo de ver o livro publicado da forma original era tão grande que ele passava horas recortando e montando seus poemas em folhas em branco, na ordem que gostaria que fossem publicados", explica Pedro. "Tudo isso ele colocou em uma pastinha e entregou na Record." A disposição de reeditar a obra conforme sua vontade, aliás, pesou favoravelmente na troca da Editora José Olympio pela nova casa.
A nova edição de "Alguma Poesia" terá fotos inéditas do poeta na época em que o livro foi escrito. Este será o padrão de todos os demais volumes, unificando-os: na capa, uma fotografia de como Drummond era naquele momento, seguindo o projeto gráfico de Regina Ferraz. "É comum as pessoas lembrarem sempre da imagem dele já velhinho, vai ser uma curiosidade."
Críticas e elogios - Quando lançou "Alguma Poesia", Drummond já era um talento revelado. Dois anos antes, em 1928, ele publicou o poema "No Meio do Caminho" na Revista de Antropofagia, provocando elogios entusiasmados e críticas indignadas. Hoje, encontram-se 17 traduções de seus versos. Os 49 poemas do primeiro livro foram escritos entre 1925 e 1930, seguindo a preocupação com o ritmo, melodia e emoção dos versos.
Ali está o famoso "Poema das Sete Faces" ("Quando nasci, um anjo torto/desses que vivem na sombra/disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida"). E também o bem humorado "Quadrilha" ("João amava Tereza que amava Raimundo"), parafraseado anos depois por Chico Buarque.



FESTA

Luiz Carlos Amorim

O tempo corre, célere,
e a vida aposta corrida com ele.
Feito um relógio,
a vida se refaz.
Vai-se o inverno,
vem a primavera
e, arauto do tempo,
floresce o jacatirão,
o pincel da natureza
pintando a tela do mundo,
anunciando o verão,
anunciando o Natal.

Natal, essa época mágica
de desembrulhar esperanças,
dar muito amor de presente,
desempacotar paz e fé
e engavetar a saudade.

Festa de aniversário
do Senhor da grande tela
da cor do jacatirão,
enfeite maior do Natal.

 


FEIRA DO LIVRO DE FLORIANÓPOLIS


Vale voltar ao assunto, pois a Feira do Livro de Florianópolis, que ano sim, ano não, leva o apelido de Bienal do Livro do Cone Sul, terminou, neste ano, com uma boa novidade. Segundo o presidente da Câmara Catarinense do Livro, promotora do evento, como a Feira é numa época em que o verão está chegando, será feita, no próximo ano, uma Feira de Verão, em uma praia da ilha, mas em local fechado, paralela ao evento principal, que continuará no Beiramar Shopping. Ainda existe uma certa resistência, por parte de alguns livreiros, quanto ao local, um dos andares superiores de um shopping no centro de Florianópolis, onde era estacionamento, adaptado para eventos do tipo. Lamenta-se o fato de a feira ter sido tirada das ruas e levada para um lugar fechado, ao contrário do que é feito com a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, por exemplo. Só que já se tentou, por várias vezes, fazer a feira na rua, mas há muito vento em Floripa e o tempo nem sempre colabora. Talvez a novidade dê certo, vamos esperar o próximo ano.

 


A FLOR

Else Sant'Anna Brum

Brotou!
Cresceu!
Aos beijos do sol
Desabrochoe!
Ficou, depois,
Enfeitando o jardim,
Alegrando os olhares
Perfumando, encantando,
Suprindo a abelha
Que o néctar buscou.
Amava o carinho do vento
Os pingos da chuva
O voejar da borboleta
A dança do beija-flor.
Um dia, morreu.
Derramou-se em sementes
Multiplicando
a vida na ressurreição...

 


O PREÇO DO LIVRO

Por Luiz Carlos Amorim

Passou a Bienal do Livro, a Feira do Livro de Florianópolis, também Bienal do Cone Sul e, apesar dos saldos positivos, ficou-me a impressão de que alguma coisa não estava bem resolvida.
Os balanços finais dessas feiras têm sido excelentes, com os organizadores e promotores divulgando números sempre superiores aos esperados. Foi assim com a Bienal do Rio, foi assim com a Feira do Livro de Santa Catarina e foi assim, também, com a tradicional Feira do Livro de Porto Alegre.
Visitei e participei das duas primeiras e comprovei que realmente a visitação foi grande e as pessoas realmente compraram livros. Umas mais, outras menos, mas compraram. Livros técnicos, livros de auto-ajuda, religiosos, infantis, livros didáticos, aí incluindo-se dicionários.
Um detalhe, no entanto, não ficou claro: num mega-evento como um Feira de Livros, uma Bienal, onde estão reunidos quase todos os editores e livreiros, um do lado do outro, onde a concorrência é muito maior, os livros não deveriam ser mais baratos?
Não é o que se tem constatado, com raras exceções, como a dos livros infantis, por exemplo. Os livros, a maioria deles, são oferecidos, na feira, pelos mesmos preços praticados nas livrarias estabelecidas fora dela.
O diferencial das feiras não era justamente esse - poder reduzir o preço unitário, oferecendo-se maior quantidade e variedade? Penso, cá com meus botões, que as feiras deveriam possibilitar que as pessoas que gostam de ler possam comprar mais livros e propiciar, principalmente, àquelas que até então não tinham condições de comprá-los, a oportunidade de começar a fazê-lo.
Chega a ser engraçado o fato de se perguntar quanto está custando determinado livro na livraria e o vendedor, na feira, nos responder: "é o mesmo preço, tanto faz lá ou aqui, pode comprar lá, se quiser, mesmo depois da feira."
Sei que já houve tentativa de padronizar um desconto nestes eventos - dez, quinze ou vinte por cento - mas é claro que não deu certo.
A não ser que haja algum "sebo" na feira, como havia na Bienal, ou grande quantidade de pequenos livros infantis - que são os que mais vendem, sabemos - e isto havia em ambas -, a existência das feiras não significa livros mais baratos.
Continuaremos evitando entrar em livrarias - já que não temos dinheiro para comprar livros - até quando?
O consolo é que existem as bibliotecas municipais, de escolas, de empresas, de associações e clubes, onde podemos emprestar livros geralmente de graça, embora lá nem sempre possamos esperar que encontremos títulos mais recentes.
De qualquer maneira, o importante é que existe a alternativa, pois já falamos, em outros textos, sobre o quão caro é o livro no Brasil.
A verdade é que, se o objetivo de uma feira do livro é reunir num mesmo espaço uma quantidade maior de opções para quem pode comprar livros, este objetivo é plenamente alcançado. Mas se o objetivo é tornar o livro mais acessível e popularizá-lo, dar oportunidade àqueles que não podem comprá-los, este, infelizmente, não se cumpre.

 

VISITA DE NATAL


Virginia Vendramini


É tempo de voltar no tempo,
De rever antigas paisagens
E ainda uma vez abraçar nossos maiores.
É tempo de partidas e de chegadas,
De reencontros breves e despedidas.

É tempo subretudo de deixar que acordem
As velhas lembranças e a saudade aflore,
Fardos que às vezes pesam mais
Do que malas e bagagens,
Mas que não podemos deixar para trás
Esquecidos na confusão do embarque.

É para isto que serve o natal:
Para lembrar e ter saudade,
Para um mergulho no passado,
Quando ainda existiam sonhos,
Para pedir perdão no silêncio de um abraço
E em silêncio ser perdoado
Do imperdoável pecado da ausência.

 

Antologia de poesia
de Estudantes Josefenses

Os estudantes da rede pública municipal e estadual de São José viraram poetas e o resultado pode ser conferido numa coletânea com 81 poemas que foi lançado no final do mês de outubro, no centro de eventos do Shopping Itaguaçu. Durante quase dois meses, de 2 de maio a 22 de junho, a organização do 1º Concurso de Poesias Lições em Verso & Prosa, que teve apoio das secretarias de Estado e municipal da Educação, recebeu inscrição de mais de 700 trabalhos de alunos do ensino fundamental e médio.
Deste número, foram selecionados 81 poemas, levando em conta a qualidade literária dos trabalhos. Ao todo, participaram 24 escolas. "Foi muito difícil fazer a seleção", explicou Antônio Cazão, um dos quatro integrantes da Lições em Verso & Prosa Promoções de Eventos Culturais Ltda., empresa organizadora do concurso. Segundo ele, o diferencial neste concurso é que não foram estipulados vencedores. "Entendemos que não existe poesia melhor do que a outra. Gostaríamos de ter selecionado todas, tamanho o nível, mas infelizmente não caberia tudo no livro", disse.
Na lançamento do livro houve sessão de autógrafos e os participantes da coletânea receberam o título de membros honorários da ONG Comunidade dos Poetas do Terceiro Milênio, entidade que lançou a idéia da promoção do concurso. São José é a segunda cidade de Santa Catarina a organizar o livro. A primeira foi Florianópolis, cujo lançamento aconteceu no dia 9 de junho, no Beiramar Shopping.

 


PAPAI NOEL EXISTE?


Francisco Simões


Lá vai ele outra vez
Levando nas costas a alegria,
Doando a todos o seu dia,
Sem renas, sem trenó,
Cumprindo um destino só,
Um D. Quixote natalino
Sem cavalo, sem Sancho Pança,
Sua lança é a esperança,
Seu amor são as crianças
Pois ele sente em cada menino
Quem sabe, um Jesus pequenino
Que não quer ver crucificado.
Seu coração bom também sofre
Como sofrem todos que amam
E todos aqueles que clamam
Por mais justiça e paz.
No peito carrega um cofre
E nele um tesouro: bondade
Que transmite num sorriso de luz,
Que enxuga lágrimas, limpa o pus,
Que adota tanta orfandade,
Que mente p'ra verdade do mundo
Plantando em minutos, em segundos,
O que a vida nem sempre dá: felicidade.
Ele confia no amor,
Ele acredita no céu.
Seu nome? Bem, seu nome é Márcio
Mas o que isso importa
Se quando lhe abrem as portas
Ele é o Papai Noel?

 


UBE-SC: O QUE É E O QUE PRETENDE


Sociedade Civil sem fins lucrativos, a União Brasileira de Escritores de Santa Catarina (UBE-SC), como suas congêneres de outros Estados é regida por um Estatuto discutido e aprovado democraticamente em suas primeiras assembléias gerais. Tem sede na capital e jurisdição sobre todo o Estado de Santa Catarina. É constituída por escritores dedicados a qualquer gênero literário, inscritos nos seus quadros na forma regulamentar.
Como se verifica de seu ato constitutivo, coerente com os propósitos de suas co-irmãs mais antigas, assim registrados pela história da instituição, a UBE-SC tem como finalidade permanente a luta dos escritores em diversos frontes.
Tem como objetivo a proteção do patrimônio cultural, como os acervos literário, artístico, estético, científico, histórico, turístico e paisagístico. Pretende estimular as atividades literárias, a criação de bibliotecas e a melhoria das existentes. Tem como bandeira a defesa intransigente das liberdades democráticas em seu mais amplo sentido, em especial a defesa da livre expressão do pensamento, sem a qual será impossível a criação literária. Incumbe-lhe, ainda, a luta pela proteção dos direitos autorais, o estímulo á produção do livro em nosso Estado, a proteção da imagem do escritor e de tudo aquilo que seja do legítimo interesse do profissional das letras. Num sentido mais amplo, cabe-lhe batalhar pela coexistência pacífica dos brasileiros e dos povos em geral, capaz de permitir o intercâmbio econômico, científico e cultural indispensável ao desenvolvimento nacional, com ênfase na integração latino-americana.
A UBE-SC é uma entidade de luta em defesa do escritor e da cultura em feral e reivindicatória, batalhando pelos seus objetivos com espírito público e absoluta independência.

 


FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE


A 47ª Feira do Livro de Porto Alegre, que aconteceu de 26 de outubro a 11 de novembro, ocupou uma área de 10 mil metros quadrados, a maior parte cobertos, além de promover atividades no Clube do Comércio, na Rua dos Andradas, no Memorial do Rio Grande do Sul , ambos na Praça da Alfândega. Neste ano, foram 621 sessões de autógrafos, reunindo 1.500 autores. O país homenageado desta edição foi o México. A poesia ganhou mais espaço nesta edição. O poeta Armindo Trevisan foi o patrono da Feira do Livro. Além disso, o encontro de Mario Quintana e Drummond de Andrade foi perpetuado na Praça da Alfândega, com a criação da escultura de Xico Stockinger, inaugurada no primeiro dia da Feira. Por conta disso, o escultor recebeu o Prêmio Destaque Especial pela perfeita concepção da obra. E, por falar em Quintana, A Artes e Ofícios reuniu os últimos textos dele em "Água", uma edição especial em português, inglês e espanhol, lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, em comemoração ao décimo aniversário da editora. As homenagens ao poeta mineiro abrem as comemorações pelo seu centenário de nascimento, que será celebrado por seus admiradores no próximo ano. A Feira do Livro permitiu a seu público reverenciar Drummond com a exposição 'Tem um Poeta no Meio do Caminho' que expôs, aproximadamente, 120 livros em primeiras edições do escritor, sendo 20 de extrema raridade, com tiragem reduzida, como 'A Mesa'. A mostra teve cunho didático e foi organizada por Waldemar Torres, do Espaço Engenho de Arte, reunindo o material coletado ao longo de 40 anos. 'A reunião de toda a obra de Drummond talvez só exista na minha coleção', afirma o bibliógrafo. A visitação à Feira superou as expectativas dos organizadores. Estima-se que 1,6 milhão de pessoas tenham passado pela praça durante os 17 dias de realização do evento e que a venda de livros tenha girado em torno dos 450 mil exemplares.

 

NATAL SEM SINOS

Manuel Bandeira

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio
e no entanto onde os sinos
do meu Natal sem sinos?
Ah meninos sinos
de quando eu menino!
Sinos da Boa Vista
e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro
e da igrejinha de Boa Viagem.
Outros sinos
Sinos
Quantos Sinos!
No noturno pátio
Sem silêncio, ó sinos
De quando eu menino,
bimbalhai meninos,
pelos sinos
(sinos que não ouço),
os sinos de Santa Luzia.

 

LIVRO NOVO DE URDA


Aconteceu, no dia 28 de novembro, em Blumenau, o lançamento do mais recente livro de Urda Alice Klueger, "Crônicas de Natal e Histórias da Minha Avó", pela Editora Hemisfério Sul. A noite de autógrafos de Urda foi um sucesso - um livro de Natal veio em boa hora, ainda mais sendo de uma autora que é um ícone das letras catarinenses. Para o próximo ano, mais um romance de Urda, "Os Sambaquianos", obra que está sendo construída com muita pesquisa histórica. Abaixo, uma das crônicas de Natal da escritora de Blumenau.


O DIA DE FAZER DOCES DE NATAL


Crônica de Urda Alice Klueger

Hoje em dia, qualquer supermercado vende doces-de-Natal, em saquinhos de plástico ou bandejinhas, de modo que as donas-de-casa já não precisam mais gastar um precioso domingo de Dezembro para fazê-los.
Na minha infância, porém, fazer doces-de-Natal era um dos rituais do Advento. Eles eram feitos num Domingo, quando toda a família estava em casa e podia ajudar, e gastava-se um dia inteiro na sua confecção.
Eu nunca gostei de acordar cedo, e, assim, quando saía da cama, minha mãe já estava preparando a primeira massa do doce-de-Natal, misturando os ingredientes de uma receita que ainda possuo, antiga receita que, calculo, tenha séculos de existência. Era uma massa amarela, em que ia trigo, ovos, açúcar e outras coisas, e que levedava com sal amoníaco, estranha coisa que se comprava por grama, na venda mais próxima, à qual chamávamos de "salamonico".
A casa da gente virava de pernas para o ar, no dia de fazer doces-de-Natal, com a mãe da gente a fazer massas e mais massas, o pai da gente a esticar as massas com o rolo de macarrão, e a gente a fazer confusão, cortando as massas esticadas com forminhas de ferro, transformando-a em pinheirinhos, papai-noéis, anjos e estrelas. Cada figura cortada era colocada em formas de fazer cuca, velhas formas enegrecidas pelo tempo e pelo forno, nas quais se passava gordura e se polvilhava com farinha-de-trigo, antes de deitar nelas os docinhos.
Chegava, então, a vez do forno, grande forno de tijolos onde se fazia pão nos tempos normais, nas que naquele dia de confusão ficava lotado de formas e mais formas de doces-de-Natal. Era necessário vigiar-se o forno para que os docinhos não assassem demais, ao mesmo tempo que se continuava fazendo massa, esticando massa, cortando massa, a mãe da gente brigando porque se estava cortando errado a massa, todo mundo ficando nervoso dentro de casa quando a coisa se acelerava com as primeiras formas saindo do forno.
Batíamos, e de novo a mãe da gente ficava braba e a gente saia apanhando. Glacê pronto, gente grande, responsável, como minha mãe e meu pai, passavam o glacê cuidadosamente em cada docinho, enquanto que nós, crianças, ficávamos encarregadas de enfeitar os doces com açúcar colorido. Cada cor de açúcar era colocado num tigelinha de pirex, e nós íamos escolhendo as cores e enfeitando os doces. E claro que botávamos tanto açúcar colorido na boca quanto no glacê fresco, ficando com a língua azul, roxa e verde, e antes de acabar a atividade, todos já tínhamos apanhado de novo.
Formas e mais formas de doces enfeitadas voltavam ao forno, para secar o glacê, e lá pelo final da tarde estávamos com um gloriosa coleção de doces-de-Natal prontos. Com um suspiro, minha mãe os guardava em grandes latas que existiam exclusivamente para isso, onde eles se manteriam como novos por muito tempo, e a cada dia comeríamos alguns, e eles durariam até lá por Janeiro ou Fevereiro.
Cansada de se incomodar conosco o dia inteiro, minha mãe nos mandava para o banho e ia fazer o jantar. Continuávamos com as língua roxas, azuis e verdes, e tínhamos, cada um, apanhado diversas vezes naquele dia, mas que dia feliz que tinha sido! Aquele dia de fazer doces-de-Natal era a certeza de que o Natal estava chegando mesmo, de que Papai Noel logo viria, de que a magia chegara definitivamente e estava no ar, acima de nós, esperando pela noite de Natal.
Depois do banho, já com roupas limpas, bem passadas a ferro, dávamos um jeito de nos comunicarmos com os primos da vizinhança - doce-de-Natal era uma coisa que se fazia em quase todas as casas no mesmo dia - e todos eles estavam com as língua coloridas, todo tinham apanhado, e todos estávamos felizes. Então ouvíamos as cigarras cantando nas árvores próximas, e sabíamos o quanto aquele dia fora bom!
Fico com muita pena quando vejo, hoje, os doces-de-Natal prontos, nos supermercados. Perdemos um dia lindo das nossas tradições - as novas gerações já não lambem mais tigelas de glacê, nem apanham mais das mães num dia de Dezembro cheio de cigarras cantando.

 

6º ENCONTRO ESTADUAL DE ESCRITORES

Realizou-se na cidade de São Bento do Sul, nos dias 9, 10 e 11 de novembro, numa promoção conjunta da UBE-SC e União São-bentense de Escritores (USBE), o 6º Encontro Estadual de Escritores, evento que já se torna uma tradição. O Encontro contou com expressivo número de participantes de várias regiões do Estado. Os debates foram acalorados, discutindo-se a situação do escritor em nosso Estado, a questão da identidade cultural catarinense, a qualidade da obra literária aqui produzida, o problema do universalismo e do regionalismo literários, as dificuldades específicas do escritor catarinense e outros tantos temas de interesse da classe. Discutiu-se, também, a questão do descumprimento da chamada " Lei Grando ", pelo Governo do Estado, decidindo a assembléia determinar as providencias necessárias para resolver a situação, o que já foi iniciado pela nova Diretoria. Realizou-se, ainda, a eleição da nova Diretoria, cuja nominata vai a seguir. A Diretoria empossada fixou um programa de dez pontos para o primeiro ano da gestão, vários deles em execução. Durante os dias do Encontro realizou-se uma movimentada Feira do Livro. A assembléia decidiu que o próximo Encontro deverá ocorrer na cidade de Itajaí, desdobrando-se a plenária em dois dias para que haja mais tempo para a troca de idéias.
Durante o Econtro foi entregue, pela primeira vez, o Prêmio UBE, ao intelectual catarinense que mais se destacou no período. Foi contemplado o escritor Salim Miguel, tanto pelo conjunto da sua obra, como pelos prêmios recebidos.

DIRETORIA DA UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES - SC
Biênio 2002/2003

Presidente: ENÉAS ATHANÁZIO
Vice-Presidente: ALCIDES BUSS
2º Vice-Presidente: FRANCISCO JOSÉ PEREIRA
1º Secretário: LUIZ CARLOS AMORIM
2º Secretário: DINOVALDO GILIOLI
1º Tesoureiro: MARCELO STEIL
2º Tesoureiro: ARI SANTOS DE CAMPOS

Veja o site da Ube-SC: Http://br.geocities.com/ubesc2002

 


EXPEDIENTE


SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA Nº 79- Dez/2001 - Ano 21
Editor: Luiz C. Amorim
Endereço para contato:
E-mail: lc.amorim@ig.com.br

prosapoesiaecia@yahoo.com.br


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