SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA

Revista do Grupo Literário A ILHA

Edição nº. 97 - Junho/2006

GRUPO A ILHA/SUPLEMENTO LITERÁRIO: 26 ANOS

Esta edição do Suplemento Literário A ILHA marca o vigésimo sexto aniversário do Grupo Literário A ILHA. Em junho de 1980 era publicada a primeira edição desta que é a revista mais perene do gênero em Santa Catarina.
Para comemorar, a revista cresceu, está com vinte páginas nesta edição, trazendo oito páginas de matérias sobre a Guerra do Contestado, esse evento que não é nenhum orgulho para ninguém, mas é história e deve ser lembrado, deve ser conhecido, até para que nunca mais venha a se repetir.
E muito mais há nesta edição comemorativa dos vinte seis anos de existência do grupo A ILHA e da sua revista: poesia de gente da terra, integrantes do grupo e de poetas internacionais, muita prosa em crônicas de diversos autores e informações literárias.
Feliz aniversário para o Grupo Literário A ILHA e para esta revista e vida longa para todos.

 

ESPECIAL:

"LIDERANÇAS DO CONTESTADO"

Por Enéas Athanázio

Existe hoje grande interesse pelo Contestado e, em conseqüência, vem se formando extensa bibliografia sobre o assunto, tanto na história como na ficção e até na poesia. Soma-se a ela agora um novo e importante título: “Lideranças do Contestado”, de autoria do historiador e professor da UFSC Paulo Pinheiro Machado (Editora da UNICAMP – Campinas – 2004). LEIA MAIS

 

A LITERATURA DO CONTESTADO

Por Luiz Carlos Amorim

Eu já havia lido “Geração do Deserto”, de Guido Wilmar Sassi, que retrata com força e autenticidade a Guerra do Contestado, uma recriação quase fiel de Canudos que a história do Brasil insiste em ignorar. Existem outros livros sobre o tema, mas quando me caiu nas mãos “O Bruxo do Contestado”, de Godofredo de Oliveira Neto, também catarinense, como Guido, pensei que fosse uma nova visão, uma visão por outro ângulo daquela guerra já tão bem contada e me interessei. Até porque na contracapa do livro estava escrito que “O Bruxo do Contestado resgata definitivamente essa página da história...”.

 

LUTADOR SOLITÁRIO

Por Enéas Athanázio

 

Em ligeira viagem pelo Estado, chegamos à cidade de Irani, às margens da BR 153 - a Transbrasiliana. Nas cercanias ocorreu o combate que daria início real à Guerra do Contestado que se estenderia até 1916.Ali pereceram, no dia 22 de dezembro de 1912, o coronel João Gualberto, comandantes das forças legais e o monge José Maria, líder dos revoltosos. Fatos que calaram fundo na alma do povo e transformaram a cidade no local onde foi aceso o estopim da mais sangrenta conflagração civil de nossa história.

 

SEM TÍTULO


Apolônia Gastaldi

Este mar
denso e negro
aperta meu coração.
Dentro da noite
esmoreço.
Assaltam-me mil temores.
Navego escuridão.
Monstros,
fantasmas...
Deliro.
Insano, suspeito de tudo.
Tudo
Imaginação.
Depois a brisa passa
disfarça minha dor.
Estremeço.
Amanhece.
Dentro da noite
esmoreço.

 

MONTEIRO LOBATO E O LEITOR

A Editora da UFSC e a Univali Editora brindam os leitores de todas as idades com uma obra de relevância nacional: “Monteiro Lobato e o leitor, esse conhecido”, de autoria da pesquisadora e professora Eliane Debus, que recupera – dando o devido valor – a “intensa”, quase fanática campanha do autor de “Urupês” a favor do livro, da leitura e da literatura, sobretudo para despertar o hábito de ler já na infância. A escritora leva uma vantagem em relação a outros trabalhos sobre Lobato: bebeu diretamente na fonte, ou seja, ouviu leitores “formados” por ele, contextualizando os depoimentos com extrema competência.
“Acredito que o livro apresenta uma abordagem diferente dos trabalhos realizados até agora, pois reflete sobre a relação específica do escritor com o leitor de forma concreta; não estamos falando de um leitor ideal, mas de um leitor concreto que recebe a obra e interfere com ela”, ou seja, complementa a autora, “nesse ponto, traz para a cena o leitor como interlocutor ativo e vivo”. Há 18 anos Debu pesquisa a literatura para crianças e jovens, sempre preocupada com as suas possibilidades na prática docente.
A autora, de forma inédita e ousada, destrinchou a vida e a literatura do jornalista, escritor, editor, empreendedor e cidadão Monteiro Lobato, comprovando o seu papel fundamental para a valorização da literatura, do livro, do autor, da biblioteca, da escola e, sobretudo, para a formação do leitor desde criança, com envolvimento, inclusive, da família. Debus faz uma exaustiva pesquisa, à altura do valor político, intelectual e literário do escritor, traçando um perfil histórico e ouvindo leitores de Lobato, ou seja, crianças da época que adquiriram o hábito da leitura com as histórias da Emília, do Saci-Pererê, do Jeca Tatu... do Sítio do Pica-pau Amarelo. “Reencontramos sete desses leitores, que testemunharam a importância dessa leitura na infância”, sublinha a autora, professora na UFSC junto aos Departamentos de Metodologia de Ensino e de Língua e Literatura Vernáculas. Reencontrar estes leitores muitos anos mais tarde, por exemplo, permitiu à pesquisadora uma reflexão ímpar sobre a formação do leitor.
A pesquisa é estruturada em quatro capítulos. O primeiro mapeia a trajetória leitora de Lobato; o segundo realça a recepção dos textos infantis por um grupo específico de leitores; o terceiro enfoca depoimentos posteriores; e no quarto, a pesquisadora recolhe “das narrativas infantis de Monteiro Lobato a representação ficcionada de um público leitor”, desvelando “nessa mesma produção a inserção de leitores reais, de carne e osso”. O livro é enriquecido por sete cartas inéditas escritas por Lobato a leitores infantis.
Em rápido resumo, nas próprias palavras da autora, a obra em questão pode ser assim descrita: “O contato epistolar de Monteiro Lobato com seus leitores talvez seja o mais profícuo e original encaminhamento de recepção mirim de que se tem notícias, pois acreditamos que a atuação dos leitores contribuiu de forma efetiva para o desenvolvimento da sua literatura infantil. Por isso, dedicamos particular atenção aos registros de leituras oriundas dessas cartas, pois elas são exemplos da presença concreta de manifestação da leitura e apresentam subsídios para refletir sobre a conduta e a reações dos leitores, bem como se tornam testemunhos, já que estas vozes acabam nos fornecendo informações importantes para análise sobre a recepção da literatura infantil lobatiana e a sua importância na formação de leitores.
(Extraído de Leitura & Prazer” – 11 – nov/04)

 

SAUDADES

Aracely Braz

Gratas lembranças
Dos tempos que lá se vão.
Minha rica e doce infância,
A estância dos avós
Pomar e gado leiteiro
Engenho de mandioca
O choro dos tipitis
O beiju de tapioca
No forno a farinha nova!
Na sala, o grande relógio
De repente bimbalhava
Cantiga que deslumbrava;
Alazão tocando o engenho
Obreiros em festivo empenho;
Amendoim, rapadura
Vovó, sorriso, ternura.
Sonho e busco com carinho
Retalhos do meu caminho.

 

A DOCE CORA CORALINA

Por Luiz Carlos Amorim

Em doze de abril de 85 o Brasil perdia a sua poetisa mais sensível, mais autêntica e mais verdadeira: Cora Coralina. Estamos em abril e é difícil não lembrar de Cora, difícil não falar dela, difícil não reler os seus poemas. Eu queria escrever uma crônica em homenagem a ela, a grande poetisa do Brasil, mas não gosto de falar de perdas e acabei não escrevendo. E eis que, abrindo o Coojornal, como toda semana, me deparo com o texto de Cissa de Oliveira, minha vizinha lá no portal da nossa amiga Irene Serra do Rio Total: “Um Doce para Cora Coralina”. Como não lê-lo e não aplaudí-lo? Além de falar de Cora, ela fala dos doces da doceira de mão cheia que ela era – e eu acabo de voltar da serra gaúcha, onde mora minha sogra, que faz doces fantásticos de figo, de pêssego, de marmelo, de morango, no fogão à lenha, não aquele de barro e pedra, como o de Aninha, mas à lenha, também. E então chego a sentir o gosto do doce de laranja.
Então cá estou eu, para agradecer à Cissa por lembrar de Cora e para me juntar à homenagem tão merecida.
São vinte e um anos de ausência da Aninha da poesia forte e despretensiosa, poesia que transmite a sua mensagem de amor à terra e à natureza, ao ser humano e à vida. A verdade é que Cora continua viva, cada vez mais viva nos seus poemas e na sua prosa. E no sabor dos doces que a Cissa me trouxe à boca.
A poetisa maior da casa velha da ponte, em Goiás, que teria quase cento e vinte anos, hoje, publicou seu primeiro livro aos sessenta e sete anos: “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”. Depois vieram “Meu Livro de Cordel”, “Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha”, “Estórias da Casa Velha da Ponte”, “O Tesouro da Casa Velha da Ponte”, “Os Meninos Verdes”, “A Moeda de Ouro que um Pato Comeu”. Essa, a obra que transformou Aninha no ícone da poesia brasileira que ela é hoje.
Em 2001, foram encontrados cerca de quarenta poemas inéditos de Cora, durante o trabalho de reconstituição de seu acervo. Esse material foi transformado em livro e foi publicado pela Global, editora que publicou quase todos os títulos de Cora. O livro é “Vila Boa de Goyaz” e os poemas que o compõe exaltam a cidade de Goiás, onde a poeta nasceu. Ela fala da Goiás que conheceu no início do século passado, das ruas que mudaram de nome, mas não mudaram de jeito, da linguagem impressa em cada toque dos diversos sinos existentes na cidade e fala, também, da casa velha da ponte. Um canto de amor à cidade de Goiás.
Foi-se o corpo singelo da grande poeta e da grande mulher-menina (ou menina-mulher?), mas a poesia viva ficou. A poesia que é o coração, a alma de Aninha, a nossa Cora Coralina eterna, que continuará viva para sempre no versos e na prosa que ela deixou.
Dos inéditos encontrados de Cora, tomo a liberdade de transcrever aqui “Coração é terra que ninguém vê”, pois não dá pra falar de Cora sem ler uma criação dela:

 

Coração é terra que ninguém vê

Cora Coralina


Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Sachei, mondei - nada colhi.
Nasceram espinhos
e nos espinhos me feri.
Quis ser um dia, jardineira
de um coração.
Cavei, plantei.
Na terra ingrata
nada criei.
Semeador da Parábola...
Lancei a boa semente
a gestos largos...
Aves do céu levaram.
Espinhos do chão cobriram.
O resto se perdeu
na terra dura
da ingratidão
Coração é terra que ninguém vê
- diz o ditado.
Plantei, reguei, nada deu, não.
Terra de lagedo, de pedregulho,
- teu coração.
Bati na porta de um coração.
Bati. Bati. Nada escutei.
Casa vazia. Porta fechada,
foi que encontrei...

 

CRÕNICAS PARA QUINTANA


Por Irene Serra (escritora e editora do portal Rio Total)

(Prefácio do livro "Saudades de Quintana)



Muitos analistas dizem que a crônica é o único gênero literário produzido essencialmente para ser vinculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas de um jornal. É feita com a finalidade de agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem.
Não concordo. Sou da opinião de Artur da Távola, quando diz que a crônica é a expressão das contradições da vida e da pessoa do escritor na manifestação dos sentimentos, idéias, verdades e pensamentos. É ao mesmo tempo: poesia, ensaio, crítica, registro histórico, factual, apontamento, filosofia, flagrante, mini-conto, retrato, testemunho, opinião, depoimento, análise, interpretação, humor. Tudo isso ela contém em sua polivalência. Direta, simples e profunda.
E é isso que o leitor vai encontrar aqui na coletânea de crônicas do professor e escritor Luiz Carlos Amorim - “Saudades de Quintana”.
Na crônica intitulada “A criação literária”, Amorim afirma: “A criação literária é um dom. Podemos aprimorar o nosso fazer literário, estudando para dominar a língua, a correção no uso da palavra, ler muito e escrever sempre e assim podermos crescer e produzir uma literatura de qualidade. É claro que nem sempre conseguiremos construir obras primas, mas o dom que defendemos deverá nos levar a caminhar para isso, embora saibamos que não é fácil chegar lá. Só saberemos da qualidade da nossa obra quando ela chegar até o público e, para isso, há que se ter um livro publicado e com uma boa distribuição. O público leitor é que vai sinalizar se nossa literatura é boa ou não”. Uma introdução verdadeira para discutir uma situação real.
Em linguagem simples, direta, penetrante e instantânea como a do poeta homenageado, Luiz Carlos Amorim faz com que suas palavras misturem-se às sensações do leitor, dissolvendo-as em uma vivência comum. Parece a quem lê que o cronista deu forma ao que ele, leitor, gostaria de ter escrito. Este é o dom do nosso autor. Dom que aperfeiçoou lendo e saboreando outros grandes escritores e poetas como Mario Quintana - que dizia não ser modesto, pelo contrário, era tão orgulhoso que achava que nunca escreveu algo à sua altura. Para ele poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz.
Graças a Deus, Luiz Carlos Amorim é admirador de Quintana. Mas, se Quintana não se dizia modesto, Amorim o é; apesar de nunca estar satisfeito e procurar sempre, a cada crônica, a sua auto-superação. Um embate entre a natureza comum e a sensibilidade artística num homem de habilidade no trato com as palavras. Amorim nasceu cronista.

 

COMUNHÃO

Luiz Carlos Amorim

Eu renasço em ti.
Sou eu, completo, por inteiro,
sou tu, sou nós, sou ser.
És parte de mim, indivisível,
és coração que pulsa no meu peito,
és luz a brilhar no meu olhar,
és música a tocar nossa canção,
és ternura de mãos entrelaçadas,
és carinho ao toca de peles.
Eu renasço em ti.

 

SANTO ANTÔNIO, O NAMORADO DE LAGUNA


Maria de Fátima Barreto Michels


“Se milagres desejais, recorrei a Santo António.Vereis fugir o demônio e as tentações infernais.
Recupera-se o perdido.Rompe-se a dura prisão,e no auge do furacão cede o mar embravecido. Pela sua intercessão, foge a peste, o erro, a morte.O fraco torna-se forte, e torna-se o enfermo são.Recupera-se o perdido. Rompe-se a dura prisão, e no auge do furacão cede o mar embravecido.Todos os males humanos se moderam, se retiram. Digam-no aqueles que o viram, e digam-no os paduanos. Recupera-se o perdido. Rompe-se a dura prisão, e no auge do furacão cede o mar embravecido. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.Recupera-se o perdido. Rompe-se a dura prisão, e no auge do furacão cede o mar embravecido. Rogai por nós, bem-aventurado AntónioPara que sejamos dignos das promessas de Cristo”

Quem nasceu na terra de Anita Garibaldi ou foi adotado por Laguna, acaba se envolvendo com Santo Antônio. Sabia que, mais dia menos dia, minha paixão por esse franciscano viraria uma crônica, embora já fosse uma crônica paixão. Até eu, surpreendi-me com a ira que me acometeu no dia em que um cidadão, de outro lugar, falou: “Santo Antônio não é isso tudo”. Achei o sujeito um bobalhão. Embora ele fosse “estudado” e rico. Boa grana ele ganhou aqui em Laguna, inclusive. Por mais herege ou ateu que alguém seja, há que respeitar a forma que uma sociedade encontra para exercitar sua espiritualidade. Os elos, as pontes, que os povos usam para chegar até suas divindades, também são caminhos que servem de estudo aos antropólogos. Se queremos compreender uma nação precisamos observar onde mora a sua crença, onde é depositada a sua dúvida e ou sua certeza. O que o homem não explica (e há os que acham que explicam tudo), ele transforma em fé, ou símbolos, ou instâncias que o serenam, o harmonizam com o todo, com o tudo mais.
Santo Antônio não é Deus. Ele é também um filho muito amado do Pai, e um amigo muito querido da gente. Um eterno namorado de Laguna.
Para os lagunenses, Santo Antônio, é um referencial fortíssimo da espiritualidade. O compromisso amoroso recíproco, entre Santo Antônio e os lagunenses, iniciou-se em 1676 quando Domingos de Brito Peixoto fundou esta cidade.
A utilização dos ensinamentos de Antônio, nascido Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo que, abrindo mão de riquezas pregou o amor ao próximo, é uma excelente forma de prática religiosa.
Em Laguna, desde o humilde, até aquele que tem poder, desde o idoso até a criança, todos aguardam e vivenciam os festejos antoninos com grande alegria. No dia dos namorados, em 12 de junho, que antecede o dia de Santo
Antônio, é sempre bom dar uma faladinha em particular com Ele. Se o seu amor é puro e verdadeiro, garanto que Antônio dará uma força.
Conforme Colombina, poetisa paulista, “Nós sempre temos vinte anos num canto do coração”.
Além da fama de casamenteiro, Santo Antônio é invocado para restituir objetos perdidos.
Mais conhecimentos da vida desse Antônio, que nasceu em Lisboa (Portugal) e depois foi para Pádua (Itália) serão relembrados pelos oradores, nas belas trezenas cantadas pelo famoso internacionalmente “Coral Santo Antonio dos Anjos”. O coral da paróquia matriz lagunense que gostaria de lembrar aqui, acaba de lançar um CD. Tal trabalho de arte e talento agradou de imediato, pela qualidade e bom gosto apresentados. Desta vez, o repertório é sòmente com músicas da MPB.
Há três anos, ganhei de presente, uma viagem pela serra gaúcha. Meu aniversário que acontecia naquele final de semana, eu queria curtir no sossego. Já no sábado, pela manhã descobrimos que o padroeiro da cidade onde estávamos,era também o Santo Antônio. Com a igreja bem pertinho do hotel, aquela noite junina tornou-se especial. Foi muito bom ir encontrar e rezar diante daquela imagem, tão querida e de certa forma familiar, embora noutra paróquia, longe da nossa Laguna. Celebramos de forma silenciosa, e secretamente feliz, naquele primeiro de junho.
Foi ótimo completar meio século lá em Bento Gonçalves, em clima de festa íntima eu e Santo Antônio!
“Se milagres desejais...”

*Esta oração de louvor - ou responso - em honra de Santo António foi redigida por frei Giuliano da Spira.

 

PRETENSÕES

Tânia Melo

se houver fantasias, permitirei que sonhes
se vier a dor, eu te aliviarei
se o amor transporta, te levarei comigo
se necessitares, irei te completar

se eu for feliz, te ensinarei a sê-lo
se te ferirem, então, te curarei
se brotarem desejos, procurarei saciar-te
se ficares triste, te farei sorrir

se estiveres só, serei tua companheira
se perto me quiseres, te acompanharei
se verteres pranto, eu irei secá-lo
se sentires frio, aquecerei teu corpo

se o dia acabar, ai, que venha a noite
se o sol se puser, por estrelas pedirei
se a boca ansiar, que eu a beije muito
se tu te cansares, durmas em meus braços

Mas só não peças para que eu te esqueça
pois, nisso, amado, não te atenderei
irás causar-me uma dor tão grande
se tu partires...sem eu te sentir.

 

AS BORBOLETAS DE MÁRIO QUINTANA

Urda Alice Klueger

“(...) O segredo é não correr atrás das borboletas ... é cuidar do
jardim para que elas venham até você”

(Mário Quintana)


É Outono no Sul do Mundo. Estou numa ilha ancorada no Oceano Atlântico, e uma cigana tenta me vender tapetinhos que não quero, que nada têm a ver comigo. Como não vou querer mesmo, imagino que ela vá me amaldiçoar quando se for, como as ciganas fazem muitas vezes. Não creio em maldições de ciganas - creio, sim, na bênção leve que vem das asas das borboletas. Tenho um mundo povoado de borboletas, não importa aonde ande, mas parece que aqui nesta Ilha, em dias de Outono e céu azul, as borboletas fiquem mais visíveis. É como se elas revoluteassem à minha volta, lindas e coloridas, e cada uma me trouxesse uma prenda, uma alegria.
Talvez porque elas pensem que esta ilha é um navio que vai singrando mares tão desconhecidos quanto os de Goneville - mas como elas podem pensar tal coisa se este é um mar de Sol e Outono, e não o Mar das Brumas?
Disse Quintana que o segredo é não correr atrás das borboletas, e penso: Quintana viveu a menos de 500 quilômetros daqui. Poderia ir até à terra onde ele viveu, remando numa canoa. Talvez nem precisasse remar, talvez surgissem grandes borboletas que, voando, puxassem a minha canoa como os cavalos puxam as carruagens. Não seria a mesma coisa que correr atrás das borboletas - elas me levariam a reboque por vontade própria até lá na terra onde havia um poeta que escreveu um regulamento de vida para que elas e os humanos se entendessem direito.
As borboletas neste dia de Outono, nesta Ilha! Elas me circundam e me encantam, e recendem à maresia! Talvez haja tantas aqui porque descobri o segredo de Quintana, e trato de cuidar do jardim para que
elas um dia venham pousar, caso quiserem. E se nunca pousarem? Obedeço a Quintana, não corro atrás delas! Se nunca pousarem, vou saber que a vida valeu a pena, porque elas sempre estão por perto, e ainda mais por este dia nesta Ilha, quando, confundidas, elas não distinguem muito bem se isto é Ilha ou Navio, e indiferente a ciganas e suas maldições, me abençoam por todos os lados, leves, coloridas, luminosas e mágicas, quase como se fossem feitas de eflúvios de perfume de tangerinas, e são tão parecidas com o meu amor! (Florianópolis, 05.05.2006 - Mercado Público )

 

XXVII

Teresinka Pereira (USA)

Faminta, galopo o tempo.
Tenho olhos de sangue
e em minha boca corre
um rio de esperanças!

Não é a cólera o que me aflige
mas o gigantesco desejo
de procelar manhãs e tardes
para que a noite
(maléfica e fria)
não engane nem atalhe
nossos pobres gestos!

A vida se me cresceu
Como uma árvore
Cravando-se no céu
Sem fadiga nem dor.

 

UM DIA, QUEM SABE?

Belvedere Bruno

A Jorge Amado, in memoriam

 

Num bloco de couro, antigo, onde coloco os títulos de livros que leio, hoje registrei o número 923. O livro é: 64 contos de Rubem Fonseca.
Faço uma retrospectiva através dessas páginas e me vejo muito jovem, lendo A Divina Comédia, de Dante. Para muitos seria um desestímulo começar com tal título, pois para mim foi tão extraordinário, tão cheio de encanto, que me apaixonei por livros. Comecei, então, a devorar clássicos antigos e contemporâneos. De Dante passei a Camões, Milton, e a cada dia mais me integrava ao mundo das Letras.
Houve época que só lia Jorge Amado. Devorei todos os livros da coleção distribuída por Fernando Chinaglia. Jorge tem um estilo que me leva aos locais descritos e até me sinto interagir mentalmente com seus personagens, que sempre me parecem familiares. Jorge Amado marcou minha carreira de leitora. Lembro-me que quando ia a Salvador, me hospedava numa casa na Rua Alagoinhas, bem perto da em que ele residia. Tudo fazia para encontrar meu ídolo. Nunca tive sorte, mas as pessoas diziam: - um dia, quem sabe? Da última vez que fui, ele já não estava lá. Decerto já havia até se encontrado com todos os seus personagens! Senti saudade do tempo que não conseguia encontrá-lo, pois sempre havia a esperança implícita na frase: um dia, quem sabe?
E fui conhecendo um mundo maravilhoso... Clarice Lispector, Dalton Trevisan, Cecília, Drummond, Adélia, Pessoa, Lorca, Florbela, Neruda, Hemingway, Jean Paul e Simone...
Agora, tenho opinião firme em relação às minhas preferências literárias. Thiago de Mello é meu poeta preferido. Definitivamente. O escritor Bernardo Carvalho foi uma surpresa, um impacto na minha carreira de leitora, assim como Mia Couto. Por vezes me peguei prendendo a respiração enquanto lia Nove noites, de Bernardo e Estórias abesonhadas, de Mia. Permaneci em estado de encantamento por um longo período.
Conheci Caio Fernando Abreu após sua partida. Sorvi avidamente muitos dos seus livros. Ganhou minha admiração. Suas crônicas são excelentes. Um ser místico, inteligente e poético. É um de meus favoritos. Lastimo sua partida precoce.
Katherine Mansfield afaga meu coração, através de seus maravilhosos contos. Graças a ela, agora tento detalhar ambientes e mostrar características psicológicas de personagens, nas crônicas e contos, coisa que não ousava fazer. Hoje tateio nas descrições. Um dia, quem sabe?
Tenho um vício do qual pretendo me libertar. Sempre que escrevo a um escritor que admiro, digo: um dia vou escrever igual a você. Não. Um dia escreverei bem. Hoje engatinho pelo caminho das Letras. Sou uma aprendiz, e observo, infelizmente, estrelismos vindos de autores não consagrados, desconhecidos, enquanto através dos consagrados recebo palavras simples, afetuosas. São muitos os escritores renomados despojados dessa vaidade tola, e que deveriam ensinar aos que, ainda titubeantes, pensam que alcançaram o Reino dos Céus...
Glória a Lya Luft, Martha Medeiros, Hilda Hilst, Orígenes Lessa, Ledo Ivo, Fernando Sabino, Agualusa, Paul Auster! Que me perdoem os que omiti, certamente por falta de espaço. Se continuasse, não acabaria nunca essa retrospectiva.
Um dia, quem sabe, eu venha a ser uma escritora, na verdadeira acepção da palavra?
Que eu continue dizendo: “um dia, quem sabe?”, estando, aí, viva, a chama da esperança...Que seja uma espécie de mantra.
Diferente daquele dia que passei em frente a casa de Jorge Amado, e com tristeza infinita devido a sua ausência, não pude mais ouvir a frase que sempre me acompanhava nas passagens pela Rua Alagoinhas.

 

SÓ NO AMOR

Denis Koulentianos
(Grécia)

Ensina-me,
oh Senhor, a amar.
Deixa-me,
oh Ser Humano, amar!

Do amor da verdade
Eu prefiro
A verdade do amor!

O amor não é
um espetáculo:
É a ressurreição da alma,
A revolução de paz...

(Tradução de Teresinka Pereira
USA)

 

REENCONTRO COM SACHET

Wilson Gelbcke

A vida é cheia de surpresas. E o encanto está em apreciar gratificantes momentos ao nos depararmos com o imprevisto, com o prazer inesperado. Aconteceu na 3ª. Feira do Livro de Joinville, na Praça Nereu Ramos, onde escritores da casa tiveram oportunidade de se encontrar e trocar idéias com grandes nomes da literatura, como Ignácio de Loyola Brandão e Carlos Heitor Cony.
Diariamente, escritores locais ali se reuniam para um gostoso bate-papo sobre o andamento da feira e visitas ilustres, como naquele dia em que foi anunciada a presença de uma delas:
- Sabem quem está aqui hoje? O professor e escritor Celestino Sachet!
Para mim, foi como uma cutucada na caixa da memória. Era chegado o momento do reencontro com Sachet. De longe, eu vinha acompanhando alguns passos da nobre caminhada daquele incansável mestre do magistério como professor titular nas universidades Federal e Estadual, autor de muitos livros e roteirista do programa “100 Anos de História” na televisão.
Cada vez que eu deparava com o nome de Celestino Sachet na imprensa era uma volta ao passado, lembrando que tínhamos sido colegas de classe no Colégio Catarinense em Florianópolis. Reencontrei Sachet no estande da Associação Joinvillense de Letras e me apresentei.
- Sua fisionomia não me é estranha – disse ele.
- Faz tempo, Celestino. A última vez que nos vimos foi em 1945, no Colégio Catarinense. Você era o mais alto da classe e eu o mais baixinho.
- Eu lembro de você. Meu Deus, isso faz mais de 60 anos!
E começamos a recordar. Ele era mais alto porque tinha entrado no colégio com mais idade. Sachet era o mais sabido de todos. O primeiro a levantar a mão quando uma pergunta era feita, sempre convidado pelos professores a elucidar o que outros tinham dificuldade em entender.
- E você, Wilson, o que faz? – ele quis saber.
Na prateleira, estava o meu último romance, “Vindita do Historiador”, que mostrei a ele.
- Eu escrevo. Este é um dos meus livros...
Sachet sorriu, abriu a pasta que trazia consigo e de lá retirou o “Vindita...”.
- Você não vai acreditar, acabei de comprá-lo. Agora, quero-o autografado.
Confesso que a caneta tremeu em minha mão. Sessenta anos haviam se passado... Naquele momento, fazer uma dedicatória ao Celestino Sachet era como se eu voltasse aos doze anos de idade... vestido com o uniforme engomado estilo militar do Colégio Catarinense. E sob o olhar atento do Padre Tomé, que cuidava dos miúdos, comecei a escrever:
“Ao meu caro colega do primeiro ano de ginásio...”

 

A POESIA É UMA MULHER ESTRANHA E SENSÍVEL

Adolfo P. Shvedchikov (USA)

A poesia é uma mulher estranha e sensível.
Às vezes, ela se coloca em silêncio profundo,
Próximo a uma lareira que olha para o fogo,
Durante longas e frias noites de inverno.
Seus joelhos estão cobertos em um envolto roupão.
Seus olhos tristes estão cheios de lágrimas amargas;
Estando em transe, ela está balançando,
Em sua poltrona, dormindo finalmente.
Quando a manhã vem
E o sol vermelho se levanta,
Pintando, em cor-de-rosa,
As árvores-pinheiro, cobertas de neve.
Ela acorda e olha bem,
Como princesa branca de uma calda de fada.
Ela é de bom humor.
Sorrindo e brincando, ela canta novamente!
A poesia é realmente um assunto muito belo!

 

NA FEIRA DE RUA DO LIVRO DE FLORIANÓPOLIS

No meu primeiro dia de Feira de Rua do Livro, em Florianópolis, neste início de outono de 2006, encontrei lá, também, lançando um livro dela, a terceira edição do infanto-juvenil “A Vitória de Vitória”, a minha amiga escritora Urda Alice Klueger, uma das maiores representantes da literatura catarinense, romancista e cronista de sucesso comprovado. Eu estava relançando a terceira edição de “Saudades de Quintana”, uma homenagem ao poeta maior, pela passagem do centenário do seu nascimento, neste ano de 2006.
Até aí, nada em comum. O que descobrimos, uma tremenda coincidência, é que uma máxima de Quintana, que eu usei na página de dedicatória do meu livro em lançamento foi exatamente a mesma que Urda usou na referência de uma crônica belíssima, como citação, lá embaixo do título, antes de começar o texto. A crônica, inédita, recém escrita, ainda manuscrita foi lida para nós em primeiríssima mão, em plena efervescência da feira do livro.
A máxima de Quintana que nós dois usamos é esta: “O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim, para que elas venha até você...”
Nada é igual a ouvir na voz de Urda, uma das melhores crônicas que ela já escreveu. É um privilégio único, ouvir a interpretação do texto pela própria autora, impregnada de emoção e de paixão. Apenas Eliane Debus e Eloí Bocheco, que estavam conosco, naquele momento é que também puderam usufruir.
Em outros dos dez dias de feira, no largo da Alfândega, neste outono frio, encontrei lá, também, Eloí Elisabet Bocheco, que lançava seu novos livros infanto-juvenis, “Contra-feitiço, feitiço e meio” e “O pacote que tava no pote” e Eliane Debus, que lançava “Festaria de brincança: a leitura diária na Educação infantil”.
Apolônia Gastaldi veio de Ibirama para fazer o lançamento de oito títulos: quatro volumes da saga “A Força do Berço” “Barra do Cocho” e “Olhos Azuis” - romances e “Mar” e “Amor” - poesia. Também tive o prazer de ouvir a grande escritora declamar seus poemas, como só ela sabe fazê-lo.
Uma das melhores Feiras do Livro, com certeza, que teve a maior visitação de todas as edições e também a maior quantidade de livros vendida.
(Luiz C. Amorim)

(Na primeira foto, Eliane Debus, Urda A. Kueger e Eloí Bocheco. Na segunda, Amorim e Apolônia Gastaldi)

 

MINHA SEDE


Henri de Lescot (USA)

Há pedaços de sonhos
neste ramo florido
e há mãos invisíveis
atrás do silêncio.

Há um tempo ferido
separado da paisagem.

Pelo momento ninguém se move.
Só um pouco de vento
malicioso e árido.

Entretanto,
a morte se esconde
entre as margens.

Minha sede não se acalma
Um latido longínquo
Inquietando e não cessa. Ai!

Não cessa... nem pode cessar.

(Errata: Publicamos este poema como sendo de Teresinka Pereira no

número 96 desta revista.Teresinka é a tradutora.)


EXPEDIENTE
Suplemento Literário A ILHA - Edição número 97 - JUNHO/2006 - Ano 26
Edições A ILHA - Grupo Literário A ILHA
End. para Correspondência:
lc.amorim@ig.com.br - prosapoesiaecia@yahoo.com.br


VOLTAR