TODOS OS POETAS

Antologia Poética

 

Virgínia Vendramini

 

PRIMAVERA URBANA


O calendário avisa:
É primavera outra vez no hemisfério sul.
Procuro em torno os indícios,
Aqueles de que fala o poeta...
Os aromas sutis, a brisa amena,
Os casais de namorados,
O impossível verde...
Nada percebo, além do áspero cotidiano.
Procuro... E acho apenas em cada esquina
Jardins de plástico e papel,
Rosas prisioneiras em cestos e fitas,
Flores pintadas em cartazes,
Anunciando festivais,
Pessoas que se atropelam
Sem sequer se olharem.
Mas, apesar de tudo, existem árvores,
Doentes, retorcidas,
Sem pássaros cantores,
Até sem pardais,
Entraves no caminho de quem tem pressa
De chegar a lugar nenhum.
No entanto, é primavera no hemisfério sul
E é preciso escrever um poema,
Mesmo que seja apenas
Para cumprir a tradição.
Ainda que não haja flores,
Ainda que não haja amores,
Ainda que os perfumes venham todos de Paris
E o verde seja somente
O avesso da esperança,
O lado errado do sinal de trânsito.
Procuro os indícios de que fala o poeta...
Nada, nada encontro.
O jeito mesmo é ver a primavera
Nos documentários da televisão
E colher rosas na floricultura da esquina.

 

AVESSO


Conheço de perto o avesso da esperança.
É escuro e áspero como o interior de uma furna
Cavada na montanha íngreme.

Conheço bem o silêncio rude
Das paredes talhadas na pedra,
Em ângulos cortantes, pontiagudos,
Que ferem, que dilaceram a vontade.

Conheço bem demais o horror gelado
Dessa insólita prisão sem grades,
Sem janelas ou portas trancadas,
Sem uma fresta por onde entre o sol,
Por onde escape meu grito de desespero.

Conheço a angústia de me debater
Nas correntes dos meus próprios medos,
Negando-me a chance de um socorro,
Carcereira que sou de mim mesma.

Ah! Eu conheço bem de perto o avesso da esperança!



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